São vários os estudos que apontam para problemas de índole diversa sentidos pelos cuidadores informais, principalmente quando o cuidado se prolonga no tempo.
Ribas et al. (2000) afirmam que o cuidador principal enfrenta diariamente desafios imprevisíveis e sofre perdas de controlo pessoal que se vão refletir na sua saúde física e emocional. Referem, ainda, que o síndrome do cuidador não se manifesta apenas na saúde, já que também estão implicados aspetos sociais e económicos. Trata-se então de um quadro plurissintomático que afeta e se repercute em todas as esferas da vida pessoal.
Martínez, Nadal, Beperet, Mendióroz e Grupo Psicot (2000) reforçam a ideia anterior, referindo que a carga familiar se repercute em distintas áreas da vida do cuidador: tarefas da casa, relações entre o casal, familiares e sociais, desenvolvimento pessoal e de tempo livre, economia familiar, saúde mental e mal-estar subjetivo do cuidador. Os mesmos autores referem que estas áreas podem ser agrupadas em dois grandes grupos: carga objetiva e carga subjetiva. A carga objetiva diz respeito a qualquer alteração visível e observável na vida do cuidador, enquanto a carga subjetiva é relativa à sensação de suportar uma obrigação pesada e opressiva com origem nas tarefas de cuidador.
Os mesmos autores dizem ainda que a gravidade da carga está relacionada com as características da pessoa cuidada – intensidade dos sintomas, grau de incapacidade associado à patologia, idade, sexo, duração do cuidado - e com os vínculos afetivos entre cuidador e pessoa cuidada. Afirmam que a mesma se relaciona também com as características pessoais do cuidador, com a dinâmica e características familiares, ou com a disponibilidade de redes de apoio social, as leis sócio sanitárias e com a disponibilidade dos serviços de saúde.
Opinião semelhante é apresentada por Hung, Sànchez e Bello (2003) ao afirmarem que, em resultado da sua função, o cuidador pode apresentar um conjunto de problemas físicos, mentais e socioeconómicos, a que geralmente se dá o nome de carga e que pode ser objetiva ou subjetiva. No estudo que desenvolveram em cuidadores de pessoas com demência, os autores indicam que a sobrecarga objetiva se refere à disrupção da vida social do cuidador, a quantidade de tempo e dinheiro investido no cuidado ao familiar, assim como aos problemas de conduta que este apresente, enquanto a sobrecarga subjetiva diz respeito à perceção que o cuidador apresenta da repercussão emocional e das necessidades e problemas relacionados com o ato de cuidar. De acordo com Sousa et al. (2004: 78), entende-se por sobrecarga (burden, em inglês) como sendo: “… o conjunto de problemas físicos, psicológicos e socioeconómicos que decorrem da tarefa de cuidar, suscetíveis de afetar diversos aspetos da vida do indivíduo, nomeadamente as relações familiares e sociais, a carreira profissional, a intimidade, a liberdade e o equilíbrio emocional”
À semelhança dos autores anteriores, também afirmam que este conceito pode ser perspetivado nas dimensões objetiva e subjetiva, em que a primeira resulta da conjugação entre a exigência dos cuidados e as consequências nas várias áreas da vida do cuidador, enquanto a segunda deriva das atitudes e respostas emocionais do cuidador à tarefa do cuidar.
Tomando por base o estudo desenvolvido por Cerrato, Tróconis, López e Colodrón. (2002), em cuja revisão teórica que efetuam, se pode encontrar uma pequena revisão da evolução histórica do conceito de carga, verifica-se que ele remonta aos inícios dos anos 60, num trabalho desenvolvido por Brad e Sainsbury em 1963, através do qual os investigadores pretendiam conhecer os efeitos sobre as famílias decorrentes do cuidado a familiares com patologia psiquiátrica. Trabalhos posteriores incidiam na necessidade de avaliar os efeitos numa perspetiva mais ampla, dadas as dificuldades conceptuais em torno do conceito de carga. Assinalam os trabalhos desenvolvidos por Hoening e Hamilton em 1965 e 1967 que contribuíram amplamente para a distinção entre carga objetiva e subjetiva.
De acordo Stull (1996) referenciado pelos mesmos autores, os estudos desenvolvidos acerca da carga de cuidadores de doentes do foro psiquiátrico continuaram a ser desenvolvidos durante a década de 70, tendo sido criados diversos instrumentos de medida onde eram incluídos aspetos tão diversos como condutas específicas potencialmente perturbadoras para a família, aspetos de carga objetiva e subjetiva, bem como avaliações globais de carga efetuadas pelos investigadores. Acrescentam que, apesar de os estudos em cuidadores de doentes psiquiátricos continuarem a ser desenvolvidos, a investigação acerca da carga do cuidador informal de idosos só começou a ser desenvolvida no âmbito da gerontologia a partir dos anos 80.
Zarit e Zarit (1983), Zarit, Todd e Zarit (1986) no desenvolvimento de estudos por eles efetuados, concluíram que a institucionalização de pacientes que suportavam quadros demenciais estava fortemente relacionada com fatores subjetivos do cuidador, particularmente com sobrecarga, concluindo assim que a intensidade da carga constitui melhor predictor de institucionalização do que o estado mental ou conductual da pessoa cuidada, pelo que, consideraram a carga do cuidador como sendo a chave para a manutenção na comunidade, das pessoas com demência. O instrumento de medida desenvolvido por Steve Zarit – Entrevista de Carga do Cuidador - constitui provavelmente o instrumento mais utilizado para avaliar tal sobrecarga. Esta entrevista dá resposta a uma visão subjetiva de carga e os resultados dos diferentes estudos em que foi utilizada demonstram a utilidade desta abordagem, uma vez que são coincidentes em demonstrar que a carga subjetiva constitui um bom indicador do efeito dos cuidados. Entende-se assim que esta constitui uma variável a ser incluída na avaliação da saúde do cuidador, promovendo de seguida o planeamento e execução de intervenções que visem a prevenção e/ou diminuição da mesma.