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– PósGraduação em Letras Neolatinas

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Academic year: 2018

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS NEOLATINAS

Mônica Nascimento Santos Bila

O RESGATE DA MEMÓRIA EM HASTA NO VERTE JESÚS MIO:HIBRIDISMO E IDENTIDADE

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O RESGATE DA MEMÓRIA EM HASTA NO VERTE JESÚS MIO:HIBRIDISMO E IDENTIDADE

por

Mônica Nascimento Santos Bila

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro como quesito para a obtenção do título de Mestre em Estudos Literários Neolatinos - Literaturas Hispânicas.

Orientadora: Profa. Dra. Bella Karacuchansky Jozef

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Mônica Nascimento Santos Bila

O resgate da memória em Hasta no verte Jesús mio de Elena Poniatowska: hibridismo e identidade

Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós –Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro –UFRJ como parte dos quesitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Estudos Literários Neolatinos - Literaturas Hispânicas.

Rio de Janeiro, 15 de fevereiro de 2008

BANCA EXAMINADORA

__________________________________________________________ Professora Doutora Bella Karacuchansky Jozef (Orientadora)

__________________________________________________________ Professora Doutora Cláudia Heloisa Luna, UFRJ

_____________________________________________________

Professora Doutora Helena Parente Cunha, UFRJ

___________________________________________________________ Professora Doutora Mariluci Guberman, UFRJ (Suplente)

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BILA, Mônica Nascimento Santos.

O resgate da memória em Hasta no verte Jesús mio de Elena Poniatowska: Hibridismo e identidade. Rio de Janeiro: UFRJ

Faculdade de Letras,2008.

Orientadora: Professora Doutora Bella Karacuchansy Jozef

Dissertação de Mestrado em Literaturas Hispânicas

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Dedicatória

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Agradecimentos

A Deus, porque por ele, por meio dele e para ele são todas as coisas. Ao meu esposo Amaro, pelo incentivo e paciência.

Aos meus pais José Carlos e Maria, que plantaram em minha vida uma preciosa semente.

À Gisele e Joice, muito mais que irmãs.

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Sumário Introdução

Capítulo 1 – A categoria de gênero: construção do feminino 1.1. A mulher e a Revolução Mexicana

1.2. Uma questão de gênero: a escrita da mulher 1.3. A oralidade do subalterno

Capítulo 2 – Memória, História e testemunho

2.1. A externalização da memória do subalterno 2.2. O conceito de mexicanidade presente na obra 2.3. O resgate da memória através do testemunho

Capítulo 3 – Divergências culturais? Hibridismo e subalternidade 1. Hibridismo e processo intercultural

2. Margem e/ou periferia (reordenação do discurso a partir da periferia) 3. A transgressão do cânone através da margem

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Introdução

Talvez seja difícil encontrar em outra época, anterior a esta, na qual se tenha escrito e pensado tanto sobre a mulher e a literatura ou sobre a mulher e sua tarefa literária. É certo que discurso do feminino, ou seja, a mulher falada e pensada pelos homens, sempre existiu, mas somente após a metade do século XX começam a dar importância ao discurso feminino (López, 1995:18). A escritora lituana Biruté Ciplijauskaité afirma que : “O que interessa Às autoras contemporâneas não é apenas o contar ou contar-se; é falar concretamente como mulheres, analisando-se, formulando perguntas e descobrindo aspectos desconhecidos e não expressados”(1994:17). Nos últimos cinqüenta anos, a mulher alcançou conquistas que a um século atrás eram difíceis de imaginar. Estas conquistas também foram refletidas na literatura.

No fim da década de cinqüenta começa a surgir um novo grupo de narradoras mexicanas, que se consolida nos anos oitenta, cujo discurso feminino e feminista, entendendo este último como uma atitude crítica ante o papel tradicional da mulher na sociedade, sendo um marco importante na história da mulher e quem sabe da literatura mexicana e latino-americana (López, 1995:27-28). O surgimento deste grupo está intimamente relacionado à modernização da sociedade mexicana e às mudanças nas relações sociais que a modernidade implica.

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palavras de uma velha lavadeira a trajetória da Revolução mexicana. O testemunho franco e vivo de Jesusa Palancares, cujo nome verdadeiro é Josefina Bórquez, traduz os estragos da Revolução; a esta pobre mulher do povo não lhe deu mais que pontapés e uma vida de pícara. Na obra Jesusa já está idosa, desiludida e sem inibições relembra suas andanças de mais de meio século. É uma história trágica e também cômica. Jesusa representa milhões de mulheres que foram arrastadas pela Revolução dominadas por homens, maltratadas pela classe média e alta e abandonadas como animais perdidos e desprezados. A protagonista-narradora faz com que seus leitores a acompanhem em sua peregrinação pelo México que começou nos dias de Madero. Entretecidos nos muitos detalhes da vida de Jesusa, existem comentários e opiniões políticas e críticas. Jesusa mulher pobre, inculta e explorada pela família e amigos está completamente consciente do mundo que a rodeia. Quando recorda sua adolescência que coincidiu coma segunda década do século e o período da guerra civil no México, Jesusa descreve este período como o do oportunismo em que a lealdade consistia em aliar-se com o mais forte. Falando de alguém que era zapatista e que se tornou carrancista, comenta:”Así fue la Revolución, que ahora soy de éstos, pero mañana seré de los otros, a chaquetazo limpio, el caso es estar con el más fuerte, el que tiene más parque...”

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habitantes estão empenhados em destruir tanto aos outros quanto a ela.

Esta obra está narrada completamente por Jesusa em tom conversacional. Desta conversação ou monólogo sustentado por Jesusa, é possível comprovar dados biográficos, comentários políticos e o conjunto de experiências vividas pela protagonista. A autora não intervêm nesta narração. Através de um gravador, e com a arte da entrevista, Elena Poniatowska gravou a história de Jesusa; depois organizou e editou este material para apresenta-lo na forma em que apareceu publicado. O resultado é a autobiografia de uma mulher do povo narrada em sua própria linguagem. É importante ressaltar que esta não é uma mera transcrição de uma entrevista gravada. É uma forma de novela ou relato etnográfico que o escritor cubano Miguel Barnet chama de “novela testemunho”. Para tornar conhecido um importante momento histórico de um país, o novelista se vale de um protagonista representativo do povo que narra os fatos coletivos.

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reune as características da novela testemunho.

Poniatowska faz com que o leitor acompanhe a Revolução passo a passo com Jesusa, mulher do povo, cuja única ambição é sobreviver. E como litania Jesusa salienta a série de desilusões que lhe trouxeram todos os líderes e seus ambiciosos programas: tudo permaneceu do mesmo modo. A Revolução vive nas páginas desta obra. As reivindicações de Jesusa testemunham as frustrações de uma classe esquecida e abandonada por seus líderes.

Elena Poniatowska expressa a realidade mexicana, revelando o complexo mundo mexicano com sua história, tradição e cultura através da alteridade, dando voz e vez a quem de fato vivenciou a história não oficial.

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1. A categoria de gênero: construção da feminino

1.1. Uma questão de gênero: a escrita da mulher

O termo gênero e sua conversão em categoria de análise pelas Ciências Sociais ganha terreno a partir de meados dos anos 80, em função, por um lado, da crise que afeta os paradigmas tradicionais, e por outro, da emergência de novas abordagens teórico-metodológicas. A História Social, o estudo das mentalidades e do cotidiano; a Psicanálise, sobretudo os postulados elaborados pelos pós-estruturalistas; e a Lingüística, oferecem elementos de investigação científica e apontam novas trilhas e uma possibilidade de evidência que, inter relacionados, abrem dimensões para a construção ou (re)construção do conhecimento.

Scott (1990: 13) ressalta que o termo gênero é uma tentativa das feministas contemporâneas de buscar caminhos de definição que difiram das teorias existentes de explicação das origens da desigualdade entre homens e mulheres.

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a idéia de que o homem é o mestre racional de seu próprio destino”.

A emergência do gênero como categoria de análise surge como uma tentativa de estabelecer compreensões teóricas acerca dos questionamentos que emergem na esteira das práticas políticas que marcam o percurso de alguns movimentos sociais, sobretudo, o feminista. Estes movimentos trazem à cena um amplo espectro de interrogações e debates sobre posturas e comportamentos que, tradicionalmente, vinha sendo adotados como explicações “naturais” para atitudes discricionárias, procedimentos discriminadores e políticas

e práticas de dominação e submissão.

A compreensão atual do gênero como categoria de análise histórica carece de um exercício retrospectivo que traga visibilidade ao seu entendimento conceitual. Essa retrospectiva tem uma primeira parada nos anos 60, quando a efervescência da chamada “revolução cultural” traz à cena a questão da submissão e da opressão feminina, enfocada pela luta do movimento feminista, que ressurge ampliando bandeiras além das reivindicações sufragistas e iniciando a discussão acerca de questões como sexualidade, corpo, autonomia

feminina, aborto, etc.

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verifica-se a tentativa de separação teoria e política, militância, esquematização e explicação científica da opressão feminina. Este divórcio acontece, por um lado, a partir das reivindicações do movimento feminista de que a “história oficial e universal” é parcial, portanto, ideológica, e, por outro lado, com a crescente participação das feministas nas academias e Universidades e, ao mesmo tempo, o tratamento marginal que recebem. O rompimento definitivo entre política e teoria dar-se nos anos 80, com a emergência do termo “gênero”, que, como define Scott é empregado para designar as relações sociais entre os sexos significando, assim,

“uma maneira de indicar ‘construções sociais’ - a criação inteiramente social de idéias sobre os papéis adequados aos homens e às mulheres. É uma maneira de se referir às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas dos homens e das mulheres. O gênero é, segundo esta definição, uma categoria social imposta sobre o corpo sexuado.” (Scott, 1990: 07)

A introdução e, de certa forma, uma relativa aceitação de gênero enquanto conceito, categoria de análise amplia as possibilidades de abordagens históricas, sobretudo porque minimiza, relativiza ou recusa tradicionais postulados teóricos de explicação da submissão feminina, como a teoria do patriarcado, por exemplo. Como destaca Scott (1990: 15), o gênero “é construído através do parentesco, mas não exclusivamente; ele é construído igualmente na economia e na organização política, que, pelo menos em nossa sociedade, operam atualmente de maneira amplamente independente do parentesco”.

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versus dominada (fêmea) não tem sustentação quando se abre a perspectiva da análise relacional que assumem decisiva relevância no processo de construção de gênero. Essa compreensão de gênero como uma construção alicerçada em bases sociais, culturais, econômicas, psicológicas, traz para a discussão dois aspectos importantes: um deles, a íntima vinculação de gênero com as relações de poder, e o outro, a definição de gênero enquanto representação. Tanto um quanto outro aspecto, entretanto, não podem ser admitidos ou mensurados como elementos separados, estanques, divorciados, mas, constitutivos de

realidades e eventos historicamente situados.

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as pessoas adotam e professam determinadas verdades e não outras. Nessa concepção, o poder modifica “os investimentos” feitos pelas pessoas ao adotar determinadas posições discursivas em detrimento de outras, com esta ação significando, na expressão de Laurentis (1994: 225), “algo entre um comprometimento emocional e um interesse investido no poder relativo (satisfação, recompensa, vantagem) que tal posição promete (mas não necessariamente garante)”.

Essa abordagem, adianta Laurentis (1994: 225), é uma interessante tentativa de reconceitualizar o poder, ao apresentar o “investimento” feito pela pessoa como um dos elementos que, nas relações de poder, determinam as ações, posturas, comportamentos, linguagens, representações que se fazem do ser homem e do ser mulher. Dessa forma, esta autora sugere que seria o agenciamento contextualmente situado que passaria a ser percebido pelo sujeito, especialmente por aqueles que foram vitimados pela opressão social ou desautorizados pelo binômio discursivo poder/conhecimento.

“Tal colocação pode explicar, por exemplo, não só por que as mulheres (pessoas de um gênero), têm historicamente feito investimentos diferentes e, conseqüentemente, tomado posições diferentes quanto ao gênero e a práticas e identidades sexuais (celibato, monogamia, frigidez, papéis sexuais, lesbianismo, heterossexualidade, feminismo, antifeminismo, etc.); mas pode explicar também o fato de que “outras importantes dimensões da diferença social, como classe, raça e idade, cruzam o gênero para favorecer ou desfavorecer certas posições.” (Laurentis, 1994: 225)

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fixidez que define a condição pessoal de ser mulher ou de ser homem como natural, restrito ao campo da biologia ou, no mínimo, uma questão de menor importância diluída no embate maior das classes sociais antagônicas, com a diferença e a opressão da mulher sendo superadas no compasso da construção de uma sociedade socialista.

O outro aspecto refere-se ao gênero enquanto representação e vem sendo elaborado, sobretudo, por Teresa de Laurentis, a partir de categoria de análise emprestada de outras áreas do conhecimento, como a Psicanálise (principalmente a idéia de identidade elaborada pelos pós-estruturalistas franceses), a Antropologia, e a Lingüística. Laurentis estabelece quatro proposições que clarificam seu entendimento:

1. gênero enquanto representação;

2. que a representação do gênero é a sua própria construção; 3. que essa construção dar-se hoje no mesmo ritmo dos tempos

passados;

4. que a construção de gênero dar-se também por meio de sua desconstrução.

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podendo ser entendido como sexo, como a condição natural das pessoas, “e sim a representação de cada indivíduo em termos de uma relação social preexistente ao próprio indivíduo e predicada sobre a oposição 'conceitual' e rígida (estrutural) dos dois sexos biológicos”.

Seguindo sua argumentação Laurentis afirma:

“se as representações de gênero são posições sociais que trazem consigo significados diferenciais, então o fato de alguém ser representado ou se representar como masculino ou feminino subentende a totalidade daqueles atributos sociais. Assim, a proposição de que a representação de gênero é a sua construção, sendo cada termo a um tempo o produto e o processo do outro, pode ser reexpressa com mais exatidão: ‘A construção do gênero é tanto o produto quanto o processo de sua representação’.” (1994: 212)

A construção de gênero nos dias atuais, na mesma medida de tempos passados, segundo Laurentis, se dá não apenas nos meios de comunicação, nos tribunais, na família, no sistema escolar público e privado; ela se faz, embora de maneira sub-reptícia, “na academia, na comunidade intelectual, nas práticas artísticas de vanguarda, nas teorias radicais, e até mesmo, de forma bastante marcada, no feminismo”, não só produzindo, promovendo e implantando, através dos discursos institucionais e das várias tecnologias do gênero, mas inscritos em práticas micro-políticas, construindo espaços de resistências, na subjetividade e

na autorepresentação.

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ele feminista ou não, mas que entenda o gênero apenas como “uma representação ideológica falsa”. Assim posto, o gênero não é somente a conseqüência, o resultado da representação, mas também o seu excesso, aquilo que fica fora ou nas entrelinhas do discurso, como um curso de água que, se não contido, pode romper ou desestruturar qualquer dique de representação.

Seja como representação das relações sociais, políticas, econômicas e culturais que definem, historicamente, o ser homem e o ser mulher, seja como elemento necessário e primeiro da constituição e significação das relações de poder, o gênero somente pode adquirir a postulação de uma “categoria útil de análise histórica” quando investido do movimento de tensão, de contradição, de multiplicidade e heteronomia presente no seio das relações humanas.

O gênero, como define Scott, deve ser utilizado e apreendido como um suplemento que desafia e desestabiliza as premissas teóricas postas sem, entretanto, oferecer ou se propor ser a síntese, ou uma resolução fácil da complexidade que permeia e perpassa as relações sociais entre os sexos. “É algo adicionado, extra, supérfluo, acima e além do que já está inteiramente presente; e também uma substituição para o que está ausente, incompleto, carente, por isso requerendo complementação ou integralidade”, acrescenta Scott (1990: 76).

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as imagens exibidas, ou seja, os espaços nas fronteiras dos discursos hegemônicos. Espaços sociais encravados nos intervalos das instituições e nas fendas e brechas dos elementos do binômio do “discurso universal” poder-conhecimento. São nestes espaços, enfatiza a autora, que se procede a construção diferente de gênero, que se afirma em termos da subjetividade e da autorepresentação, e se manifesta

“nas práticas micro-políticas da vida diária e das resistências cotidianas que proporcionam agenciamento e fontes de poder ou investimento de poder; e nas produções culturais das mulheres, feministas, que inscrevem o movimento dentro e fora da ideologia , cruzando e recruzando as fronteiras - e os limites - da(s) diferença(s) sexual(ais).” (Laurentis, 1994: 237)

A ênfase que Laurentis coloca e dispensa ao movimento entre gênero enquanto representação e o que essa representação exclui, ou melhor, torna irrepresentável, é oportuna para a compreensão de que os discursos hegemônicos, institucionais e aqueles que se constituem nas margens, de revés, constituem dois tipos de saberes cuja relação não é dialética, integrada; mas se traduz na tensão da “contradição”, da “multiplicidade”, da “heteronomia”.

Neste sentido, Laurentis (1994: 238) ressalta que,

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Explicitando melhor a sua compreensão de gênero Laurentis (1994: 230-231) advoga que

“a compreensão da condição pessoal de ser mulher em termos sociais e políticos e a constante revisão, reavaliação e reconceitualização dessa condição vis-à-vis à compreensão que outras mulheres tem de suas posições sócio-sexuais geram um modo de apreender a realidade social como um todo que é derivado da conscientização de gênero. E a partir desse entendimento, desse conhecimento pessoal, íntimo, analítico e político da universalidade do gênero, não há como retornar à inocência da biologia”.

Entretanto, o uso do gênero como categoria de análise das relações sociais entre os sexos não tem recebido uma aceitação unânime ou consensual. Alguns críticos advertem para o fato de que os estudos de gênero são apontados como sinônimos de estudos de mulher, perdendo sua potencialidade relacional que abrangeria as relações sociais instituidoras do masculino e do feminino. Outros ressaltam que o gênero vem sendo empregado, por outro lado, como estudos de masculinidade, com o perigo de tornar-se um campo especializado e específico de análise e interpretação, com o privilégio de elevar a masculinidade como ponto exclusivo de estudo, negligenciando o caráter relacional que os estudos de gênero devem preservar. Por fim, outros teóricos defendem que o conceito de gênero não dá conta da compreensão da dominação masculina, apreendida como “dominação simbólica”, ou seja, instituída nas relações sociais entre os sexos, naturalizando nos dominados a aceitação da dominação.

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situa no momento em que ocorre a separação entre política e teoria, ou seja, entre o feminismo enquanto prática política concreta e o gênero como a tentativa de sistematizar e teorizar esta prática. Feministas militantes, mas ausentes das academias e universidades, apontam o gênero como uma forma ideologicamente neutra de tratar os estudos sobre a mulher, retirando destes a pujança e a capacidade de transformação, emprestados pela ação política, defendendo um retorno aos estudos sobre a mulher como forma de restabelecer a necessária relação entre a prática política e o pensar desta prática. O retorno à categoria “mulher” como referencial de análise das relações sociais entre os sexos se justifica através da aceitação desta “mulher” como uma entidade histórica e social multifacetada, construída na prática e nos discursos que a legitimam e consubstanciam. Segundo Costa (1998: 138),

“Quando peço um retorno à noção de mulher como categoria política (em vez do conceito de gênero transformado em masculinidade) quero simplesmente relembrar o fato de que a 'mulher' é uma categoria heterogênea, construída historicamente por discursos e práticas variadas, sobre os quais repousa o movimento feminista. Dependendo do contento conjuntural e das exigências políticas, esta categoria é usada para articular as mulheres politicamente. Contudo, ela possui diferentes temporalidades e densidades, existindo em relação a outras categorias igualmente instáveis. (...) a história e o significado de uma categoria deve ser entendida à luz das histórias e significados de outras categorias da identidade (classe, raça, etnia, sexualidade, nacionalidade, etc.)”.

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Laurentis, Chantal Mouffe, Linda Alcoff. Estas teóricas se posicionam avessas ao essencialismo, ao binarismo e as lógicas identitárias, defendendo uma desconstrução da categoria “mulher” tendo por base o desmonte de sua natureza essencialista. A partir desta desconstrução seriam elaboradas novos mapas de práticas articuladas que estabeleceriam materialidades produtores de identidades e posições para seus sujeitos no campo social. Finalizando, Costa (1998: 139) argumenta que a mulher, nesta perspectiva, é encarada mais como projeto político do que descrição de uma realidade, constituindo-se em uma

“identidade politicamente assumida, a qual está invariavelmente ligada aos lugares social, cultural, geográfico, econômico, racial, sexual, libidinal, etc., que ocupamos e a partir do qual lemos e interpretamos o mundo. A categoria mulher torna-se, portanto, uma posição política e o campo movediço e arriscado de ação e reflexão dos estudos feministas em contraposição ao porto seguro dos estudos de gênero (ou de masculinidades) dentro da academia”.

Outro aspecto que vem ganhando tons de polêmica quanto ao uso do gênero como categoria de análise refere-se a sua utilização nos estudos de masculinidade, sobretudo, naqueles considerados men’s studies, marcados por uma visão essencialista e parcial. Isto não implica a existência de um grupo de estudiosos da masculinidade que, a partir da metade da década de 80, começam a desenvolver um aspecto interessante na discussão de gênero: a importância de perceber a diversidade de vozes masculinas presentes nas relações sociais

entre os sexos.

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masculinidade com masculino, com homem, caindo no pantanoso terreno - que em determinados momentos, trilhou (ou ainda trilha) o caminho do feminismo -, da essencialidade de uma natureza masculina. Neste caso, mais perigosa, por ser encarada como “dominante”. Segundo a autora, sobretudo as revisões antropológicas sobre masculinidade apontam a tendência de “identificar masculinidade com homens: com qualquer coisa que os homens pensem e façam; qualquer coisa que pensem e façam para serem homens ou com

qualquer coisa que as mulheres não sejam”.

A saída para esta encruzilhada metodológica, segundo Piscitelli (1998: 155), seria encarar os estudos de gênero como um campo complexo e grávido de possibilidades de exploração tanto “das construções de masculinidade quanto as de feminilidade, percebendo como essas construções são utilizadas como operadores metafóricos para o poder e a diferenciação em

diversos aspectos do social”.

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Albuquerque Jr. (2000: 08), nos lembra que,

“As práticas cotidianas de gênero, de ser homem não estão determinadas nem pela genitalidade, nem pelos códigos de sexualidade. O gênero nem é natural, sendo uma criação histórica e cultural, nem está preso completamente a uma ordem dominante de prescrições. Mesmo dentro de uma cultura como a nordestina, onde as práticas, imagens e enunciados definem e exigem de forma muito estrita o ser masculino, as maneiras de praticar este gênero são variadas, as trajetórias culturais metaforizam a ordem dominante, impõem a esta microresistências, gestando microdiferenças. Trajetórias culturais de homens que, muitas vezes podem ser exemplos da arte no exercício ao mesmo tempo da ordem e da burla”.

Numa perspectiva que difere das duas concepções expostas acima, temos a vertente teórica que explica as relações sociais entre os sexos como decorrentes da dominação masculina situada no campo da dominação simbólica. O principal defensor desta corrente é o sociólogo francês Pierre Bourdieu para quem a dominação masculina se legitima numa sociedade que se constitui, em todos os momentos históricos, na perspectiva androcêntrica

que dispensa qualquer estratégia de justificação.

De acordo com esta compreensão, as relações sexuais são socialmente instituídas e engendram o mundo social e simbólico com os referenciais de masculinidade e feminilidade compondo dimensões do habitus e da dominação simbólica, cujas manifestações perpassam o

universo habitado por dominantes e dominados.

Tomando como referencial de análise a sociedade, Bourdieu (1999: 18) estende a explicação da dominação masculina a todas as formações sociais, ao destacar que

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tende a ratificar a dominação masculina sobre a qual se alicerça: é a divisão social do trabalho, distribuição bastante estrita das atividades atribuídas a cada um dos dois sexos, de seu local, seu momento, seus instrumentos; é a estrutura do espaço, opondo o lugar de assembléia ou de mercado, reservados aos homens, e a casa, reservada às mulheres; ou, no interior desta, entre a parte masculina, como o salão, e a parte feminina, como o estábulo, a água e os vegetais; é a estrutura do tempo, a jornada, o ano agrário, ou o ciclo de vida, com momentos de ruptura, masculinos, e longos períodos de gestação, femininos.”

Esta dominação simbólica, destaca Bourdieu, opera num campo mágico que incorpora não somente o assentimento ao dominante, mas a naturalização desta dominação, por parte de dominantes e dominados, exercendo sobre os corpos um poder que, em nenhum momento, traz o signo da coação física. O combustível que alimenta e move esta dominação simbólica, revela Bourdieu (1999: 50-51),

“encontra suas condições de possibilidades e sua contrapartida econômica (no sentido mais amplo da palavra) no imenso trabalho prévio que é necessário para operar uma transformação duradoura dos corpos e produzir as disposições permanentes que ela desencadeia e desperta; ação transformadora ainda mais poderosa por se exercer, nos aspectos mais essenciais, de maneira invisível e insidiosa, através da insensível familiarização com um mundo físico simbolicamente estruturado e de experiência precoce e prolongada de interações permeadas pelas estruturas de dominação”.

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mística linha de demarcação.

A dominação simbólica explicando, em última instância, a dominação masculina presente em todas as sociedades marcadas pela composição androcêntrica, finaliza Bourdieu, somente abre possibilidades de transformação quando os dominados se apercebem de que eles, tais como a dominação que os constituiu, contribuem para sua dominação.

“Pôr em foco os efeitos que a dominação masculina exerce sobre os habitus masculinos não é, como alguns poderão crer, tentar desculpar os homens. É mostrar que o esforço no sentido de libertar as mulheres da dominação, isto é, das estruturas objetivas e incorporadas que se lhes impõe, não pode se dar sem um esforço paralelo no sentido de liberar os homens dessas mesmas estruturas que fazem com que eles contribuam para impô-la” (Bourdieu: 1999: 136).

Diante dos conflitos e paradoxos teóricos acima relacionados estaria a categoria gênero perdendo consistência enquanto paradigma metodológico de análise e explicação das

relações entre os sexos vistas como relações sociais?

A resposta se constitui num desafio que, para alguns teóricos (as), seria amenizado ou amortecido pela tentativa de historicização das relações sociais, impressas em campos pontilhados por práticas e discursos, suplementos, resistências, assentimentos, ordens, tensões, silêncios, tesões.

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uma história a ser escrita, que aborde a noção de dominação, de poder desigual. Uma história que, reconhecendo a autenticidade das estruturas sociais como locus de construção das relações homem/mulher e da idéia de mulher, também considere que a subjetividade - não vista como essencialista, ou inerente a natureza feminina, ligada ao corpo, à natureza, à reprodução, à maternidade, mas criada para as mulheres em um contexto específico da história, da cultura, da política - e a criação do sujeito são algo mais complexo que a dominação.

Como reforça Scott (1990: 123-124) é imprescindível se colocar a questão em termos históricos, ou seja,

“nos perguntar como as relações entre os sexos foram construídas em um momento histórico, por que razão, com que conceitos de relação de forças, e em que contexto político. Este é o verdadeiro problema: historicizar a idéia homem/mulher e encontrar uma forma de escrever uma verdadeira história das relações homens/mulheres, das idéias sobre a sexualidade, etc..(...) A diferença dos sexos é um jogo político que é, ao mesmo tempo, jogo cultural e social. Para mim o mais importante é insistir sobre a historicidade das relações homens/mulheres, as idéias e os conceitos da diferença sexual.”

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1.2. A mulher e a Revolução Mexicana

A princípios de 1910, a mulher mexicana era caracterizada por sua reclusão no lar. Françoise Carner destaca que lhe era imposta a condição de um menor de idade, já que era insegura e incapaz de penetrar na esfera pública, manifestando uma forte lealdade religiosa (Carner, 1987, p.97). A partir da Revolução Mexicana, algo diferente aconteceu, pois a mulher começou a expressar e demonstrar seu interesse em fazer parte da esfera pública. É por isso que a Revolução Mexicana é fundamental na história da mulher, pois é um divisor de águas da presença da mulher no “mundo masculino”.

A mulher mexicana foi dotada de um novo papel, de uma nova forma de participação na sociedade através da Revolução, a qual conduziu a uma mudança ideológica favorável para a emancipação feminina. No movimento armado, aparecem las soldaderas, quando os homens da comunidade unem-se às forças militares. Tinham acesso a qualquer espaço, já que eram responsáveis por alimentar os homens do quartel. Vendiam toda classe de produtos, inclusive bebidas alcoólicas e drogas, as quais eram proibidas. Ainda assim conseguiam que passassem como contrabandos com destreza ou em troca de favores sexuais.

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militares, visto que já tinham relacionamentos com os homens do quartel – sentimentais ou de amizade com outra soldadera que fosse “velha” de algum sargento- os quais lhes permitia usar armas sem quaisquer restrições. Guerreavam ao lado dos homens nos exércitos revolucionários. O número de mulheres que viajou com estes exércitos foi elevado e tinham sob sua responsabilidade medicamentos, munições, roupas e alimentos, cartas, equipamento militar e informações sobre o inimigo nas linhas de frente. Tal situação sujeitou estas mulheres à forçadas migrações, separando-as de suas famílias, sendo muitas vezes presas sob maus tratos:

Al llegar procurábamos prepararles la comida. Veníamos como diez o quince mujeres, adelante, luego seguía la vanguardia que es la que recibe los primeros balazos. Luego la retaguardia que es la que preparaba para atacar y se dispersaba para rodear al enemigo.(Poniatowska; 1969,66)

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quatorze anos quando começou sua participação revolucionária . a necessidade de sobrevivência a faz acompanhar seu pai Felipe, um soldado carrancista, no funeral de seu irmão. Felipe leva sua filha às batalhas já que precisava de alguém para atender suas necessidades diárias, por isso Jesusa como outras mulheres na mesma situação eram chamadas soldaderas o adelitas.

Através da narração de Jesusa é possível constatar o tipo de vida que as soldaderas levavam:

Mi papá andaba a pie y yo tenía que seguirlo en la infantería... Yo iba nomás con mi canasta en el brazo: plato, taza, jarro, una cazuela para hacer café o freir alguna cosa que fuera comer mi papá... Por lo general las mujeres no estábamos pendientes del combate. Íbamos pensando en qué hacerles de comer. Llegábamos a un pueblo y si de casualidad encontrábamos a algún cristiano, no nos querían ni ver la cara. (Poniatowska;65-67)

Poniatowska em seu livro Soldaderas acrescenta que “sin las soldaderas no hay Revolución Mexicana; ellas la mantuvieron viva y fecunda... Las enviaba por delante a recoger leña y prender la lumbre, y la alimentación a lo largo de los años de guerra. Sin soldaderas, los hombres llevados de leva hubieran desertado”(Poniatowska;14). Eram muitas vezes tratadas de forma desumana. No entanto, ao separar-se de seus homens, poderiam sofrer maiores danos que se houvessem ficado com eles.

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ela falava zapoteca com um grupo que os acompanhava, o qual não parecia com seu pai,pelo qual separaram-se. Ela é recolhida pelo General Blanco para que ajude sua filha, a qual colaborava com seu pai ao dirigir as tropas; isto cria outra oportunidade de continuar participando. Jesusa sabe que ela é reposnsável pelo seu bem-estar: “yo no tenia madre, mi papá sabe Dios donde estaba. Por eso me dedique a buscarme la vida como Dios me diera a entender. Si no, ¿cómo comía yo?(Poniatowska, 51). Ao pertencer ao batalhão do General Blanco, um soldado de nome PedroAguilar se “apaixona” por Jesusa. Este soldado está obcecado pela jovem e chega a pedir sua mão sem seu consentimento. Finalmente Jesusa é obrigada a casar-se com Pedro, já que seu pai não quer mais cuidar dela, e assim livrar-se de sua “responsabilidade” paterna. Ao unir-se a Pedro, Jesusa começa um calvário de miséria, maus tratos e vexações ao ser presa em sua casa como uma prisioneira de guerra.

Su asistente me daba de desayunar, de comer y de cenar, y hasta los quince días de casados volví a ver mi marido... Durante los quince días me mantuvo adentro del cuarto sin hacer nada, esperando a que el asistente me trajera la comida. Quién sabe dónde andaba Pedro(Poniatowska, 84)

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de la Revolución fracasada”. (artigo jornalístico). Pedro descarrega suas frustrações em suas esposa sem importar-se com o dano causado, como disse Jesusa “me daba uma vida de perro”. Uma vida cheia de humilhações onde a vida de um animal era mais importante para um exército que seus próprios compatriotas. A mesma Jesusa explica que

Era una dura vida en aquella época. Con unas mangas de hule tapaba uno sus cosas hasta donde las alcanzara a tapar para que no se mojaran con las lluvias. De cualquier manera yo no dejaba de mojarme. Yo traía sombrero tejano y me acomodaba lo mejor que podía. Teníamos que ir sentados todos arriba en cuclillas porque de lo que se trataba era de que la caballada fuera resguardada y que tuviera comida todo el tiempo. Cuando llegábamos a alguna parte, si daban orden de desembarcar, bajaban las bestias a tomar agua; primero que nada las bestias (Poniatowska, Soldaderas, 18-19)

As bestas tinham melhor alimentação e transporte que as mulheres, mesmo que elas tivessem maior importância para a sobrevivência do exército.

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vítima de estereótipos. Por exemplo, no cinema, os diretores no afã de exaltar o valor extraordinário da mulher, os cineastas mexicanos acabaram inventando o estereótipo da mulher masculinizada, capaz de dirigir um exército com apenas um piscar de olhos, embora dócil ante o domínio de seu homem.

Mulheres de classe média militaram em organizações políticas, como a Brigada Socialista Feminina. A mulher teve sua própria liberação como parte indissociável à luta do povo. Por exemplo, a mulher teve um excepcional valor quando os huertistas obrigaram diversas mulheres, incluindo as esposas e filhas de revolucionários a viajar na parte superior da defesa dianteira dos trens das forças federais, com o objetivo de prevenir descarrilamentos e ataques. Como já mencionado, também eram hábeis para transportar facilmente o contrabando de armas através da fronteira dos Estados Unidos. “La mujer desarrolló en gran escala sus aptitudes al lado de los hombres y ganó reconocimiento como compañera, consorte y pareja.”(Ramírez;1967, 608)

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caso do artigo 123 da Constituição de 1917, onde estipulava que as mulheres trabalhadoras do México deveriam gozar de assistência em função da maternidade, protegendo-as do trabalho noturno. No entanto, a Revolução foi uma guerra sangrenta que produziu pobreza e fome, obrigando a mulher a prostituir-se, aumentando o número de prostitutas durante este movimento revolucionário. Com isto, surgiram grupos de mulheres com interesse em melhorar a condição da mulher em prol da justiça social.(Turner;1967, 608)

A época revolucionária é a mais conhecida pelo impulso à instauração do voto feminino e a inclusão da mulher à vida política. E assim como as mulheres foram bem recebidas na vida nacional, respaldadas oficialmente pelas ações da mulher mexicana do passado.

A Constituição estabelece a igualdade legal tanto para o homem quanto para a mulher, porém a realidade estabelece algo bem diferente, visto que a participação e incorporação da mulher continuavam sendo escassas e desiguais ao persistir a noção errônea de que o lugar da mulher é em casa.

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1.3. Jesusa : A voz da alteridade

Zapata no tiraba a ser presidente como todos los demás.

El lo que quería era que fuéramos libres pero nunca seremos libres, eso lo alego yo, porque estaremos

esclavizados toda la vida.

¿Más claro lo quiere ver? Todo el que viene nos muerde, nos deja mancos,chimuelos, cojos y con

nuestros pedazos hace su casa.

Y yo no voy de acuerdo con eso, sobre todo ahora que

estamos más arruinados que antes.

-Jesusa

O testemunho de Jesusa Palancares está claramente diferenciado como uma voz dentro de um mundo que embora não seja escolhido pelo sujeito que fala, é por fim, uma voz que responde às forças sociais mais além do próprio indivíduo. O personagem de Jesusa é a voz testemunhal no sentido completo da palavra através de sua própria narração. Da mesma maneira, o discurso da novela engloba uma historicidade do testemunho, como o que pode se encontrado numa obra biográfica plenamente pesquisada.

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Jesusa Palancares apresenta a perspectiva de uma mulher de classe social baixa e sua luta para sobreviver durante os períodos políticos e sociais mais difíceis vividos no México durante o século XX. Jesusa conta sua história de vida como revolucionária, serviçal, espírita e finalmente como lavadeira nos bairros de classe média na cidade do México. Dentro da idéia de estética da conscientização e representação, George Yúdice opina que o testemunho é o resultado da tendência de valorizar a identidade dos grupos subalternos que lutam pelo reconhecimento e a reestruturação econômica e social. O elemento testemunhal de Hasta no verte Jesús mio dá aos indivíduos como Jesusa uma voz pública, aspecto que dá ênfase à conscientização. Ou seja, a novela aponta para uma aquisição de um conhecimento de si e do mundo por parte do sujeito subalterno (Jesusa) através do discurso de sua própria experiência. Dentro de seu caráter testemunhal e de ficção se cruzam as barreiras, não somente do real e do fictício, da necessidade utilitária e configuração imaginativa, como também se excedem os limites dos paradigmas estabelecidos da representação.

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situação de Jesusa representa a situação de um povo. Um dos aspectos mais significativos desta obra é que o personagem Jesusa, uma anciã mexicana pertencente ao estrato social mais baixo, fala explicitamente a um interlocutor, o qual através da leitura do texto, se transforma em leitor de si mesmo, a quem lhe é transmitido uma mensagem social, através de uma linguagem codificada com toda série de valores sociais.

A realidade desta novela tem – como qualquer realidade- várias dimensões: sociais, políticas e feministas, estabelecidas mediante o discurso narrativo; especificamente, através das conotações da linguagem e de expressões usadas pela narradora. Um exemplo simples, que representa uma condição específica da mulher mexicana do nível social de Jesusa, é o uso e a conotação de palavras boa e má, as quais contêm um código sicial. De acordo com os parâmetros sociais mexicano, em particular aqueles da classe social a qual Jesusa pertence, uma buena mujer é submissa, obediente e calada, enquanto uma mala mujer é rebelde e desafiante. Em outras palavras, a primeira é dócil à autoridade de seu pai ou marido. Jesusa afirma que depois do incidente no qual atirou em seu marido em defesa própria, ela passou ser uma mala mujer, e seu marido, tornou-se bueno, porque já não poderia mais trata-la como mulher submissa; ela havia transpassado as repressões atrabuídas ao fato ser mulher. Ela conta que seu desespero pelos mal tratos de seu marido fez com que ela se rebelasse e disse a si mesma: “ si yo no fuera mala, me hubiera dejado de Pedro hasta que me matara.” (p.110)

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relações com outros e sua visão de mundo, demonstram esta realidade no decorrer da obra. Toda esta realidade é transmitida através de uma linguagem, de um linguajar próprio dos camponeses e trabalhadores que migram do campo à cidade do México em busca de trabalho, ao término da Revolução mexicana. O sentido de apropriação individual desta linguagem é particularmente intenso nas situações nas quais Jesusa discute sobre o afeto e o amor, sendo estes incidentalmente, os momentos de mais infelicidade na vida da narradora.

Uma pergunta emerge em relação a Jesusa como sujeito representativo neste testemunho: o que une os valores que Jesusa possui sobre todos os aspectos da vida(sua fala prescritiva sobre o que se deve ou não fazer) com a recopilação e a descrição do que aconteceu ao longo de sua vida? Uma provável resposta presente na narrativa é que existe uma dinâmica na maneira em que a história é contada, já que a narradora recorda o passado e estabelece juízos sobre o mesmo. Nesta narrativa desenvolve-se um mundo textual por si mesmo no qual existem respostas subjetivas a uma série de verdades históricas.

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XX. Cornejo Polar afirma que

“el sujeto que surge de uma situación colonial está instalado em uma red de encrucijadas múltiples y acumulativamente divergentes: el presente rompe su anclaje com la memoria haciéndose más nostalgia incurable o rabia mal contenida, que aposento de experiências formadoras(...) um sujeto de este modo resulta excepcionalmente cambiado y fluido.” (Cornejo Polar; 21)

De acordo com dito autor, a evolução histórica, política e social, no pode ser dissociada da produção cultural latino-americana. Os fatos que ocorreram durante a colonização marcaram a história e a consciência do povo. Os valores, medos, e inclinações de Jesusa são, de acordo com a idéia de Cornejo Polar, a universalização de uma vivência latino-americana. Ou seja, Jesusa representa o hibridismo, a heterogeneidade de uma realidade social formada pela maioria. Uma maioria marginalizada a qual lhe foi negado o direito de ser escutada. A partir desta perspectiva, a experiência discursiva deste texto tem o poder de provocar uma reflexão no leitor. Uma reflexão que possa estabelecer uma possibilidade de rever os conceitos do mundo interno do leitor.

É importante ressaltar que a lateralização e ficcionalização nesta novela, no influem nos parâmetros do personagem nem em suas experiências vividas. Ao contrário, parece que estes elementos fazem com que a voz narrativa tenha maior impacto para expressar uma reralidade, infinitamente rica e variada nesta novela.

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as produções literárias e culturais do terceiro mundo foram contempladas quase sempre como resultados de processos de desenvolvimento desigual. (Larsen, 146). No entanto isto não quer necessariamente dizer que tioda literatura do terceiro mundo seja heterogênea. Friedhelm Schmidt em Literaturas heterogêneas y alegorias nacionales concorda com cornejo Polar ao estabelecer que “ la heterogeneidad es el resultado de un conflicto del temps dureé, el resultado de una conquista y un proceso de colonización (Schmidt;177). Sob a noção de sincronia Del texto o sus distintas temporalidades, Cornejo Polarem “ Escribir el aire” propõe historiar esta sincronia textual dentro do contexto dado pelas temporalidades. Para isto considera que é importante respeitar a heterogeneidade, ou seja, respeitar o diacrônico de cada elemento constitutivo (Cornejo Polar; 15-16). Neste sentido, ao ler uma obra como Hasta no verte Jesús mio no se podem omitir os diversos universos existentes nas dimensões sócio-políticas que a voz de Jesusa está expondo. Para Cornejo Polar, a heterogeneidade está instalada dentro do discurso do sujeito da representação, apesar da relação conflitiva que possa existir entre a voz representada e a intelectual que cria a obra, descartando uma falsa harmonização dentro do conceito de representatividade. Não obstante, parece que dita conflividade é superada pela heterogeneidade textual, e é precisamente a partir desta heterogeneidade que surge o caráter representativo da obra.

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vez o tempo da memória. (Schmidt; 176). De acordo com Cornejo Polar, a heterogeneidade interna do texto é somente construída para os níveis do processo literário: produção, texto, recepção e referente. Esta noção de heterogeneidade interna está aberta à análise das literaturas pós-coloniais, aproximando-se de três núcleos problemáticos: o discurso, o sujeito e a representação (Schmidt;178). o terceiro aspecto, a representação está ligado à problemática do discurso e do sujeito. Cornejo Polar declara que a representação está enraizada na construção do mundo e de si mesmo pelo sujeito e por sua vez,a construção do sujeito na representação. A partir deste aspecto, e considerando a obra de Poniatowska como foco, a representação é heterogênea pela mesma heterogeneidade do sujeito. Sendo assim, pode-se dizer que esta é uma obra representativa da América hispânica, porque não propõe somente uma dissonância que não pode ser ignorada pelo crítico, como também, estabelece estas três problemáticas – discurso, sujeito e representação – e seu caráter heterogêneo. Existe uma ênfase na diferença como resultado da natureza heterogênea que nasce da voz da narradora Jesusa. A heterogeneidade desta obra reflete também a idiossincrasia de uma classe social, de um povo, também heterogêneo.

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por antagonismos conceituais e pelo controle homogêneo do centro. De acordo com Richards, é possível afirmar que a obra de Poniatowska é um exemplo de como foi rearticulado o espaço intelectual à raiz da produção literária pós-colonial, porque esta novela estabelece um elemento de diferença, e de alguma maneira desafia os conceitos epistemológicos que o centro estabeleceu para criar uma literatura de terceiro mundo. Para Richards, através de sofisficadas estratagemas “una centralidad descentrada procura relegitimarse en un contexto globalizante a través de apelaciones a alteridades, marginalidades, subalteridades, etcétera, desde sus propios aparatos acadêmicos de producción” (Richards,1997: 248)

Da mesma maneira Richards declara que é necessário desconstruir tais estratagemas, questionando o metadiscurso globalizador que as produz. Para isto é relevante criar conjunturas que façam da diferença latino-americana uma diferença diferenciadora(Richards,1997: 249). Dentro desta perspectiva a obra de Poniatowska é uma alternativa que advoga por esta diferença através de sua representatividade. Ou seja, existe uma figura da alteridade real, com voz própria que está representando a heterogeneidade da periferia, sua dimensão social e política. A denúncia testemunhal desta obra representa, a vivência popular traduzível, a luta solidária, a um compromisso político e denúncia testemunhal. Aqui é dada voz e vez à alteridade, que desafia toda conceitualização cultural e conceitos espistemológicos que nascem no centro e que perdem sua aplicabilidade ao enfrentar esta outra realidade.

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gracias a que la heterogeneidad de sus experiencias de vida produce un valor popular que excedería siempre la competencia académica del saber culto, declarando incapaz, por sus propios exponentes, de alcanzar la intensidad política de la lucha tercermundista. (Richards,. 253)

Existe uma representação do ponto de vista dos registros lingüísticos do texto em Hasta no verte Jesús mio . Uma representação da heterogeneidade interna do texto, de sua forma. Simultaneamente, existe também sob sua condição testemunhal uma ênfase na representação de sujeitos já constituídos (Jesusa, o povo, o contexto social e histórico representado por ela) e também a prática conscientizadora. Neste sentido é representada a idéia de Yúdice de que testemunhos como de Jesusa Palancares tem como propósito a conscientização; o fato de transpor os parâmetros culturais já estabelecidos e advogar por uma transformação democratizadora.(Yúdice;1993: 210). Talvez deste contexto possam surgir conceitos epistemológicos que viagem a partir da periferia em direção ao centro, e que como propõe Richards possam criar uma teoria local, um discurso e consciência situacionais que rearticulem a relação centro-periferia.

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1993:64).

Dentro do gênero de Testemunho, diferente de outros gêneros literários produzidos no terceiro mundo, a obra de Elena Poniatowska não pode ser lida como uma alegoria. Ou seja, a evolução política e social do terceiro mundo é um aspecto relevante para entender a cultura que ali é produzida. A separação do público e o privado, existente na literatura do primeiro mundo e da qual afirma Jameson, no puede existir en la producción tercermindista, porque la dimensión política está infiltrada en la misma obra. La dimensión libidinal de la historia en una obra Testimonio debe ser leída en términos políticos, porque es imposible separar la evolución histórica de lo social; y lo político de la producción cultural. Es esta evolución de donde nace nuestra heterogeneidad cultural y nuestra diferencia.(Jameson, 1986:165). Este aspecto é precisamente o que dá à obra um caráter realista, e descarta qualquer possibilidade de ser lida como alegoria nacional. As formas lingüísticas e narrativas de uma obra como esta representam uma determinada cultura, uma temporalidade específica, uma identidade, e portanto, uma diferença. Por outro lado, a heterogeneidade da obra representa por sua vez a evolução social e política mexicana do século XX.

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e política, embora de maneira menos evidente, também está infiltrada na literatura e na produção cultural do primeiro mundo.

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2 . Memória História e Testemunho

2.1. A externalização da memória do subalterno

Uma das questões mais desafiadoras com que a crítica da cultura se defronta é a que se refere aos laços entre as memórias geradas pelos grupos sociais subalternos e a construção da História. Embora nos dias de hoje se possa distinguir nas reflexões acadêmicas e nas intervenções culturais de órgãos estatais ou não uma preocupação em fomentar ações culturais que suscitem a construção de uma memória social não-autoritária, muitas questões permanecem em aberto, desafiando suas práticas sociais. Um primeiro problema refere-se aos laços entre memória e história, pressupondo a solução de um enigma muito complicado: se a memória é fruto da ação social e política de grupos e indivíduos que possuem vivências e experiências particulares, em que bases se poderia falar de uma história nacional? Seria a História Nacional com letra maiúscula a soma das histórias particulares e das memórias dos muitos grupos sociais? Caso afirmativo, quem as sintetiza, hierarquiza e lhes empresta organicidade? Seria o estado a arena de resolução e harmonização de conflitos, possibilitando, assim, que os diferentes grupos sociais vivenciem diferentes memórias e histórias? Se assim é, em nome de quem fala o estado? Seria o estado capaz de proporcionar uma arena neutra de encontro entre os diferentes grupos de interesses, com suas memórias, histórias e agendas políticas específicas? Se não, qual as conseqüências disto?

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versões próprias, foram e continuam sendo descritos e catalogados em documentos e narrativas produzidas por agentes socialmente comprometidos com a visão do estado, forjando versões viciadas por preconceitos, determinismos raciais e sociais. No entanto, a tarefa requer grande cuidado crítico para que em sua busca de estabelecer uma nova verdade social sobre estes grupos, o próprio intelectual ou agente cultural não se coloque no espaço de poder antes ocupado pelas forças da dominação social.

Hoje, num universo teórico em que os “povos sem-história” e as minorias foram trazidos à cena, e os grupos afro-descendentes, indígenas, mulheres e outros grupos sociais subalternos clamam pelo direito de fazer a própria história, os intelectuais se esforçam para achar o caminho, senão correto, menos danoso, para textualizar estas histórias, tarefa que nos torna vulneráveis a todos os perigos, e no qual nossas melhores intenções podem tornar-se nossas piores inimigas. ‘ Como notou Mary Pratt, em Os olhos do Império(1999) crítica literária combativa, seria necessário antes de tudo, estabelecer um contexto dialógico entre estas diferentes textualidades – a nossa, letrada e a deles, oral, dominada - num território no qual os intelectuais momentaneamente abrissem mão de seu lugar de autoridade. Ao mesmo tempo, este intelectual teria que se manter alerta para a intrusão de dimensões idealizadas, que colocam no discurso dos grupos socialmente iletrados ou desprovidos do controle dos registros escritos, uma exigência de pureza e originalidade, no fim das contas mostrando sua incapacidade de abdicar do controle sobre o outro.

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universais se mostraram grandiosas ou autoritárias demais para dar conta dos desafios teóricos e expectativas sociais provenientes da ascensão de movimentos políticos fragmentados e suas agendas particularizadas, nos vemos obrigados a repensar na cultura a partir de enfoques menos abrangentes, em abordagens que incluam o não-normativo, o informal e o provisório e, sobretudo, nos conscientizarmos do caráter parcial, não-sintetizável e não-harmônico das ações culturais. Ao enfocar alguns dos desafios que hoje se defrontam intelectuais e agentes culturais que pretendem trabalhar com grupos populares, minha intervenção tem como objetivo enfatizar a importância da adoção de conceitos menos globais e plataformas de ação social menos idealizadas na construção de narrativas sociais híbridas e mais democráticas.

As produções narrativas contemporâneas indiciam, pelo seu caráter heterogêneo e pela apropriação de diferentes linguagens e elementos culturais, nossa inserção num momento histórico marcado pela multiplicidade, que se faz presente não apenas nas manifestações literárias, mas em todas as instituições culturais e sociais. Tal situação tem gerado o apagamento das fronteiras que limitavam os modelos literários canônicos, as linguagens e os referentes, os quais não podem mais ser considerados exclusivos de determinado campo, sendo necessário, para a abordagem dessas produções, o auxílio de categorias pertencentes a diferentes áreas de estudo.

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ação humana. Junto a isso, tem-se observado que modelos tradicionalmente ficcionais são contaminados por recursos documentais, provocando uma série de indagações críticas sobre as possíveis motivações do emprego de dados históricos, políticos e sociais na construção da narrativa.

Blanka Vavakova (1988: 107) considera que essa nova situação, provocada pelas mudanças da suposta passagem da modernidade para a pós-modernidade, teria por conseqüência a emergência de narrativas provenientes de grupos subalternos, por meio das quais apresentam sua versão da história, “são as lutas de libertação nos países colonizados, os movimentos nacionalitários, os das mulheres e das minorias culturais que testemunharam, uns atrás dos outros, da existência das suas histórias particulares”.

Dentre essas narrativas, o gênero testimonio destaca-se, conforme Mabel Moraña (1995), pela comunicação de conteúdos e de problemáticas coletivas, fundamentalmente das classes subalternas, as quais sofrem constantemente com a exclusão cultural, social e histórica. Por ser uma forma narrativa de produção contemporânea, já estabelece indefinições sobre sua natureza, as quais são intensificadas no momento em que folheamos a primeira página do livro, e vislumbramos que o protocolo nos informa ser uma narrativa que tem a pretensão de apresentar fatos “reais”, partindo do olhar de um sujeito, muitas vezes, marginalizado.

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por parte dos sujeitos periféricos, além de responder à situação favorável gerada pelas mudanças culturais, é resultado de muitas lutas e de reivindicações, pois, segundo Hugo Achugar, o espaço na escrita representa o poder de mostrar a sua versão da história e de questionar as imposições, a situação social, política e cultural, sendo, por isso,

un espacio discursivo donde se representa la lucha por el poder de aquellos sujetos sociales que cuestionan la hegemonía discursiva no de los letrados en si, sino de los sectores sociales e ideológicos dominantes y detentadores del poder económico, político, cultural y social que han controlado históricamente la ciudad letrada, (1992:41). É uma tentativa de recuperar, mostrar e denunciar episódios que marcaram a história e a vida dos sujeitos envolvidos, principalmente os subalternos, estruturados a partir de sua perspectiva, possibilitando o conhecimento da versão da história de quem não teve voz junto à oficial.

O declarado envolvimento do sujeito com a situação social, cultural e histórica, associado à preocupação com o aspecto documental da narrativa, resulta insuficiente para abordá-la apenas sob o aspecto literário, gerando a necessidade de incorporar categorias da história, sociologia, antropologia, psicanálise, convergindo, assim, diferentes áreas de estudo sobre um mesmo objeto, a fim de auxiliar na aproximação crítica , já que o testimonio literário parece ser produto da hibridez de elementos narrativos heterogêneos. Mabel Moraña, salienta esse aspecto, definindo o gênero como

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o mantener viva la memoria de hechos significativos, protagonizados en general por actores sociales pertenecientes a sectores subalternos, (1995:488).

O referido entrecruzamento existente na narrativa testemunhal ocasiona confrontos críticos, principalmente quando se tenta definir o gênero, pois cada intelectual parece ressaltar um determinado aspecto como fundamental para o testimonio. Marc Zimmerman (2004), reforça o aspecto da verdade dos eventos históricos, contudo, não espera que o testemunhante apresente os fatos tal qual como ocorreram, mas uma das várias versões referentes àquele evento. Conforme Zimmerman, “ellos son siempre imparciales; ellos nos dan ciertas dimensiones de la verdad, siempre a expensas de otros. Cada suceso historico envuelve múltiples perspectivas, múltiples posiciones supeditadas”. Muitos críticos, assim como Zimmerman, consideram que a possível infidelidade à “verdade” não interfere na manutenção do compromisso documental, já que o testemunho se caracteriza pela possibilidade de conhecer uma versão, e não uma verdade definitiva.

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subalternos nesse movimento. Sua consolidação enquanto gênero literário independente ocorre em 1970, quando a instituição cubana Casa de las Américas inclui essa categoria no concurso literário promovido com o fim de premiar categorias canonizadas como o romance, conto, biografia, incentivando a produção do testimonio.

No mundo hispano-americano, portanto, o testimonio encontrou terreno fértil para seu desenvolvimento, o que não ocorreu de igual maneira no contexto brasileiro, no qual foi incorporado só recentemente sob o termo testemunho, sem que ainda exista uma visão muito clara de quais obras o concretizariam e como poderia ser definido criticamente. Destacam-se principalmente os estudos de Márcio Seligmann-Silva, cuja abordagem parte da perspectiva do testemunho europeu, sobretudo o que está ligado aos relatos dos terrores dos campos de concentração. A fim de justificar seu posicionamento, ele estabelece algumas diferenças entre as particularidades do testemunho latino-americano e do europeu.

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caráter exemplar, não-fictício, elementos que reivindicam a autenticidade e veracidade daquele discurso.

O termo zeugnis, por sua vez, é atribuído ao relato que parte das questões da memória , apoiando-se, para isso, em estudos de psicanálise, teoria da história e da memória . Destaca-se a questão das marcas profundas deixadas pela catástrofe e o forte trauma sofrido por um sujeito que testemunha situações singulares. Nesse discurso perpassa a literalização e a fragmentação, sendo que o depoimento teria a intenção de reunir os fragmentos para dar-lhes nexos, enfatizando a subjetividade do depoente.

Seligmann-Silva, em Zeugnis e Testimonio(2001) estabelece diferenças entre os dois tipos de relato, entretanto, a questão parece ser, na verdade, uma diferença de perspectivas e referenciais teóricos a partir dos quais se realizam suas respectivas abordagens. Ambos necessitam da ativação da memória, porque remetem a um momento histórico determinado, vivido por um sujeito empírico que reconstitui o passado a fim de apresentar sua versão, procurando conferir um caráter documental à narrativa.

A aproximação partirá de questões relacionadas ao fato de ser um gênero narrativo que carrega em si o caráter de um outro olhar sobre um fato histórico: o do subalterno . É, assim, um espaço para a voz de grupos que viveram e presenciaram acontecimentos na posição de vencidos/ vítimas e que, dessa maneira, estabelecem uma conflituosa relação com o mundo hegemônico.

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apresenta, resulta imprescindível fazer um levantamento dos principais aspectos que estimulam as discussões entre os críticos, a começar pelo processo de produção. Neste caso, deve-se considerar o lugar subalterno que, em muitos casos, o depoente ocupa na sociedade, portanto, distante da cultura hegemônica, alicerçada principalmente no domínio da escrita. Então, como esse sujeito apodera-se dessa ferramenta que não faz parte da cultura de seu grupo? Para se chegar a alguma resposta é necessário considerar cada produção testemunhal a partir de suas particularidades. Algumas apresentam a figura de um mediador letrado, o qual orienta a elaboração do relato e, por pertencer a outra esfera cultural, serve como instrumento de validação da obra. Mas também há testemunhos sem o mediador, nos quais esse sujeito tem um certo domínio da escrita e, portanto, tem autonomia para circular, mesmo que timidamente, pelos espaços hegemônicos, passou a ter condições de responder pela sua escrita.

Referências

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