ANÁLISE DAS ENTREVISTAS
II. TRAJETÓRIA NA LUTA SINDICAL: A CONSCIÊNCIA DE CLASSE DOS PROFESSORES E DAS PROFESSORAS
1. SOBRE A LUTA SINDICAL NO PASSADO
Quando indagados sobre como o governo procedia em relação à luta sindical, se o governo facilitava ou não a luta, os professores e professoras não emitiram respostas semelhantes. O objetivo da pesquisa neste ponto era tentar captar como os governos anteriores, desde a era Vargas, época em que a Apeoesp tem sua origem, até os governos subseqüentes, tratavam a luta sindical buscando captar qual a lembrança que o professor e a professora tinham da questão.
Tabela 6: quantidade de relatos por categoria de respostas quanto à luta sindical na era Vargas.
Luta Sindical na Era Vargas
Não havia luta 7
Reivindicações atendidas/ presentes/ peleguismo 2
Não recorda/ desconhece 3
Sindicato combativo 1
Total 12
Na tabela 6 observa-se que a resposta mais enfática é de que não havia embates entre governo e sindicatos (à época associação de professores). Esta resposta foi dada por 7 participantes. Dois professores fazem menção à forma como o governo prontamente atendia as reivindicações ou se antecipava a elas, presenteando a classe, e a forma como o sindicato era conivente. Três entrevistados sequer recordam ou desconhecem informações sobre essa
questão. Apenas um entrevistado afirma que o sindicato era combativo à época. As falas abaixo ilustram esses dados.
“Não. Porque todo ano, no dia do professor, o governador presenteava com aumento a classe dos professores”.(Ig, professora, 73 anos).
“Naquele tempo não tinha luta sindical, não existia vida sindical”. (Mar, professor, 74 anos).
“Não se preocupavam com política. Nada, nada, nada”.(Zil, professora, 80 anos).
Quando os docentes fizeram referência à luta na época do governo Vargas passaram a idéia de que suas reivindicações eram atendidas porque sendo a maioria do sexo feminino, eram casadas com trabalhadores. Os trabalhadores, nos discursos, eram a categoria fundamental no governo Vargas que implantou o Estado Novo, e nesse sentido para essa professora o governo facilitava a luta.
“Sim. E porque, sabe porque? Os nossos maridos, das nossas professoras eram o quê? Trabalhadores. Trabalhadores”. (Glo, professora, 69 anos).
Por fim, as falas dos professores e professoras foram contraditórias. Fica claro também, que cada um e cada uma explicitou uma fase significativa de suas experiências, de como percebiam a relação do governo em relação à luta, bem como suas concepções acerca da luta sindical. Mas, fica explícito, principalmente, o tipo de associativismo praticado pelos docentes à época.
“Mas, antigamente, não facilitava muito isso não. A gente entrava em greve e daqui a pouquinho acabou porque já negociou tudo lá. Às vezes negociava com os diretores separado dos professores. Dava aumento para os diretores para abafar os professores. Então isso a gente passou muito”.(Gen, professora, 67 anos).
“Não. Nunca facilitou. Nunca facilitou”. (Car, professor, 58 anos).
“E depois, veio a apeoesp e a apeoesp já é diferente. Então, a apeoesp era combativa e era e é até hoje do lado dos professores. As coisas todas são negociadas claramente”. (Gen, professora, 67 anos).
As lembranças dos docentes refletem o engajamento dos professores professoras na luta. Demonstram também que a consciência se forma de maneira processual.
“Não consigo lembrar dessa parte não. Nós ficamos completamente separados do movimento que eles fizeram. Naquele tempo era assim”. (Jan, professora, 76 anos).
“Eu realmente não tenho muita lembrança disso naquela época. Eu acho que a gente fazia um sindicalismo e não sabia que fazia. Quando a gente brigava, quando a gente ia numa greve, quando a gente se reunia para reivindicar alguma coisa era um trabalho sindicalista, só que a gente não sabia o que estava fazendo. Foi uma pena que naquela época a gente não fizesse isso com mais conhecimento”. (Ro, professora, 72 anos).
“O governo Vargas estava decidido a fazer do Brasil um país moderno, pelo menos em alguns aspectos e em algumas regiões. Para tanto, julgava que, além do crescimento da economia, das indústrias, das cidades, era preciso pôr fim nos conflitos entre a classe dos capitalistas e a dos trabalhadores”. (Ribeiro et ali, 1991: 125). Em relação a este aspecto, vários direitos sociais datam dessa época, como as leis de proteção trabalhistas e previdenciárias, que criaram um sistema de assistência ao trabalhador. “Logo que chegou ao poder, em 1930, Getúlio Vargas criou o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. Esse ministério deveria tratar, ao mesmo tempo, dos interesses dos patrões e dos empregados. O governo fez leis protegendo o trabalho das mulheres e das crianças, limitou o dia do trabalho em oito horas, criou institutos de previdência que deveriam ajudar os trabalhadores na doença, velhice ou viuvez. Todo trabalhador passaria a contribuir mensalmente com uma parte do seu salário: o dinheiro arrecadado seria destinado ao funcionamento dos institutos” ((Ribeiro et
ali, 1991:125). Naquela época esses direitos sociais eram restritos aos trabalhadores urbanos e
eram entendidos como uma doação.
Mas o governo Vargas não tratava todos os sindicatos da mesma forma. Os que lhe faziam oposição não tinham espaços, foram perseguidos e fechados. Novos sindicatos foram criados e os que nasciam já estavam atrelados ao Estado e eram por ele tutelados, uma vez que tinham que ser registrados no Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. Tinham a função de prestar assistência ao trabalhador, bem como promover atividades recreativas e participar das atividades cívicas promovidas pelo governo. Os trabalhadores durante o período do Estado Novo agüentaram as dificuldades de boca fechada. Não podiam expressar seu descontentamento, por exemplo, por um salário mínimo que já não custeava suas despesas.
A limitação do trabalho em oito horas, um dos aspectos trabalhistas oficializados pelo governo Vargas, não foi um ato beneficente desse governo. Vale lembrar que ela é conseqüência de uma longa luta dos trabalhadores brasileiros. Em relação a esta questão Dal Rosso (1996) nos lembra, “A greve de 1907 constitui o primeiro movimento de expressão geral, isto é, composto de assalariados que operavam em vários setores de trabalho social e nacional, porque abrangeu os principais centros industriais do país, que consegue abrir brechas na extenuante jornada de trabalho vigente e deixar marcas concretas na forma de jornadas com menos horas diárias de labuta. A partir desse momento em diante, a bandeira das oito horas diárias, quarenta e oito horas semanais, passa a integrar, consistentemente, a pauta de reivindicações dos movimentos grevistas subseqüentes, até sua fixação como norma legal, o que só vai acontecer muito mais tarde, em 1932, após a revolução que mudou a composição de forças políticas do governo” (Dal Rosso, 1996: 234).
Logicamente que a compreensão do que representou o governo Vargas para o Brasil e para os trabalhadores é muito mais profunda do que os fatos colocados, mas estes aspectos foram destacados para que se tenha uma idéia de como operava a consciência política dos professores e professoras nesse período histórico. Para se ter idéia de como os docentes percebiam a luta sindical e a relação da categoria com o governo. Afirmar que não existia luta sindical, expressa uma ausência que provavelmente seja conseqüência do forte envolvimento do governo Vargas com o magistério, ou vice-versa. Os professores nesse período eram considerados sacerdotes do governo. Sua missão confundia-se com a missão cívica de
enaltecimento do governo. Pela fala dos professores e professoras a visão positiva do governo trabalhista de Vargas parecia internalizada na consciência dos docentes.