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Rev. Bras. Anestesiol. vol.68 número1

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REVISTA

BRASILEIRA

DE

ANESTESIOLOGIA

PublicaçãoOficialdaSociedadeBrasileiradeAnestesiologia

www.sba.com.br

ARTIGO

DE

REVISÃO

Avaliac

¸ão

e

manejo

perioperatório

de

pacientes

com

diabetes

melito.

Um

desafio

para

o

anestesiologista

João

Paulo

Jordão

Pontes

a,∗

,

Florentino

Fernandes

Mendes

b

,

Mateus

Meira

Vasconcelos

a

e

Nubia

Rodrigues

Batista

a

aHospitalSantaGenoveva,CentrodeEnsinoeTreinamento,Uberlândia,MG,Brasil

bUniversidadeFederaldeCiênciasdaSaúdedePortoAlegre(UFCSPA),PortoAlegre,RS,Brasil

Recebidoem6desetembrode2016;aceitoem12deabrilde2017

PALAVRAS-CHAVE

Diabetesmelito; Anestesia; Cuidados perioperatórios; Hipoglicemiantes; Insulina;

Hemoglobina glicosilada

Resumo Odiabetes melito(DM) écaracterizado poralterac¸ãonometabolismo de carboi-dratosquelevaàhiperglicemiaeaoaumentodamorbimortalidadeperioperatória.Cursacom alterac¸õesfisiológicasdiversaseprogressivase,paraomanejoanestésico,deve-seatentarpara ainterferênciadessadoenc¸anosmúltiplossistemasorgânicosesuasrespectivascomplicac¸ões. Anamnese,examefísicoeexamescomplementaressãoimportantesnomanejopré-operatório, com destaque para a hemoglobina glicosilada (HbA1c), que tem forte valor preditivo para complicac¸õesassociadasaodiabetes.Oplanejamentocirúrgicotemcomoobjetivosareduc¸ão dotempodejejumeamanutenc¸ãodarotinadopaciente.PacientesportadoresdeDMTipo1 precisamreceber,mesmoemjejumperioperatório,insulinaparasuprirasdemandasfisiológicas basaiseevitarcetoacidose.JáospacientesportadoresdeDMTipo2,tratadoscommúltiplos fármacosinjetáveise/ouorais,sãosuscetíveisaodesenvolvimentodeumestadohiperosmolar hiperglicêmico(EHH).Assim,omanejodoshipoglicemiantesedosdiferentestiposdeinsulina éfundamental,alémdadeterminac¸ãodohoráriocirúrgicoe,consequentemente,donúmero derefeic¸õesperdidasparaadequac¸ãodedosesoususpensãodosmedicamentos.Asevidências atuais sugeremoalvo demanutenc¸ãodaglicemiaseguro para ospacientescirúrgicos,sem concluirsedeveserobtidocomcontroleglicêmicointensivooumoderado.

©2017SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eum artigo OpenAccess sobumalicenc¸aCCBY-NC-ND(

http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

KEYWORDS

Diabetesmellitus; Anesthesia; Perioperativecare; Hypoglycemicagents;

Evaluationandperioperativemanagementofpatientswithdiabetesmellitus. Achallengefortheanesthesiologist

Abstract Diabetesmellitus(DM)ischaracterizedbyalterationincarbohydratemetabolism, leading to hyperglycemia and increased perioperative morbidity and mortality. It evolves withdiverseandprogressivephysiologicalchanges,andtheanestheticmanagementrequires

Instituic¸ão:ComplexoHospitalarSantaGenoveva,Uberlândia,MG,Brasil.Autorparacorrespondência.

E-mail:pontes [email protected](J.P.Pontes).

https://doi.org/10.1016/j.bjan.2017.04.017

(2)

Insulin; Glycosylated hemoglobin

attentionregardingthisdisease interferenceinmultipleorgansystems andtheir respective complications.Patient’shistory,physicalexamination,andcomplementaryexamsareimportant inthepreoperativemanagement,particularlyglycosylatedhemoglobin(HbA1c),whichhasa strongpredictivevalueforcomplicationsassociatedwithdiabetes.Thegoalofsurgicalplanning istoreducethefastingtimeandmaintainthepatient’sroutine.PatientswithType1DMmust receiveinsulin(evenduringthepreoperativefast)tomeetthebasalphysiologicaldemandsand avoidketoacidosis.WhereaspatientswithType2DMtreatedwithmultipleinjectableand/or oraldrugsaresusceptibletodevelopahyperglycemichyperosmolarstate(HHS).Therefore, themanagementofhypoglycemicagentsanddifferenttypesofinsulinisfundamental,aswell asdetermining thesurgicalschedule and, consequently,the numberoflost mealsfor dose adjustmentanddrugsuspension.Currentevidencesuggeststhesafetargettomaintainglycemic controlinsurgicalpatients,butdoesnotconcludewhetheritshouldbeobtainedwitheither moderateorsevereglycemiccontrol.

©2017SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Thisisan openaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense(

http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

Introduc

¸ão

Nos pacientes cirúrgicos, a presenc¸a de diabetes melito (DM)ouhiperglicemiaassocia-se aaumentoda morbimor-talidade,comtaxa demortalidadeperioperatóriaaté50% maiordoquenapopulac¸ão nãodiabética.1As razõespara

essesresultadosadversossãomúltiplas:falhaaoidentificar

pacientesdiabéticosouhiperglicêmicos; múltiplas

comor-bidades,inclusive complicac¸ões micro e macrovasculares;

polifarmácia complexa e erros na prescric¸ão de insulina;

aumentosnasinfecc¸õesperioperatóriase pós-operatórias;

associac¸ão deepisódios de hipoglicemia e hiperglicemia;1

afaltade,ouuso,deprotocolosinadequadosparamanejo

dospacientesdiabéticosouhiperglicêmicosinternadosnas

instituic¸ões;econhecimentoinadequadodomanejodo

dia-betesedahiperglicemiaentreaequipecuidadora.2

Material

e

métodos

Foramfeitasbuscasemmúltiplasbasesdedados,inclusive

MedlineviaPubMed(dejaneirode1966aagostode2016),

TheCochraneLibraryeLilacs(1982aagostode2016).Após

levantamento bibliográfico foram selecionados os artigos

commelhordesenhometodológico.Foramaindausadasas

atualizac¸õesbaseadasemevidênciadosdomíniosUpToDate

eMedscape.Nãohouverestric¸ãodeidiomas.

Asbuscasforamfeitasentremaioeagostode2016.Para

asbuscasnoPubMed,foramusadasasseguintesestratégias

depesquisa:

1. ‘‘Diabetes Mellitus’’ [All Fields] AND ‘‘Anesthesia’’

[All Fields], ‘‘Diabetes Mellitus’’ [All Fields] AND

‘‘Perioperative Period’’ [All Fields], ‘‘Glycemic

Con-trol’’[AllFields]AND‘‘PerioperativeCare’’[AllFields],

‘‘Glycemic Control’’ [All Fields] AND ‘‘Anesthesia’’

[All Fields], ‘‘Diabetes Mellitus’’ [All Fields] AND

‘‘Anesthesia’’ [All Fields] AND ‘‘Perioperative’’ [All

Fields];

2. ‘‘Diabetes Mellitus’’ [MeSH Terms] AND ‘‘Anesthesia’’

[MeSH Terms],‘‘Diabetes Mellitus’’[MeSH Terms] AND

‘‘Perioperative Period’’ [MeSH Terms], ‘‘Anesthesia’’

[MeSH Terms] AND ‘‘Diabetes Mellitus’’ [MeSH Terms]

AND ‘‘Perioperative Period’’ [MeSH Terms], ‘‘Diabetes

Mellitus’’ [MeSH Terms] AND ‘‘Perioperative Care’’

[MeSHTerms];

3. ‘‘DiabetesMellitus’’[MeSHTerms]OR(‘‘diabetes’’[All

Fields]AND‘‘mellitus’’[AllFields])OR‘‘diabetes

mel-litus’’ [All Fields]) AND (‘‘anaesthesia’’ [All Fields]

OR ‘‘anesthesia’’ [MeSH Terms] OR ‘‘anesthesia’’ [All

Fields])ANDPerioperative[AllFields].

Alterac¸õesfisiológicaseimplicac¸õesanestésicas

O diabetes melito é uma doenc¸a caracterizada por

metabolismo anormal dos carboidratos que cursa com

hiperglicemia. Se permanecer sem tratamento, é doenc¸a

debilitante, que leva à insuficiência e disfunc¸ão orgânica

crônica. O diabetes tipo 1 (DM1) é o resultado de uma

destruic¸ãodascélulas␤pancreáticasprodutorasdeinsulina

mediada por mecanismo autoimune, ocasiona deficiência

completanasecrec¸ãodeinsulina.Jáodiabetestipo2(DM2),

formamaiscomum, é consequênciadaresistência

perifé-ricaàac¸ãodainsulina eéfrequentementeassociado com

falhaprogressivanasecrec¸ãodessehormôniocomopassar

dos anos, resultado da disfunc¸ão das células ␤

pancreá-ticas devido à glicotoxicidade, lipotoxicidade e formac¸ão

amiloide.3

Oscritériosdiagnósticosdodiabetesmelitosãolistados

natabela1.

Comomaiorrastreamentodaglicemia,outrogrupode

pacientesconhecidoscomopré-diabéticostambémtemsido

identificado.Podemserclassificadosemduasclasses

princi-pais:glicemiadejejumalteradaeintolerânciaaglicose.O

(3)

Tabela1 Critériosdiagnósticosdodiabetesmelitosegundo

AmericanDiabetesAssociation---20154

1.Hemoglobinaglicosilada(HbA1c)≥6,5%aOU 2.Glicemiajejum≥126mg.dL---1a(ausênciadeingestão calóricaporpelomenos8h)OU

3.Glicemiapós2h---TTGoral≥200mg.dL---1aOU

4.Pacientescomsintomasclássicosdehiperglicemiaoucrise hiperglicêmica,comglicemiaaoacaso≥200mg.dL---1.

TTG,testedetolerânciaàglicose.

a Na ausência de hiperglicemia inequívoca, os resultados

devemserconfirmadosporrepetic¸ãodoteste.

jejumentre100---125mg.dL---1;glicemia2horasapósteste

detolerânciaaglicose(TTG)oral entre140---199 mg.dL---1;

ouHbA1centre5,7%---6,4%.5

Asalterac¸õesfisiológicasdopacientediabéticosão

múl-tiplaseprogressivase,paraomanejoanestésico,deveser

dadaênfaseaosseguintesórgãosesistemas:

musculoesque-lético,rim,neurológicoecardiovascular.

Sistemamusculoesquelético

Ahiperglicemiacrônicalevaàglicosilac¸ãonãoenzimática

de proteínas e a ligac¸ões cruzadas anormais do colágeno

das articulac¸ões,limita sua mobilidadee leva à chamada

síndromedarigidezarticular(SRA)oustiffjointsyndrome.

As articulac¸ões temporomandibular,atlanto-occipital e da

coluna cervical podem ser afetadas.6 O escleroedema do

diabetescaracteriza-seporumedemafirme,lenhosoenão

compressível das regiões posterior do pescoc¸o e superior

dodorsoe,associadocomamobilidadearticularreduzida,

podelimitar aamplitudedemovimentodopescoc¸oe

difi-cultaraintubac¸ãoorotraqueal.7

Rim

Umaproporc¸ão relevantedepacientescom DMapresenta

nefropatia diabética. Essa complicac¸ão crônica é

carac-terizada pelo desenvolvimento de albuminúria e reduc¸ão

progressivadafunc¸ãorenalnospacientessemcontrole

gli-cêmico adequado. Em geral, pacientes portadores dessa

complicac¸ão estão sob risco ainda maior de

morbimorta-lidade noperíodoperioperatório. Portanto,a pesquisa de

albuminúria nesses pacientes contribuiria para avaliac¸ão

adicionaldoriscodeinsuficiênciarenalaguda(IRA).8

Na presenc¸a de hipovolemia, o uso intraoperatório de

anti-inflamatóriosnãoesteroides(AINEs)podeprejudicara

redistribuic¸ão do fluxo sanguíneo renal e piorar a func¸ão

renal. Isso é especialmente importante quando do uso

concomitante de drogas que modulam o sistema

renina--angiotensina-aldosterona (SRAA).8 Deve-se, portanto, ter

cuidadocomusodeAINEsnospacientescomDM,osquaisjá

podemteralgumgraudedisfunc¸ãorenal;alémdisso,ouso

deAINEstambémaumentaoriscodeedema,quepodeser

agravadoquandoadministradosconcomitantementecomos

antidiabéticosoraisdaclassedasglitazonas.2

Do mesmo modo, inibidores da ciclooxigenase tipo 2

(COX-2)podemafetarafunc¸ãorenalempacientesderisco,

inclusiveospacientescomnefropatiadiabética.Emrevisão

da literatura, IRA e/ou distúrbios eletrolíticos graves

(particularmentehipercalemiaeacidosemetabólica)foram

claramente causados pelo celecoxib ou pelo rofecoxib.9

Faltam estudos acerca da seguranc¸a do parecoxibe,

dis-ponível no Brasil para uso venoso perioperatório, e seu

impactonafunc¸ãorenaldessapopulac¸ãodepacientes.

Sistemaneurológico

Osefeitos neurológicos dodiabetes aumentam o risco de

acidentevascular encefálico (AVE)e apresenc¸a de

hiper-glicemiaéumfortepreditordepioresresultadosemvárias

formasdelesãocerebralaguda.10Estudoprospectivo

encon-trou associac¸ão entre níveis de HbA1c e risco de AVE em

pacientesdiabéticosenãodiabéticos.11Defato,aresposta

vasodilatadoraà hipercapnia, medida pelo Doppler

trans-craniano,foi reduzida nos diabéticos quando comparados

comos nãodiabéticos. O grau de reduc¸ão foi

correlacio-nadocomosníveisdeHbA1cdospacientes.12 Esseachado

levantaquestõesinteressantessobreopapeldocontrole

gli-cêmicoemlongoprazonaregulac¸ãodareatividadevascular

cerebralnosdiabéticos.

As fibras nervosas nos pacientes diabéticos podem ser

maissuscetíveisàlesãoisquêmica,poisjáestãosobestresse

pelahipóxiaisquêmicacrônica.Osanestésicoslocaispodem

serneurotóxicos.Paraevitarlesãonervosanessespacientes,

deve-setercautelanadosagemtotalenaconcentrac¸ãode

anestésicoslocaisusadosnaanestesiaregional.8

Neuropatiaautonômica

A neuropatia autonômica diabética é uma complicac¸ão

comum do DM frequentemente não diagnosticada. Essa

complicac¸ãopodeafetarossistemas:gastrointestinal,

geni-tourinário e cardiovascular. As principais manifestac¸ões

clínicasdaneuropatiaautonômicadiabéticaincluem

taqui-cardia em repouso, intolerância ao exercício, hipotensão

ortostática,obstipac¸ãointestinal,gastroparesia,disfunc¸ão

vesical,func¸ão neurovascularprejudicadaeperdada

res-postaautonômicaàhipoglicemia.Paraomanejoanestésico,

alémdasalterac¸ões autonômicascardiovasculares, é

fun-damentallembrarqueamotilidadeesofágicareduzidaea

gastroparesia podem levar a vômitos e aspirac¸ão do

con-teúdogástrico.8Ahiperglicemia,agudaoucrônica,aumenta

o tempo de esvaziamento gástrico e pode aumentar o

volumedoconteúdogástrico.10

Sistemacardiovascular

Pacientes diabéticos têm risco aumentado de

hiperten-sãoarterial, doenc¸a arterial coronariana (DAC), isquemia

miocárdicasilenciosa,disfunc¸ãocardíacasistólicae

diastó-licaeinsuficiência cardíacacongestiva.8Atravésdevários

mecanismos, a hiperglicemia prejudica a vasodilatac¸ão

e induz um estado pró-inflamatório, pró-trombótico e

pró-aterogênico crônico que serve como base para as

complicac¸õesvascularescomumenteencontradasnos

paci-entesdiabéticos.13Pacientescomdiabetesmasseminfarto

agudo do miocárdio (IAM) prévio têm o mesmo risco de

eventos coronarianos de um paciente não diabético com

IAMprévio.14Defato,pacientesdiabéticossãoconsiderados

derisco aumentado para DAC, é obrigatório o uso

inten-sivodeterapiaantiaterosclerótica.15 Diretriz daAmerican

HeartAssociation(AHA)paraavaliac¸ãocardiológica

perio-peratóriadepacientessubmetidosàcirurgianãocardíaca

(4)

recebeterapiainsulínica,comofatorderiscoindependente

paraeventoscardíacosadversos.16

Avaliac¸ãopré-operatóriaeimportânciadaHbA1c

No paciente com DM a história clínica deve esclarecer

o tipo (DM1, DM2, diabetes melito gestacional ou outros

tipos),controleglicêmico, tempodediagnóstico(preditor

decomplicac¸õescrônicas),terapiamedicamentosa

(antidi-abéticosorais,injetáveisnãoinsulínicosouinsulina),dose

dasmedicac¸õesehoráriosemquesãoadministradas.17

Aocorrênciaeafrequênciadehipoglicemiadevemser

questionadas, pois interferem na conduta pré-operatória

dasmedicac¸ões,alémdafrequência deinternac¸ão

hospi-talarrelacionada aocontrole glicêmico (descompensac¸ões

agudas).Acapacidadedopacienteparamedirsuaglicemia

e entender os princípios da terapia do diabetes deve ser

avaliada,jáqueinfluencianomanejoperioperatóriodesses

pacientes.17

Outros fatores de risco para aterosclerose devem ser

pesquisados (tabagismo, hipertensão, dislipidemia,

histó-riafamiliar,sedentarismo),presenc¸adeinfecc¸õesrecentes

que possam alterar o controle glicêmico perioperatório

(pele,pés,tratogenitourinário,odontológicas)eousode

medicac¸õesparaoutrascomorbidades.18

Uma preocupac¸ão importante nos pacientes

diabéti-cos é o número significante de pacientes com DM2 que

nãotêmconhecimento dodiagnóstico e só descobrem no

momentodacirurgia.Estudofeitoempacientessubmetidos

acirurgias não cardíacasencontroutaxa de DMnão

diag-nosticadade10%edeglicemiadejejumalteradade11%.19

Outro estudo mostrou que 24% dos pacientes

encaminha-dosdaatenc¸ão primáriapara acirurgia eletiva tiveramo

diagnóstico de DM ou glicemia de jejum alterada

desco-bertos nodia da cirurgia.20 Curiosamente,pacientes com

DM não diagnosticados foram mais propensos a

necessi-tar de ressuscitac¸ão, reintubac¸ão e ventilac¸ão mecânica

pós-operatória mais prolongada e tiveram maior

mortali-dadeperioperatóriaquandocomparadoscompacientessem

DMecompacientescomDMdiagnosticadopreviamente.21

Esses achados, juntamentecom osde outros

pesquisado-res,sugeremqueo DMnãodiagnosticadoé fatorderisco

aindamaiorparamorbimortalidade perioperatóriadoque

oDMpreviamentediagnosticado.Oriscoaumentado pode

estarrelacionadoaváriosfatores,inclusiveocuidado

ina-dequadopreventivoeaterapiamenosagressivapelaequipe

assistencial.5

Oexamefísicoincluiavaliac¸ãodapressãoarterialcom

ênfase na pesquisa de hipotensão ortostática, um sinal

potencial de neuropatia autonômica. O exame de fundo

de olho pode fornecer uma ideia sobre o risco de o

pacientedesenvolverperdavisualpós-operatória,

especial-menteapóscirurgiaprolongadadecolunanaposic¸ãopronae

apóscirurgiacardíacacomcirculac¸ãoextracorpórea.Devido

àhomologiaentreasmicrocirculac¸õescerebraledaretina,

mudanc¸asnavasculaturadaretinapodemrefletirmudanc¸as

similaresnavasculaturacerebral.Apresenc¸ade

retinopa-tiadiabética pode, portanto, indicar tambémprejuízo da

microcirculac¸ãocerebral.Algunsestudosmostraramquea

retinopatiadiabéticafoiumpreditordedisfunc¸ãocognitiva

Tabela2 Glicemiamédiaestimadaparavalores específi-cosdeHbA1c

Glicemiamédiaplasmática

HbA1c(%) mg.dL---1 mmoL.L---1

6 126 7,0

7 154 8,6

8 186 10,2

8,5 200 11,0

9 212 11,8

10 240 13,4

11 269 14,9

12 298 16,5

Adaptadodasreferências25e26.

pós-operatória devido ao prejuízo da circulac¸ão cerebral

coexistente.22

Asíndromedarigidezarticular,oustiffjointsyndrome,

acrescenta risco significativo durante o manejo das vias

aéreas.Aoexamefísicoseapresentapormeioda

incapaci-dadedeaproximarassuperfíciespalmaresdasarticulac¸ões

interfalangeanas enquantosepressiona umamão contraa

outra --- ‘‘sinal da prece’’ positivo. A avaliac¸ão das vias

aéreasdeveriaincluirotamanhodaglândulatireoide,pois

pacientes portadores deDM1 têmassociac¸ão decerca de

15%comoutrasdoenc¸as autoimunes,comoatireoiditede

Hashimotoeadoenc¸adeGraves.18

Para avaliar o grau de lesão nervosa subsequente, o

graudedisfunc¸ãoneurológicapré-operatóriadeveser

sem-predocumentado,especialmenteantesdaadministrac¸ãode

anestesiaregional.Embuscadesinaisdelesõescutâneasou

deinfecc¸ão,oexamedapele(sítiodeinjec¸ãodeinsulina)

edospésdevefazerpartedarotinadaavaliac¸ão.

Ainvestigac¸ãocomplementarbásicadeveriaincluir:

ele-trocardiogramaderepouso(ECG),avaliac¸ãodafunc¸ãorenal

(creatininasérica),eletrólitos,glicemiadejejumeHbA1c

(se nãomedida nos últimos dois a três meses). Em casos

individualizados,investigac¸õesadicionaisqueincluam

tes-tescardíacosnãoinvasivosdeveriamserconsideradas.23

A HbA1c fornece visão do controle glicêmico dos

últi-mos dois a três meses e tem forte valor preditivo

para complicac¸ões do diabetes.24 Níveis pré-operatórios

elevados estão associados a risco perioperatório

aumen-tado e constituem-se em bom teste de screening

pré--operatório.2,5,8 A tabela 2 mostra a correlac¸ão entre os

níveisdeHbA1cedeglicemiamédiabaseadosemdois

gran-desestudos.25,26

Estudostêmdemonstradoqueomaucontroleglicêmico,

refletido através de altos níveis de glicemia e HbA1c no

perioperatório,estãoassociadoscompioresdesfechos

cirúr-gicos. Esses resultados foram encontrados em ambos os

tiposdecirurgia,eletivaedeemergência,inclusivecirurgia

nacoluna,27vascular,28colorretal,29cardíaca,30,31trauma,32

torácica,33 ortopédica,34 neurocirurgia e hepatobiliar.35,36

Umestudomostrouqueentreospioresdesfechos

observa--seumaumentodamortalidademaiordoque50%,aumento

de2,4 vezesna incidência deinfecc¸ões respiratórias

pós--operatórias, incidência de IAM duplicada e aumento de

(5)

HbA1c>7%foiassociadocomriscoaumentadodeinfecc¸ão

emorbidadeapósdiferentestiposdecirurgia.37

Emvirtudedasnovasevidênciasqueassociamníveis

ele-vadosdeHbA1c,comomarcadordemaucontroleglicêmico,

ecomplicac¸õesperioperatórias, umrecenteguideline

bri-tânicorecomendaquepacientescomDMencaminhadosda

atenc¸ão primáriapara avaliac¸ão cirúrgica devemter seus

resultadosdeHbA1cmaisrecentesincluídosemseu

enca-minhamento e deve sersolicitada a dosagem de HbA1c a

diabéticoscom cirurgiaagendada,senãotiveremmedida

registradanosúltimos trêsmeses.38 Além deavaliac¸ão de

rotina nos pacientes diabéticos que não têm medidas de

HbA1c nos últimos três meses, durante a avaliac¸ão

pré--operatóriadepacientesnãodiabéticoscomfatoresderisco

paraDM(idade>45anos,hipertensão,dislipidemia,

sobre-peso, sedentarismo, história de ovário policístico, entre

outros),algunsautoresrecomendammedidasderotinados

níveisdeHbA1c.4,8

Defato,empacientescomodiagnósticodeDMoufatores

de risco, a dosagem HbA1c é exame pré-operatório

indi-cado. Por outro lado,com oobjetivo deavaliar melhoro

controle glicêmico e diagnosticar diabetes naqueles com

DM desconhecido, alguns autores sugerem determinar os

níveisdeHbA1cnopré-operatóriodetodosospacientesque

serãosubmetidosacirurgiasdegrandeporte.39Essaconduta

é justificada considerando que pacientes hiperglicêmicos

e/oucomDMnãotratadonopré-operatórioapresentam

pio-resdesfechosquandocomparadoscompacientesdiabéticos

tratados, mesmo com valoresde glicemiapré-operatórias

similares.21,1,40 Essacondutapodenãoapenasidentificaro

DM nesses pacientes sem diagnóstico, mas influenciar na

escolhadomelhor momentoparafazer acirurgiaeletiva,

considerandoqueoadiamentopoderiamelhorarocontrole

glicêmicoereduzircomplicac¸ões.39

Por outro lado, uma revisão sistemática concluiu, em

pacientessubmetidos àcirurgia nãocardíaca eletiva,que

adosagem dosníveispré-operatóriosdeglicemiae HbA1c

nãoénecessárianospacientesassintomáticosenão

diabé-ticos.Nessegrupodepacientes,adosagemdeHbA1ceda

glicemiasomentesejustificarianaquelesqueserão

subme-tidosacirurgiavasculareortopédicadegrandeporte,pois

apresentammaiorrisco.41

Impactodoestressecirúrgicoedaanestesiano

controlemetabólico

Em pacientes diabéticos, durante o período

periopera-tório, múltiplas situac¸ões podem resultar na piora da

hiperglicemia.42,43Oestressecirúrgicoinduzresposta

neuro-endócrina,oglucagon,aepinefrinaeocortisol(hormônios

contrarregulatórios)sãoosprimeiroshormôniossecretados.

Esses hormônios levam a um estado catabólico que

con-tribui para a hiperglicemia observada durante o período

perioperatório.Emcasosextremos,oaumentodos

hormô-nioscontrarregulatórioseahiperglicemiaporelescausada

podemlevar a descompensac¸ão metabólicae resultar em

cetoacidose diabética em pacientes com DM1 ou em um

estadohiperglicêmicohiperosmolarnãocetóticonaqueles

comDM2.44

As medicac¸õesque são usadas durante acirurgia

tam-bémpodeminfluenciarograudahiperglicemianopaciente

diabético. Agentes anestésicos e sedativos podem

afe-tar a homeostase da glicose pela modulac¸ão do tônus

simpático.42 De fato, alguns agentes anestésicos podem

reduzira secrec¸ão de hormônios catabólicos ou alterar a

secrec¸ão deinsulina empacientescomDM2comsecrec¸ão

residualdeinsulina.8

A anestesia geral pode mascarar os sinais e sintomas

comunsdehipoglicemia,umadasprincipais preocupac¸ões

do anestesista no período perioperatório.8 A escolha do

agente anestésico pode afetar a homeostase da glicose.

Altasdosesdebenzodiazepínicoseagonistasdoácido

gama--aminobutírico (GABA) reduzem a secrec¸ão de hormônio

adrenocorticotrófico (ACTH) e do cortisol e podem

redu-zirarespostahiperglicêmicaàcirurgia.8Oetomidatoinibe

a síntese adrenal de esteroides, pelo bloqueio da

ativi-dade da enzima 11-beta-hidroxilase, e desencadeia uma

reduc¸ão na resposta hiperglicêmica à cirurgia.45 A

cloni-dinareduzotônussimpáticoealiberac¸ãodenorepinefrina

nos terminais nervosos. Altas doses de opioides parecem

diminuirarespostahiperglicêmica àcirurgiapelareduc¸ão

doshormônioscatabólicos.46Estudosinvitrorevelaramque

anestésicos inalatórios, tais como halotano e isoflurano,

inibemaproduc¸ãonormaldeinsulinadesencadeadapela

gli-cosedeformadose-dependenteeresultamemumaresposta

hiperglicêmica.47

A anestesia regional, inclusive subaracnoidea,

peridu-rale outrosbloqueiosregionais,podemodular asecrec¸ão

de hormônios catabólicos e de insulina. A ativac¸ão do

sistemanervoso simpático e do eixo hipotálamo-hipófise,

induzidospeloestressecirúrgico,podeserevitadaporessa

modalidade de anestesia.48 Em pacientes com resistência

à insulina, alguns autores demostraram que a

aneste-sia e a analgesia peridural, comparadas com a anestesia

geral, podem reduzir o grau de resistência insulínica no

pós-operatórioimediato.49 Entretanto,existemressalvase

preocupac¸ões arespeito do uso daanestesia regionalnos

pacientescom DM,tanto na execuc¸ão de bloqueios

peri-féricos quanto na aplicac¸ão de técnicas que abordam o

neuroeixo. O DM está associado a vários tipos de

neu-ropatias,a polineuropatiadistal simétrica(polineuropatia

diabéticaouDPN)eaneuropatiaautonômicaestão

presen-tesem até50%dospacientesdiabéticosdelongadata.7,22

Pacientes com DPN podem ser mais suscetíveis à lesão

double-crush (suscetibilidade aumentada à lesão nervosa

subsequentea agressãosecundáriadebaixo grau, se

pre-sumirmosqueafibradiabéticajátemalgumgraudelesão

pelahipoxemiacrônica),50masasevidênciasclínicasatuais

sãoinconclusivas.Estudosfeitosemanimaisdemonstraram

queasfibras nervosasdoanimal diabéticosãomais

sensí-veisaosefeitosdosanestésicos locaisepodemapresentar

suscetibilidadeaumentadaàneurotoxicidadedesencadeada

poressasdrogas.51,52 Nos pacientesdiabéticossubmetidos

a bloqueios de nervos periféricos, estudos clínicos

suge-remsensibilidadeaumentadaaosanestésicoslocais.53Além

disso,nervosdiabéticossãomenossensíveisàestimulac¸ão

elétrica,o que teoricamente aumentariao risco delesão

nervosapelaagulhaao tentarlocalizar osnervoscom um

estimuladordenervoperiférico.54Poressesmotivos,a

Ame-rican Society of Regional Anesthesia (ASRA)55 recomenda

que, ao fazer bloqueios de nervos periféricosem

pacien-tesmuitosintomáticos,seconsiderelimitaraconcentrac¸ão

(6)

comoadjuvanteeguiar-seporultrassomcomoobjetivode

manter a ponta daagulha distante donervo. Além disso,

evidênciasdemonstramquepacientes diabéticossãomais

propensosadesenvolverabscessosperiduraiseinstabilidade

hemodinâmicaapósbloqueiosdoneuroeixo(pacientescom

neuropatiaautonômica).2

Planejamentocirúrgico

Os principais objetivos são diminuir o período de jejum,

garantir normoglicemia (glicemia capilar entre 108 e

180mg.dL---1)ereduziraomáximoa interrupc¸ão darotina

dopaciente.Idealmente,opacientedeveriaseragendado

para o primeiro horário no mapa cirúrgico. Se o período

dejejumdopacienteforlimitadoaumarefeic¸ãoperdida,

opta-sepelamodificac¸ãodesuamedicac¸ãonormalpara

dia-betes.Seperíodosmaislongosdejejumsãoprevistos,uma

infusãovariávelintravenosadeinsulina (IVIVI)deveriaser

usadaesolicitadaumaavaliac¸ãocomespecialista.O

paci-entedevereceberinstruc¸õesporescritoquantoaomanejo

das medicac¸ões no dia da cirurgia e sobre o controle da

hipooudahiperglicemiaperioperatóriaesobreosprováveis

efeitosdacirurgianocontroledodiabetes.2

A glicemia capilar deve ser checada na admissão,

antesdainduc¸ãodaanestesia,emonitoradaregularmente

duranteoprocedimento(pelomenosacadahora,oumais

frequentementeseosresultadosestiveremforadavariac¸ão

normal).2

Manejodosantidiabéticosoraiseinjetáveisnão

insulínicos

Empacientes diabéticos,ocontrole glicêmico consisteno

balanc¸oentreaingestãodecarboidratoseseuuso(p.ex.:

exercíciofísico).Issotambémdependedequalmedicac¸ãoé

usadaecomoessasmedicac¸õesfuncionam.Durante

perío-dos de jejum, alguns agentes (sulfonilureias e glinidas)

reduzemaconcentrac¸ãodeglicoseeasdosesprecisamser

modificadase/ouosagentessuspensos.Outrosprevinemo

aumentodosníveisdeglicose(metformina,análogosdo

Glu-cagonLikePeptide---GLP-1einibidoresdaenzimadipeptidil

peptidaseIV---DPP-IV)epodemsercontinuadossemorisco

dedesencadearhipoglicemia.2

A metforminaage como umsensibilizador à insulina e

inibeagliconeogênese.Algunsguidelinesrecomendam

sus-penderousodemetformina24---48horasantesdoinícioda

cirurgia,peloriscodedesenvolveracidoseláticae

insufici-ênciarenalperioperatóriadevidoaoacúmulodessadroga.56

Comoaevidência paraessa abordagemé fracae existem

evidências de que a continuac¸ão perioperatória da

met-formina é segura, durante o perioperatório uma conduta

racionalécontinuarousodametforminaemtodosos

paci-entescomperíodocurtodejejum,comfunc¸ãorenalnormal

equandonãohouver usodecontraste.2,39 Por outro lado,

a metformina deveria ser suspensa quando houver lesão

renalpré-existente(taxadefiltrac¸ãoglomerular estimada

--- TGFe < 60 mL.min---1 ou creatinina elevada),2,57 uso de

contrasteouriscosignificativodopacientedesenvolverIRA.

Nessescasos,asuspensãodeveocorrernodiadacirurgiae

duranteas48horasseguintes.2

Duranteojejum,assulfonilureiasestimulamasecrec¸ão

de insulina e podem levar a hipoglicemia. Por terem

meia-vida mais longa (2---10h),58 recomenda-se omitir a

dose dodia dacirurgiaindependentemente do horáriodo

procedimento.2Asglinidasapresentammecanismodeac¸ão

semelhanteàssulfonilureiase, porteremmeia vidacurta

(1h)epicodeac¸ãoprecoce,sãousadasparacontroleda

gli-cemiapós-prandial,ahipoglicemiacomessetipodeagente

émenoscomum.17Aomissãodadosenodiadacirurgiadeve

ocorrernosprocedimentosfeitosdemanhã.Casoacirurgia

sejanoperíodovespertinoeopacientefac¸aumarefeic¸ão

pelamanhã,adosepré-refeic¸ãopodeserusada.2

Similarà metformina, as glitazonas ou tiazolinedionas

agem através da sensibilizac¸ão periférica à insulina. Não

estãoassociadasàacidoselática,emborapossamestar

asso-ciadasàretenc¸ãohídrica epossível pioriadoedema eda

insuficiênciacardíacanoperíodopós-operatório.59 Os

con-sensos não sugerem a suspensão dessa droga no período

perioperatório,2,17,60,61 deve ser usada no dia da cirurgia

e atentar-se para a possibilidade de pioria de edema e

descompensac¸ãocardíacaempacientesderisco.2

Osinibidores daalfa-glicosidaseinibemasenzimas

oli-gossacaridases e dissacaridases e reduzem a absorc¸ão de

glicose apósasrefeic¸ões.Nodia dacirurgia deve-se

omi-tiradosenosprocedimentosfeitosdemanhã.Porém,caso

acirurgiasejanoperíodovespertinoeopacientefac¸auma

refeic¸ãodemanhã,adosepré-refeic¸ãopodeserusada,2se

considerarmosquetaisdrogasnãocursamcomhipoglicemia

etêmmeia-vidacurta.17

Asnovasdrogasincretínicas,representadaspelos

análo-gosdoGLP-1eosinibidoresdaenzimaDPP-IV,aumentama

secrec¸ãodeinsulinaapósaingestãodeglicosee reduzem

a secrec¸ão de glucagon.58 Não causam hipoglicemia, mas

podem levar a umretardo noesvaziamento gástrico pelo

aumentodoGLP-1.60Poressarazãoalgunsautoressugerem

suasuspensão nodia doprocedimento.8,60 Embora a

dire-trizbritânicamaisrecenterecomendeousoaténodiada

cirurgia,independentementedohoráriocirúrgico.2

Os inibidores da proteína cotransportadora de

gli-cose/sódioTipo2(SGLT-2), presentenotúbulocontorcido

proximal do néfron, foram recentemente introduzidos

no tratamento do DM. Por levarem à glicosúria, podem

gerar diurese osmótica com desidratac¸ão e hipotensão

arterial, esses efeitos sãomaiscomuns com o uso

conco-mitantedediuréticos.62Pelafaltadeexperiênciacomessas

medicac¸ões,recomenda-seomitiradosenodiadacirurgia,

independentementedohoráriodoprocedimento.2

O manejo dos antidiabéticos orais nos pacientes que

serão submetidosacurtoperíododejejum,ouseja,

limi-tadosaumarefeic¸ãoperdida, estáresumidona tabela 3.

Todosdevemficarsuspensosatéqueaingestaporviaoral

sejarestabelecida.2,8

Manejodasinsulinas

Pacientes com DM1 são frequentemente tratados com

múltiplas injec¸ões de insulina. O regime preferido de

dosagemfisiológicadeinsulina(tambémchamadadebólus

basal) mimetiza a produc¸ão endógena de insulina através

dofornecimentodasdosesbasal,prandialedecorrec¸ão.A

(7)

Tabela3 Recomendac¸õesparausoperioperatóriodosantidiabéticosoraiseinjetáveisnãoinsulínicos

Classe(nomecomercial) Diaanterior Diadacirurgia

Cirurgiamanhã Cirurgiatarde

Biguanidas Usohabitual,excetosecontraindicac¸õesa

Metformina(Glifage®

)

Sulfoniureias Usohabitual Omitiradoseindependentementedohorário Gliclazida(Diamicron®)

Glibenclamida(Daonil®) Glimepirida(Amaryl®) Glipizida(Glucotrol®)

Glinidas Usohabitual Omitiradosedamanhã Tomaradosedamanhã

(pré-refeic¸ão),casoo pacientefac¸aodesjejum Nateglinida(Starlix®

) Repaglinida(Prandin®) Inibidoresda˛-glicosidase

Acarbose(Glucobay®

)

Glitazonas Usohabitual Usohabitual(atenc¸ão

nospacientescomrisco decongestãocardíaca) Rosiglitazona(Avandia®)

Pioglitazona(Actos®)

InibidoresdaDPP-IV Usohabitual Usohabitual2ouomitira

dosenodiado

procedimento(potencial retardodoesvaziamento gástrico)8

Sitagliptina(Januvia®) Vildagliptina(Galvus®

) Saxagliptina(Onglyza®

) Alogliptina(Nesina®) Linagliptina(Trayenta®) Análogos---GLP1

Exenatide(Byetta®

Bydureon®

) Liraglutide(Victoza®)

InibidoresSGLT-2 Usohabitual Omitirdosenodiada cirurgia.Atenc¸ãoparao usoconcomitantede diuréticos.

Dapaglifozina(Forxiga®) Canaglifozina(Invokana®) Empaglifozina(Jardiance®

)

a Usodecontrasteradiológico,TFGe<60mL.min---1,creatininaelevadaouriscosignificativodeIRA.2

Adaptadodasreferências2,8,17.

contínuadeinsulinaatravésdebombadeinsulina(baseada

numa taxa de análogos insulínicos de ac¸ão rápida) ou

atravésdeanálogosdeinsulinadelongaac¸ãoe sempico.

Ainsulinabasalcompreendeaproximadamente50%dadose

totaldiáriadeinsulinadopaciente,cobreasnecessidades

metabólicassem causar hipoglicemia. Ospacientes

admi-nistrambólusvariáveisdeinsulinadeac¸ãorápidadeacordo

comaingestadecarboidratosdasrefeic¸ões.63

Entretanto, nos pacientes com DM 2, algoritmos de

tratamentoatuaisincluemousodediferentestiposde

hipo-glicemiantesorais,medicac¸õesinjetáveisnãoinsulínicase

insulinas.8Insulinadelongaac¸ão,deac¸ãointermediáriaou

insulinas pré-misturadas são regimes opcionais usados na

maioria das vezes por esses pacientescom o objetivo de

suplementarasmedicac¸õesoraiseaproduc¸ãoendógenade

insulina,maspodemcausarhipoglicemiaduranteojejum.

PacientescomDM2sãoinsulinorresistentesenormalmente

requeremdosesmaioresdeinsulinaparaomesmonívelde

controleglicêmico.

É fundamental lembrar que o metabolismo basal usa

aproximadamente50%dainsulinadiáriaproduzidapelo

indi-víduo, mesmo na ausência de alimentac¸ão. Dessa forma,

opaciente deve continuar areceber certaquantidadede

insulina mesmo em jejum. Isso é obrigatório nos

pacien-tes com DM1, pois são insulinodeficientes e propensos a

desenvolvercetoacidose diabética. Necessitam, portanto,

deumsuprimentoexógeno contínuo deinsulina. Umerro

comumémanejaressespacientescomopacientescomDM2,

que não são propensos a cetose. Esses últimos são

sus-cetíveis a desenvolver um EHH, que pode levar a graves

deplec¸õesvolêmicase complicac¸õesneurológicas, embora

elestambémpossamdesenvolvercetoacidoseem resposta

acondic¸õesdeestresseextremo.8

Ostiposdeinsulina disponíveisparatratamentodoDM

estãocitadosnatabela4,assimcomosuafarmacocinética.

Análogos de insulina de longa ac¸ão, como glargina,

degludec oudetemir, são normalmente usados para

(8)

Tabela4 Tiposefarmacocinéticadasinsulinas

Classedadroga:genérico(nomecomercial) Iníciodeac¸ão Picodeac¸ão Durac¸ão

Análogosderápidaac¸ão

Lispro(Humalog®

) 5---15minutos 30---90minutos 4---6horas

Aspart(Novolog® Novorapid®) 5---15minutos 30---90minutos 4---6horas Glulisina(Apidra®) 5---15minutos 30---90minutos 4---6horas

Ac¸ãocurta

Regular(NovolinR® Humulin®) 30---60minutos 2---4horas 6---8horas

Ac¸ãointermediária

NPH(NovolinN®

HumulinN®

) 2---4horas 4---10horas 10---16horas

Insulinazincica(Lente®) 2---4horas 4---10horas 12---20horas Insulinaestendidazíncica(Ultralente®) 6---10horas 10---16horas 18---24horas

Ac¸ãolonga/basal

Glargina(Lantus®) 2---4horas Nãotem 20---24horas

Detemir(Levemir®) 2---4horas Nãotem 20---24horas

Degludec(Tresiba®

) 2---4horas Nãotem ≥42horas

Pré-misturadas(NPH+regular)

70%NPH/30%regular(Novolin70/30®,Humulin70/30®) 30---90minutos Duplo 10---16horas 50%NPH/50%regular(Humulin50/50®) 30---90minutos Duplo 10---16horas

Pré-misturadas(análogosdeac¸ãointermédiária+deac¸ãocurta)

70%AspartProtaminesuspension/30%Aspart(Novologmix70/30®) 5---15minutos Duplo 10---16horas 75%LisproProtaminesuspension/25%Lispro(Humalogmix75/25®

) 5---15minutos Duplo 10---16horas 50%LisproProtaminesuspension/50%Lispro(Humalogmix50/50®

) 5---15minutos Duplo 10---12horas

Adaptadodareferência17.

geralmentenãoapresentamriscoaumentadode

hipoglice-miacomessesanálogos,mesmo senãofizeremrefeic¸ões,

comoobservadonojejumpréepós-operatório.

Recomenda--seaadministrac¸ãodadoseusualdessesanálogosaplicada

nodiaanteriorenodiadacirurgia,excetosehouverhistória

dehipoglicemiaouingestacalóricareduzidanavésperado

procedimento.17,60Algunsautoresrecomendamreduzirsuas

dosesem20%---30%nanoiteanteriorounamanhãdodiada

cirurgia.2,63

Ostratamentoscombinadoscominsulinas,deac¸ão

inter-mediáriaou pré-misturadas, e drogas antidiabéticas orais

podem causar hipoglicemia durante o jejum. Em relac¸ão

àinsulinadeac¸ãointermediária,como neutralprotamine

hagedorn(NPH) ouneutralprotamine lispro(NPL),

admi-nistradanodiaanterioracirurgia,pode-semanter adose

aplicadademanhã;entretanto,algunsautoresrecomendam

uma reduc¸ão de 25% na dose aplicada à noite,

princi-palmente se existir história de hipoglicemia. No dia da

cirurgia,recomenda-sereduc¸ãodadosedamanhãem25%

a50%.2,8,17,60

As insulinas pré-misturadas são combinac¸ões fixas de

insulinadeac¸ãorápidaeintermediária.63 Nãoénecessário

mudarsua dose nodia anterioràcirurgia. Entretanto,no

diadoprocedimento,deveriam sersubstituídas por

aque-lasdeac¸ãointermediáriaedeac¸ãorápida.Paraminimizar

oriscodehipoglicemia causadopelocomponentedeac¸ão

rápida,adosedecadatipodeinsulinadeveriaser

adminis-tradadeformaindependente.63 Quantoaocomponentede

ac¸ão intermediária, recomenda-seareduc¸ãoproporcional

dadosedamanhãem25%---50%.2,17,60,63

Asinsulinasdecurtaac¸ão(insulinaregular)ouos

análo-gosderápidaac¸ão(aspart,glulisina,lispro)têmoobjetivo

decontrolar variac¸õesglicêmicasinduzidas pelarefeic¸ão.

Assimérecomendadoqueadosepermanec¸ainalteradano

diaanterioràcirurgia.Nodiadacirurgia,devidoariscode

hipoglicemia,éintuitivoevitaraadministrac¸ãodadose

des-sasinsulinasenquantoopacienteestiveremjejum.2,8,17,60,63

Paradeterminar o manejopré-operatório dainsulinaé

fundamental, além de se conhecer o esquema de

insu-lina usadopelo paciente, definir o horário dacirurgia e,

dessa forma, quantas refeic¸ões serão perdidas. Nos

paci-entes que perderão apenas uma refeic¸ão, o controle da

glicemiapodeserfeitocomamanipulac¸ãodasdoses

habitu-aisdeinsulinaconformecitadoanteriormenteeresumidona

tabela5.2,17,60

Éimportantelembrarqueasevidênciassobreomanejo

perioperatório das insulinas ainda são escassas e não há

consenso entreos diferentesguidelines. Entretanto,para

cirurgias que necessitem umlongoperíodo dejejum com

perda de mais de uma refeic¸ão ou cirurgias de grande

porte,2,61 torna-semaisindicadoouso deinfusãovariável

intravenosadeinsulina(IVIVI)descritoaseguir.

Infusãovariávelintravenosadeinsulina(IVIVI)

Ainfusãovariávelintravenosadeinsulina(IVIVI)épreferida:

empacientesqueperderãomaisdeumarefeic¸ão;naqueles

comDM1submetidosàcirurgiaequenãoreceberaminsulina

basal;naquelescomdiabetesmalcontrolado(HbA1c>8,5%)

e na maioria dos pacientes com diabetes que necessitam

de cirurgia de emergência. A IVIVI deveser administrada

emonitoradaporprofissionaisqualificadose experientes.2

(9)

Tabela5 Manejodaterapiainsulínicaparapacientescomperíodocurtodejejum(atéumarefeic¸ãoperdida)

Tipodeinsulina Diaanterior Diadacirurgia

Cirurgiamanhã Cirurgiaàtarde

Infusãocontínuasubcutâneade insulina(bomba)

Manterinfusãobasaloureduzir20%---30%dadosebasalsehistóriadehipoglicemia frequente

Insulinadelongadurac¸ãoou basal(glargina,detemir)

Aplicac¸ãomatinal:mantera dose;

Aplicac¸ãonoturna:mantera doseoureduzir20%---30%b

Nocasodeaplicac¸ãomatinala:Manteradoseoureduzir

20%---30%sehistóriadehipoglicemiafrequente;Checar glicemianaadmissão

Insulinadedurac¸ão intermediária(NPH)

Aplicac¸ãomatinal:mantera dose

Aplicac¸ãonoturna: Manteradoseoureduzir 20%---30%b

Reduzirem50%adosematinala;Checarglicemianaadmissão;

manterinalteradaadosenoturnaapóscirurgia(sejá alimentando)

InsulinaPré-misturada Manteradose Reduzir50%dadosematinaldainsulinaintermediáriaa;omitir

adosedainsulinarápida/curta.Checarglicemianaadmissão. Manterinalteradaadosenoturnaapóscirurgia(sejá

alimentando)

Análagosderápidaac¸ãoou insulinadecurtaac¸ão

Manteradose Nãoaplicaradose Nãoaplicaradose

a Nodiadacirurgiaainsulinaaseraplicadademanhãdeveseradministradanachegadaaoestabelecimentodesaúde. b Históriadehipoglicemiadurantemadrugada/manhã.

Adaptadodasreferências2,17,61,64.

prevenirainduc¸ãodeestadocatabólico,cetosedejejume

hipoglicemia induzidapelainsulina.Érecomendadoque a

glicemiasejamedidapelomenosacadahora.8

Existem inúmeros algoritmos de IVIVI publicados na

literatura, com soluc¸ões de insulina e glicose infundidas

separadamenteoucomosoluc¸ãocombinadadeglicose,

insu-lina e potássio (GIK). O regime de escolha é a infusão

separadadeinsulinaeglicose,emqueaglicoseé

adminis-tradaaaproximadamente5---10g.hora−1;eainsulinausada

éaqueladecurtaac¸ão(1mL.100−1Udeinsulinaem99mL

deSF0,9%).23AmaioriadospacientesDM1necessitade

infu-sãocomtaxade1---2unidades.hora---1,enquantoospacientes

DM2,insulinorresistentes,podemnecessitardetaxasmais

elevadas.23

Um algorítmo comumente seguido calcula a taxa

ini-cial de infusão com a divisão do nível glicêmico (em

mg.dL---1) por 100 e, então, arredonda-se o resultado em

unidades.hora---1 (p. ex.:glicemiade210;210 divididopor

100=2,1unidades.hora---1).Nocasodehipoglicemia,a

infu-sãodeinsulinapodeserdiminuída;entretanto,paraevitar

cetose,atentac¸ãodesuspenderainfusãodeinsulinadeve

serevitadanospacientescomDM1.Nessescasos,ainfusão

deinsulinapodeserreduzidapara0,5unidades.hora---1 ea

taxadeinfusãodeglicoseaumentadaparamanterosalvos

deglicemia.23

Ataxadeinfusãodeinsulinadevesertituladaconformeo

procedimentoeograuderesistênciainsulínica.Para

proce-dimentosde revascularizac¸ãomiocárdica, asnecessidades

deinsulina podem aumentaraté 10vezes, especialmente

apósarecuperac¸ãodoperíododehipotermia,necessita-se

deumaumentonataxainicialdeinsulinaem trêsacinco

vezes.23

Qualfluidousarnoperíodoperioperatório?

Oobjetivoéevitarsoluc¸õescomglicose,excetosehouver

hipoglicemia.2Asoluc¸ãorecomendadaparapacientes

dia-béticosquenãonecessitemdeIVIVIéasoluc¸ãodeHartmann

(ringerlactato--- RL),preferida em relac¸ão ao cloretode

sódio0,9%porreduziro riscodeacidosehiperclorêmica.8

Em pacientescom diabetes o RLpodelevar a

hiperglice-mia.Defato,foidemonstradoqueumlitrodesoluc¸ãodeRL

aumentaaglicoseplasmáticanãomaisdoque1mmol.L---1

(18mg.dL---1).64Oquenãocontraindicaseuusoempacientes

diabéticos.8

Empacientesque recebemIVIVI,oobjetivoé fornecer

glicosecomosubstratoparaprevenir proteólise, lipólisee

cetogêneseeparamelhorarovolumeintravascularemanter

os eletrólitos plasmáticos nos valores normais,

principal-menteopotássio.Osfluidosdevemseradministradosauma

taxaapropriadaàsnecessidadesnormaisdemanutenc¸ãodo

paciente---normalmente25---50mL.Kg---1.dia---1

(aproximada-mente83mL.hora---1paraumpacientede70Kg).2Paraevitar

catabolismo, a glicose deve ser fornecida a uma taxa de

aproximadamente5---10g.hora---1.23Soluc¸ãodeRLadicional

ououtrasoluc¸ãocristaloideisotônicabalanceadadeveser

usadaparareporovolumeintravascular.2

Metasglicêmicasnoperíodoperioperatório

Existeforterecomendac¸ão2,17,60,65paraseguiraimplantac¸ão

doalvo deseguranc¸acirúrgicadaOrganizac¸ão Mundialde

Saúde(OMS)queestabelecequeavariac¸ãoidealdeglicose

(10)

doentesdeveriaserde108---180mg.dL---1(6---10mmoL.L---1

---nosEUA,olimiteinferioréde100mg.dL---1ou5,6mmoL.L---1).

Ocontroleglicêmicoadequadoreduzinfecc¸ão

perioperató-ria,morbidadeemortalidade.1,40

Alguns autores consideram que uma variac¸ão de

72---216mg.dL---1 (4---12mmoL.L---1) seriaaceitável.60

Entre-tanto,háalgunsargumentoscontraousodessafaixamais

extensa.Olimitesuperiorde216mg.dL---1(12mmoL.L---1)é

similaràconcentrac¸ãoque,invitro,resultaemuma

varie-dadedemudanc¸asnafunc¸ãoendotelial,sínteseaumentada

de citocinas e func¸ão prejudicada dos neutrófilos que

aumentam o risco de infecc¸ão.66 O limite inferior de

72 mg.dL---1 (4 mmoL.L---1) é próximo aosvalores de

glice-miaque,emalgunspacientesdiabéticos,induzsintomasde

hipoglicemia.39

Revisões sistemáticas e metanálises têmtentado

iden-tificar os benefícios de um controle glicêmico intensivo

em pacientes diabéticos submetidos a cirurgia. Uma

metanálise concluiu que o controle glicêmico moderado,

definido como alvo glicêmico entre 150 e 200 mg.dL---1

(8,3---11,1 mmoL.L---1), durante ou imediatamente após a

cirurgia, está associado a uma reduc¸ão no risco de

mor-talidadee AVE em pacientes com DM quando comparado

comumcontroleglicêmico liberal,definidocomoumalvo

glicêmico > 200 mg.dL---1 (> 11,1 mmoL.L---1). Os

resulta-dosdessametanálisetambémdemonstraramquenãohouve

diferenc¸as em relac¸ão aos desfechos entre controle

gli-cêmicomoderado e rigoroso, que foi definidocomo alvos

glicêmicos entre90 e 150 mg.dL---1 (5,6---8,3 mmoL.L---1).67

Essesachadossãocorroboradosporrevisãorecentedo

Ins-tituto Cochrane, que concluiu nãohaverdiferenc¸as entre

controle glicêmico intensivo, glicemia com alvo próximo

ao normale controle convencional em relac¸ão aos

desfe-chospós-operatórios,excetoporumaumentonoseventos

dehipoglicemiaqueocorreramnospacientestratadoscom

controleintensivo.68

Níveisglicêmicoscronicamenteelevadosnãodevemser

reduzidosounormalizadosagudamentedevidoaopotencial

dehipoglicemiaeporqueflutuac¸õessignificativasna

glice-miapodemaumentaramorbimortalidadeperioperatória.5,42

Quandopostergaracirurgia?

Em geral, a cirurgia deve ser postergada em pacientes

comcomplicac¸õessignificantesdahiperglicemia,taiscomo

desidratac¸ão,cetoacidoseouEHH.17,42Entretanto,a

cirur-gia pode ser indicada em pacientes com hiperglicemia

pré-operatória,desdequeopacientetenharegistrode

con-troleglicêmicoadequado nosúltimosmeses.17 Adepender

decircunstânciasindividuais,umlimite superiordeHbA1c

entre8%e9%éaceitável.8Asúltimasdiretrizesbritânicas

recomendamqueacirurgiadeveseradiadanapresenc¸ade

HbA1cacimade8,5%(média:200mg.dL---1)comoobjetivo

deaprimorarocontroleglicêmicoereduzircomplicac¸ões.2

ParaaSociedadeAustralianadediabetes,ovalordeHbA1c

deveseracimade9%(glicemiamédiade215mg.dL---1)para

oadiamentodacirurgia.61

Nodiaadia,essasrecomendac¸õespodemserpouco

prá-ticasseconsiderarmosqueareduc¸ão dosníveisdeHbA1c

poderia levar semanas/meses60 e que em determinados

casospodenãoserpossívelmelhorarocontrole glicêmico

emtempohábil,particularmenteseomotivodacirurgia,tal

comoinfecc¸ãocrônica,contribuirparaopiorcontroleouse

acirurgiafor deurgência. Nessascircunstâncias,podeser

aceitávelprosseguircomacirurgiaapósexplicaraopaciente

sobreosriscosaumentados.2AHbA1cseria,nesses

pacien-tes,umaferramentaútilparaintensificaraterapiadiabética

perioperatórianatentativadereduzircomplicac¸ões.8

Conclusão

OspacientescomDMtêmriscoaumentadoparadesenvolver

complicac¸õesnoperíodoperioperatório.Oestresse

metabó-licocausadopeloprocedimentocirúrgicolevaaaumentoda

demandaporinsulina,oquepodecausardescompensac¸ão

ehiperglicêmia.Antesdacirurgia,umaavaliac¸ãocompleta

dascaracterísticasdessespacientes,inclusiveotratamento

paraoDM,éfundamental.Omanejoperioperatório,

espe-cialmenteotratamentomedicamentoso,deveserajustado

deacordocomarotinadopacientee comas

característi-casdoprocedimentocirúrgico(tipoedurac¸ão).Seoperíodo

dejejumforlimitadoaumarefeic¸ãoperdida,opta-sepela

manutenc¸ão ou modificac¸ão daforma como a medicac¸ão

é usada habitualmente.Seperíodos maislongosdejejum

sãoprevistos,umainfusãovariávelintravenosadeinsulina

(IVIVI) deveria ser usada e solicitada uma avaliac¸ão com

especialista. As evidênciassobre o manejo perioperatório

das medicac¸ões ainda são escassas e não há

concordân-ciaentreosdiferentesguidelines,portantosãonecessários

mais ensaios clínicos para determinar o melhor

planeja-mentoparaotratamentodessespacientes.

Conflitos

de

interesse

Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.

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Imagem

Tabela 2 Glicemia média estimada para valores específi- específi-cos de HbA1c
Tabela 3 Recomendac ¸ões para uso perioperatório dos antidiabéticos orais e injetáveis não insulínicos
Tabela 4 Tipos e farmacocinética das insulinas
Tabela 5 Manejo da terapia insulínica para pacientes com período curto de jejum (até uma refeic ¸ão perdida)

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