Várias teorias éticas podem ser usadas como referencial no cuidado ao idoso. Duas delas se destacam, no entanto, pelo seu valor referencial 1 Esta conceptualização da dignidade humana pelo prisma filosófico, biológico e psicológico, é inspirada no documento de trabalho denominado “Reflexão ética sobre a dignidade humana”, editado pela CNEVC - Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida (1999). Para além da sua finalidade filosófica e orientadora das práticas éticas, recon- hecemos a este texto um grande valor pedagógico.
e universalidade da sua aplicação, designadamente o Utilitarismo de Jeremy Bentham (1748 – 1832) e o Racionalismo de Emmanuel Kant (1724 - 1804).
Jeremy Bentham sustenta a sua teoria no princípio segundo o qual as ações dos indivíduos são julgadas como moralmente corretas ou não conforme os resultados das mesmas se traduzam em mais ou menos felicidade, respetivamente (Benthan, 2002). Para os utilitaristas a felicidade é sinónimo de maximização do prazer, dos benefícios e das vantagens para os indivíduos.2 Segundo Beckert (2002), esta teoria
é hedonista, porque valoriza os prazeres físicos e materiais que são considerados inferiores aos prazeres morais e intelectuais; é holista porque salvaguarda os interesses do todo ou das maiorias em relação aos interesses das minorias ou do indivíduo, o que implica o “sacrifício” excessivo pedido ao indivíduo ou a minoria que não vê os seus interesses satisfeitos; finalmente, é consequencialista porque coloca a ênfase nos fins das ações em detrimento dos meios e da forma como as ações são levadas a cabo, ficando à mercê das dificuldades práticas em se avaliar quantitativamente a felicidade produzida pelas ações assim como todas as suas consequências boas e más futuras. Algumas práticas habitualmente observadas em certas instituições de idosos podem encontrar no utilitarismo estrito algum acolhimento moral, como por exemplo: os horários das refeições rígidos a que todos ficam obrigados; a porta da rua fechada à chave, por causa do risco de fuga de residentes com demência; o volume de som da televisão demasiado alto porque há idosos que ouvem mal. Tentando contornar estes problemas do utilitarismo estrito, Peter Singer (2002), sugere o utilitarismo das preferências, ideia segundo a qual o princípio utilitarista é válido desde os interesses dos indivíduos em causa sejam sempre salvaguardados, numa clara medida de proteção dos indivíduos mais vulneráveis e das minorias. Neste sentido o utilitarismo das preferências já colocaria sérias reservas às práticas anteriormente referidas, decidindo-se possivelmente pela sua reforma ou abolição.
Um outro contributo importante é dado pela teoria deontológica, ou racionalismo, desenvolvida por Emmanuel Kant, a qual está na base dos códigos de ética profissional. Kant (2011), em a Crítica da Razão
Prática, começa por rejeitar a ideia de que o objeto último da moral seja a
felicidade, como pretendem os utilitaristas, sustentado que a moralidade das ações se encontra no cumprimento escrupuloso do dever. Para Kant agir moralmente (eticamente) é agir por dever, desprovido de interesse próprio (negação da implicação) para obedecer a um mandamento racional (normas, protocolos, códigos, etc.) independentemente das 2 Este conceito de felicidade afasta-se totalmente do conceito de felicidade de Aristóteles (2004) que considera que a felicidade é sinónimo de virtude; sendo esta entendia como conhecimento dada pelo nível de conhecimento de razão abstrata que ajuda os indivíduos a estarem felizes consigo próprios e com os outros através da realização de ações boas.
consequências resultantes das ações. Esta ideia é equacionada pela expressão “agir conforme o dever e por dever”, isto é, não basta que as nossas ações sejam pareçam corretas, é preciso que o sejam de facto e que, ao executá-las, estejamos perfeitamente convictos de que estamos a cumprir o nosso dever de forma também correta. Esta ideia parece muito sedutora e suscetível de ser aplicável universalmente que é outra exigência do racionalismo de Kant, todavia este grau de racionalismo puro é inatingível pelo ser humano, dado que, este, na sua humanidade, transporta sempre a sensibilidade, a emotividade e a subjetividade. Ou seja, o estado de negação da implicação pessoal do indivíduo nas situações que ajuíza e nas ações que pratica na realidade não existe.3 Apesar destas
limitações, como foi dito, o racionalismo continua válido como código geral de conduta e particularmente como referencial abstrato das práticas profissionais, por isso o invocamos tendo como horizonte as práticas de cuidados formais e informais dispensados aos idosos.
Existem outras teorias éticas com interesse para as questões dos idosos e do envelhecimento, mas que não desenvolveremos nesta obra. É o caso do contratualismo, que coloca a questão da representatividade e da defesa dos interesses dos indivíduos e dos ensinamentos contidos no movimento ecofeminista o qual se coloca do lado dos interesses dos indivíduos mais vulneráveis como é o caso de muitos idosos.
Centremo-nos agora na questão dos princípios éticos que devem referenciar as práticas. Para isso, dada a sua importância mister, invocaremos aqui alguns dos princípios éticos plasmados na DUBDH - Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos (UNESCO, 2005).
A declaração inclui um princípio que consagra a dignidade humana e os direitos humanos, os quais devem ser respeitados incondicionalmente e prevalecer sobre o interesse exclusivo da sociedade e da ciência. Segue- se o princípio bem conhecido da maximização dos efeitos benéficos e da minimização dos efeitos nocivos, que reporta sobretudo para a condução de experiências científicas e para as práticas de cuidados médicos e de saúde. Relacionado com a questão da maximização dos efeitos benéficos constam igualmente da declaração o princípio da solidariedade e cooperação e o princípio da partilha dos benefícios designadamente dos avanços do conhecimento científico, exortando ambos à necessidade de atender aos indivíduos e aos povos mais vulneráveis e de menores recursos.
A DUBDH inclui também o princípio da autonomia e da responsabilidade individual; o princípio do consentimento informado; o
3 Aliás, nem é de todo desejável que esta obediência cega ao dever, de facto, como teoriza Hannah Arendt (1963) no seu conceito de “banalidade do mal”, o ser humano, quando convicto de que está seguir uma disposição de origem superior (divina, ideológica, hierárquica, por exemplo) é capaz de proceder a atos de extrema crueldade e pensar que isso é normal e necessário face ao cumprimento do dever.
princípio da vulnerabilidade e integridade da pessoa e ainda o princípio da proteção da sua vida privada. O denominador comum a todos eles é o reconhecimento inequívoco do valor do indivíduo enquanto ser único. Há em todos eles uma inspiração nos valores do humanismo e do liberalismo clássico, na salvaguarda de que o ser humano é um valor em si mesmo e portanto nunca pode ser instrumentalizado. Não é só o corpo que é protegido por estes princípios é também toda a existência filosófica e psicológica dos indivíduos. Este princípio, na linha do utilitarismo das preferências e do movimento ecofeminista já referidos, exorta à melhor compaixão ética perante aqueles que são mais vulneráveis, o que consideramos de importância mister no caso dos idosos, sobretudo daqueles que apresentam maior nível de dependências e fragilidades. A articulação entre o princípio da autonomia e do consentimento informado assume uma relevância mister no caso dos idosos, sobretudo daqueles em situação de dependência extrema ou demência profunda, dado que é essencial assegurar o consentimento é dado de forma inequívoca e consciente (Cole & Holstein, 1996). Os mesmos autores invocam a importância do envolvimento familiar no processo assim como a possibilidade de os idosos deixarem uma declaração antecipada (quando ainda estão capazes disso) sobre os tratamentos e práticas a que desejam ou não ser sujeitos.
A DUBDH consagra ainda os princípios relativos ao respeito pelas características étnicas, sociais e culturais dos indivíduos, exortando ao tratamento com justiça e equidade e ao evitamento de qualquer tipo de discriminação ou estigmatização. Está aqui implícita a universalidade da ética e dos procedimentos éticos que são causas maiores quer do utilitarismo quer do racionalismo, embora alcançadas por vias diferentes.
Por fim, uma referência ao papel da comunidade ética e da ciência. As comissões de ética e os pareceres éticos são essenciais ao nível da ética de decisão (ou ética clinica, como também é chamada), isto é, no momento da confrontação com os factos e as situações reais e particulares em que é necessário se proceder a um julgamento ético. Os julgamentos éticos devem corresponder a um ato participado pelos diferentes interessados e interesses em confronto. No caso dos problemas éticos com os idosos, a participação do idoso, da sua família e dos cuidadores formais e informais é desejável e deve ser procurada tanto quanto possível. Em Portugal a Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) é o organismo máximo que assegura a observação dos princípios éticos dentro da comunidade científica e técnica. A CNECV produz um conjunto vasto de pareceres alguns dos quais se relacionam de perto com a questão dos idosos, e que devem ser consultados no momento da decisão, designadamente: parecer sobre os Projetos de Lei relativos
às Declarações Antecipadas de Vontade (59/CNECV/2010); parecer sobre o Projeto de Lei n.º 788/X - Direitos dos Doentes à Informação e ao Consentimento Informado (57/CNECV/2009); parecer sobre o estado vegetativo persistente (45/CNECV/2005); reflexão ética sobre a dignidade humana (26/CNECV/99); parecer sobre os aspetos éticos dos cuidados de saúde relacionados com o final da vida (11/CNECV/95).
Por sua vez a ciência desempenha um papel crucial ao nível do apuramento dos fatos verdadeiros que enquadram as situações particulares que estão sob escrutínio ético, sendo exatamente neste ponto que ética e ciência melhor se complementam. Não é possível chegar a decisões eticamente fundadas e moralmente corretas se baseadas em factos e informações falaciosas. Porém, apesar do valor inequívoco da verdade científica, a ciência não detém a exclusividade do conhecimento, dado que outras fontes de conhecimento se podem revelar uteis, como é o caso do senso-comum sobre as práticas, os usos e os costumes; neste particular o idoso e sua família constituem-se como um recurso de informação precioso que de forma alguma deve ser negligenciado.