3.4. VJING E PERFORMANCE
3.4.3. TECNOLOGIAS E INTERACTIVIDADE
No curso deste século, verificamos um deslocamento das funções instauradoras pelo artista para funções da sensibilidade receptora, o que produz na esfera das artes uma certa desordem conceptual caracterizada pela mistura e hibridação de géneros, poéticas e atitudes artísticas. A verdadeira qualidade da nossa relação com o real não reside agora portanto, na impressão visual, mas sim nos modelos formalizados dos objectos e o espaço que o cérebro cria a partir das sensações visuais. Essas sensações visuais são lançadas pela aspiração a uma sinestesia e sua correspondência sensorial, assim como o fascínio pela visualização do som e sua materialização. Estas distintas propriedades criativas têm contribuído para arquitectação de diferentes configurações artísticas. Por um lado, produzem-se obras que procuram estruturar a experiência sensível do espectador, i.e. que se constituem como dispositivos de percepção. Esta vertente implica o espectador como ‘suporte’ da construção perceptiva, sendo nele que esta se projecta. Paralelamente, existe a possibilidade de criação de um dispositivo de interacção, com funcionamento análogo ao sistema sensorial e que vai implicar a acção ou
actividade do espectador na gestão dessa relação de analogia. Nestas duas vertentes o espectador é integrado na trama constitutiva da obra, tanto passiva como activamente,mas sobretudo implicado numa extensão do sistema sensorial. Em VJing as sintaxes visuais, podem assim obedecer apenas a construções
orientadas para a criação de sistemas e dispositivos perceptivos, que modelam a experiência sensível do observador, por outro lado, podem igualmente construir a experiência orientada no desenvolvimento de sistemas e dispositivos para uma performance, que implicam o corpo e a acção. Neste último ponto cruzam-se questões sobre interactividade na obra artística, na qual existe uma necessidade reactiva por parte do receptor.
O tema da interactividade, por sua vez, percorre quase todo o século XX. Marcel Duchamp já defendia que era o espectador que realizava a obra, o que faz indicar uma preocupação com a recepção. Este sentido receptivo e de introdução do receptor na obra de arte, pode seguir esta linha de percurso: participação passiva (contemplação, percepção, imaginação, evocação, etc.), participação activa (exploração, manipulação do objecto artístico, intervenção, modificação da obra pelo espectador), participação perceptiva (arte cinética) e interactividade, como relação recíproca entre o utilizador e um sistema inteligente.
Pode afirmar-se que toda a arte é interactiva pois toda a expressão artística é fruto da interacção entre a obra, o artista e o interpretante. Os signos que compõem a obra de arte são expressos pela interacção entre a subjectividade do artista, o meio pelo qual ele dispõe para materializar a obra. Com base na teoria dos signos de Pierce, pode considerar-se que o signo artístico, como qualquer outro, só obtém realmente sentido de arte quando exposto a um interpretante ou um agente inter-relacional capaz de dinamizar a obra de arte. Assim, o processo artístico é um complexo de inter-relações, uma troca de signos entre múltiplos elementos integrados no diálogo em constante movimento, onde cooperação e conflito originam uma linguagem estética que comunica uma ética inerente a cada cultura e a cada época, mas que está presente em todas manifestações criativas.
Contudo, o advento da tecnologia, permitiu pensar em novas formas de se pensar em comunicar artisticamente. Estes artistas tecnológicos, por sua vez, estão mais interessados nos processos de criação artística e de exploração estética do que na produção de obras acabadas. Interessam-se acima de tudo, pela realização de obras inovadoras e ‘abertas’, onde a percepção, as relativas dimensões temporais e espaciais representam um papel indubitável na maioria das produções da arte ligada à tecnologia. Nesta vontade participativa surgem as artes interactivas, as
quais inserem na análise performativa, uma capacidade construída por interfaces técnicas com noção de programação. O termo “arte interactiva” expande-se no começo dos anos 90 com a aparição das tecnologias apropriadas, ligadas por rede, expostas em inúmeras feiras e exposições de arte de tecnologia electrónica. Esta perspectiva interactiva em arte alicerçada por interfaces e programação, pode ser apelativo para a performance de VJing, embora o papel da audiência se figure activamente na construção da obra. A performance nesta perspectiva, não se centra apenas no improviso e sensibilidade do VJ perante a reacção do público, mas o próprio público é o performer. Nesta configuração, o artista performativo tem um papel mais reduzido, visto que a tecnologia processa-se muitas vezes autonomamente, ficando apenas responsável por alguns ajustes. Esta é um dos dilemas tecnológicos, pois é necessário questionar, até que ponto a tecnologia complementa ou destrói a arquitectura da obra e o momento criativo.
Primeiramente, é necessário compreender a dinâmica interactiva. A obra, na sua génese, abre-se ao público e pode reproduzir-se sem limites. Contudo, existe um papel híbrido entre autor e criador nestes ambientes interactivos. Os sentidos da obra artística aqui, são produzidos durante o curso de um processo de diálogo, lançado pelos autores, actores, co-autores como ‘agentes inteligentes’ da obra. Nas artes da interactividade, o destinatário potencial torna-se co-autor e as obras tornam-se um campo aberto a múltiplas possibilidades e a desenvolvimentos susceptíveis, imprevistos numa co-produção de sentidos. É assim que nasce a chamada inteligência distribuída ou colectiva. A questão da autoria é vista por Couchot da seguinte forma: “num processo dialógico ou de troca interactiva, o estatuto da obra do autor e do espectador sofrem fortes alterações. Na metáfora geométrica ou no triângulo delimitado pela obra, o autor e o espectador vêem a sua geometria questionada, pois esse triângulo pode tornar-se um círculo onde os três elementos não ocupam posições definidas e estanques, mas trocam
constantemente estas posições, cruzam-se, opõem-se e se contaminam.” (Couchot, op. cit., 1998)
Uma obra de arte interactiva é um espaço latente e susceptível de todos os pro- longamentos sonoros e visuais. O cenário programado pode modificar-se em tempo-real ou em função da resposta dos utilizadores. Existe assim uma inter- relação permanente entre o autor e o co-autor, ou seja, o público.
O modelo de interactividade vigente é o modelo estabelecido hoje em dia em grande escala e nos meios digitais interactivos massificados. É um modelo que une o ramo do sujeito e da obra e marca fronteiras exactas através dos interfaces. Em VJing, configurações interactivas compõe-se através de um ecrã, no qual se visionará a obra; uma ou mais câmaras medidoras de movimento da audiência
Img.29. The Special Player, instalação interactiva, festival Transmediale 2008
[1] Philip Galanter: (US),(MFA). Artista/ Professor. Ensina
"Foundations of Generative Art Systems", no curso "Interactive
Telecommunications", na New York University, US.
(geralmente de infra-vermelhos); um computador que possui a aplicação à qual chega o movimento captado pela câmara, que interpretará e produzirá
visualmente o resultado dessa interacção. O artista performativo, neste sentido, não possui um papel tão activo na performance, visto que é partilhado quer pelo público, quer pela aplicação.
De certo modo, a interactividade não é somente uma comodidade técnica e funcional. Ela implica igualmente uma prática de transformação física, psicológica e sensível do espectador. Embora, em performances como o VJing, esta evidência pode alterar a ideologia das performances. VJing implica uma acção em tempo- real, uma construção visual que se concretiza ornamentada pelo som e pelo papel receptivo de um público. O VJ é aquele que dá corpo ao momento, que figura a mensagem. Assumir um objecto interactivo é oferecer ao público a possibilidade de criar, de ver visualmente o resultante dos seus movimentos. Por um lado, pode parecer bastante atractivo, mas por outro pode imaginar-se cansativo e desinteressante. Quando se pensa em VJing sem este papel de interacção prática, pensa-se em encontros esporádicos entre audiência e imagem, permitindo que se criem narrativas mentais. A interactividade por sua vez, pode funcionar como um aparato tecnológico, o interessante dessa performance é a resultado dessa actividade, e não tanto o conteúdo. A interactividade em Vídeo Jockeying pode ser considerada sim, como uma sugestão criativa ao público, mas carece de algum domínio visual, de mensagem e sensação, que geralmente uma obra sem este fausto técnico transmite.
De qualquer forma, a interactividade faz parte das novas fronteiras criativas, e através dela podem construir-se experiências incríveis. O que se deve reforçar é capacidade criativa e multidisciplinar do artista. A interactividade como relação recíproca entre utilizadores e interfaces computacionais inteligentes, suscitada pelo artista,permite uma comunicação criadora fundada nos princípios sinérgicos, uma colaboração construtiva, crítica e inovadora. A interactividade aparece como uma nova condição da recepção para interpretar a obra, como índice de um desejo colectivo de suavizar os limites impostos tanto do ponto de vista da concepção com da recepção.
A arte é isso mesmo, um mundo de possibilidades criativas. Com a proliferação da tecnologia nos meios artísticos, surgem novas representações artísticas, como os ambientes generativos. A arte generativa aqui, não é referida como objecto de estudo, mas sim mencionada como uma possibilidade criativa da Era Tecnológica, e como probabilidade integrante das performances visuais. Segundo, Philip Galanter [1] “A Arte Generativa refere-se a qualquer prática de arte onde o artista use um sistema — tal como um conjunto de regras naturais da linguagem, um
programa de computador, uma máquina ou outra invenção de procedimentos, que são postos em movimento com algum grau de autonomia e que contribuam, ou resultem num completo trabalho de arte." (Galanter, What is Generative Art?,2003)
A arte generativa propõe assim a existência de automação, sendo gerada, composta ou construída de formal algorítmica, por sistemas algoritmos definidos e oferecidos por uma aplicação ou software, que define assim um processo autónomo. A arte generativa não é só um meio de comunicação. Ela é vista como a matéria-prima para a interpretação, num caminho absolutamente arbitrário e para um público culturalmente heterogéneo. A arte generativa na sua real compreensão, deve ser entendida como um processo computacional e não é o seu resultado final que deve ser o mais valorizado, mas sim todo o processo de desenvolvimento. Projectos de arte generativa, são trabalhos de arte complexos, porque articulam o espaço dentro de diferentes possibilidades de criação pela escolha. A tecnologia está pensada como uma partitura com as estruturas definidas para sua realização, como uma performance dentro de determinadas regras. Na realidade, são campos de relação de causa e efeito numa sequência não linear, já que a arte generativa trabalha a relação temporal, o tempo cronológico e o tempo dentro do projecto.
Temos o exemplo do artista performativo Marius Watz que tem trabalhos de ambientes generativos, fazendo parceria com um DJ (Img.30).
A arte generativa vive assim, dos artistas que variam determinadas regras e propriedades de uma obra, e das suas possibilidades consideradas por um meio de visualização, onde são definidas um conjunto de formas, aliadas a um número de propriedades variáveis.
Todas estas possibilidades tecnológicas baseadas no diálogo entre um autor e um receptor, que se apresenta como um co-autor em alguns casos, contribuem para a compreensão da grandiosidade tecnológica na construção de alternativas artísticas. É imprescindível considerar a força que a tecnologia exerce sobre as novas manifestações artísticas. Através dela ampliam-se sentidos criativos e moldam-se experiências que outrora pareciam impossíveis.
Em VJing, mostra-se necessário considerar-se estas alternativas como ponto de partida para uma escolha organizada e conceptual, por parte de todos os interessados nesta prática. Certo é, que esta multidisciplinaridade do VJ, oferecem-lhe um reconhecimento quando compreendidas e retidas as suas potencialidades como criador artístico.
Img.30 Alexander Rishaug & Marius Watz, 2008.
VJING
|4. POTÊNCIAS
O conglutinado imagético de Vídeo Jockeying apresenta-se adjectivado por uma sensibilidade performativa aliada a um longo processo criativo. Considerar a presença de potências, prende-se na necessidade de encontrar pontos de válidos na estrutura visual destes artistas. As potências são valores notórios oferecidos pelas etapas de elaboração criativa. Para isso, procura responder-se a um grupo de conexões inter-relacionais entre as variáveis anteriormente dissecadas, para se assimilar a marca activa do VJ. Consequentemente, considera-se o contexto das artes na intersecção entre a validade formal e ideológica destas construções visuais performativas. Ao se conjugar um certo número de variáveis, é possível assim compreender como são realizadas as apresentações visuais, i.e., através da forma como são apresentadas, entende-se a sua intencionalidade construtiva.