4.2 A MULHER E O CORPO PERFEITO
4.2.4 Ventre
O Anuário das Senhoras salientou vários registros de feiura da barriga. Alguns deles se localizavam no entremeio a dois extremos: a gordura e a magreza excessiva, como pode-se analisar abaixo:
Tal qual a gordura excessiva, a magreza é um dos inimigos da beleza. Se um excesso de banhas toma ridícula uma silhueta, a magreza trás, ao passar a juventude, um aspecto anguloso e apergaminhado, difícil de combater. Muitas jovens demasiadamente magras apresentam uma fisionomia sem vivacidade e um corpo onde as linhas retas tiraram toda feminilidade. Um regime apropriado diz com que em pouco tempo os ossos fiquem recobertos por músculos e carne e que todo o aspecto ganhe em frescura. [...] Não precisa haver horas certas para as refeições, pois sempre que se tiver vontade deve-se comer. [...] Com este regime não há pessoa que não engorde. Em caso contrário, é interessante procurar ouvir o conselho de um médico, pois muitas vezes a magreza pode ser causada por uma enfermidade interna.296
Apesar disso o texto enfocava especialmente a questão da magreza como algo feio e que deveria ser modificado com a ajuda de exercícios e muita alimentação. Sendo então as curvas um sinônimo de beleza para as mulheres da época, a magreza representava feiura por deixar mulher sem curvas e, consequentemente, sem feminilidade. O mesmo valia para as mulheres gordas, que estariam no outro extremo do que seria visto como antifeminino.
Nada pior para a silhueta e para a saúde do que as merendas suculentas, essas’ ‘horas do chá’, com doces, pastas, cremes em abundância. A merenda deverá ser um grande copo de suco de frutas, um dia, no outro um copo de leite gelado, no outro uma taça de chá açucarado, no outro um pouco de café com duas torradas, com doce, sem manteiga. A vitalidade será assombrosa! Fazer exercícios sem método não traz nenhuma vantagem. Em primeiro lugar, regularize a ginástica, fazendo todos os dias dez minutos, a qualquer hora da manhã. [...] Isso será o bastante para reduzir as cadeiras e manter a silhueta esbelta e ágil. Se você é uma pessoa muito trabalhadora, com o tempo sumamente ocupado [...]. Faça espuma. Estenda-se o mais possível. E fique quinze minutos. Os nervos se tranquilizarão, todos os músculos relaxarão e seus movimentos e gestos serão suaves, doces, deliciosamente femininos. 297
Para ser atingido o “corpo perfeito” era necessário que fosse cortado todo e qualquer tipo de gordura pensando sempre em uma forma de manter ou conseguir a meta da magreza como algo obrigatório no desenvolvimento da mulher. Além da restrição de alimentos, o ideal era realizar atividades que auxiliassem no aperfeiçoamento da silhueta, para que esta estivesse sempre esbelta e ágil, como diz o autor(a). Assim como é trazido um conceito de beleza, há
296 MAGREZA. Anuário das Senhoras, Rio de Janeiro: Sociedade anônima “O Malho”, ano XIV, 1947, p. 273.
297 QUEM se conserva sã mantem-se formosa. Anuário das Senhoras, Rio de Janeiro: Sociedade anônima “O Malho”, ano XIV, 1947, p. 220.
ainda uma definição de como deveriam ser os comportamentos de uma mulher: delicados e cautelosos, que só acabavam por enunciar a feiura da gordura, da deselegância e do desleixo.
A gordura como feiura também aparecia nas revistas dos anos anteriores, de 1934, 1936, 1944 e 1945, respectivamente:
Aos vinte annos, engordo; aos vinte e um a costureira se alarma com o progresso da minha gordura; aos vinte e dois é a vez do alarme dado minha faceirice; só assim retomei com perseverança os exercícios da adolescência. [...] Cada uma de nós deve se interessar-se pela cultura physica, porque: as mulheres gordas precisam: emagrecer.
As que praticam exercício physico e não conseguem reducção de peso, não sabem exercitar-se. As magras: devem engordar um pouco. Braços de flauta, pelanca, peito chato, espaduas pontudas – que lastima! Exercícios lentos são indicados. As meninas em idade de se casar não se devem ater a que os homens preferem as loiras, e sim que eles apreciam mulheres bem feitas, embora de rosto sem traços de acentuada formosura. As casadas: devem saber que o exercício physico é um terreno admirável para o bom humor. [...]. O exercício physico sustenta a mocidade [...] ainda produz clareza na pelle, brilho nos olhos, belleza em geral. 298
O artigo, de 1934, falava a respeito dos exercícios físicos como fonte de beleza do corpo e da alma, da infância a melhor idade. Tomando por base uma entrevista Marcelle Anclair299, o texto aponta que o exercício seria bom para as mulheres gordas e magras, colocando mais uma vez a beleza do corpo feminino no meio termo do peso. No entanto, o peso da feiura risível recai sobre as mulheres magras: na descrição dos “braços de flauta, do peito chato e da espadua pontuda”. Além disso, coloca esse tipo de beleza corporal como uma forma de atrair parceiros já que eles preferiam as “bem-feitas”, relegando novamente a postura disforme dos corpos gordos e magros.
Lembra-te que os gregos, cuja reputação de bellleza veiu até nós, se occupavam desde a mais tenra edade a cultivar a belleza do corpo e aperfeiçoar a do espírito. Sê esportiva por prazer, e sem excesso, não penses em concursos, mas na alegria dos movimentos.
Alimenta e desenvolve os teus músculos. Aprende que a melhor para sustentar os órgãos femininos é a dos músculos abdominais, que pelos teus esforços podem se tornar invencíveis. [...] Habitua-se ser graciosa. Passa cada dia um momento deante do espelho a mirar-te, anda sorri, cumprimenta, faze os gestos habituaes do braço, das mãos... [...]. Torna flexível teu corpo, para que seja esbelto, que o teu andar possua a elasticidade adquirida pelo exercício constante. Tua alma joven, fresca e bella, deve viver em um corpo são e harmonioso. És a esperança. Cultiva tua beleza. Sê linda de corpo. Sê lindíssima de espirito. 300
298 CULTURA physica. Anuário das Senhoras, Rio de Janeiro: Sociedade anônima “O Malho”, ano I, 1934, p.
199.
299 Nenhuma ocorrência pelo sobrenome “Anclair” foi encontrada. Contudo, há definições acerca da romancista,
biógrafa, jornalista e poeta francesa, Marcelle Auclair (1899-1983).
300 BLONDELL, Joan. A belleza e o espelho. Anuário das Senhoras, Rio de Janeiro: Sociedade anônima “O Malho”, ano III, 1936, p. 98-99. Joan Blondell (1906-1979) foi uma atriz estadunidense que estrelou nos cinemas e na televisão.
Já no segundo, de 1936, abordava a conservação da mocidade corporal e mentalmente, que deveria ser treinada no espelho. Os exercícios para a barriga, o sorriso, as gesticulações e a flexibilidade apareciam como pontos altos de beleza, juventude e harmonia. Por meio desses traços, torna-se possível entrever como feio a barriga mole, a imaleabilidade e a desarmonia, que por sua vez não combinavam com o espírito que se dizia ser feminino ou de feminilidade.
A proposta da mulher flexível também aparecia no artigo de 1944:
Conservar a beleza, a mocidade, a flexibilidade e a ‘elegância’ é para uma estrela, questão de vida ou morte. Se, de um dia para o outro, uma estrela engorda, se a pele perde a frescura, deve imediatamente natureza de seus papeis, algumas vezes mesmo renunciar a representar. 301
Junto da juventude, da magreza e da frescura, o texto alertava para os riscos que as estrelas de cinema corriam ao perder tais atributos. Como uma forma de fomentar nas leitoras a semelhança com a vida das atrizes hollywoodianas, colocou-se como feiura estar gorda e a perda de elegância e da frescura que ela acarretava. Da mesma forma, o artigo de 1945 apontava para contenção da barriga os exercícios que ajudariam a fortalecer os músculos:
Um ventre proeminente é sempre consequência de músculos relaxados. [...]
Infelizmente a vida atual priva-nos do mínimo de exercício necessário a manter a saúde em perfeito estado. As cintas constituem invenção de civilizados. Elas representam papel que deveriam representar os nossos músculos, se não estivessem atrofiados, dos quais não solicitamos o mínimo esforço, esquecidas deles. A natureza nos deu um cinturão de músculos, que normalmente sustem os intestinos. Para manter os intestinos no lugar justo, esse cinturão deve ser forte e resistente. Faça, pois, uma ginástica regular e séria. 302
Assim, era considerado feio o relaxamento da barriga que deveria se utilizar da cinta natural do corpo, o abdômen, e não das cintas inventadas por “civilizados”. A preocupação com o ventre ainda era algo a ser percebido nos anos de 1953 e 1957. Em 1953, observou-se na revista dicas de Hollywood para conservação da beleza e da juventude:
Quer ter sempre a aparência jovem e bela? Eis alguns dos conselhos dos técnicos e das girls de Hollywood. Para conservação e aumento da beleza são necessários alguns cuidados especiais, que dão trabalho, naturalmente... Não são aconselháveis os exercícios excessivos para obter e conservar uma plástica perfeita; a prática inteligente de sports e o controle da alimentação são essenciais. Isso garantirá quadris bem proporcionados, linhas sinuosas, músculos firmes e agilidade.303
301 SEGREDOS de beleza. Anuário das Senhoras, Rio de Janeiro: Sociedade anônima “O Malho”, ano XI, 1944, p. 74, 75, 96.
302 SEIS meses de ginástica e a barriga desaparecera. Anuário das Senhoras, Rio de Janeiro: Sociedade anônima
“O Malho”, ano XII, 1945, p. 114-115.
303 APARENCIAS. Anuário das Senhoras, Rio de Janeiro: Sociedade anônima “O Malho”, ano XX, 1953, p.
205.
Focando no aspecto saudável da perda de peso, o texto recomenda atividades físicas e alimentação equilibradas, que ajudariam a fugir dos quadris largos, das formas retas do corpo, dos músculos flácidos e da preguiça.
Num tom bastante explícito e um tanto pejorativo, o texto de 1957 colocava como sinônimo de feiura os corpos gordos:
O remédio para impedir o excesso de peso é simples e aplicável de modo geral. [...]
engordar significa exatamente possuir banha em excesso, que se introduz no corpo por meio de quantidade de nutrição superior a necessária. [...] a gordura é feia porque envelhece tira a elegância de porte e afeta a saúde. [...] Regime fácil de seguir. Coma assim moderadamente e somente às refeições, abstendo-se de “beliscar” durante outras horas. O que aí fica com as regras higiênicas tão comuns, tão salutares, ajudará a leitora a apresentar-se elegante, harmoniosa de corpo e espírito. 304
O excesso de peso ligava a mulher à feiura, dando a ideia de que, para que houvesse não somente a saúde mental quanto a física, era estritamente necessário que todas as mulheres fossem “bonitas”: de uma forma que a própria sociedade impunha, e não como elas se sentissem realmente bem e belas. Percebe-se, então, que a feiura da gordura parece algo perene na revista.