• Nenhum resultado encontrado

A velocidade do catch-up foi mais rápida no setor moderno ou no setor

4.5 RESULTADOS: DECOMPOSIÇÕES DO CATCH-UP TECNOLÓGICO

4.5.4 A velocidade do catch-up foi mais rápida no setor moderno ou no setor

Até agora se investigou como evoluiu o gap tecnológico dos países em relação à fronteira tecnológica, avaliando a dinâmica do setor moderno. Uma última questão que permanece em aberto é se a taxa de catch-up desses países é maior no setor moderno ou no setor tradicional de suas economias. Isso se mostra relevante, pois acarreta implicações sociais e econômicas importantes para o processo de desenvolvimento da economia como um todo. O progresso técnico, ou seja, uma aproximação mais rápida frente ao setor moderno do líder mundial, tende a gerar maiores benefícios para a população em geral em termos salário,

-10 -8 -6 -4 -2 0 2 4 6 8 10 12 14 16

emprego e bem-estar comparativamente a uma redução do gap tecnológico no setor tradicional139.

O Gráfico 4.15 permite identificar o diferencial de produtividade entre os setores tradicionais e modernos (além da economia como um todo, sem discriminação do tipo de atividade) das 17 economias. Como era de esperar, o setor moderno é muito mais produtivo que o setor tradicional. Observando especificamente o caso do Brasil, nota-se que o nível de produtividade do setor tradicional de alguns países é, em alguns casos, mais elevado do que o nível de produtividade do setor moderno brasileiro140.

Gráfico 4.15 – Evolução anual das produtividades dos países por tipo de setor, 1950-2011

Nota: PROD = Produtividade do trabalho (U$ mil PPPs setoriais de 2005).

Assim como na decomposição do gap tecnológico do setor moderno, também definiu- se os Estados Unidos como a fronteira mundial do setor tradicional. Para cada atividade do

139 Conforme argumentado no Capítulo 2, a mudança estrutural e a difusão tecnológica tendem a gerar

oportunidades de emprego em setores de maior produtividade, estimulando uma maior taxa de participação e uma menor taxa de desemprego e informalidade, acarretando efeitos positivos na redução da pobreza e da desigualdade. Entretanto, não existe transformação estrutural virtuosa com a mera multiplicação de “enclaves” de alta tecnologia ou se somente há mudanças na ponta mais eficiente do sistema produtivo.

140 Isso pode ser observado com mais precisão no Gráfico B.4 do Apêndice B. Nele também é possível observar

que a produtividade da China no setor moderno e no agregado ultrapassou a brasileira no final dos anos 2000. Também é possível verificar que a produtividade da Coreia do Sul era menor ou igual que a brasileira até o final dos anos 1980 e que, posteriormente, houve um significativo descolamento da produtividade dos dois países.

setor tradicional a produtividade foi calculada com base em PPPs setoriais, seguindo os mesmos procedimentos para o cálculo das produtividades setoriais do setor moderno. O Gráfico 4.16 expõe os resultados do gap de produtividade do setor moderno e do setor tradicional em relação à economia aos Estados Unidos para cada um dos 17 países avaliados.

Gráfico 4.16 – Evolução anual das taxas de crescimento do catch-up (%), em média móvel de 5 anos, por tipo de setor, diversos períodos

Notas: Linhas horizontais delimitam o eixo zero. Escalas específicas para cada economia.

O referido gráfico apresenta comportamentos bastante distintos entre as economias e dentro delas (dependendo do período avaliado). Porém, alguns padrões podem ser verificados. De forma geral, apreendem-se movimentos sincronizados entre a evolução dos valores do setor moderno e do setor tradicional para grande parte dos países, em especial, naqueles mais desenvolvidos (exceção feita à Suécia). Em segundo lugar, a evolução dos valores dos países latino-americanos é mais volátil relativamente às demais economias. Outro ponto de destaque consiste em processos de catch-up mais rápidos do setor moderno do que o setor tradicional nas economias avançadas e nas economias asiáticas e o oposto nas economias em desenvolvimento (apesar de que em períodos específicos o setor moderno se aproximou mais rápido da fronteira do que o setor tradicional nessas economias). Adicionalmente, enquanto os valores foram, de forma geral, positivos ao longo de grande parte do período nas economias desenvolvidas e nas asiáticas, nas demais economias eles frequentaram períodos prolongados na zona negativa. Nesse particular, todavia, nota-se uma tendência de desaceleração do

catching-up das economias avançadas, sobretudo a partir de meados dos anos 2000. Por outro

lado, nota-se uma tendência ascendente das economias em desenvolvimento a partir de meados dos anos 2000 em ambos os setores141.

4.6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente capítulo teve por objetivo investigar as trajetórias de desenvolvimento de diversas economias observando duas dimensões fundamentais para uma nação alcançar níveis mais elevados de renda e bem-estar: o tamanho do setor moderno (λ) e a distância da fronteira tecnológica (ρ). A partir de um índice que conjuga as referidas dimensões (Ω), avaliaram-se os benefícios de tal modernização estrutural das economias e os riscos de estagnação produtiva e tecnológica da falta dessa modernização. Posteriormente, investigou-se mais de perto como se deu a dinâmica da evolução do gap tecnológico dessas economias e a contribuição das atividades dentro do setor moderno para o estreitamento ou ampliação da brecha tecnológica. Tudo isso foi feito com um olhar para o setor moderno, o que permitiu identificar alguns padrões de mudança estrutural e como eles impactaram o nível de produtividade relativa (em relação à fronteira) e a dinâmica do catch-up desse setor ao longo do tempo.

De forma geral, observou-se que algumas economias que conseguiram elevar seus níveis de renda per capita e entrar em outro grupo de renda mais elevado (notadamente as asiáticas) passaram por um processo de modernização estrutural consubstanciado tanto na redução do gap tecnológico em relação à fronteira tecnológica quanto no tamanho do seu setor moderno, embora em diferentes intensidades. Já no caso dos países mais desenvolvidos, apesar de uma relativa estagnação no crescimento do setor moderno (e mesmo redução, o que é relativamente normal para países com níveis de renda muito elevados), o processo de redução do gap tecnológico continuou em vigor. Por outro lado, para os países latino- americanos e a África do Sul, embora o setor moderno venha absorvendo mais trabalhadores com o passar do tempo, o processo de catching-up não foi sustentado, apresentando momentos de redução do gap e outros momentos de ampliação do mesmo. Os resultados encontrados sugerem que para uma economia lograr sucesso em sua trajetória de

141 A Tabela B.2 em Apêndice apresenta as taxas médias anuais de catch-up do setor moderno, do setor

tradicional e do da economia como um todo (sem distinguir por setores) dos 17 países por décadas e no período completo.

modernização estrutural, ela deve avançar, ao mesmo tempo, nas duas dimensões analisadas, sob o risco de não atingir o potencial que a mudança estrutural e o catch-up tecnológico têm a oferecer em termos de renda e bem-estar. Essas dinâmicas de crescimento do setor moderno, do gap tecnológico e da modernização estrutural podem ser observadas na Tabela 4.6, a qual expõe as taxas de crescimento dessas variáveis em dois períodos que compreendem anos em comum a todos os países elencados.

Tabela 4.6 – Taxa média de crescimento anual (%) de Ω, ρ e λ por país em períodos selecionados

GRUPOS E PAÍSES 1972-1980 1981-2009

Ω ρ λ Ω ρ λ

Economias avançadas 2,0 2,2 -0,2 0,1 0,3 -0,2

KOR Coreia do Sul 7,4 2,2 5,1 3,2 2,3 0,9

SWE Suécia 0,8 1,9 -1,0 1,8 2,1 -0,3 GBR Reino Unido -0,9 0,5 -1,4 0,3 1,3 -1,0 JPN Japão 2,7 2,6 0,1 -0,2 0,1 -0,3 FRA França 1,4 2,1 -0,7 -0,6 -0,1 -0,5 DNK Dinamarca -0,7 1,0 -1,7 -0,7 -0,5 -0,2 ESP Espanha 2,0 2,9 -0,9 -0,9 -0,5 -0,4 NLD Holanda 1,9 3,4 -1,4 -1,0 -0,9 -0,1 ITA Itália 3,3 3,2 0,1 -1,3 -1,2 -0,1 Economias emergentes 3,0 1,5 1,6 0,6 -0,1 0,7 CHN China 5,6 0,2 5,5 7,9 5,9 1,8 IND Índia 0,6 1,0 -0,3 3,4 1,0 2,3 IDN Indonésia 7,1 3,9 3,1 0,6 -0,5 1,3 CHL Chile 0,5 1,3 -0,8 0,2 -0,2 0,5 ARG Argentina 1,0 0,8 0,3 -1,4 -0,7 -0,7

ZAF África do Sul 1,4 0,6 0,8 -1,6 -1,2 -0,4

MEX México 2,3 0,3 2,0 -2,3 -2,8 0,4

BRA Brasil 5,6 3,7 2,0 -2,4 -2,7 0,3

Notas: Os países estão classificados, dentro de cada grupo, por ordem decrescente de Ω no período 1981-2009. λ é o tamanho do setor moderno, ρ é a distância da fronteira tecnológica (quanto maior, menor a distância em relação à fronteira) e Ω o índice de modernização estrutural.

Os resultados do Brasil chamam a atenção, pois o mesmo registrou a terceira maior taxa de crescimento de modernização no primeiro período e o pior resultado no segundo período, por conta de distintas dinâmicas da sua evolução produtiva e tecnológica nesses períodos. Enquanto a economia brasileira passou por um processo vigoroso de modernização e catching-up até 1980, passou a uma situação clara de falling behind posteriormente.

5 HETEROGENEIDADE SETORIAL, PADRÕES DE CONCENTRAÇÃO E DECOMPOSIÇÃO DO CATCH-UP TECNOLÓGICO: UMA ABORDAGEM DESAGREGADA NO PERÍODO 2000-14

5.1 INTRODUÇÃO

No Capítulo 4, a taxa de catch-up tecnológico de dezessete economias foi decomposta em sete termos, o que permitiu verificar como evoluiu e quais fatores que contribuíram para o resultado agregado. As estimações foram feitas a partir da GGDC 10-Sector Database para um período bastante longo (1950-2010) para os países em que a Productivity Level Database dispõe de PPPs setoriais. Isso é particularmente importante, pois as decomposições são realizadas para o setor moderno da economia, isto é, das dez atividades da base de dados, identificou-se aquelas que a literatura indicava como as mais capazes, ou com maior potencial, de puxar o crescimento da produtividade agregada, notadamente a indústria e os serviços tradables (seis atividades no total).

Contudo, conforme apreendido no Capítulo 2, os resultados de exercícios de decomposição podem ser afetados pelo nível de desagregação dos dados, o que resulta em recomendações de utilizar abordagens com a maior desagregação possível. Ademais, as referidas atividades modernas são heterogêneas por natureza, acabando por esconder algumas fontes importantes para a dinâmica da produtividade e do catch-up como, por exemplo, o processo de mudança estrutural em direção a atividades com produtividade mais elevada

dentro do setor moderno, o que deve ser considerado quando se analisa essas questões.

Em assim sendo, o objetivo do presente capítulo consiste em realizar as decomposições apresentada no Capítulo 4, mas a partir de uma base de dados muito mais desagregada: a World Input-Output Database (WIOD). As Contas Socioeconômicas da referida base dispõem de informações de 56 atividades econômicas para 40 países no período 2000-14. Assim procedendo, pretende-se identificar e captar as heterogeneidades existentes dentro do setor moderno da economia com maior precisão, permitindo analisar com mais profundidade os determinantes do gap tecnológico das economias, com especial atenção ao desempenho da economia brasileira. Entretanto, diferentemente do Capítulo 4, também investiga-se, além do setor moderno da economia, o setor tradicional e a economia como um

todo com o intuito de aprofundar o entendimento da dinâmica do crescimento do catch-up em cada uma das economias da base de dados142.

Adicionalmente, esse exercício se revela particularmente importante por permitir avaliar a dinâmica dos gaps tecnológicos após a crise financeira internacional de 2008-09, entender em que medida ela prejudicou o processo de catching-up das economias em termos de capacidades produtivas e tecnológicas, bem como identificar se uma nova tendência se manifesta e persiste após os efeitos mais severos da crise.

Outro avanço em relação ao Capítulo anterior e à literatura relacionada refere-se à compreensão dos padrões de concentração e das fontes setoriais de crescimento dos processos de catching-up e de falling behind dos países investigados. A partir da metodologia proposta por Harberger (1998), foi possível identificar se os crescimentos positivos ou negativos do

catch-up foram devidos a um padrão de crescimento mais concentrado ou mais distribuído

entre as atividades de cada economia.

Para alcançar os objetivos propostos, o presente capítulo está estruturado da seguinte forma: além dessa Introdução, a seção 5.2 apresenta a base de dados utilizada e os procedimentos metodológicos necessários para as decomposições; na seção 5.3 os resultados são expostos e discutidos; por fim, a última seção remete-se às considerações finais.