3.1 BELEZA E FEIURA
3.1.4 Um passatempo reprodutor de emoções e ideais
Tomando por base o que foi discutido nas páginas iniciais desse capítulo, José Antônio Tobias chamava a atenção para uma noção do conceito de beleza como algo que se baseasse na concepção de perfeição e que feiura se constituiria como uma privação aos elementos do perfeito. Desse modo, quando a publicidade da figura 9, na página 73, traz as duas imagens em conjunto, automaticamente os elementos estéticos que foram culturalmente construídos no Brasil se contrastam com o da cultura africana e negra, já tomada como inferior pelos resquícios da escravidão, possibilitando que, ao contemplar a imagem, os traços pareçam desproporcionais gerando uma “feiura formal”, como visto no conceito de Umberto Eco.
Além disso, relembrando a discussão da página 26 acerca das posturas tomadas pelo Anuário, percebe-se pelo cruzamento entre a revista e a publicidade das drágeas W5, mostrada anteriormente, que a moda eugênica que caracterizava e propunha uma cura da fealdade quer física, comportamental, racial ou de saúde, de certo modo ainda continuava presente no
175 KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro; BARBOSA, Raoni Borges (orgs. e trad.). A vergonha no Self e na sociedade: a sociologia e a antropologia das emoções de Thomas Scheff. Recife: Bagaço, 2016, p. 99.
imaginário brasileiro, apresentando como feio a cultura africana e negra que, consequentemente, apareciam como passíveis de “cura”.
Assim, a beleza africana é colocada como símbolo de feiura, dissimuladamente por meio da relativização, quando se encontra em contraposição ao ideal de belo exposto, ou seja, algo carente de mutação, cuja significação ainda é restrita, estreita. Nesse sentido, as características apontadas na mulher de uma tribo específica, de uma parte específica da África equivale às varizes, celulites, gordura ou magreza em excesso para as mulheres brasileiras brancas.
Ainda nessa análise, percebe-se uma noção de “feiura em si”, trazida por Umberto Eco, cuja causa se daria por aversão dos sentimentos. De alguma forma a imagem que a publicidade montou, visual ou textualmente, pode mexer com esse sentido ao remontar com palavras pejorativas a descrição dos costumes de intervenção no corpo feminino, gerando aversão ao lembrar a dor e a aflição de fazê-las.
Igualmente, os aspectos das emoções aparecem no trecho do artigo “Braços Bonitos”
do Anuário das Senhoras:
Esperar os primeiros dias de verão, quando os Vestidos de organdi, os de campo, os destinados ás praias desnudarão os braços, para lembrar-se dos cuidados necessários?
Será bem tarde... Desde cedo, a hygiene, a belleza e a esthetica de seus membros superiores reclamam cuidados. Se me detenho um Instante na toilette do braço, não é.
leitora, para duvidar dos cuidados que lhe dão diariamente. A única questão de hygiene em que me permittirei aprofundar, é a referente á transpiração das axilas.
Muito ricas em glandulas as axilas são a parte do corpo onde há secreção de suor mais abundante. Preocupar-se com preservar do effeito do suor o tecido dos vestidos e corpinhos, é pensar, apenas, num paliativo de elegância e de limpeza exterior e não de hygiene completa. [...] O único modo de remediar este inconveniente, é, tomar precauções minuciosas e repetidas, e não conservar os desgraciosos pellos debaixo do braço. Recorrer a uma navalha ou a um bom depilatório, applicando-o com cautela para evitar inflamações. No mais, banhar fartamente as axillas com loções anti-sudorificas constitue o tratamento por excellencia. Cada dois dias, depois de lavar cuidadosamente, com sabão, a axilla, enxugal-a e applicar a loção, ficando com os braços levantados até que seja completamente absorvida. Depois de seccas, empoal-as com pó hygienico ou talco. 176
Os fragmentos do artigo dão a ler uma série de dicas de beleza e cuidados com a higiene dos braços femininos. O fomento à limpeza reflete a consolidação de normas que indicam a forma exata e correta de se agir e de ser para as mulheres. A construção da aversão aos pelos femininos pode ser associada a uma perspectiva de diferenciação entre homens e mulheres, visto que os pelos nas mulheres não se tornaram um símbolo de feminilidade na cultura mais
176 BRAÇOS... Anuário das Senhoras, Rio de Janeiro: Sociedade anônima “O malho”, ano VI, 1939, p. 30-31.
tradicional e conservadora.177 Além disso, a repulsa no texto pode ser observada na descrição do suor e dos pelos como um fator de sujeira e falta de higiene íntima, tornando-se feiura.
Consequentemente, ao serem incorporadas, essas regras acabam por formar concepções no indivíduo de hábitos que devem ser cumpridos. E, à medida em que por ventura se deparar com situações contrárias, como por exemplo as marcas de suor nos vestidos ou os pelos nas axilas femininas, o sentimento de repugnância e nojo indicam presença de feiura.
São esses mesmos sentimentos de repugnância e nojo, juntamente com a vergonha e o medo de uma reprovação social que levam os indivíduos, no caso aqui as mulheres, a seguirem tais normas de beleza e incorporarem, por meio do hábito, essas atitudes em seu cotidiano, como explicita Pierre Bourdieu:
Incessantemente sob o olhar dos outros, elas se vêem obrigadas a experimentar constantemente a distância entre o corpo real, a que estão presas, e o corpo ideal, do qual procuram infatigavelmente se aproximar. Tendo necessidade do olhar do outro para se constituírem, elas estão continuamente orientadas em sua prática pela avaliação antecipada do apreço que sua aparência corporal e sua maneira de portar o corpo e exibi-lo poderão receber (daí uma propensão, mais ou menos marcada, à autodepreciação e à incorporação do julgamento social sob forma de desagrado do próprio corpo ou de timidez). 178
As consequências ao não enquadramento das mulheres nesses padrões acabariam por gerar uma violência simbólica179 interiorizada por meio do descontentamento para consigo e o juízo do seu meio social. É a partir disso que os sentimentos de reparação podem se tornar mais fortes nos indivíduos a fim de procurar se encaixar socialmente e sanar o promotor de vergonha e constrangimento; ou simplesmente se enquadrar por uma questão de reprodução automática de hábitos.
Ponderando sobre as questões dos afetos pelas emoções e associando-as a uma maneira de manifestação do poder e violência simbólica exercido socialmente, bem como reproduzido pela força do hábito.
Recordando passos anteriores, viu-se que no exemplo do artigo “Boas maneiras”, ao evidenciar o comportamento feminino assegurador da harmonia no lar, o texto presente no Anuário atrelou questões reprodutoras de uma atribuição considerada feminina, reforçando um habitus socialmente construído pela dominação masculina através da violência e do poder simbólico. Isso posto, considerando o campo de inserção da revista, isto é, a configuração
177 Ver: SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. A História da beleza no Brasil. São Paulo: Contexto, 2014.
178 BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 11° ed., 2012. p. 83.
179 CATANI, Afrânio Mendes; [et. al.] (orgs). Vocabulário Bourdieu. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.
p. 359-361.
sociocultural dos atores que a elaboraram, conforme foi visto no primeiro capítulo, analisou-se o conteúdo de alguns exemplares do Anuário a fim de entender a forma que os aspectos de dominação e reprodução dos habitus estamparam os conteúdos de beleza e feiura.
A imprensa feminina no Brasil, no século XX em particular, se viu imersa numa conjuntura patriarcal e em características de uma “modernidade conservadora”, apesar das poucas ocorrências destoantes encontradas no país e no restante do mundo ocidental. Essa característica pode ser frequentemente associada à condição feminina relegada ao plano privado do lar. É nesse espaço que o entretenimento feminino surge como um passatempo utilitário:
Vigorava a ideia de que, em seus momentos de lazer, as donas de casa deveriam dedicar-se a algo que fosse útil: confeccionar uma blusa de tricô para o filho mais velho ou uma toalhinha de crochê para deixar a casa bonita, acompanhar um curso de culinária a fim de aperfeiçoar seus dotes ou ter aulas de artesanato para, talvez, reforçar o orçamento doméstico com a venda informal de pequenas peças.180
Muitas dessas tarefas consideradas produtivas para as mulheres do lar encontraram na imprensa um suporte ideal de aprendizado sem sair de casa, possibilitando certo destaque para as revistas femininas, pois além de abordar “questões do cotidiano, de maneira leve e interessante”,181 a revista poderia trazer a ocupação e a utilidade de passatempo. O “summario das principaes secções” da revista feminina Eu sei tudo182, do Rio de Janeiro, de 1917, trouxe como temáticas “Chronica; Contos; Para recitar; Comedia; Romance; Curiosidades; Páginas de arte; Primores do engenho humano; Conhecimentos uteis; A Sciencia ao alcance de todos”.183 Já no ano de 1957, ano final de sua publicação, o sumário da revista apresentava:
O médium de máscara (episódio real); A altura dos filhos; Montanha de milhões (conto); Década das nações Européias - pequeno conto de São Marino; Médicos no Brasil; Juventude do conhecimento [...], A radiação: um aliado ou uma ameaça?; o lado risonho da vida; Cura marinha em casa; campeão do casamento; o cavalo no Brasil; O que é bom saber [...]; O que fazer contra dores nas costas; [...] Novo nível de longevidade; [...] Sexo fraco; Atirar pratos... alivia a pressão!; Ser ou não ser...
barbado [...]. 184
180 MIGUEL, Raquel de Barros; RIAL, Carmen. Lazer: programa de Mulher. In: PINSKY, Carla Bassanezi;
PEDRO, Joana Maria (orgs.). Nova História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2013, p. 150-151.
181 LUCA, Tania Regina de. Imprensa feminina: mulher em revista. In: PINSKY, Carla Bassanezi; PEDRO, Joana Maria (orgs.). Nova História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2013, p. 448.
182 Procurando por palavra-chave o termo “summario”, selecionou-se a revista “Eu sei tudo” por ser um periódico voltado para mulheres que continha alguma organização explicita das temáticas abordadas. Foram escolhidos o primeiro e o último número de publicação da revista para perceber os tipos de temas e variações ao longo do tempo.
183 SUMMARIO... Eu sei tudo: magazine mensal illustrado, nº 2, jul. 1917, p.3.
184 SUMÁRIO... Eu sei tudo: magazine mensal illustrado, nº 486, ano XLI, ed. 6, nov. 1957, p.123.
Olhando para esses conteúdos, percebe-se que o estímulo à leitura como atividade de ocupação tornou-se mais frequente nesse periódico ao longo do tempo. Entretanto, curiosidades e coisas úteis para a casa tiveram certa permanência nessa revista feminina. Seria precipitado afirmar que todas as revistas femininas seguiram no mesmo rumo de conteúdos devido às especificidades de cada uma e dos contextos envolvidos. No entanto, “assim como as diversas matérias, cartas e imagens publicadas na maioria das revistas femininas da época, as histórias de amor consideradas adequadas perpetuam receitas de como bem se comportar, de como ser mulher, com o matrimonio e o indefectível prole decorrente como seus objetivos finais”.185
Pensando num tipo de comportamento considerado belo, o artigo “cultura e modéstia”, do Anuário das Senhoras de 1947, verificou-se um estímulo à beleza, que nessa circunstância se qualifica enquanto beleza moral. O texto falava sobre a importância da modéstia como sinônimo de cultura, e que não deve ser exacerbada, deixando a pessoa tímida e submissa:
As pessoas modestas evitam os enganos e decepções que seguem sempre as empresas presunçosas; não perseguem os triunfos rápidos e prematuros, não falam decisivamente nem dogmatizam; sabem que a verdade se procura, e não se possue.
Estão convencidos de que julgar bem consiste, com frequência, em duvidar e reservar seu julgamento para depois. [...] A modéstia, quando chega a ser feita de confiança exagerada em si mesmo, timidés e debilidade, torna-se defeito, que convêm combater.
O temor de cometer faltas, de errar, de ser humilhado, impede-nos de que nos manifestarmos, de nos acostumarmos a ser nós mesmos, aproveitar a experiência e afinal, cultivar-nos. Prudentes e modestos, sim; tímidos e timoratos, não! A modéstia é sinal e indício da verdadeira cultura.186
Por mais que a dica não mencione a palavra “beleza”, constata-se que a moral da modéstia é ressaltada como algo agradável aos costumes e à educação, e que a postura tímida e debilitada é, segundo o artigo, mais suscetível a decepções. Dessa forma, toma-se como “belo”
a prudência e a modéstia, e como “feio” a timidez, a soberba e a insegurança, reforçando a ideia de qual comportamento é mais admirável socialmente e qual é considerado mais condenável.
Outro exemplo de beleza e de feiura moral pode ser percebido no Anuário de 1951, no artigo
“Meninas mocinhas?”:
Eis o momento de velar sobre a sua filha, não deixá-la ao sabor da aventura, evitar-lhe contacto com o lado feio da existência. Também será imprudente deixá-la de parte, e, em assim sendo, permitir que a curiosidade se avive a torto e a direito. [...] A fórma pela qual a menina-moça vê a- primeiras realidades da existência, lê os livros de ciência, ouve e detém das conversações das pessoas grandes-, lê, aprecia as produções cinematográficas, importa especialmente na formação do espirito, e, o que é mais
185 MIGUEL, Raquel de Barros; RIAL, Carmen. op. cit., p. 151.
186 CULTURA e modéstia. Anuário das Senhoras, Rio de Janeiro: Sociedade anônima “O malho”, ano XIV, 1947. Anual, p. 12.
sério, no senso da moralidade. Aos 11 e aos 13 anos a menina é moralmente frágil.
Procure entendê-la, orientá-la, e terá fixado a mais sólida base para um bom futuro.187
O texto fala sobre os cuidados com as filhas moças, que os pais devem ensinar a moralidade e a ética, evitando a indecência e falta de educação. Percebe-se que o ensinamento dos cuidados e bons modos vão sendo ditados e construídos desde a infância, em que, pela forma que o texto se refere, a moralidade acerca da virgindade feminina se delineia. Relegar à revista o ofício de construtor de um habitus tão arraigado seria equivocado, pois é forte a herança religiosa e cultural estabelecida no território brasileiro desde o período colonial.
Entretanto, por mais que se trate de algo sedimentado socio-culturalmente no Brasil, a revista acabou por reproduzir esses estigmas e repassar para as mulheres leitoras a imagem da conservação, da preparação para o casamento e da figura feminina como um ser frágil e desamparado; além de tornar feio e sujo tudo o que conduzia a sexualidade feminina para fora dos estreitos padrões.
Aliar o entretenimento e o aprendizado da leitura parecia comum aos passatempos femininos do século XX, especialmente quando se fala das revistas. Essa forma de lazer em casa acabava servindo à manutenção da ordem tradicional existente, como mostra Raquel de Barros Miguel e Carmen Rial:
A leitura prendia a jovem e a senhora em casa; podia ser feita nos intervalos entre o preparo das refeições e praticamente em qualquer lugar com luz suficiente. Embora moralistas alertassem para o fato de que livros podiam “colocar minhocas” nas cabeças das mais tolas, era preferível tê-las entretidas dentro do lar que debruçadas nas janelas fofocando por aí, na melhor das hipóteses. Para contornar os perigos, bastava estar atento ao tipo de leitura acessível a elas.188
Pensando no Anuário como leitura feminina, a questão de utilidade aparece duplamente conectada tanto por ser uma revista quanto por possuir o caráter de livro, reunindo uma boa quantidade de conteúdo que poderia ser acessado a qualquer momento do dia, seja para instrução de uma receita, seja para passar o tempo nos artigos sobre as antigas monarquias. Esse tipo de leitura, “assim como as de outras revistas femininas, ajudavam a integrar as mulheres na sociedade urbana, divulgando modos e modas a serem seguidos e copiados”189.
Tomando a beleza como um tipo desses modelos a serem seguidos, têm-se a seguinte advertência:
187 MENINAS mocinhas? Anuário das Senhoras, Rio de Janeiro: Sociedade anônima “O malho”, ano XVIII, 1951. Anual, p. 226.
188 MIGUEL, Raquel de Barros; RIAL, Carmen. Lazer: programa de Mulher. In: PINSKY, Carla Bassanezi;
PEDRO, Joana Maria (orgs.). Nova História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2013, p. 151.
189 Ibidem, p. 152.
Cultura physica é indispensável. Qual de nós não pode dedicar vinte minutos a cultura physica? [...] Cada uma de nós deve-se interessar-se pela cultura physica, porque: As mulheres gordas precisam: emagrecer. As que praticam exercicios physicos e não conseguem reducção de peso, não sabem exercitar-se. As magras: devem engordar um pouco. Braços de flauta, pelancas, peito chato, espaduas pontudas – que lastima!
Exercícios lentos são indicados. As meninas em idade de se casar não se devem ater a que os homens preferem as loiras, e sim que elles apreciam mulheres bem-feitas, embora de rosto sem traços de acentuada formosura. As mulheres casadas: devem saber que exercício physico é um terreno admirável para o bom humor. Depois, durante a prática do mesmo, que se ajudem, marido e mulher. Depois, só se ouve: - Como elle é forte - Que flexibilidade a do corpo de minha mulher! Os que têm um pesar: encontram a alegria de viver no exercício physico. Creanças, gente moça, gente menos moça... pratiquem o exercício physico. o exercício physico sustenta a mocidade impedem que as mulheres vivam a se lamentar de achaques intestinais tão comuns ao sexo, e de outros incommodos que se queixam frequentemente. O exercício physico ainda produz clareza na pélle, brilho nos olhos, belleza em geral.190
O artigo “Cultura physica”, do Anuário de 1934, mostrou um pouco da ebulição dos esportes e dos cuidados com a saúde fomentados no decorrer do século XX, destacando a importância da prática de exercícios que ajudaram no bem-estar de homens e mulheres.
Entretanto, é a forma como essa informação foi transmitida às leitoras que nos serve de análise, já que o texto ressalta aspectos negativos da fisionomia feminina, tanto de mulheres gordas quanto de mulheres magras, utilizando-se do argumento de agrado do marido ou dos pretendentes para aquelas “em idade de se casar”. Torna-se perceptível a construção do entendimento de que a mulher precisa satisfazer, recepcionando a noção de beleza saudável que estava adentrando o período, para atrair ou se destacar perante o sexo masculino.
Além disso, o texto deixava evidente o ideal de beleza da mulher “bem-feita”, exercitada, flexível, não muito magra e nem gorda, bem como destacou, por aversão, a noção de feiura da gordura e da magreza. Esse exemplo se repete quando se observa o artigo “Beleza dos olhos”, publicado em 1942:
Se os olhos estão vermelhos lacrimejantes, estriados de pequenos vasos sanguíneos, não podem ser bonitos. Torna-se necessário tratá-los com um banho apropriado. Se as pálpebras estão inchadas, eis outro inconveniente. Compressas quentes, com um produto indicado, corrigem o mal, sendo aplicadas pela manhã e à noite.
Desempenhando papel importante na beleza dos olhos e na expressão fisionômica, as sobrancelhas devem ser depiladas com critério e arte, depois lustradas com matéria graxa. Os cílios sempre tratados com cuidado, aplicando-se cosméticos de bôa marca, discreto para de dia, azul, verde ou violeta para à noite. Se V. possúe cílios longos, fartos, sedosos use apenas óleo de rícino. Uma suspeita de tinta nas palpebras durante o dia. acentuada à noite, dá muito brilho ao olhar. É preciso escolher, porém, um ton de tinta que vá com a côr dos olhos, sendo recomendável às mulheres naturalmente olheiradas de não usarem o galante artificio, pois só lucrariam em parecer mais idosas.
190 CULTURA physica. Anuário das Senhoras, Rio de Janeiro: Sociedade anônima “O malho”, ano I, 1934.
Anual, p. 199.
Poucas mulheres sabem "fazer" os olhos, pois sempre mancham as palpebras. Convém ter a mão um pouco de équa quente e crême para retirar a tinta supérflua.191
Novamente, no artigo do Anuário de 1942, a revista exibiu uma percepção do que é belo ou não para as mulheres. Mas, dessa vez, o foco se encontrava na área dos olhos, que não deveriam se aparentar descuidados de tratamentos tópicos ou de maquiagem que auxiliassem no embelezamento. Todos esses recursos acabavam por delinear um aparelhamento de “certo e errado” para as mulheres da época, moldando a conduta da mulher em procurar andar sempre arrumada e com impecável aparência, mesmo o “defeito” sendo um traço natural ou que ocorra eventualmente em qualquer ser humano.
Ainda na revista de 1942, é possível perceber outra convenção de beleza (estética), na qual se destaca, pelo traço inverso, a feiura:
A mais bonita silhueta feminina pode, desgraçadamente, ser mutilada por um par de feias pernas. Numerosas são as mulheres que não ousam usar um “short" ou um
“maillot”, pesarosas de não fruir aquilo que muitas frúem. [...] Recorrer á massagens que se podem fazer com a ajuda de um rôlo de borracha; usar banhos de luz, os quais
“maillot”, pesarosas de não fruir aquilo que muitas frúem. [...] Recorrer á massagens que se podem fazer com a ajuda de um rôlo de borracha; usar banhos de luz, os quais