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5 UBUNTU: “QUEM SOMOS”?

5.4 UNIDADE E CONTUNIDADE ENTRE OS TRÊS TEMPOS

Quanto a relação entre os três tempos: o presente, o passado e o futuro, o Capítulo II: Metamorfoses do renascimento de Moçambique, do livro Por uma dimensão moçambicana da consciência histórica, trata deste tema. Retomamos, então, rapidamente a argumentação de Ngoenha no capítulo I da obra, para logo analisar a relação entre os três tempos: “Todos reconhecemos que o nosso passado remoto está já caduco415, como também caducou o nosso passado próximo416, sem que o futuro constitua lugar de esperança417 a uma verdadeira consciência histórica”418.

Evidentemente, todo o problema é de querer saber que devo esperar, que corresponde a questão metafísica kantiana. Mas essa ambição da filosofia kantiana, possível ou não, basta para explicar a fascinação que ela pode exercer na filosofia africana de Ngoenha. Voltar a esta questão kantiana significa para o povo africano voltar a ter esperança depois dos passados caducos. Na verdade, o que o homem moçambicano espera é aprender a viver junto depois de tantas guerras, a tentar responder filosoficamente à questão de Kant sobre que é o homem para nunca considerar um outro homem como objeto, coisa manipulável, mas aprender a respeitar nele a humanidade e tratá-lo como sujeito, como ser razoável.

Daí decorre a principal preocupação da filosofia africana de examinar a categoria da temporalidade como possibilidade de compreensão do pensamento histórico, ético-político da

415 No governo colonial, em 1928, o Estado Novo em Portugal acabou. 416 O socialismo e o comunismo acabou, o monopartidarismo também.

417 Essas são as razões que levaram Ngoenha a escrever a sua Filosofia Africana – das independências as liberdades. Nessa obra Ngoenha tenta devolver a esperança aos moçambicanos apelando para que os homens tomem consciência de que os fatos são aquilo que homens fizeram. Com isso, cada homem deve assumir a responsabilidade de sua história e de seu futuro. Há uma continuidade na obra de Ngoenha, pois os temas de democracia, desenvolvimento, liberalismo são retomados desenvolvidos em Filosofia Africana – das independências às liberdades [2014, (1993)] e na Terceira Questão – que leituras se pode fazer das recentes Eleições Presidenciais e Legislativas? Em todo seu projeto/obras, o lema é a esperança de que “a filosofia torna possível a vida do homem, porque permite imaginar e projetar o futuro e enfrenta-lo” (NGOENHA, Severino Elias.

Filosofia Africana - das independências as liberdades. Porto Velho: Paulinas Editora, 2014, p. 11).

África real. Trata-se da possibilidade de compreensão da relação de unidade e continuidade dos três tempos.

Exatamente esta relação de unidade e continuidade entre o passado, o presente e o futuro que obriga a Ngoenha tentar levar o homem à consciência histórica, consequentemente, a aceitar a filosofia do agora, sem negligenciar o ainda não consciente, principalmente o sonhar para frente num momento pós-colonial em que se acreditava que a realidade do tempo presente está cheia de passado (de problemas de fome, pobreza e desigualdades sociais). Essas reflexões refletem necessariamente o interesse dos moçambicanos não apenas em “aprender a esperar” (Bloch) ou a sonhar um mundo melhor, mas aprender a viver juntos.

Tornar legítima a afirmação de Ngoenha de que “A questão do querer-viver coletivo requer a determinação dos próprios povos. Ela dirige-se ao âmago das suas consciências, no interior das suas almas”, passa também pela relação tensa entre a filosofia e a política. Essa relação abriga a peculiaridade da compreensão ngoenhiana de política. Uma interação que mereceu de Severino Ngoenha vários textos dedicados a esse tema sendo também uma questão em vários momentos de seus livros em que o “consensus” é visto como condição indispensável para solucionar o conflito político-militar e permite alcançar a paz. A Terceira Questão – Que leituras se pode fazer das recentes eleições presidenciais e legislativas? (2015) Ngoenha retoma essas condições.

Esta retomada vem reatar-nos ao fio principal do Prefácio da Terceira Questão em que somos confrontados com um fato incontestável como Thomas Kesselring escreve: “Esta obra, então, fala do Moçambique actual. Mas o autor apresenta um estudo sobre as condições que garantem a convivência pacífica entre os diferentes grupos sociais, políticos, étnicos, etc.”419

Podemos ainda especular sobre a proximidade entre a Filosofia Africana de Ngoenha com a filosofia do tempo da consciência em Comte-Sponville e Santo Agostinho. Ambos dizem justamente que há três tempos: o presente do passado, o presente do presente, o presente do futuro. Porque essas três formas de tempo existem no nosso espírito, e não noutro lugar. Quer

419 NGOENHA, Severino Elias. Terceira Questão – que leituras se pode fazer das recentes eleições presidenciais e legislativas? UDM, Maputo, Moçambique, 2015, p. 13. Esta passagem é retirada do nosso artigo conjunto escrito por mim e celestino. Para mais informações cfr. SOUZA, Ricardo Timm de; RODRIQUES, Ubiratane de Morais (Org.), Ernest Bloch: utopias concretas e suas interfaces, vol. 2. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2016, p. 108, nota 46.

dizer o presente do passado é a memória, o presente do presente é a intuição direta, “o presente do futuro, é a esperança”420.

Os dois aspectos da teoria do tempo de Ngoenha, discutidos anteriormente, a unidade e a continuidade dos três tempos, constituem a base da sua ontologia do presente. Além desses aspectos essenciais, há duas relações adicionais na abordagem de Ngoenha, que são particularmente relevantes nos debates contemporâneos. A primeira é um aspecto da definição crucial para a defesa da viabilidade do seu presentismo, da sua filosofia do agora: “o futuro é hoje”.

Embora Ngoenha não desenvolva uma argumentação explícita em favor da análise presentista da ação, pressupõe-na bastante obviamente. Esse aspecto da abordagem de Ngoenha presta-se especialmente a uma comparação com a definição de Margaret Mead. A partir do ponto de vista da sua utilidade para a utopia concreta e futurologia, um dos grandes méritos da filosofia de Ngoenha é a sua capacidade de estender o seu método filosófico a práxis (Marx)421. O fato de Ngoenha exemplificar o modo como o método prático pode utilizar-se na filosofia constitui, portanto, um argumento importante em favor da sua utopia, não abstrata, mas concreta.

O último aspecto da teoria de Ngoenha, que é relevante para os debates contemporâneos na história e na filosofia africana, implica outro elemento do seu pensamento para o qual ele oferece uma definição explícita. Ao longo da sua obra, Por uma dimensão da consciência histórica moçambicana, Ngoenha alude brevemente a sua posição (husserliana) de que “o presente é investido do passado”422. A sua maior aproximação de um argumento a favor dessa definição pode encontrar-se nesse conceito husserliano de presente ligado ao passado:

Pode-se dizer que o passado é a via mestra para pensar o futuro, pois este último já está escrito no primeiro423. Na unidade e na continuidade essenciais do tempo, o presente é um

420 COMTE-SPONVILLE, André. L’être-temps: Quelques réflexions sur le temps de la conscience. Paris: Presses Uninversitaires de France, 1999, p. 21-22.

Corresponde à questão kantiana que devo esperar que é a questão metafísica, Em o Barrometro da Educação Básica em Moçambique, trata-se de aprender a viver juntos tido como terceiro pilar da questão da formação personalidade filosoficamente e umbilicalmente derivada da questão de Kant sobre que é o homem? (VV, 2012, p.72).

421 NGOENHA, Severino Elias. Terceira Questão – que leituras se pode fazer das recentes eleições presidenciais e legislativas? UDM, Maputo, Moçambique, 2015, p. 69.

422NGOENHA, Severino Elias. Por uma dimensão moçambicana da consciência histórica. Porto: Edições Salesianas, 1992, p. 80.

423 NGOENHA, Severino Elias. Por uma dimensão moçambicana da consciência histórica. Porto: Edições Salesianas, 1992, p. 30.

passado potencial e o futuro, um presente potencial, tal como o passado teve consigo os germes do futuro424.

Comte-Sponville, em um procedimento que lhe é característico, põe em destaque as teorias que justificam as relações de unidade e continuidade dos três tempos. Na sua obra, L'être-temps: Quelquesréflexionssurletemps de la conscience, pode-se assinalar em diferentes níveis de compreensão da questão da relação entre passado, presente e futuro. Nela, Comte- Sponville procura defender que o “Que só o presente existe”425, essa posição não é uma razão para ser infiel ao passado, pois o presente é investido pelo passado. Não é também para desinteressar-se do futuro, pois, na unidade e na continuidade do tempo, o futuro é um presente potencial.

Essa posição tem uma importância especial para a discussão de um conhecimento moral e filosófico, pois é onde a metafísica toca a ética e um dos desafios principais, para nós, da pergunta do tempo. Com isso, deixa transparecer em seu pensamento que viver ao presente não é viver no momento/instante. “Porque o presente dura: é o que se chama o tempo, é isso que esse filósofo francês tentou compreender”426.

Essa posição é central para estabelecer a viabilidade dessa posição, é o argumento de que as duas posições de definição do presente e do passado que Ngoenha identificou estão intimamente ligadas à ideia Comte-Sponvilliana de que “o presente dura”. E uma compreensão apropriada dessa conexão é fundamental para aferir-se o significado filosófico da expressão que afirma que o presente dura. O que significa essa expressão para nós, africanos, em particular, moçambicanos?

A resposta de Ngoenha sobre essa questão (o que significa o presente dura?) tem várias interpretações. Primeiro, pretende-se ilustrar que, ao determinar o significado dessa expressão, os defensores da ontologia do presente, entre eles Foucault, não ignorem os sentidos compartilhados que constituem a compreensão social e histórica do tempo específico do autor com as intenções subjetivas do autor.

424NGOENHA, Severino Elias. Por uma dimensão moçambicana da consciência histórica. Porto: Edições Salesianas, 1992, p. 56.

425 COMTE-SPONVILLE, André. L’être-temps: Quelques réflexions sur le temps de la conscience. Paris: Presses Uninversitaires de France, 1999, p.6.

426 COMTE-SPONVILLE, André. L’être-temps: Quelques réflexions sur le temps de la conscience. Paris: Presses Uninversitaires de France, 1999, p.6.

Desse modo, é possível mostrar que o presente dura em Ngoenha não implica “reabilitar valores de civilizações por muito tempo desconhecidas ou ignoradas, devido a uma experiência humilhante comum, como foi o colonialismo”427. Como a exposição precedente estabeleceu, Ngoenha, tal como Ki-Zerbo, defende que o importante nesta questão é procurar qual a melhor maneira de pensar e de solucionar o que dura no presente e que pode afetar negativamente o futuro do povo moçambicano. A melhor maneira para pensar o significado do termo “presente dura” é a utopia. Ela ajuda o homem a identificar e solucionar aqueles problemas do passado histórico do povo moçambicano que duram no tempo presente.

O que a análise da questão de “o presente dura” requer, defende Ngoenha, é que se faça uma reflexão sobre as repostas a dar aos problemas fundamentais de Moçambique. Neste sentido, a expressão “o presente dura” em Moçambique refere-se ao tempo da passagem da guerra à independência. Também significa o tempo da passagem das independências às liberdades, da guerra civil dos 16 anos ao Acordo Geral de Paz assinado em Roma em 1992. Essas épocas não permitiram ao homem a possibilidade de recuar necessariamente para o passado, de modo a identificar o que dura no tempo presente nas relações com o passado e, principalmente, com o futuro.