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Scripta Alumni - Uniandrade, n. 13, 2015.
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Em O outro pé da sereia é possível, na materialidade da língua, encontrar a utilização de expressões de língua africanas, indiana e inglesa. O autor utiliza-se da potencialidade das línguas africanas através dos nomes das personagens, da canção e dos nomes da fauna e da flora local. Por exemplo, quando Zero Madzero cantarola uma Canção Chikunda , da língua si-nhungwé, representando uma forma de saudar os sepultados que o antecederam: “Uyo kaluangane / Chenjera kaluangane/
Apatha nkuku kaluangane” (COUTO, 2006, p. 33-4); nos nomes de personagens, tal como Mwadia, que na língua sinhungwé designa canoa.
A potencialidade da língua indiana também é utilizada ao ser representada no nome da personagem Dia Kumari, que afirma não ter esquecido a sua religiosidade e cultura de matriz indiana. E, a língua indiana aparece como forma de negação da identidade, como se observa na origem familiar de Jesustino Rodrigues, que mesmo tendo nascido em solo moçambicano, descendia de um pai indiano. A língua paterna gera estranhamento e negação dessa identidade que é considerada distante:
Em aflição de tristeza ou no calor da zanga seu pai Agnelo falava em gujarate. A primeira vez que o escutou naquela fala incompreensível, Jesustino atirou-se para um canto, em prantos. O seu pai podia ser ausente. Mas essa ausência era inteligível. O que era insuportável era escutar o próprio pai falar em tão estranho idioma. Quando isso sucedia, o velho Agnelo se evaporava num outro mundo, para além de um cortinado translúcido. (COUTO, 2006, p. 282)
A língua inglesa é utilizada com a chegada de Benjamin e Rosie em Moçambique, que são descritos através da ironia presente na voz do narrador e dos diálogos. Casuarino ao tentar se comunicar com Benjamin, de maneira improvisada, não alcança um entrosamento na comunicação:
– What is happening?
– Em português, por favor, eu falo português, avisou o recém- chegado.
– O que se passa, mano, uma tontura?
– Eu só queria beijar a nossa mãe...
– Qual mãe?
– Queria beijar o chão de África...
– Ora o chão, pois, o chão de África, mas veja, meu brada, o melhor chão para ser beijado é noutro local que lh e vou indicar, este chão, é melhor não... (COUTO, 2006, p. 138)
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Não se pode olvidar que nessa perspectiva a África é vista como uma grande mãe que acolhe seus filhos, criando fortes laços afetivos entre os africanos nativos e a diáspora africana, que são vistos como irmãos. Benjamin é movido pelo desejo de reencontrar-se na África:
Estava nervosa pelo marido, Benjamin. Aquela viagem era a realização de um sonho maior. África, para ele, não era um lugar. Mas um ventre. O seu primeiro e derradeiro lugar. Mãe e terra. Sangue e pó. Uns baptizam-se na água. Benjamin baptiza-se nesta viagem, pronto a renascer, mais puro, mais vivo. (COUTO, 2006, p. 146)
Destaca-se, ainda, o realismo das ações e ambientes entrecruzados com o onírico e a imaginação popular. O elemento fantástico, imigrado das cosmogonias tradicionais, orais, não urbanas, que são introduzidas no texto provocando o estranhamento no leitor (LARANJEIRAS, 1995, p. 316). Na primeira frase do livro, o leitor é surpreendido com a seguinte afirmação: “- Acabei de enterrar uma estrela!” (COUTO, 2006, p. 11). A narração acaba também por mostrar que aconteceu o incrível: Madzero cumpre os deveres da fé ao cobrir a “defunta” com terra, mas segundo Mwadia o corpo celeste não poderia ser enterrado naquele local, e sim no lugar do sagrado bosque, onde sepultam as crianças.
No que tange ao humor presente no romance, ele é construído através da intriga, de situações e acontecimentos, dos nomes de personagens e da narração (LARANJEIRAS, 1995, p. 316). O humor de intriga, decorrente de uma intriga por si só engraçada ou mirabolante, é muito presente na narrativa. Casuarino, por exemplo, gera muito humor a partir de pequenas falcatruas. Esse personagem representa a figura típica do malandro – o entre-lugar. Isso fica evidente no primeiro encontro com Mwadia: “(...) empresário duvidoso, de ainda mais duvidoso sucesso (...)”
(COUTO, 2006, p. 91). Ele representa o surgimento de uma nova identidade social, caracterizada pela posição entre o mando e o desmando da aristocracia rural moçambicana e a incipiente burocracia formada por servidores públicos com amplos poderes.
O humor de personagem, definindo-se pela linguagem, as histórias que conta ou o seu comportamento é característico da narrativa. Lázaro Vivo, que era inicialmente conhecido como “curandeiro”, entretanto, conforme o narrador, “desde os tempos da Revolução que o velho Lázaro Vivo deixara se apresentar como nyanga. Ele era, agora, um conselheiro tradicional” (COUTO, 2006, p. 18). Nota-se, ainda, o estranhamento de Mwadia ao ver Lázaro Vivo com outra aparência: “As tranças deram lugar a um cabelo curto e penteado de risca, a túnica fora substituída por uma blusa desportiva. Debaixo do braço trazia uma tabuleta” (COUTO, 2006, p. 18). Nesse fragmento podemos constatar a valorização das tradições e, simultaneamente, uma
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ruptura parcial das mesmas tradições. Ele incorpora produtos típicos da globalização, apesar de estar na periferia, misturando o universo tradicional e o universo moderno:
“Lázaro dobrou o tronco para ir ao fundo do bolso e retirar algo que a Zero pareceu um pequeno rádio de pilhas. – Um telemóvel, meus amigos. Zero e Mwadia permaneceram impassíveis enquanto o outro agitava o minúsculo telefone como uma bandeira vitoriosa”
(COUTO, 2006, p. 23).
Destaca-se, o humor dos nomes próprios, que funcionam como cartões de apresentação de personagens, como emblemas. O nome, por exemplo, do pastor Zero Madzero, se repetido de maneira rápida, provoca o seguinte efeito àquele que escuta: “zero mais que zero”, refletindo a existência de um sujeito subordinado e alienado. Todavia, não podemos olvidar que “Mad” em inglês representa um sujeito aborrecido, coadunando com a percepção de um ser que fica em silêncio. Outro exemplo interessante é o nome do Mestre Arcanjo Mistura, que conforme o dicionário Houaiss:
“Mestre” é aquele que apresenta uma grande fonte de sabedoria; o “Arcanjo” é definido como um anjo mensageiro, que pertence a uma ordem superior; “Mistura”, que consiste no ato de misturar coisa ou pessoa. De fato, esse é o personagem que apresenta uma grande sabedoria, interligando tempos e espaços do passado.
É possível encontrar o humor no modo de contar na fala do boticário da nau Nossa Senhora da Ajuda: “- Se ainda tivessem comido a Europa... Mas os tipos foram logo comer a África. Esse é continente mais venenoso” (COUTO, 2006, p. 157). É utilizado um humor ácido, para demonstrar esse episódio em que os escravos envenenam-se ao comer os mapas. Em certos momentos é utilizado um humor mais leve, quase despercebido: “Era uma Nossa Senhora, mãos postas em centenária prece.
As cores sobre a madeira tinham-se lavado, a madeira surgia, aqui e ali, espontânea e nua. O mais estranho, porém, é que a Santa tinha apenas um pé. O outro havia sido decepado” (COUTO, 2006, p. 23). Esse trecho é muito interessante porque mostra a potencialidade e a personificação da imagem da Nossa Senhora, que ora é Santa, ora é kianda.
Nesse sentido, Mia Couto entende o projeto de moçambicanidade como a combinação de linguagens, culturas e humores: “(...) há este mosaico, não tanto de raças, mas de culturas, das culturas que estão a marca parte de uma coisa que é ainda só um projecto: a moçambicanidade” (LARANJEIRAS, 1995, p. 318).
CONCLUSÃO
O presente trabalho analisou, a partir de aspectos mais gerais, o conceito da língua como um grande sistema cultural que, de acordo com Saussure, não pode ser modificado exclusivamente por um indivíduo, mas pela interação com o contexto social. Assim, buscou-se compreender a materialidade da língua como terreno
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de conflitos em que a história é criada a partir de vozes silenciadas – a das classes dominadas. Também se observou a língua enquanto meio de expressão da identidade e da cultura, de forma que hábitos e práxis são encontrados no romance. O outro pé da sereia apresenta um espaço para que vozes reprimidas possam falar, seja por meio de suas reflexões, hábitos, cultura ou memórias, todas essas tendo seu espaço na língua e na prática literária.
Durante o processo de colonização do povo moçambicano, os portugueses almejavam “reconstruir” outra pátria na tentativa de aniquilar com suas tradições. O colonizador tinha como escopo impor à população as concepções de sua própria cultura, ou seja, esperava-se que esses africanos fossem totalmente integrados dentro da vida social portuguesa. Nesse sentido, para que houvesse essa transformação cultural imediata a fim de que os moçambicanos se tornassem “genuínos” cidadãos lusitanos, era preciso que eles se apropriassem dos modos, dos hábitos, da religiosidade, da literatura e, consequentemente, da língua portuguesa. Todavia, a imposição da língua portuguesa aos moçambicanos também permitiu a emancipação desses – com a propagação de suas ideias, sendo possível a troca de elementos culturais entre as diferentes etnias a partir de tal processo.
Portanto, surge em O outro pé da sereia a problematização das práxis da sociedade moçambicana e, especialmente, apresenta um espaço para que vozes reprimidas possam falar, seja por meio de suas reflexões, hábitos, cultura ou memórias, todas essas tendo seu espaço na língua e na prática literária. Tal jogo entre passado e memória não engendra uma identidade nacional específica, mas permite refletir sobre o caráter subjetivo que perpassa tais identidades. Uma memória nacional trata-se de uma memória coletiva, em que a marca de hábitos subjetivos de um povo materializa o que se pode considerar como cultura. Trata-se de uma espécie de subjetividade coletiva, em que a história é sempre criação. Essa também possui por hábito silenciar as vozes das classes dominadas. O romance moçambicano aqui referido faz-nos refletir sobre a literatura enquanto espaço onde vozes silenciadas podem falar.
REFERÊNCIAS
ABDALA JÚNIOR, B. De vôos e ilhas: Literatura e comunitarismos. São Paulo: Ateliê, 2003.
ALTHUSSER, L. Aparelhos ideológicos do Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1983.
BHABHA, H. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 2010.
COUTO, M. O outro pé da sereia. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP & A, 2011.
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LARANJEIRA, P. Literaturas africanas de expressão portuguesa. Coimbra: Universidade Aberta, 1995.
SAUSSURE, F. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 2006.
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