• Nenhum resultado encontrado

Queda da desigualdade recente na severidade da pobreza

No documento Download/Open (páginas 93-97)

2.3 Desigualdade como passivo social do século XXI

2.3.4 Queda da desigualdade recente na severidade da pobreza

Pesquisadores do Ipea, como Barros (2010), dedicaram estudos para verificar a dimensão e a magnitude da recente queda da desigualdade medida a partir do coeficiente Gini, quando apresentam um histórico por período de 30 anos. Os autores quantificam os fatores determinantes da queda da desigualdade, da percentagem e do hiato médio de pobreza, quando demonstram que a melhora na distribuição da renda derivada do trabalho responde como fator preponderante para o avanço.

Nas palavras de Barros (2010, p. 7), “a despeito do lento crescimento econômico, a renda dos mais pobres cresceu substancialmente e, por conseguinte, os níveis de pobreza e de extrema pobreza declinaram”. Os autores entendem que uma análise do fato é fundamental, vez que o Brasil encontra-se diante de um “fenômeno extraordinário” não presenciado nas últimas décadas. O desempenho do Gini, no gráfico a seguir, merece avaliação em profundidade.

Gráfico 8: Evolução desigualdade Gini na renda familiar per capita (Brasil 1977-2007)

Fonte: Elaboração de Barros (2010).

Conforme largamente apresentado nas ilustrações anteriores, este gráfico expressa com clareza os altos índices de desigualdade no último quarto de século findo, com destaque para o primeiro ano que se segue à instalação no país do Estado democrático de direito, com a Carta Magna de 1988.

Pode-se dizer que o ano de 1993 (lembrando que não houve PNAD em 1994), que foi caracterizado como marco para o fim do período inflacionário, representa o ponto de inflexão definitivo ao oscilatório conjunto das últimas medidas da desigualdade Gini.

A esse ponto duas fases se seguem: a primeira, que significa o início de um lento e gradual processo de redução, e que se fecha no ano de 2001; e a segunda, que se dá a partir desse ano, e impõe uma redução acentuada e consistente na queda da desigualdade.

Os dados mostram que o indicador médio do Gini situa-se, para o período em análise, em torno do Gini do ano de 2001 (0,593), que também é indicado por alguns autores na forma de percentual, aqui representado por Gini de 59,3% e expresso como a marca brasileira da desigualdade ao longo das três últimas décadas do velho milênio. Seu mínimo vem indicado em 55,2%, para o ano de 2007, o que significa uma inclinação de 7% na rampa em queda da desigualdade experimentada pelo povo brasileiro.

O trabalho dos pesquisadores correlaciona também à distribuição no período, em função das classes de renda, medidas derivadas do Gini, que mensuram para onde a riqueza se deslocou e destaca os segmentos mais beneficiados. Uma análise mostra que a razão média das rendas entre os 20% mais ricos, em relação aos 20% mais pobres, cujo patamar médio aproximado era de 26 vezes, experimentou uma queda para 20,2 vezes em 2007. Já a fração média da renda entre os 10% mais ricos e os 40% mais pobres caiu da média de 22,9 para 17,7 vezes.

Nas duas considerações operou-se o efeito equivalente a uma transferência de renda entre ricos e pobres, efetuando-se um reequilíbrio pró-pobre da ordem de mais de 22% em cada um dos casos. Não se pode negar que o período de 2001 a 2007, último ano que antecede a crise imobiliária americana, a queda da desigualdade na distribuição da renda do trabalho é significativa e reduz a distância entre os extremos da riqueza nacional.

Ao contrário, para que se possa verificar a contribuição do crescimento econômico representado pelo PIB, em relação aos avanços acima descritos, Barros (2010) desenvolve estudos em que considera 171 países para os quais existam dados confiáveis para o período de 1990 a 2005. O foco se concentra nas taxas anuais de crescimento dos 10% mais pobres e dos 10% mais ricos do Brasil no período de 2001 a 2005.

A criatividade dos pesquisadores no campo dessas relações permite verificar que “a quase totalidade dos países apresenta uma taxa anual de crescimento de renda per capita menor do que a observada para os 10% mais pobres brasileiros (7%)” (BARROS, 2010, p. 13). Nesse contexto, significa dizer que essa classe de renda teve crescimento próximo ao crescimento como um todo do PIB chinês, pouco superior aos sete pontos percentuais. E continua, nas palavras dos autores, que “a percepção dos mais pobres no Brasil é a de estarem vivendo em um país com elevado nível de crescimento econômico, como a China”.

Ao contrário, na outra extremidade, a classe dos rendimentos dos 10% mais ricos irá apresentar resultados assemelhados aos crescimentos de países com as menores taxas nominais auferidas pelo PIB. É o que mostra o gráfico que se segue, onde o país em referência é o Senegal, não muito distante dos baixos índices do Haiti.

Gráfico 9: Distribuição comparativa do crescimento anual PIB per capita(1990 e 2005)

Fonte: Elaboração de Barros (2010).

Os resultados são animadores, contudo, não se pode perder de vista a necessidade de continuidade, por um longo período, para que o país deixe a incômoda posição que ainda se encontra. Nas palavras de Barros (2010, p. 14), mirando os indicadores de 2007:

[...] a fatia da renda total apropriada pela parcela 1% mais rica da população é apenas ligeiramente menor do que aquela apropriada pelos 50% mais pobres. Além disso, os 10% mais ricos se apropriam de mais de 40% da renda, enquanto os 40% mais pobres se apropriam de menos de 10% da renda. No cenário internacional, o país continua ocupando uma posição negativa de destaque absoluto, detendo um dos mais elevados graus de desigualdade do mundo.

O fato é que as melhorias expressivas decorrentes do período de 2001 a 2007, comparativamente, melhoraram apenas em 4% a posição brasileira no ranking de 126 países dos quais se tem informação sobre desigualdade na distribuição de renda. Assim, o Brasil de 2007 ainda situa-se entre os 10% dos países em apreço com os piores indicadores de desigualdade, como se vê no Gráfico 10, a seguir, elaborados por Barros (2010).

Gráfico 10: Distribuição acumulada da população mundial e dos países segundo PIB real per capita pelo Gini (2001-2007)

Fonte: Elaboração de Barros (2010).

O cenário mostra que 113 países apresentam um coeficiente Gini inferior a 55%, todos melhores que o índice brasileiro, sendo que 50%encontra-se com um coeficiente de desigualdade inferior aos 40%.

Uma vez procedidas às considerações no campo da desigualdade na distribuição de renda, em especial pautando a presença dos indicadores clássicos da econometria, do mercado e seus modos de lidar com a renda do trabalhador, inicia-se então suas primeiras relações no campo da educação, que serão aprofundadas no próximo capítulo.

No documento Download/Open (páginas 93-97)

Documentos relacionados