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Testes de Inteligência e de Aptidões Específicas (Multifactoriais)

A avaliação da inteligência e de outras aptidões cognitivas constitui, pra- ticamente, desde a origem da Psicologia científica, nos finais do século deza- nove, um domínio privilegiado da atenção dos psicólogos. Embora, tanto as provas de inteligência, como as das aptidões específicas (nomeadamente, as integradas em baterias multifactoriais), avaliem aspectos do funcionamento cognitivo da personalidade, os dois conceitos, e os instrumentos que lhes estão associados, aparecem habitualmente distinguidos na literatura especializada (Almeida, 1988; Almeida e Simões, 2004; Cohen e Swerdlik, 2002; Walsh e

Betz, 2001). Esquematicamente, poderia dizer-se que enquanto o conceito de inteligência remete para designações como “inteligência geral, ou factor g”, “capacidade intelectual”, ou o popularizado “quociente de inteligência, ou QI”, pretendendo traduzir o funcionamento unitário e integrado de distintas, mas inter-relacionadas, componentes cognitivas, já o constructo de “aptidão” tende a ser definido de um modo claramente diferenciado. De facto, segundo Freeman (1962/1980), uma aptidão “é a combinação de características que apontam a capacidade de um indivíduo para adquirir (mediante treino) um conhecimento específico, uma perícia, um conjunto de respostas organizadas, como a aptidão para falar uma língua, para ser músico, ou para realizar de- terminadas tarefas mecânicas. Assim, um teste de aptidão visa medir a capa- cidade potencial de um indivíduo numa actividade especializada, dentro de um âmbito restrito” (p. 463).

Ambos os instrumentos são utilizados na avaliação de carreira, como au- xiliares na previsão e no prognóstico diferencial do sucesso do cliente nas di- ferentes trajectórias de vida/carreira, por si contempladas. Dentro deste ob- jectivo comum, os primeiros serão, sobretudo, utilizados para determinar a probabilidade de sucesso na prossecução de estudos superiores e pós-gradua- dos e em profissões mais exigentes, em termos educativos e, concomitante- mente, requerendo um maior grau de autonomia, complexidade e responsabi- lidade da parte dos seus ocupantes. Enquanto que os segundos vão ser utilizados, primacialmente, para prognosticar a futura performance do indiví- duo em distintas áreas educativas, em cursos de formação profissional e em empregos específicos, em função da avaliação de distintas aptidões (aprecia- das singularmente ou integradas em baterias multifactoriais). Este objectivo corresponde, aliás, ao processo tradicional, na orientação vocacional, de em- parelhamento das características da pessoa com as exigências do emprego. Os psicólogos vocacionais portugueses dispõem de uma ampla gama de provas, devidamente validadas em grupos nacionais, para realizarem uma avaliação das capacidades cognitivas dos seus clientes e para efectuarem pre- visões (probabilistas) acerca do seu eventual grau de sucesso em distintos per- cursos educativos e profissionais. Atendendo ao facto de, neste trabalho, ape- nas abordarmos os processos de avaliação em contexto escolar, fundamentalmente, dirigidos para jovens do 9º ao 12º anos de escolaridade, apenas referiremos dois testes, que se encontram entre os mais habitualmente usados para estes fins.

A Bateria de Provas de Raciocínio Diferencial (BPRD) é, de acordo com os dados de que dispomos, uma das provas do funcionamento cognitivo mais uti- lizadas na avaliação de carreira, em Portugal. A BPRD surge na linha dos tra-

balhos de investigação iniciados por Leandro S. Almeida nos anos oitenta, com os Testes de Raciocínio Diferencial (TRD), de Meuris. Esta bateria integra cinco provas, cada uma delas pretendendo avaliar “a capacidade de raciocí- nio (operação cognitiva comum) num determinado conteúdo específico dos seus itens (numérico, abstracto, verbal, espacial e mecânico)” (Almeida, 1995, p. 19). As provas foram validadas junto de alunos entre o 7º e 12º ano de es- colaridade. As análises psicométricas dos principais parâmetros estatísticos dos resultados têm revelado, em sucessivos estudos, que as cinco escalas de raciocínio (NR-Numérico, AR-Abstracto, VR-Verbal, SR-Espacial e MR-Mecâni- co) apresentam bons níveis, quer de fidelidade (coeficientes de consistência in- terna, no intervalo de .80-.90), quer de validade de constructo, concorrente e preditiva. Particularmente interessante para o uso deste instrumento na orien- tação vocacional, são as correlações encontradas entre os distintos testes e as classificações escolares em várias disciplinas (Matemática, Português, Físico- Química, etc.). Por exemplo, nos alunos do 10º ao 12º ano, o autor (e.g., Al- meida, 1988) constatou que as correlações mais elevadas se verificaram entre as provas e as disciplinas com conteúdos similares (e.g., SR e Geometria Des- critiva). Existem normas (nomeadamente, sobre a forma de “notas T”, “notas percentílicas” e “classes normalizadas”), elaboradas segundo o ano de esco- laridade, o sexo e o meio urbano/rural, aos quais se acrescentam as “opções escolares”, para os alunos do ensino secundário. O tempo para a administra- ção da prova completa é de aproximadamente 60 minutos. A BPRD é, actual- mente, distribuída pela CEGOC – Investigação e Publicações Psicológicas.

A Bateria de Testes de Aptidões (GATB) é a versão Portuguesa da General Aptitude Test Battery, um instrumento de aptidão multifactorial desenvolvido pelo Serviço de Emprego dos Estados Unidos (USES), para ser utilizada nos vários serviços de emprego estatais. Para alguns autores (e.g., Whiston, 1999), a GATB merece ser discutida e conhecida, porque se trata do teste de aptidão ocupacional mais extensivamente investigado. A introdução deste tes- te em Portugal deve-se ao laborioso e profícuo trabalho de investigação reali- zado por Helena R. Pinto, da Universidade de Lisboa (e.g., Pinto, 1999, 2004). Existem algumas diferenças entre a GATB original e a adaptação Por- tuguesa (de seguida, apenas referida de Bateria), esta última reunindo somen- te oito dos 12 testes de papel e lápis que integram a versão norte-americana. A Bateria é composta pelos testes seguintes: Comparação de nomes; Cálculo numérico; Desenvolvimento de volumes; Vocabulário; Utensílios idênticos; Ra- ciocínio aritmético; Emparelhar formas; Fazer três traços. As características metrológicas da Bateria foram profundamente investigadas numa grande amostra de aferição que incluiu 12.970 estudantes, do 9º ao 12º anos de es-

colaridade. De especial interesse são os resultados sobre a estrutura factorial dos testes da Bateria. Nos vários estudos realizados, através da análise facto- rial, foram extraídos três factores que explicam, aproximadamente, dois terços da variância total. Os três factores avaliam, respectivamente, aspectos Simbó- licos, Perceptivos e Burocrático-Motores (aliás, estes correspondem aos três re- sultados compósitos de grupos de aptidões que podem ser derivados a partir dos resultados nos 8 testes da Bateria). Quanto ao estudo da precisão, a auto- ra refere que “os coeficientes alpha de Cronbach revelaram índices elevados de consistência interna das provas (entre .64 e .88)” (Pinto, 1999, p. 65). Também no âmbito dos estudos diferenciais, realizados com os testes da Bate- ria, pode comprovar-se que o instrumento permite diferenciar “favoravelmente os níveis de escolaridade mais avançados, os estudantes com notas escolares mais elevadas, cujos pais desempenham profissões científicas e técnicas e que frequentam escolas de zonas urbanas; diferenciam também vias e áreas de formação; e, relativamente a algumas aptidões, diferenciam os dois sexos” (Pinto, 1999, p. 66). Com base no estudo de aferição foram produzidas tabe- las de normas para as oito aptidões e para os grupos de aptidões, sendo pos- sível calcular-se resultados padronizados de média 100 e desvio padrão 20, para o conjunto das (quatro) subamostras de estandardização e para cada sexo. A bateria é composta por um numeroso conjunto de testes de aptidões, cuja aplicação completa demora aproximadamente 1,30 horas. A edição e distribuição nacional da GATB está a cargo da autora.

Para além dos instrumentos analisados anteriormente, muitos outros estão validados na nossa população, podendo por isso ser usados com interesse na avaliação de carreira, de seguida referimos apenas mais dois exemplos:

• PMA – Aptidões Mentais Primárias (L. L. Thurstone; CEGOC-TEA) • WISC-III – Escala de Inteligência de Wechsler para Crianças, 3ª edição

(D. Wechsler; CEGOC-TEA)