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Rev. Bras. Ciênc. Esporte vol.39 número2

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RevBrasCiêncEsporte.2017;39(2):214---216

www.rbceonline.org.br

Revista

Brasileira

de

CIÊNCIAS

DO

ESPORTE

RESENHA

A

multiplicidade

conceitual

da

acrobacia:

arte,

esporte

e

entretenimento

The

conceptual

multiplicity

of

acrobatics:

art,

sport,

and

entertainment

La

multiplicidad

conceptual

de

la

acrobacia:

arte,

deporte

y

entretenimiento

Resenha

do

livro

HAUW,

Denis

(Coord.).

L’Acrobatie

.

Paris:

Revue

EPS,

2010,

128

p.

Introduc

¸ão

Coordenada pelo professor Dr. Denis Hauw e publicada em 2010, L’Acrobatie faz parte dacolec¸ão Pour l’Action, compostapor distintasobras quevisama umaabordagem introdutóriadirigidaaosprofissionaisdaeducac¸ãofísica.O livroéumecléticoconjunto deensaiossobreosignificado daacrobaciana contemporaneidade, entrelac¸a discussões sobredistintosaspectoshistóricos,estéticosepedagógicos. Essaobraapresentataisconceitosdeformaconcisaeaspira à simplicidade para o trato de um tema tão complexo e nebulosonaliteraturaespecializada,representaumgrande esforc¸oquerenovaasescassasdiscussõessobreaacrobacia naatualidade.

Defato,seobservamosorecentecontextodaeducac¸ão física,aproduc¸ãoacadêmico-científicasobreotema acro-baciaéínfima,tantonoâmbitodoesportecomonodolazer oumesmo nonasartes(Wallon, 2008).Dentrea produc¸ão

nacional, autores como Soares(2001; 1998),do pontode

vistahistórico,eBortoleto(2011;2008),comenfoque

peda-gógico, oferecem algumas aproximac¸ões, especialmente

sobreapresenc¸adaacrobacianocircoenaginástica.Desse

modo,estamosdiantedeumverdadeiroproblema,noquese

refereàescassezdereferências,seconsideramosa

impor-tância quea acrobacia vem alcanc¸andonas maisdiversas

práticascorporaiscontemporâneas.

Para

um

debate

eclético

sobre

acrobacia

Já na introduc¸ão da obra lemos que o coordenador do

livrosalientaapresenc¸adaacrobaciaemdiversaspráticas.

Mostra-acomoumfenômenopolissêmicoeindicaque seu

dinamismotécnicoeestéticodificultaodebateconceitual,

bemcomoseutratopedagógico.

Comomencionadonaintroduc¸ão,aacrobaciacontempla

aliberdade, acriatividadeeamotivac¸ãoporumaprática

corporalquesesituaentreoriscoeanecessidadede

con-troledaseguranc¸a.Logo,conhecerereconhecerapresenc¸a

daacrobacianaculturahumananãoserestringeauma

aná-liseapenasdoconjuntodetécnicasoudesuamultiplicidade

deformas.Dessemodo,esseintrincadoeinteressantelivroé

compostoporpressupostosfilosóficoseconsiderac¸õessobre

asuaimportânciasocioculturaleasimplicac¸õespedagógicas

daacrobacia.

Após uma apresentac¸ão geral da acrobacia, a obra se

divideemduaspartes.Aprimeiracompreendeoscapítulos

1,2e3,nosquaisalgunspressupostosteóricose

histórico--culturais são discutidos. A segunda, que compreende os

capítulos4,5e6,versasobreosaspectospráticosda

acro-baciaeabordaasuaconcepc¸ãoeexecuc¸ãoemespetáculos

decirco,oprocessodeaprendizagemdaperformance

acro-bática eosaspectosdeensinodaspráticasacrobáticasna

educac¸ãofísicaescolardaFranc¸a.

O primeiro capítulo, de autoria de Myriam Peignist,

intitula-se ‘‘L’Homo acrobaticus’’, tema de sua tese de

doutorado.1Nele,vemosumcomplexodebatesobrea

ori-gemdotermo‘‘acrobacia’’,destacaaideiadeumaac¸ãoque

conduzocorpoeogestoàsextremidadeseaosextremos.

Apartirdeumaabordagemantropológica,aautora

dis-corresobreasprincipaiscaracterísticasdaacrobaciacomo

arte-linguagem, buscaumavisãodinâmica e genéricaque

situaessefenômenoemdistintaspráticascorporais,

espe-cialmenteporsuaqualidadeperformática.Entendemosque

essaabordagempermiteaoprofissionaldeeducac¸ãofísica

pensar a acrobacia enquanto uma das possibilidades de

explorac¸ãoedebuscapelo‘‘domínio’’docorpoeda

motri-cidade,comvistaaosmaisvariadosfins.

1Peignist(2008).

http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2016.01.017

(2)

RESENHA 215

O segundo capítulo, denominado ‘‘Acrobatie et

fre-estyle’’, assinado por Julien Laurent, apresenta um

interessante recorte deseu pós-doutorado em sociologia,

exploraasformas deapropriac¸ão daacrobacia poroutras

práticasquenãoocircoeaginástica,nasquaisaacrobacia

predominaefazpartedesualógicainterna(Parlebas,2001).

Assim,observaquenaspráticasfreestyle,entreelasoskate,

osnowboard,ospatins(in-lineouroller),oBMX(bicicross),

o surfe, o windsurfe o wakeboard,a acrobacia atende à

buscademanobrascomplexaseàvirtuosidade.Adiscussão

propostaporLaurentnosparecevaliosanamedidaemque

ressaltaaimportânciadaobservac¸ãocuidadosadas

emer-gentespráticas corporais urbanas, que, de modo maisou

menosintencional,oferecemnovasleiturasparaaacrobacia

emseusaspectossimbólicosefuncionais.

OprofessorDenisHauw,2 organizadordolivro,assinao

terceirocapítulo,sobotítulo‘‘Compreenderaorganizac¸ão

dogesto acrobático’’.3 Seu textoversa sobreos aspectos

técnicosdotreinamentodeacrobacias,ressaltaas

princi-paiscaracterísticasdogestoacrobáticoe algumasdesuas

implicac¸õespedagógicas.Arelevânciadessessaberesé

fun-damentalparaaintervenc¸ãoprofissionalnaáreaeoautor

buscaexporumanoc¸ãodosconhecimentosquedevemser

cautelosamenteestudadosparaque hajadesenvolvimento

técnico,garantaaintegridadedoacrobata,tendoemvista

oriscoinerenteaessaatividade.

Oquartocapítuloseintitula‘‘Artesdocirco:qualoseu

lugarnaacrobacia?’’,4escritoporMagaliSizorn,5ediscute

arelac¸ãodaacrobaciacomocirco,aborda-aenquantoum

elementodelinguagemqueexpressaamaestriadocorpo,

umsímbolo doexercíciodarazão, docontrole desi e do

domínio do espac¸o. A partir de um apanhado histórico,

Sizorn faz algumasaproximac¸ões entreo circo e a

ginás-ticaoitocentista, discute questõesestéticas,bem comoo

conceito decorpo (forte, disciplinado e habilidoso), tece

umaanálisesemelhanteàfeitaporSoares(2001)eBortoleto

(2011).

O quinto capítulo, tambémde autoria de Denis Hauw,

intitula-se ‘‘O desenvolvimento da performance

acrobá-tica’’.6 Nele apresentam-se novos argumentos sobre a

construc¸ão dogesto acrobáticoe sobrea estruturac¸ão de

sua aprendizagem. Novamente, por meiode uma análise

técnica,oautorapresentaosfatoresqueinfluenciama

per-formanceacrobática,desdeascaracterísticasbiomecânicas

domovimentoatéaimportânciadaadaptac¸ãodosistema

neuroperceptivoàacrobacia.

2DenisHauwémestre deconferências daFaculdadede

Ciên-ciasdoEsporteeEducac¸ãoFísicadaUniversidadedeMontpellier (Franc¸a),ondedesenvolve,desde1999,pesquisassobreas ativida-desacrobáticas,comênfasenotrampolimeesquiacrobáticode altorendimento.

3Comprendrel’organisationdugesteacrobatique. 4Artsducirque:quelleplacefaiteàl’acrobatie.

5Aautoratemdoutoradoemciênciasetécnicasematividades

físicas eesportivas (STAPS), comtese intituladaÊtre et se dire trapéziste,entreletechnicienetl’artiste.Ethnosociologied’um cirqueemmouvement;atualmente,émestredeconferênciasna UniversidadedeRouen(Franc¸a).

6Ledéveloppementdelaperformanceacrobatique.

Concluindo a obra, o sétimo capítulo foi escrito por

Jean-Franc¸ois Robin,7 sob o título ‘‘A acrobacia no meio

escolar’’.8Oautortratadosprincípiosdidáticose

metodo-lógicosnosquaisosprofessoresdeeducac¸ãofísicaescolar

naFranc¸asebaseiam paraensinaraacrobacia. Conforme

ressaltaemseutexto,oensinodeacrobaciasnaeducac¸ão

físicafrancesaestáintegradoaos‘‘ciclos’’(blocosde

con-teúdo/temáticos)deginástica,práticaque,comoopróprio

destaca,temperdidosuaatratividadeentreosestudantes

daquelepaís,devidoà monotoniadeabordagens aosseus

conteúdosemtermosdecativaraatenc¸ãodoaluno.Nesse

sentido,valeressaltaroestudofeitoporSchiavone

Nista--Piccolo(2007), cujosresultadostambémapontam parao

desinteressedapráticadaginásticaentreescolaresno

Bra-sil,muitoemboranessecasoosmotivosestejamatrelados

àbaixa popularidadeda ginástica como opc¸ão de prática

corporaleàlimitadaformac¸ãotécnico-pedagógicados

pro-fessoresparaatuarcomessamodalidade.

Considerac

¸ões

finais

Nãosópor sua originalidade, tanto nasabordagens

teóri-cascomonadiversidadedepráticasacrobáticasdebatidas,

L’Acrobatienospareceumaimportantefontedeinspirac¸ão

acadêmica e pedagógica para um campo fértil, porém

carente deanálises aprofundadas. A diversidade de

abor-dagens sobre o conceito de acrobacia permite uma visão

maisampladesuaspossibilidades,mesmoqueporvezesas

concepc¸õesdosautoressejamcontraditórias,como

perce-bemosentrePeignist(cap.1,p.12),quea defendecomo

umaspectonatural eespontâneodamotricidadehumana,

umavez que resulta da explorac¸ão criativa das

habilida-descorporais; Hauw(cap. 3,p. 45),quea considerauma

ac¸ão antinatural;e Robin (cap. 7, p. 113), que a retrata

comoumeventocomplexoqueseiniciaapartirdeumvoo

comrotac¸ões(ex.:saltomortal).Aindaassim,oscapítulos

tecemuminteressantediscursosobreaacrobacia,mostram

seuvalorsimbólico,gestualepedagógico,reforc¸amos

diá-logosquepodem serestabelecidos coma educac¸ãofísica

contemporânea,sejanoesporte,noentretenimentoouno

meioartístico.

Conflitos

de

interesse

Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.

Referências

BortoletoMAC.Atividades circenses:notassobrea pedagogiada educac¸ão corporal e estética. Cadernos de Formac¸ão RBCE 2011:43---55.

7Doutor em educac¸ão física, ex-docente na Universidade de

Paris12(Val-de-Marne)naáreadaginástica;PresidentedaAfraga (Associac¸ãoFrancesadePesquisadaGinásticaeAtividades Acrobá-ticas);atualmenteépesquisadornoInstitutNationalduSport,de l’expertiseetdelaperformance(Insep),emParis.

(3)

216 RESENHA

BortoletoMAC.(Org.).Introduc¸ãoàpedagogiadasatividades cir-censes.Volume1.Jundiaí ---SP: EditoraFontoura,2008. 272 p.

ParlebasP.Léxicodepraxiologiamotriz,juegos,deporteysociedad. Barcelona:Paidotribo;2001.p.502.

PeignistM.HomoAcrobaticus:Essaipourunereencontredesmots etdesgestes2008.498f.Tese(DoutoradoemSociologia) Uni-versidadeRenéDescartes---Sorbonne,ParisV,Paris,2008. SchiavonL, Nista-Piccolo V.Aginástica vai àescola. Movimento

2007;13:131---50.

SoaresCL.Acrobaciaseacrobatas:anotac¸õesparaum estudodo corpo.In:BruhnsHT,GutierrezGL.(Org.).Representac¸õesdo lúdico:IICiclodedebateslazeremotricidade.Campinas: Auto-resAssociados,2001.p.33-41.

SoaresCL.Imagensdaeducac¸ãonocorpo:estudoapartirda ginás-ticafrancesanoséculoXIX.Campinas:AutoresAssociados;1998. p.168.

WallonE.(Org.).Ocirconoriscodaarte.BeloHorizonte:Autêntica, 2008.189p.

BrunoBarthPintoTucunduvaa,∗e MarcoAntonioCoelho

Bortoletob

aUniversidadeFederaldoParaná,SetordeCiências

Biológicas,DepartamentodeEducac¸ãoFísica,Curitiba, PR,Brasil

bUniversidadeEstadualdeCampinas,Faculdadede

Educac¸ãoFísica,DepartamentodeEducac¸ãoFísicae Humanidades,Campinas,SP,Brasil

Autorparacorrespondência.

Referências

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