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CAPÍTULO 4 – O PROGRAMA CAPES-COFECUB: DO ESTABELECIMENTO AOS

4.4 A década de 90

4.4.2 A Rede Santos Dumont

A assinatura do Convênio de Constituição da Rede Universitária Franco-Brasileira de Cooperação Doutoral e Pós-Doutoral Santos Dumont, conhecido como Acordo Santos Dumont, aconteceu em 11 de julho de 1994, após uma longa negociação encabeçada pela Capes e por universidades brasileiras, para, conforme disposto em seu artigo primeiro, “melhorar os intercâmbios franco-brasileiros nos níveis de pós-graduação” (CONVÊNIO..., 1994). O convênio buscava o reconhecimento da equivalência entre o mestrado brasileiro e o Diploma de Estudos Aprofundados francês. Como resultado, os brasileiros em programas de doutorado na França seriam dispensados dessa formação já realizada no Brasil.

Apoiadas pela Capes e pelo Cofecub, 26 Instituições de Ensino Superior brasileiras e 26 francesas foram signatárias do documento que tinha como objetivo a constituição de uma rede de cooperação e de intercâmbio. Nessa rede, seria concedida, a priori, a dispensa do DEA para estudantes brasileiros inscritos em doutorado na França, desde que detentores de um mestrado classificado na categoria A ou B no Brasil. Em contrapartida, as instituições brasileiras participantes da rede se comprometiam a dispensar estudantes franceses detentores do DEA da realização do mestrado no Brasil quando aqui inscritos em programas de doutorado. Pelo disposto no artigo 11º do Convênio, a Rede poderia ser expandida com anuência de dois terços de seus membros.

Embora o Convênio Santos Dumont tenha sido assinado em 1994, a preocupação com a questão da equivalência de diplomas se fazia presente desde a assinatura do Acordo de Cooperação Interuniversitária assinado em 1978. O artigo XI dispunha que

as questões de equivalência de diplomas serão submetidas à Comissão Mista Franco-Brasileira de Cooperação Cultural, Científica e Técnica; as duas partes farão as recomendações que julgarem oportunas às autoridades competentes. (CONVÊNIO..., 1994).

Do lado brasileiro, foram 15 anos de constantes reivindicações para que os doutorandos fossem dispensados do DEA A obrigatoriedade de permanência de um ano a mais na França para cumprimento dessa exigência onerava não só os cofres públicos brasileiros, como prolongava desnecessariamente a permanência no exterior de professores que desfalcavam suas instituições de origem durante esse período. Ademais, o retorno mais breve desse doutor auxiliava no fortalecimento de programas de pós-graduação em fase de consolidação ou estabelecimento.

Em 17 de março de 1980, na reunião de coordenação do programa ocorrida na Université Paris 12 (Val de Marne), o então presidente da Capes, Claudio de Moura Castro,

ressaltou a preocupação brasileira com a exigência do DEA. Por seu turno, o presidente do Cofecub reafirmava a importância de realização deste, haja vista a necessidade de uma formação metodológica na França e a importância desse período de adaptação para a integração do bolsista brasileiro na dinâmica de trabalho do laboratório e da equipe francesa (COFECUB, 1980).

Essa questão permaneceu em discussão nas reuniões anuais subsequentes entre os dois órgãos até que, na reunião ocorrida em Brasília em dezembro de 1992, foi acordada a realização de uma missão francesa em universidades brasileiras para melhor entendimento da estrutura da pós-graduação nacional, em especial do mestrado, e da avaliação dos cursos realizada pela Capes, para dar andamento às negociações acerca da dispensa. Na ocasião, o Cofecub informou que empreendeu uma campanha para sensibilizar as instituições francesas na análise dos dossiês dos estudantes brasileiros candidatos ao doutorado. Para fortalecer essa ação, seria então realizada, no início do ano seguinte, uma reunião entre representantes, pelo lado francês, da CPU, da Embaixada da França no Brasil, da Direção de Pesquisa e Estudos Doutorais (Dred) do Ministério da Educação Superior e do presidente do Cofecub; e, pelo lado brasileiro, das Instituições de Ensino Superior que dispunham de mestrado, além da Capes, MEC, MRE e CNPq. Segundo o presidente do Cofecub, essa missão permitiria um intercâmbio maior de informações acerca da pós-graduação brasileira e sua evolução.

Entre 3 e 7 de maio de 1993, foi, então, realizada a missão da delegação francesa para aprofundar seus conhecimentos sobre a estrutura do mestrado brasileiro, o que culminaria na assinatura do acordo no ano seguinte. As atividades tiveram início em Brasília, com explanações acerca da pós-graduação e seu sistema de avaliação pela Capes, além de apresentações do CNPq, de representantes das FAPs e do CFE acerca de suas respectivas atuações. Na ocasião, a delegação francesa também fez explanações sobre seu sistema de avaliação e credenciamento da pós-graduação. Além das reuniões de discussão e dos grupos de trabalho, foram realizadas visitas a três instituições brasileiras para conhecimento in loco dos programas e encontro com os coordenadores e demais membros da IES e da pós- graduação. No dia 5 de maio foi feita uma visita à UFBA, no dia 6 a delegação conheceu a USP e, por último, no dia 7, a UFRJ (CAPES, 1993d).

Como resultado dessa missão, acordou-se que não haveria que se falar em equivalência do DEA e do mestrado, e sim em dispensa, haja vista que são formações distintas. Ademais, não seria possível a decisão unilateral do Ministério da Educação Nacional francês para essa dispensa, uma vez que, como no modelo brasileiro, há autonomia universitária. A partir daí, com o auxílio da Capes, foi constituído um comitê de universidades

brasileiras com mestrado e, em alguns casos, com doutorado de excelência, para que se mantivesse intensa colaboração com a França e se estabelecesse uma rede de cooperação (CAPES, 1993d).

Um ano após a missão, aos 14 de julho de 1994, era assinado o Convênio de Constituição da Rede Santos Dumont. O acordo teve como resultado uma grande economia de recursos, possibilitando assim o financiamento de um maior número de bolsistas e projetos, e marcou uma trajetória de maior simetria e reciprocidade na cooperação. Nicolato aponta ainda que

a rede contribuiu para ampliar o leque de opções de projetos de intercâmbio entre a França e o Brasil, garantindo que as atividades conjuntas de pesquisadores e estudantes dos dois países pudessem ser intensificadas e mais facilmente validadas. (1999, p. 26).

Paralelamente, a Capes sinalizava a importância e o interesse em fomentar programas de cotutela com o parceiro francês. Assim, como resultado também do Acordo Santos Dumont, ainda no ano de 1994, foi viabilizada a realização de teses em coorientação, com execução de parte da pesquisa nos dois territórios, reconhecimento também nos dois países e defesa podendo ser realizada em qualquer um deles, com banca mista e representantes das IES tanto brasileiras quanto francesas (CAPES, 1994).

Vale mencionar também que, ainda em 1994, foi assinado o Acordo Margaret Mee de Cooperação ao Nível de Pós-graduação entre o Reino Unido e o Brasil, para o estabelecimento de uma rede cooperação, tendo como modelo e parâmetro o Acordo Santos Dumont (MEC, 1994).