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A teoria dos Sistemas Complexos não nasceu na Linguística, mas sim na matemática e na física, e teve um crescente interesse das pesquisas na área de humanas por romper com paradigmas mais tradicionais, os quais ofereciam tratamentos mais categóricos aos fenômenos analisados. Dentro dos estudos dos Sistemas Complexos, existe uma divisão por parte de alguns trabalhos, conforme explica De Bot (2017), segundo a qual algumas investigações tomam como base a definição de língua como Sistema Adaptativo Complexo (SAC), e outras como Teoria dos Sistemas Dinâmicos (TSD). Embora tais teorias não sejam contraditórias em suas premissas de base, contradição essa que poderia gerar um choque epistemológico a depender de qual nomenclara se adotasse para uma determinada pesquisa, existem algumas distinções com relação à origem e ao delineamento experimental, as quais serão trazidas por esta seção.

Segundo Chan (2001), os primeiros trabalhos em relação aos estudos dos SACs surgem no Instituto de Santa Fé, no Novo México, na metade da década de 80. A prerrogativa inicial destes estudos era focar em sistemas “menos organizados”, como mercados e ecologias, em comparação a outros com uma organização mais rígida, como por exemplo o funcionamento de máquinas e companhias, de modo a tentar analisá-los

93 sem perder a dinamicidade intrínseca a eles. De acordo com Baranger (2000), áreas como a física utilizam o cálculo, que toma os componentes de uma dada operação como estáticos, como medida para explicar diversos fenômenos que possuem um funcionamento dinâmico, e isso estaria relacionado ao fato de que

O enorme sucesso do cálculo é em grande parte responsável pela decidida atitude reducionista da maior parte da ciência do século XX, a crença no controle absoluto sobre o conhecimento detalhado36. (BARANGER, 2000, p.4)

A partir dessa reflexão, constata-se uma tentativa de diversas áreas do conhecimento, a exemplo da matemática e da física, de contemplar diferentes fenômenos, provindos de naturezas distintas, encerrando-os dentro de uma visão que não leva em consideração a mutabilidade do objeto de análise em questão. Mais do que isso, observa- se um movimento científico em relação a reduzir a explicação de um determinado fenômeno a um paradigma categórico.

Diante desse cenário, teorias como os SAC e a TSD passam a ganhar espaço como paradigmas de análise mais parcimoniosos. Como decorrência da observação de Baranger (2000), tem-se que os SAC são sistemas dinâmicos em sua essência e são formados de muitos constituintes que são interdependentes entre si. Segundo Gershenson (2013), os SAC se constituem pela imprevisibilidade que ocorre devido às interações e à geração de novas informações que emergem das próprias relações entre os componentes de um sistema.

Toda a trajetória de constituição e mudanças pelas quais um sistema complexo passa constantemente pode ser discutida em relação a outros processos, como o desenvolvimento linguístico, uma vez que se observa a presença e atuação de atributos semelhantes e a dinamicidade circunscrita a eles, conforme descrita por Chan (2001) e Holland (2006). Conforme mencionado acima, as premissas dos SAC vêm sendo utilizadas para entender e analisar fenômenos que não são, unicamente, investigações da física e/ou matemática, mas também fenômenos que estão relacionados ao desenvolvimento linguístico de L2 (DE BOT; LOWIE, VERSPOOR, 2005, 2008; LARSEN-FREEMAN, CAMERON, 2008; BECKNER et al., 2009, DE BOT 2017; LOWIE, 2017; VERSPOOR, 2017, LOWIE; VERSPOOR; VAN DIJK, 2018; LOWIE; VERSPOOR, 2019; YU; WANDER, 2019). Nessa esteira, embora se tenham abordado,

36 The enormous success of calculus is in large part responsible for the decidedly reductionist attitude of

94 até aqui, os Sistemas Complexos a partir do termo SAC, esse não é o único a ser veiculado pelos trabalhos da área de aquisição de linguagem, uma vez que existem várias definições para o que sejam os Sistemas Complexos (DE BOT, 2017), como prevê, por exemplo, a TSD (DE BOT; LOWIE, VERSPOOR, 2005, 2008; LARSEN-FREEMAN, CAMERON, 2008; LARSEN-FREEMAN, 2015; DE BOT, 2017, LOWIE, 2017).

De Bot (2017) menciona que a Teoria dos Sistemas Dinâmicos (TSC) surgiu na década de 50 e remonta os trabalhos de Isaac Newton e Henri Pointcaré (apud DE BOT, 2017, p. 52), cujas contribuições tinham como foco problemas da matemática e bases na geometria fractal de Mandelbrot e, mais recentemente, na física. Por outro lado, a teoria dos Sistemas Complexos, como já previamente delineada, advém dos trabalhos de Anatol Rapaport, Margaret Mead e Gregory Bateson (apud DE BOT, 2017, p. 52), os quais discutem em seus textos premissas basilares dos SACs, como a auto-organização, o adaptativo dentro dos sistemas e o emergentismo. De acordo com De Bot (2017), os SACs37 possuem, em sua base, reflexões epistemológicas, uma vez que se debruçam

sobre a complexidade de eventos sociais e não puramente acerca de questões matemáticas. Já a Teoria dos Sistemas Dinâmicos, i.e., Dynamics Systems Theory (CILLIERS, 2000), se debruça mais sobre questões relacionadas à investigação matemática.

É importante chamar a atenção para a distinção feita por De Bot (op. cit.) em relação ao termo “dinâmico” em Complex Dynamical Systems e em Complex Dynamic Systems, sendo que o primeiro seria mais estrito e direcionado ao tratamento de problemas matemáticos e, o segundo, associado a reflexões mais abertas, ao tratamento de outros questionamentos, como os relacionados ao desenvolvimento linguístico, por exemplo. Há, possivelmente, uma necessidade de maior esclarecimento no arcabouço teórico que chega até as reflexões da literatura nacional no Brasil, em relação às pesquisas que têm se associado a uma concepção de língua como SAC ou SDC. O esclarecimento é em relação à divisão entre dynamical e dynamic, embora a tradução possa ser a mesma para o português brasileiro: dinâmico. Conforme De Bot (2017) menciona, não há uma cisão epistemológica entre SAC e SDC (quando se considera o termo “dinâmico” como “dynamic”), mas há, no entanto, entre o entendimento de dynamical e dynamic. Assim, entende-se que a Teoria da Complexidade é um panorama seguido por Larsen-Freeman e seus colegas (principalmente os pertencentes ao Instituto de Santa Fé, conforme já

37 Ao longo desta revisão teórica acerca dos termos TSC, TSDC, SAC, SDC, está se utilizando o termo tal qual utilizado internamente pelo artigo citado.

95 discutido previamente), e a Teoria dos Sistemas Dinâmicos corresponde ao que se tem feito em Groningen, na Holanda, na figura de pesquisadores como De Bot, Lowie e Verspoor, por exemplo.

Diante do cenário acima apresentado, é importante chamar a atenção para uma visão conciliadora apresentada por De Bot (2017) a respeito dos paradigmas do SAC e TSD. Conforme mencionado no início desta seção, ambas as teorias supracitadas possuem premissas de base em comum e procuram, conforme aponta Larsen-Freeman (2017), seguir na direção oposta do reducionismo, i.e., de os paradigmas como o SAC ou TSD assumirem que as partes de um sistema o compõem de modo integrado e é a análise da trajetória não linear deste sistema que revelará pistas acerca do comportamento de um fenômeno. Assim, de acordo com De Bot (2017), é importante que haja uma visão integradora de estudos que assumam uma nomenclatura de SAC ou TSD, uma vez que o pensamento acerca de fenômenos da linguagem é semelhante e pode-se estar separando os achados de estudos que compartilham de preceitos parecidos.

A partir das considerações acima feitas, a pesquisa que aqui se delineia possui uma investigação que olha para o desenvolvimento linguístico-cognitivo e se ampara empiricamente nas investigações e reflexões dos pesquisadores que têm contribuído fortemente para a adoção de uma visão de língua como SAC ou TSD (cf. DE BOT; LOWIE; VERSPOOR, 2007; LARSEN-FREEMAN, 2015; LARSEN-FREEMAN, 2017; DE BOT, 2017; LOWIE, 2017; LOWIE; VERSPOOR, 2019; YU; LOWIE, 2019), entre outros. Adota-se, assim, por conta da necessidade de uma visão mais conciliadora das nomenclaturas, o termo TSDC para as discussões das próximas seções, uma vez que esse se mostra mais parcimonioso entre as pequenas distinções apresentadas.

3.2 Desenvolvimento linguístico sob uma visão de Sistemas Dinâmicos Complexos: