PARTE I: A DINÂMICA DOS DIREITOS HUMANOS E A ESTÁTICA DOS DIREITOS ECONÔMICOS, SOCIAIS E CULTURAIS
1.7 UM PASSO DE CADA VEZ PARA A PROGRESSIVA EFETVIDADE DOS DIREITOS ECONÔMICOS, SOCIAIS E CULTURAIS
1.7.3 Progresso e desenvolvimento
Atrelada às discussões sobre a progressividade dos DESCs está a noção de desenvolvimento, estabelecendo que tais direitos devem ser implementados de forma gradativa, de acordo com as possibilidades de desenvolvimento econômico e social dos Estados, sendo, contudo, vedado o retrocesso na realização dos DESCs.
O conceito de desenvolvimento vem sendo muito discutido no âmbito das Nações Unidas, a partir dos interesses de diversos países em desenvolvimento, os quais, mediante uma identidade social e econômica, pautaram nas agências internacionais, discussões sobre desenvolvimento enquanto um Direito Humano.
Em 1969, a ONU aprovou a Declaração para Desenvolvimento e Progresso
Social396, a qual iniciou os primeiros debates a respeito do direito ao
desenvolvimento. Em 1977, a já extinta Comissão de Direitos Humanos passou a realizar estudos sobre o que seria delineado como direito ao desenvolvimento, cedendo a pressões de países em desenvolvimento e a necessária relação que deveria ser feita entre a realização dos dois Pactos Internacionais e o desenvolvimento econômico e social397. Tal cenário resultou na aprovação pela Assembleia Geral da ONU, em 1986, da Declaração sobre o Direito ao
Desenvolvimento398, a qual vem reforçar as necessidades de participação de todos os Estados para promoção da justiça social, mediante a adoção de programas e de políticas nacionais e da cooperação internacional, sendo que o sujeito central do desenvolvimento seria a pessoa humana399. O texto da Declaração deixa claro ainda, que o desenvolvimento não deve ser somente econômico e social, mas cultural e político400.
A Declaração foi aprovada em meio a uma discussão sobre a necessidade de transferência de recursos para países do hemisfério sul que exigiam a realização do direito ao desenvolvimento e de outro lado sobre a inexistência de tal direito, enquanto um direito humano. Contudo, como a II Conferência Mundial sobre Direitos Humanos em 1993, já mencionada como um marco para compreensão da indivisibilidade dos Direitos Humanos, propiciou-se debate sobre a matéria e incluiu- se no texto da Declaração e no Programa de Viena, o direito ao desenvolvimento como “[...] um direito humano universal e inalienável e parte integrante e fundamental dos direitos humanos”401 e como se queria proporcionar mecanismos
de igual proteção dos direitos sociais, foi constituído pela ONU um Grupo de Trabalho que tinha por escopo obter formas de operacionalizar o direito ao desenvolvimento.
397 Cf. ROSAS, Allan. The right to development. In: ______; EIDE, Asbjørn; KRAUSE, Catarina. Economic, social and cultural rights: a textbook. 2. rev. ed. Dordrecht: Martinus Nijhoff, 2001. p.
247-255 e p. 247-248.
398 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Assembleia Geral. Resolução A 41/128, de 04 de
dezembro de 1986. Assinada por 146 Estados-membros, tendo como voto contrário os Estados Unidos e oito abstenções.
399 Cf. PIOVESAN, Flávia. Direitos sociais, econômicos e culturais e direito civis e políticos. SUR Revista Internacional de Direitos Humanos, São Paulo, n. 1, p. 21-43 e p. 27, 2004.
400 Artigo 1º: (1) o direito ao desenvolvimento é um direito humano inalienável em virtude do qual toda
pessoa humana e todos os povos estão habilitados a participar do desenvolvimento econômico, social, cultural e político, a ele contribuir e dele desfrutar, no qual todos os direitos humanos e liberdades fundamentais possam ser plenamente realizados.
401 Artigo 10: a Conferência Mundial sobre Direitos Humanos reafirma o direito ao desenvolvimento,
previsto na Declaração sobre Direito ao Desenvolvimento, como um direito universal e inalienável e parte integral dos direitos humanos fundamentais.
Umas das propostas apresentadas seria um Pacto de Desenvolvimento, o qual conteria um acordo estabelecendo obrigações mútuas entre países em desenvolvimento e as Nações Unidas e as suas instituições financeiras. Dentre as obrigações dos Estados em desenvolvimento estaria a elaboração de programas internos para implementar os direitos básicos dos seus nacionais, com a participação da sociedade civil; criação de instituições nacionais que deveriam assumir a função de monitorar políticas; e incorporação dos tratados internacionais que versam sobre a proteção dos Direitos Humanos. Além disso, uma das metas que deveria ser alcançada pelos países seria a redução da pobreza. Em contrapartida, a ONU iria auxiliar na elaboração de novas políticas internas voltadas para a promoção dos Direitos Humanos, bem como disponibilizar recursos internacionais402.
O Pacto de Desenvolvimento serviria para amenizar as críticas voltadas para as instituições financeiras internacionais da ONU que fazem exigências para implementar o direito ao desenvolvimento sem observar obrigações recíprocas. Contudo, tal proposta não passou das discussões diplomáticas, muito embora estivesse claro que o desenvolvimento, enquanto um direito humano, deveria ser exigido pelo indivíduo, não apenas do Estado, mas também da comunidade internacional.
Além da minuta do Pacto constranger os países do hemisfério Norte, não deixou explícito como seria a participação admitida como importante da sociedade civil, consagrada na Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento, e as exigências dos países doadores, que autorizam os empréstimos dos fundos internacionais para programas nacionais de desenvolvimento; não havia previsão tampouco da possibilidade de um indivíduo exigir dos países doadores a sua responsabilidade pela celebração do Pacto; e como o acordo iria acarretar a redução da capacidade dos países desenvolvidos em influenciar nas relações e negociações internacionais, persuadindo países do hemisfério Sul a apoiarem suas políticas externas, por meio de auxílio ao desenvolvimento 403.
402 Cf. NWAUCHE, E. S.; NWOBIKE, J. C. Implementação do direito ao desenvolvimento. SUR Revista Internacional de Direitos Humanos, São Paulo, n. 2, p. 96-117 [p. 98], 2005.
403
“Durante o debate no Conselho de Segurança da ONU em torno de uma segunda resolução autorizando o uso da força contra o Iraque, foi dito que os Estados Unidos estavam oferecendo ajuda a países do terceiro mundo, tal como a Guiné, membro temporário do Conselho de Segurança, em troca de votos de apoio a uma resolução favorável à guerra”. NWAUCHE; NWOBIKE, op. cit., p.110.
Cumpre esclarecer que, apesar do Pacto não ter ido adiante, a Declaração
sobre Direito ao Desenvolvimento de 1986 prevê que, para a realização dos DESCs,
não basta somente o esforço particular dos Estados, mas também deve haver cooperação internacional. Logo, as agências financeiras internacionais devem incorporar o tema de Direitos Humanos em suas políticas, de forma a avaliar criteriosamente os efeitos de políticas econômicas globais em economias locais.
Embora as agências financeiras fizessem parte da estrutura das Nações Unidas, incluídas no Conselho Econômico Social (Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, Organização Mundial do Comércio), elas ainda não estão atreladas às temáticas de Direitos Humanos. Com a atual reforma da ONU, criando o Conselho de Direitos Humanos, que assume um papel de destaque dentro das Nações Unidas, e extinguindo a Comissão de Direitos Humanos, que também estava incluída dentre as agências e programas do Conselho Econômico e Social, estima- se que os Direitos Humanos possam permear outras esferas das Nações Unidas enquanto políticas de desenvolvimento econômico-social.
Ao tentar responder às críticas, o Banco Mundial instituiu um Comitê de Inspeção em 1993, competente para analisar denúncias individuais sobre os danos causados por projetos financiados pela instituição financeira internacional e emitir parecer a respeito. Muito embora, o mencionado Comitê de Inspeção já tenha analisado significativo número de casos sobre despejos forçados, danos ambientais e outros danos que atingem populações indígenas, suas avaliações não identificam os danos como violações de Direitos Humanos, claramente pela ausência de
standards de Direitos Humanos dentre suas atribuições ou mandatos404.
O posicionamento do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional acerca dos Direitos Humanos remonta desde o período em que rejeitaram o convite da Comissão de Direitos Humanos para auxiliar na redação da International Bill of
Rights, declarando que tal questão é interna aos Estados e devem ser consideradas
como políticas e, portanto, à margem de qualquer possibilidade de tratamento legal405, passando pela desconsideração às Resoluções da Assembleia Geral da
404 Cf. LANGFORD, Malcolm. The justiciability of social rights: from practice to theory. In: ______. Social rights jurisprudence: emerging trends in international and comparative law. New York:
Cambridge University Press, 2008. p. 1-45 e p. 20.
405 BANCO MUNDIAL. The inspection panel report and recommendation on request for inspection,
Chad: petroleum development and pipeline project, 2001. Disponível em: <http://siteresources.worldbank.org/EXTINSPECTIONPANEL/Resources/ChadInvestigationReporFina l.pdf>. Acesso em: 25 fev. 2010.
ONU por não conceder empréstimos para países que mantivessem situações com características do apartheid, como África do Sul e colônias portuguesas. O próprio Comitê DESCs identifica o quão nefasto pode ser, para a implementação do PIDESC, a realização de um projeto ou empreendimento com financiamento das principais agências financeiras internacionais, quando não bem condicionado à observância dos direitos sociais406.
O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional sustentam que, de acordo com os artigos dos seus Estatutos, que não prevê os Direitos Humanos explicitamente como uma das suas atribuições, mas apenas o respeito às políticas sociais de seus membros, devem ser instituições apolíticas, considerando tão somente questões econômicas. No entanto, questiona-se tal posicionamento por se entender que tais agências financeiras teriam que incluir no seu mandato a promoção e a proteção dos Direitos Humanos.
O acordo estabelecido entre o ECOSOC e o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, que teve vigência a partir de 1947, em consonância com o determinado pelos artigos 63 e 57 da Carta das Nações Unidas, os quais passam a atribuir status de agências especializadas das Nações Unidas para tais instituições, fixa autonomia e independência. Entretanto, por força do artigo 103 da Carta das
Nações Unidas407, entende-se que em caso de contradição entre os dois instrumentos (Carta das Nações Unidas e Estatutos do Banco Mundial e do Fundo
Monetário Internacional) deve prevalecer o que determina o texto que criou a ONU,
sendo um dos objetivos das Nações Unidas, a promoção e a proteção dos Direitos Humanos, as agências especializadas devem observar tal princípio.
Diante da importância que assumem as instituições financeiras internacionais, entende-se que são entes fundamentais para assistência e cooperação e, por conseguinte, para aplicação do disposto no PIDESC. Manisuli Ssenyonji, ao analisar a responsabilidade dos atores não estatais, vai mais além, por compreender que tais entes são passíveis de serem monitorados pelo sistema de monitoramento das Nações Unidas decorrente dos tratados internacionais de Direitos Humanos, devendo submeter-se às Recomendações quando for identificado que os projetos e
406 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Conselho Econômico e Social. Observações
Conclusivas sobre Argentina, E/C.12/1/add 38, 1999; sobre Colombia E/C.12/1/add 74, 2001.
407 Artigo 103: no caso de conflito entre as obrigações dos Membros das Nações Unidas, em virtude
da presente Carta e as obrigações resultantes de qualquer outro acordo internacional, prevalecerão as obrigações assumidas em virtude da presente Carta.
empreendimentos financiados por tais organismos violam os Direitos Humanos, quanto atingirem principalmente os grupos considerados vulnerabilizados ou quando deixam de satisfazer o núcleo mínimo de direitos, podendo, portanto, serem demandados perante Comitês temáticos408.
O auxílio ao desenvolvimento dos Estados por instituições internacionais financeiras deveria estar atrelado propriamente ao desenvolvimento dos Direitos Humanos de ordem social ou coletiva, pois como observa Le Goff:
[...] como não há progresso que não seja também moral, a principal tarefa dos nossos dias, no final do século, na via de um progresso ridicularizado e duvidoso, mas pelo qual se deve mais do que nunca combater, é o combate pelo progresso dos direitos humanos409.
Contudo, diante do contexto atual internacional, o direito ao desenvolvimento tem servido muito mais como um princípio por alguns, do que propriamente um direito a ser exigido, claramente autorizado para os indivíduos e, amplamente questionado, para ser demandado por Estados considerados necessitados de assistência e de cooperação internacional.
408 SSENYONJO, Manisuli. Non-state actors and economic, social and cultural rights. In: BADERIN,
Mashood A.; MCCORQUODALE, Robert. Economic, social and cultural rights in action. New York: Oxford University Press, 2007. p. 109-135 e p. 134-135.
PARTE II: O SISTEMA INTERAMERICANO DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS