4. A LEI GERAL DA COPA E SEUS IMPACTOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO E
4.2. A Lei Geral da Copa e o ordenamento jurídico brasileiro
4.2.2. Disposições sobre direito público contidas na Lei Geral da Copa
4.2.2.3 Os tipos penais contidos na Lei Geral da Copa
O direito penal, importante ramo do direito público, corresponde à mais gravosa forma de controle social por parte do Estado numa sociedade, devendo, por esse motivo, ser usado apenas em última ratio, uma vez que suas implicações na vida de um indivíduo podem atingi-lo de modo que recaiam sobre ele diversos tipos de penalidades, que podem restringir até mesmo, sua
114 Segundo o portal do Itamaraty, a Embaixada do Brasil em Luanda exige, para a solicitação de visto de turista, a
apresentação de passaporte com validade igual ou superior a seis meses, de cópia do documento de identidade, de certificado internacional de vacinação contra a febre amarela, exigindo ainda que tenha sido emitido com antecedência mínima de 10 dias em relação à data da viagem, além de uma foto tamanho 3x4cm, de um formulário de pedido de visto, de seguro de viagem, e de uma declaração do empregador com a identificação da função e do salário do solicitante, devidamente reconhecida em notário no caso de empresas privadas. Também se exige o pagamento de emolumentos consulares e a realização de uma entrevista no setor consular. Tais exigências demonstram o rigor dos procedimentos adotados pelo Ministério das Relações Exteriores, que, assim como para os cidadãos angolanos, se exige para diversas outras nacionalidades. MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES (ITAMARATY). Embaixada do Brasil em Luanda – Vistos. Disponível em: <http://luanda.itamaraty.gov.br/pt-
liberdade. No entanto, a Lei Geral da Copa, com suas diversas implicações no direito brasileiro, objetivando assegurar mais uma vez os interesses econômicos da FIFA, em mais uma flagrante violação à soberania brasileira, inseriu na legislação nacional 03 (três) novos tipos penais, que seriam aplicados excepcionalmente aos eventos, podendo-se dizer que no contexto do estado de exceção aqui implantado com tais eventos, essas normas penais passaram a proteger o bem jurídico “interesses comerciais da FIFA e de seus parceiros comerciais”.
Os crimes introduzidos no ordenamento jurídico brasileiro pela lei em comento foram: utilização indevida de símbolos oficiais (arts. 30 e 31), marketing de emboscada por associação (art. 31) e marketing de emboscada por intrusão (art. 33). Os enunciados de tais artigos, com as condutas que passaram a ser socialmente reprováveis pelo direito brasileiro, bem como as respectivas penas a elas impostas, estão a seguir transcritos:
Utilização indevida de Símbolos Oficiais
Art. 30. Reproduzir, imitar, falsificar ou modificar indevidamente quaisquer Símbolos Oficiais de titularidade da FIFA:
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano ou multa.
Art. 31. Importar, exportar, vender, distribuir, oferecer ou expor à venda, ocultar ou manter em estoque Símbolos Oficiais ou produtos resultantes da reprodução, imitação, falsificação ou modificação não autorizadas de Símbolos Oficiais para fins comerciais ou de publicidade:
Pena - detenção, de 1 (um) a 3 (três) meses ou multa. Marketing de Emboscada por Associação
Art. 32. Divulgar marcas, produtos ou serviços, com o fim de alcançar vantagem econômica ou publicitária, por meio de associação direta ou indireta com os Eventos ou Símbolos Oficiais, sem autorização da FIFA ou de pessoa por ela indicada, induzindo terceiros a acreditar que tais marcas, produtos ou serviços são aprovados, autorizados ou endossados pela FIFA:
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano ou multa.
Parágrafo único. Na mesma pena incorre quem, sem autorização da FIFA ou de pessoa por ela indicada, vincular o uso de Ingressos, convites ou qualquer espécie de autorização de acesso aos Eventos a ações de publicidade ou atividade comerciais, com o intuito de obter vantagem econômica.
Marketing de Emboscada por Intrusão
Art. 33. Expor marcas, negócios, estabelecimentos, produtos, serviços ou praticar atividade promocional, não autorizados pela FIFA ou por pessoa por ela indicada, atraindo de qualquer forma a atenção pública nos locais da ocorrência dos Eventos, com o fim de obter vantagem econômica ou publicitária:
Percebemos que cada um dos crimes apresentados, são punidos exclusivamente a título de dolo, podendo incidir de forma direta ou eventual, estando excluída a possibilidade de punição de condutas culposas na ocorrência dos resultados naturalísticos dos tipos penais, por ausência de previsão legal específica nesse sentido. Observamos também a exigência de elementos subjetivos específicos do tipo em cada um deles.
No tocante aos aspectos processuais penais de tais dispositivos, percebemos, por meio do artigo 34 da lei em análise, que todos os crimes são de ação penal pública condicionada à representação da FIFA, podendo o Ministério Público oferecer denúncia contra o infrator dos respectivos tipos penais-FIFA caso esta manifeste interesse pela persecução penal daqueles que descumpram seus interesses comerciais normatizados em crimes no direito brasileiro.
Os tipos penais trazidos pela Lei Geral da Copa, são crimes temporários, que têm sua vigência determinada no artigo 36 da lei, que estabelece que os tipos penais previstos na lei, a devem ter vigorar somente até o dia 31 de dezembro de 2014. A partir dessa data, as condutas tipificadas como crimes pela Lei nº 12.663/2012 passam a ser novamente admitidas pelo ordenamento jurídico brasileiro.
Tal fato se mostra bastante preocupante, na medida em que, para proteger os interesses comerciais da FIFA, o Estado brasileiro não somente trata a entidade e as empresas parceiras de forma privilegiada comercialmente, mas permite que o referido tratamento possa chegar ao limite de punir com penas restritivas de liberdade aqueles cidadãos brasileiros que venham a infringir as respectivas normas criadas excepcionalmente para os torneios de futebol da FIFA sediados no Brasil.