5. OS ESCRITORES DA SERRA GAÚCHA: ANÁLISE DAS ENTREVISTAS
5.2 As entrevistas: escritores no sistema literário da Serra Gaúcha
5.2.5 Literatura serrana: passado, presente e futuro
5.2.5.2 Presente e futuro: os objetivos literários
Todos os escritores manifestaram o desejo de continuar escrevendo. Muitos já têm novos textos bem encaminhados, outros possuem apenas esboços sobre o que desejam escrever. Apesar de afirmarem que, para continuar escrevendo, é preciso gostar bastante de escrever, porque não é um caminho fácil, o projeto literário principal de todos eles é dar continuidade ao seu trabalho com cada vez mais qualidade e encontrar canais para publicar os seus textos.
A partir disso, algumas especificidades podem detalhar com maior precisão esse desejo de escrever e publicar livros. Há escritores que têm como objetivo conseguir uma editora que aposte neles, ou seja, que queira publicar a obra e pagar pelos custos de sua edição. Interferir no universo literário, no sentido de contribuir para a produção de uma literatura brasileira cada vez melhor, também foi um desejo apresentado por alguns entrevistados.
Alguns respondentes são ambiciosos e manifestam o desejo/projeto de publicar por uma grande editora, serem chamados para participar de grandes eventos literários nacionais e internacionais, serem traduzidos para outras línguas e considerados destaque dentro do gênero que publicam. Esses autores afirmam que, para conseguir isso, será preciso, no mínimo, ter um romance, porque o romance é o gênero que vende, ou seja, é o que as grandes editoras querem publicar. Segundo as informações coletadas, há agentes literários que fazem o contato entre escritores e grandes editoras, e alguns autores serranos já estão procurando se inserir nesse mercado. Dessa maneira, eles acreditam que poderão atingir um público maior de leitores.
Outros autores contam que já sonharam em ser grandes escritores e publicar por uma grande editora, mas perceberam que há muita gente boa no mercado literário. Eles admitem que precisam se dedicar ainda mais ao seu trabalho, aprimorar a sua escrita e buscar o seu espaço, para, talvez, algum dia, terem seu público leitor consolidado.
Alguns escritores afirmam não ter objetivos ou intenções com a sua literatura. Eles asseguram que escrevem por prazer, por essência e por necessidade, e porque são felizes (satisfeitos) escrevendo – escrevem porque isso os define enquanto seres humanos e sociais. Eles defendem que o escritor de verdade precisa escrever para sobreviver.
A maioria dos entrevistados acredita que a literatura transforma o mundo. Sua intenção ao escrever é fazer com que as pessoas se apaixonem pela literatura e, consequentemente, venham a enxergar a vida, o mundo, a sua comunidade de maneira diferente. Esses escritores têm como objetivo fazer com que aquilo que escrevem dê sentido, não apenas para as suas vidas, mas para a vida de outras pessoas também. O incentivo à leitura, principalmente entre crianças e adolescentes, é a intenção que muitos escritores têm com suas obras e palestras nas escolas, feiras do livro, lançamentos de livros, entre outros. Apresentar a leitura como algo prazeroso é um dos principais objetivos dos escritores que trabalham com o público infantil e adolescente.
Há escritores que ressaltam ter objetivos e intenções, mas indiretamente. Eles têm preocupações com a sociedade que acaba aparecendo em seus livros, mas isso não é prioridade em seus textos. A principal preocupação é a estética do texto, o que eles estão oferecendo como obra para um bom leitor de literatura. Eles advogam que não é bom pensar demais sobre o
assunto, pois corre-se o risco de produzir uma obra de tese, com a defesa de um tema, ou de tentar atingir determinado público com questões individuais (que, muitas vezes, não são importantes para ninguém). Por isso, eles não pensam em demasia sobre quais são seus objetivos e intenções, apenas escrevem.
Há escritores com objetivos bem claros acerca de sua carreira literária, como trabalhar melhor a divulgação dos seus textos para que a sua obra chegue aos leitores potenciais, publicar o próximo livro, publicar livros sobre temas específicos para leitores também específicos, preencher lacunas do mercado literário, aprofundar as suas leituras e aprimorar o seu processo de escrita.
Outros desejam apenas contar boas histórias, narrar. Esses escritores acreditam que as histórias são condutoras, permeadas por forças de pensamento, ou seja, são repletas de sabedoria e de conhecimento humano. Para eles, deve-se ler literatura para compreender melhor o ser humano. Eles confiam que, ao produzir literatura, estão colaborando com isso, a partir da leitura que cada leitor faz dos seus textos. Entretanto, eles também pensam que não podem ter essa intenção decidida, porque podem cair no erro de achar que poderão ensinar alguém. Portanto, a sua pretensão é apenas compartilhar histórias e deixar que elas ajam por conta própria a partir do processo de leitura de cada um.
Após realizar a leitura de todas as respostas obtidas junto aos escritores, verifica-se que o desejo de colocar os seus livros em circulação nos mais diferentes âmbitos (regional, estadual e nacional) e apresentar determinada visão do mundo para os seus leitores são objetivos comuns a todos os entrevistados. Apesar de alguns serem mais ambiciosos que outros, em relação ao que desejam para suas carreiras literárias, todos querem apresentar as suas ideias e almejam que seus livros sejam lidos.
Pesando nisso, acrescenta-se que o processo literário só se dará por iniciado se existirem autores que produzam e publiquem e leitores que apreciem (ou não) o texto literário. Se a obra não se tornar pública e não angariar leitores, será considerada “sem vida”, pois não contribuiu para a propagação da rede de relações do sistema.
As obras também correm o risco de ter uma vida útil bastante curta, pois alguns exemplares são vendidos no dia do lançamento e depois caem no esquecimento do público. Para este estudo, isso não é um problema, mas algo a ser observado e analisado. Entretanto, para qualquer escritor, essa deve ser uma experiência frustrante, pensando que quem escreve o faz porque deseja ser lido, caso contrário, não colocaria suas ideias no papel.
Consoante Pierre Bourdieu, em debate com Roger Chartier, o livro pode operar de forma mágica, ou seja, ele tem poder sobre pessoas que o escritor não conhece, e possibilita ao
escritor agir a distância. Para Bourdieu, o homem intelectual pode mudar a visão do mundo e os hábitos dos seus leitores. Contudo, o autor afirma que, por vezes, os escritores não percebem ou esquecem o poder que está em suas mãos, de agir sobre o intelecto de quem os lê. Observa- se:
[...] O intelectual é também alguém que pode agir a distância ao transformar as visões de mundo e as práticas cotidianas, que pode agir sobre a forma de aleitar as crianças, a forma de pensar e de falar à namorada etc. Assim, penso que a luta pelos livros pode ser uma cartada extraordinária, uma cartada que os próprios intelectuais subestimam [...]. Os intelectuais esquecem-se de que por meio de um livro se pode transformar a visão do mundo social e, através da visão de mundo, transformar também o próprio mundo social (BOURDIEU, In.: CHARTIER, 2001b, p.243).
Para o estudioso, isso ocorre porque os intelectuais da atualidade estão preocupados demais com questões materiais de sua obra, da atividade que desenvolvem. Os escritores, foco deste trabalho, estariam concentrados com a divulgação, a distribuição e a venda de livros, por exemplo. Desse modo, “estão de tal maneira impregnados de uma crítica materialista de sua atividade que terminam por subestimar o poder específico do intelectual, que é o poder simbólico, o poder de agir sobre as estruturas mentais e, através da estrutura mental, sobre as estruturas sociais” (BOURDIEU, In.: CHARTIER, 2001b, p.243).
Em suma, a partir das entrevistas realizadas com os escritores serranos, é possível constatar que alguns deles percebem o caráter de transformação da literatura, e isso fica em evidência em suas falas quando ressaltam querer apresentar um novo ponto de vista sobre determinado tema ou cultura, além de fazer as pessoas refletirem sobre o seu modo de viver, sobre o ser humano etc. Ao mesmo tempo, há grande preocupação com a circulação da sua produção, não apenas na região, mas também fora dela. Apesar de grande parte dos autores apontar a circulação dos seus livros como uma de suas inquietações principais, há aqueles que não estão pensando nisso. Isso ocorre por dois motivos: ou já possuem um público leitor consolidado, ou preferem ignorar o assunto. Dentre os que estão preocupados com a circulação literária há, pelo menos, dois grupos distintos: aqueles que estão dispostos a atrelar a sua imagem de escritor à sua obra para conquistar leitores, e aqueles que evitam esse tipo de divulgação e buscam apenas promover o texto literário.
“O que atrapalha a criação de um novo romance é a presunção de que somos capazes de criar. Diante da grandiosidade da tarefa, descubro que não sou coisa nenhuma. Era preciso partir da consciência de minha própria insignificância, e reconhecer com humildade que a tarefa nem grandiosa é, mas apenas um ato de louvor a Deus na medida das minhas forças.”
(FERNANDO SABINO, s.d.)38