FICHA TÉCNICA
Título SAUDADES DA TERRA – Livro II Autor DOUTOR GASPAR FRUTUOSO
Edição INSTITUTO CULTURAL DE PONTA DELGADA Revisão de texto
e reformulação de índices JERÓNIMO CABRAL
Catalogação Proposta
FRUTUOSO, Gaspar, 1522-1591
Saudades da terra : livro II / Doutor Gaspar Frutuoso ; [Palavras prévias de João Bernardo de Oliveira Rodrigues] - Nova ed. - Ponta Delgada : Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1998.
LIVRO SEGUNDO
DAS
Palavras Prévias VI
PALAVRAS PRÉVIAS
João Bernado de Oliveira Rodrigues
Ponta Delgada, 31 de Outubro de 1968 No cumprimento da incumbência que me foi cometida pelo Instituto Cultural de Ponta Delgada — a edição completa das «Saudades da Terra», de acordo com o manuscrito original — é agora publicado o Livro II, isto é, aquele que o Dr. Gaspar Frutuoso dedicou às ilhas que hoje constituem o distrito do Funchal, dentro do seu desígnio de fazer uma resenha histórica, mais ou menos longa, dos arquipélagos do Atlântico Norte, a que de forma indestrutível ficou ligado o nome dos Portugueses.
De toda a obra do insigne cronista açoriano, foi este livro, sem dúvida, um dos que mais cedo atraíram a atenção dos estudiosos, sobretudo os da ilha da Madeira, suscitando dúvidas e interpretações, que, para alguns, ainda actualmente não obtiveram resposta satisfatória ou definitiva.
Foi também este Livro o primeiro das «Saudades da Terra» a ver a luz da publicidade, mercê da importância que lhe deu o erudito historiador continental, Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, como fonte primeva e, até então, mais circunstanciada de tudo o que respeita ao descobrimento e colonização do Arquipélago.
Feita sobre uma cópia, ao tempo existente no Funchal (1), saiu esta edição em 1873, e
ainda nos nossos dias é em extremo valiosa, pelas notas que o seu editor lhe juntou, produto de longa e incansável pesquisa por arquivos e cartórios da Madeira.
Em 1925, o Sr. Prof. Damião Peres, por iniciativa da Junta Geral daquele distrito, publicou nova edição deste Livro, servindo-se do apógrafo das «Saudades da Terra» que se encontra depositado na Biblioteca da Ajuda, e que, apesar de bastante incompleto, lhe deu a oportunidade para igualmente transcrever importantes documentos inéditos, que extraiu do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, e do da Câmara Municipal do Funchal, e apor, com a competência que todos lhe reconhecem, eruditas notas da sua autoria que se relacionam com a matéria versada no texto.
Ambas as edições, sumamente apreciadas pela documentação reunida, na impossibilidade de se terem baseado no manuscrito original, ao tempo vedado a olhos estranhos pela família que durante muitos anos o possuiu, sofrem do inconveniente de se fundamentarem em cópias de pouca confiança, sobretudo a última, que, em alguns capítulos, se apresenta bastante fragmentada.
Uma e outra, de há muito, desapareceram dos escaparates das livrarias, mas consta-nos que o ilustre e erudito Professor, acima citado, tem entre mãos nova edição, esta já conforme com o autógrafo (agora, como se sabe, patente ao público na Biblioteca e Arquivo Distrital de Ponta Delgada), a qual, decerto, obedecerá à rigorosa reprodução do texto, de acordo com as regras que hoje se exigem em matéria diplomática.
Contudo, parece-nos não ser isto motivo para excluir este Livro II do trabalho que estamos a empreender, o qual, na linha de rumo que vimos seguindo, tendo em vista a sua divulgação, foi editado em ortografia do nosso tempo, conforme desejo expresso do Instituto Cultural de Ponta Delgada.
Palavras Prévias VII
* * *
Frutuoso, para a confecção deste Livro, serviu-se em grande parte de um manuscrito que ele próprio encomendara ao Cónego da Sé do Funchal, Jerónimo Dias Leite, sobre o descobrimento e os capitães-donatários do Arquipélago da Madeira. Expressamente o declara em capítulo da sua própria lavra, como se pode observar a páginas 152 deste volume, e ao assunto por mais de uma vez se refere no decurso da obra.
Da leitura das respectivas passagens se conclui a importância que lhe deu como fonte informativa de muitas das matérias que versou, embora incluísse na sua narrativa notícias que colheu através de outras vias, como, por exemplo, as que respeitam à descrição topográfica das ilhas da Madeira e do Porto Santo, que, como mais tarde se havia de verificar não constam do manuscrito do Cónego da Sé do Funchal.
De facto, alguns historiadores que se têm ocupado daquelas ilhas, nomeadamente os Drs. Álvaro Rodrigues de Azevedo (2) e Cabral do Nascimento (3), não deixaram de estranhar o
desequilíbrio e a falta de unidade, de que, no seu conjunto, este Livro II se ressente, pois que, ao lado de narrativas da maior importância, feitas sem o relevo que seria para desejar, como as que se referem ao descobrimento e aos primeiros passos dados na colonização, figuram, de mistura com notícias de real valor para o conhecimento da vida insular nos séculos XV e XVI, factos de natureza anedótica, que pouco significado possuem sob um ponto de vista rigorosamente histórico, e a que o autor, pela extensão que lhes deu, parece ligar particular interesse (4).
Contudo, como durante muito tempo se não identificasse o manuscrito de Jerónimo Dias Leite (5), eram as «Saudades da Terra» consideradas a fonte de maior relevância para o
estudo dos primórdios da existência daquelas ilhas como terras habitadas.
Esta situação de privilégio modificou-se desde que o Dr. João Franco Machado, num meritório e incansável trabalho de investigação, descobriu na Biblioteca da Academia das Ciências um apógrafo do citado manuscrito, que pertencera ao bibliófilo Joaquim Pedro Casado Giraldes e que, após minucioso e exaustivo exame, não hesitou em reconhecer como a obra em que o cronista micaelense se fundamentara para compor a parte mais importante do seu Livro II.
Considerando aquele apógrafo, pelo estudo filológico e ortográfico a que o submeteu, como reprodução exacta do original, tal como saíra em 1579 dos bicos da pena do seu autor — o exemplar remetido a Frutuoso perdeu-se, certamente, no destino que levou a sua livraria, quando a Companhia de Jesus, a quem a tinha legado, foi expulsa de Portugal no século XVIII — o Dr. João Franco Machado procedeu em 1947, pelo Fundo Sá Pinto da Universidade de Coimbra, a uma edição do «Descobrimento da Ilha da Madeira e discurso da Vida e Feitos dos Capitães da dita Ilha», de Jerónimo Dias Leite, em que no notável prefácio, que a antecede, prova de forma irrefutável a íntima correspondência existente entre o respectivo texto e o das «Saudades da Terra», a ponto, de, na sua totalidade, a versão do ilustre capitular da diocese do Funchal ter sido transcrita quase «ipsis verbis» pelo próprio Frutuoso.
Aproximadamente pela mesma época, o Sr. Dr. Fernando d’Aguiar deu a notícia de existir na livraria do Dr. Artur de Oliveira Ramos, que o adquirira no leilão dos livros do conhecido genealogista Afonso de Dornelas, um exemplar quinhentista do manuscrito da referida obra, que identificou como sendo o original, donde, possivelmente, se extraíram a cópia encontrada
Palavras Prévias VIII
na Biblioteca da Academia das Ciências, mais tarde editada pelo Dr. João Franco Machado, e aquela que teria sido remetida a Frutuoso e a que este, como vimos, mais de uma vez faz referência.
Depois de pormenorizado confronto entre o que considerou o texto saído das mãos de Jerónimo Dias Leite e o apógrafo, de que resultou a edição já referida, emite o parecer de que aquele, pertencendo ao espólio deixado pelo seu autor na ilha da Madeira, acompanhou para Lisboa as «Memórias seculares e eclesiásticas para a composição da História da Diocese do Funchal», de Henrique Henriques de Noronha e, desde então, por ali «ficou correndo a sua vária e anónima fortuna» (6); chega mesmo a identiflcá-lo, confirmando a suspeita já esboçada
pelo Dr. João Franco Machado (7), com a espécie n.º 19, constante da «Notícia bibliográfica»
das «Saudades da Terra», de João de Simas, e que por este fora dada como uma cópia da crónica de Frutuoso, pertencente a João Maria Nepomuceno, que se teria transviado para local desconhecido.
Por seu turno, o Sr. Padre Eduardo N. Pereira diz que o original de Jerónimo Dias Leite se conservou, pelo menos, durante 150 anos no Colégio dos Jesuítas do Funchal, que foi visto e compulsado pelo bispo D. José de Sousa Castelo-Branco e pelo historiador, atrás referido, Henrique Henriques de Noronha (8), do que, aliás, dá igualmente testemunho o Dr. Franco
Machado, o qual acrescenta que dele se extraiu cópia enviada à Academia Real da História, acompanhando as citadas «Memórias», conforme refere D. António Caetano de Sousa, na sua narrativa «Do que compreende o Bispado do Funchal», inserta no códice existente na Biblioteca Nacional, «Notícias de geografia e história», que em parte são da autoria deste erudito e benemérito teatino (9).
Seja qual for o rumo que levou o autógrafo ou autógrafos de Jerónimo Dias Leite, o que é certo é que depois da publicação desta obra, deslocou-se para plano secundário o trabalho de Frutuoso como fonte histórica do Arquipélago.
No entanto, alguém disse que isto não invalida por completo o que ele escreveu no seu Livro II, pois que o Cónego da Sé do Funchal quase se limitou aos assuntos contidos nos dois títulos que deu ao seu manuscrito (10).
Muitos capítulos figuram nas «Saudades da Terra», que não constam do «Descobrimento da Ilha da Madeira», e mesmo a parte anedótica, a que já me referi, e tão desagradáveis comentários tem merecido a alguns historiadores (11), severos em demasia e, a meu ver,
bastante injustos para com o nosso cronista, oferece o seu interesse e é mais uma achega, se bem que de somenos importância, para a história do Arquipélago no século XVI. Ainda em data recente o Dr. Fernando Jasmins Pereira cita o testemunho de Frutuoso na vasta bibliografia de que se socorreu para compor o seu valioso e bem urdido estudo intitulado «A Ilha da Madeira no período henriquino» (12).
* * *
Porém, um problema surge, por enquanto não de todo resolvido, prestando-se, por isso, às mais desencontradas versões.
Diz respeito à fonte primária e mais antiga, em que se baseou a narrativa de Jerónimo Dias Leite e, por conseguinte, a transcrição que dela fez o nosso cronista nas «Saudades da Terra».
Frutuoso, no cap.º L do Livro ll, ao referir-se ao Conde da Calheta, João Gonçalves da Câmara, diz que este «trazia no seu escritório o descobrimento da ilha da Madeira, o mais verdadeiro que até agora se achou», como «coisa hereditária de descendentes em descendentes», e que, para satisfazer o pedido que formulara através do rico mercador Marcos Lopes Henriques (13) e do nobre Belchior Fernandes de Castro ao referido eclesiástico, este o
havia solicitado àquele capitão-donatário, então, em Lisboa, donde lho enviou em três folhas de papel, por cópia do seu camareiro Lucas de Sá. Diz ainda o cronista micaelense que lhe
Palavras Prévias IX
constava, por carta do aludido fidalgo a Jerónimo Dias Leite, ser o autor desse manuscrito um Gonçalo Aires Ferreira, companheiro e criado de João Gonçalves Zarco no descobrimento do Arquipélago, o qual, por ser de poucas letras, o redigira em linguagem rude e «mal composta», pelo que o Cónego, com o seu «grave e polido estilo», o recompilara e consertara, ampliando-o e refundindo-o até perfazer onze folhas de papel, para o que se havia auxiliado dos tombos e cartórios da cidade do Funchal, que, para aquele fim, todos lhe foram entregues.
Embora Jerónimo Dias Leite se não refira a tal pormenor (o da autoria do dito «Descobrimento» na posse dos Câmaras, Condes da Calheta e capitães-donatários do Funchal), durante muito tempo se admitiu sem reservas a sua veracidade, tanto mais que Frutuoso relata que os descendentes de Gonçalo Aires Ferreira — os da Casta Grande, como se intitulavam no Arquipélago — ao saberem que nessas folhas manuscritas o seu antepassado era tido como «criado» do Zarco — assim também o Cónego o chama por mais de uma vez — trataram imediatamente de protestar contra tal designação, que consideravam humilhante para a sua estirpe.
Daí Frutuoso, ao transcrever Jerónimo Dias Leite, chamar sempre a Gonçalo Aires «companheiro e amigo» do primelro capitão-donatário do Funchal, possivelmente forçado, temos de reconhecê-lo, pelas relações que deveria manter com o Bacharel Gonçalo Aires Ferreira, morador nesta ilha de São Miguel e descendente de uma irmã daquele antigo povoador da Madeira.
É muito provável ter sido através deste Mestre de Gramática da vila da Ribeira Grande que o cronista obtivesse a notícia do pormenor acima apontado quanto à autoria do manuscrito, e também as informações que sobre a nobre ascendência escocesa da família de Gonçalo Aires nos dá, ainda que confusamente, no Livro IV das «Saudades da Terra», embora assevere que as colhera do «brazão passado pelos Reis de Portugal» (14).
O Sr. Padre Pita Ferreira alude a esta circunstância ao discutir a autenticidade da afirmação de Frutuoso com respeito ao autor do documento existente na posse dos Câmaras, Capitães do Funchal e Condes da Calheta, ao qual, aliás, já João de Barros se referira no cap.º III da sua «Década Primeira» (15).
As dúvidas começaram a suscitar-se, quando, em 1936, no «Arquivo Histórico da Marinha»
(16), e também na obra do Prof. António Gonçalves Rodrigues, «D. Francisco Manuel de Melo e
o Descobrimento da Madeira», se reproduziu a célebre «Relação» que sobre este facto histórico escrevera um Francisco Alcoforado, escudeiro do Infante D. Henrique e companheiro de João Gonçalves Zarco, e de que aquele escritor seiscentista se serviu para compor a sua «Epanáfora Amorosa».
A revelação desse relato de Alcoforado provocou, como era de prever, grande celeuma, por vir avivar problemas que há muito estavam relegados ao esquecimento, como produto da fantasia do célebre polígrafo do século XVII.
Como se sabe, essa terceira Epanáfora trata dos amores infelizes dos ingleses Roberto Machim e Ana d’Harfert, que, segundo uma velha tradição, haviam fugido da Inglaterra, aportando à ilha da Madeira com os seus companheiros de aventura antes de iniciado o povoamento pelos portugueses.
Ora, tal como essa «Relação», o «Descobrimento» de Jerónimo Dias Leite começa precisamente pela narrativa desse romântico episódio e Frutuoso, na sua esteira, com ela compôs o capítulo IV deste livro das «Saudades da Terra».
Foi no «Boletin de Ia Sociedad Geografica de Madrid» que o Prof. António Gonçalves Rodrigues encontrou esse relato, publicado em 1878 por iniciativa de Cesareo Fernandez Duro em artigo intitulado «Como se descobrió la isla de Madera». Ao apreciá-lo, diz aquele Professor: Trata-se de «uma cópia manuscrita do século XVII, conservada na Biblioteca Nacional de Madrid, da famosa «Relação» de Alcoforado», e acrescenta: «a mais rápida comparação dos textos basta para verificar que a «Relação» descoberta foi, de facto, fonte directa da Epanáfora».
Desde o século XVI que essa narrativa do infortúnio de Roberto Machim e Ana d’Harfert vem apaixonando vários escritores, tanto nacionais como estrangeiros, de que resultaram versões nem sempre concordantes, de há muito fazendo parte da tradição histórica da ilha da Madeira, onde se tem mantido através dos tempos.
Palavras Prévias X
Que me conste, foi o Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, numa das suas mais extensas notas às «Saudades da Terra», o primeiro em Portugal a negar-lhe qualquer autenticidade, considerando esse episódio amoroso e o seu desfecho na terra madeirense como pura lenda, produto de fantasiosa imaginação.
Com argumentos de cerrada dialéctica procurou provar a inconsistência das afirmações do notável historiador inglês, Ricardo Major, que, aceitando-a como verídica e dando-lhe crédito absoluto, para tal se baseara não só no testemunho da «Epanáfora Amorosa», mas também no célebre manuscrito de Muních sobre as ilhas do Atlântico, de Valentim Fernandes, em que pela primeira vez esse episódio amoroso foi enunciado, embora mais tarde se tivesse difundido através do «Tratado dos Descobrimentos», de António Galvão, o qual, diga-se de passagem, constituiu uma das fontes mais autorizadas de que se socorreu Frutuoso ao redigir as «Saudades da Terra».
O aparecimento da «Relação» de Alcoforado foi, de facto, relevante, pois que veio novamente suscitar a discussão sobre um problema, que, depois da análise crítica do Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, tinha sido completamente posto de parte.
Os círculos culturais, nomeadamente os da Madeira, movimentaram-se e, se alguns investigadores há que continuam a recusar-lhe qualquer aceitação, chegando, mesmo, a considerar apócrifo o relato de Alcoforado (17), outros, pelo contrário, afirmam que «no estado
actual dos nossos conhecimentos» sobre o assunto (a lenda de Machim), ele não pode «repudiar-se com o desdém que o tem acolhido desde a crítica do Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo» (18). Por sua vez, o Dr. João Franco Machado, que a essa «Relação» já aludira na
«História da Expansão Portuguesa no Mundo», e a publicara no vol. I do «Arquivo Histórico da Marinha», não hesita em identificá-la com a escritura a que Frutuoso se refere, dando-a como existente no «escritório» dos capitães-donatários do Funchal em Lisboa e atribuindo-a (enganadamente, na sua opinião) à pena rude e pouco literária de Gonçalo Aires.
No estudo que precedeu a sua edição do «Descobrimento» de Jerónimo Dias Leite, observando que ambos os textos começam pela narrativa do episódio amoroso de Roberto Machim e Ana d’Arfert, quase «ipsis verbis», e cotejando-os frase por frase na parte que se refere ao descobrimento da Madeira, único assunto de que se ocupa Alcoforado, o distinto investigador não tem dúvidas em aceitar este como a fonte mais antiga, onde foram beber o Cónego madeirense e, por sua via, o nosso Gaspar Frutuoso.
Perentoriamente o afirma nos seguintes termos: «Hoje a identificação está feita. Trata-se, não de uma obra composta pelo referido companheiro (se companheiro foi) do Zargo, mas de uma relação escrita por Francisco Alcoforado, que no descobrimento da ilha da Madeira a tudo assistiu, a qual se deu por muito tempo como desaparecida e até como inexistente» (19).
E, depois de dizer que a «Relação» se intitula: «Qual foy o Azo com que se descobriu a Ilha da Madeira escritto por my Francisco Alcoforado Escudeyro do Senhor Infante D. Henrique que fuy a tudo presente e foy desta Guisa», passa a comparar o respectivo texto com o de Jerónimo Dias Leite e verifica que este «nas suas primeiras dezasseis folhas é um decalque daquele, levemente melhorado na sua redacção» (19). De igual parecer é o Padre Pita Ferreira
no seu estudo «Gonçalo Aires e o seu Descobrimento da Ilha da Madeira» (20).
Por sua vez, o Sr. Padre Eduardo N. Pereira insurge-se contra tal opinião, aceitando como indiscutível a autoria de Gonçalo Aires para aquele precioso manuscrito e atribuindo a Jerónimo Dias Leite o enxerto nesse documento do que considera uma lenda (a de Roberto Machim), inventada quase um século depois de descoberta a Madeira (21). Acusando o Cónego
da Sé do Funchal de ter amalgamado e mistificado as três folhas do manuscrito de Gonçalo Aires, «desdobrando-o para onze folhas com os erros e incongruências da relação apócrifa, atribuída sem indício algum de autenticidade a Francisco Alcoforado, suposto companheiro de Zarco, cuja existência e actuação não foi possível até hoje descobrir nem identificar», baseia as suas opiniões em autores abalizados, como Duarte Leite, Damião Peres, António Álvaro Dória e Vitorino Nemésio, que igualmente se referiram ao assunto (22).
A. A. Dória na sua obra «O Problema do Descobrimento da Madeira», refutando a opinião do Prof. A. G. Rodrigues, expressamente diz que «ninguém sabe quem foi o Francisco Alcoforado e em parte alguma, a não ser na obra referida («D. Francisco Manuel de Melo e o Descobrimento da Madeira») se lhe menciona o nome» e acrescenta que «teremos de pô-lo de
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quarentena» enquanto se não provar que o «manuscrito existente na Biblioteca Nacional de Madrid é cópia de outro autêntico» (23).
Ainda uma outra versão nos surge sobre tão debatida matéria: a do Sr. Dr. Ernesto Gonçalves no seu trabalho «Ocupação da Madeira e Porto Santo», publicado no volume XII do «Arquivo Histórico da Madeira».
Este autor pergunta: «Seria a relação, aproveitada com mau critério por Jerónimo Dias, a «escritura mui particular» de que fala João de Barros no cap.º III da I Década?» (24).
Admitindo que fosse a mesma que os Capitães do Funchal possuíam, a que alude o autor da «Ásia», o Sr. Dr. Ernesto Gonçalves diz que nada nos permite considerá-la como lavrada por um coevo dos acontecimentos. Na sua opinião, esse relato «entraria directamente a narrar como Zarco e Tristão tinham aportado à Madeira», pois, segundo nos diz Gaspar Frutuoso no capítulo L deste Livro II, começava nos seguintes termos: «Chegamos a esta ilha a que pusemos o nome da Madeira» (25), as únicas palavras que dessa narrativa conhecemos. E
conclui por afirmar que, ao contrário do que se tem julgado, esta relação saiu directamente do texto de Jerónimo Dias Leite.
Sem pretendermos imiscuir-nos na questão da autenticidade do escrito de Alcoforado, somos de parecer que o assunto é de ponderar e não pode ser discutido de ânimo leve ou aguerrido, ao sabor dos preconceitos e simpatias de cada um. Diremos, no entanto, que, reconhecendo através da leitura das «Saudades da Terra» como o Dr. Gaspar Frutuoso procurou sempre evitar melindres por parte das famílias e entidades mais em voga na sua terra natal, não nos repugna acreditar que aceitasse sem qualquer espécie de crítica as informações que, porventura, sobre Gonçalo Aires Ferreira lhe tivesse fornecido o seu homónimo, que, como dissemos, morava nesta ilha de S. Miguel e seria aqui elemento destacante na sociedade da época.
E, a propósito, convém lembrar a nota que o Sr. Padre Pita Ferreira insere na sua obra «O Arquipélago da Madeira Terra do Senhor Infante» (26) acerca de um Alcoforado, que é referido
como fundador ou dono de um hospital d’aquela ilha no Livro das Vereações da Câmara do Funchal (1470-1472), levando-o a perguntar se será o mesmo para quem determinada crítica hoje parece inclinar-se a atribuir a autoria do decantado manuscrito, que os capitães-donatários do Funchal possuíam nos seus «escritórios» de Lisboa (27).
É esta, pois, uma questão em aberto, para conhecimento da qual convidamos o leitor mais curioso a consultar as obras que aqui temos vindo a salientar e, igualmente, o «Arquivo Histórico da Madeira», rico repositório de documentos e artigos sobre a especialidade, da autoria de eruditos investigadores, que dele têm feito um instrumento de inapreciável valor para a reconstituição do passado daquele Arquipélago (28).
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Palavras Prévias XII
Mas não ficam por aqui os problemas que neste Livro II das «Saudades da Terra» se contêm.
Como já foi explicado na descrição que fizemos do códice frutuosiano (29), é este livro, de
que vimos tratando, um dos que se encontram mais viciados pela introdução de capítulos e folhas que não faziam parte da sua primitiva factura, cuja data conseguimos fixar em 1584.
Refiro-me aos panegíricos de Tristão Vaz da Veiga e D. Luís de Figueiredo e Lemos, ambos figuras de relevo do regime filipino, cuja vaidade houve o particular empenho de lisonjear, incluindo-os numa obra, que, tudo o indica, se destinava a ver a luz da publicidade.
Já o Morgado João de Arruda, na sua cópia anotada das «Saudades da Terra», que data de 1812, dera conta dessa estranha anomalia e, por seu intermédio, a ela igualmente se referem com pormenor João de Simas na sua «Notícia bibliográfica» e o Dr. Cabral do Nascimento nos seus «Apontamentos de História Insular», aventando a hipótese de o viciamento ter sido cometido após a morte do cronista, que, como se sabe, ocorreu em Agosto de 1591.
Com efeito, o Dr. Cabral do Nascimento põe em dúvida de que tais panegíricos fossem redigidos por Frutuoso e para tal estriba-se na admiração que este sempre nutriu pelo Padre Martim Gonçalves da Câmara, que foi contrário a Filipe II de Espanha e mereceu do nosso cronista longas e desenvolvidas palavras de elogio, e também no carinho com que se refere ao filho do sexto capitão do Funchal, que o soberano espanhol encarcerou (30). E sugere que o
autor de tais interpolações tenha sido o Dr. Daniel da Costa, físico que para aquela cidade acompanhara o bispo D. Luís de Figueiredo e Lemos, o mesmo que no Livro III, que trata da ilha de Santa Maria, escreveu o «Contraponto» dedicado a este prelado.
Quanto a Tristão Vaz de Veiga, que, ao tempo, era capitão-general da Madeira, nomeado por Filipe II, para cujo partido se passou ao avizinharem-se de Lisboa as tropas invasoras, entregando sem qualquer resistência a fortaleza de São Julião da Barra, cuja defesa lhe havia sido confiada pelos Governadores do Reino, alguém, depois de 1590 — é a data que no panegírico vem referida — introduziu na obra nove capítulos, narrando com exagerado e fastidioso pormenor os feitos no Oriente dessa figura sombria da nossa História. Para tal, como já se disse, houve a necessidade de arrancar folhas escritas pelo próprio punho de Frutuoso e substituí-las por outras, pertencentes aos dois cadernos contendo essa homenagem, que abrange igualmente no cap.º XXVII a justificação da sua atitude anti-patriótica, tudo redigido em sentido apologético.
O que estava escrito por Frutuoso, tanto no capítulo que antecede tal elogio, como no que lhe é subsequente, teve de ser trasladado para esses cadernos com a mesma letra que neles figura, a qual é, totalmente diversa da do nosso cronista e poderá, até certo ponto, identificar-se com a do Padre Simão Tavares, que lavrou vários termos no registo paroquial da Matriz da Ribeira Grande, a partir de 1587.
Outra prova do viciamento é a numeração dos capítulos que se lhe seguem, a qual nos aparece sempre emendada, não sendo difícil divisar-se sob as emendas os primitivos números, apostos por Frutuoso.
Pela linguagem empregada, que pouco se assemelha à do cronista insulano, pelos erros de cópia, com que a cada passo se topam e não foram corrigidos, e, sobretudo, pela ausência total de emendas e acrescentamentos da própria mão de Frutuoso — as suas costumadas entrelinhas em quase todos os capítulos saídos do seu punho — nem sequer podemos admitir que este panegírico fosse da sua autoria, mas sim redigido por alguém (possivelmente do Colégio da Companhia de Jesus do Funchal, bastante afecta a Tristão Vaz da Veiga) empenhado em o adular ou, mesmo, justificar-lhe o procedimento numa obra, que, segundo cremos, se destinava a ser publicada.
Tais capítulos têm todo o aspecto de serem cópia de um original, que desconhecemos, feito de propósito para ser incluído nas «Saudades da Terra», pois é frequente notarem-se, nas margens e entrelinhas, frases na própria letra do copista, que lhe haviam escapado no momento de as trasladar. Alguns, pelo menos, como confessa o desconhecido autor, foram extraídos ou inspirados na obra que Jorge de Lemos publicou em 1585, historiando os cercos de Malaca, quando António Moniz Barreto era governador da Índia (31).
Palavras Prévias XIII
Contudo, estamos certos de que a sua inclusão nas «Saudades da Terra» se fez com o consentimento de Frutuoso; disso nos convencemos ao deparar com as entrelinhas «capelão de Sua Majestade» que ele, referindo-se ao Cónego Jerónimo Dias Leite, apôs com a sua letra extremamente miúda no capítulo XXX, este já da sua autoria, pois que trata dos filhos e filhas de João Gonçalves Zarco, e que para consertar a obra, após o viciamento praticado, teve de ser suprimido e depois transcrito pelo mesmo copista para os dois cadernos interpolados.
A outra interpolação, a que nos referimos, foi o longo capítulo de elogio ao bispo do Funchal, D. Luís de Figueiredo e Lemos, igualmente partidário de Filipe II, e nomeado para aquela diocese em 1585, isto é, depois de redigido este Livro II, que, como dissemos, é possível colocar-se em 1584, pelos dados irrefutáveis que nele se colhem.
Para a sua introdução, já depois do trabalho estar confeccionado, foi igualmente necessário arrancar a última folha do capítulo, que, pelo punho de Frutuoso, trata do bispo D. Jerónimo Barreto e transcrever o que aí estava para aquela, em que se dá começo a este outro, numerado de XLII, como se disse de homenagem a D. Luís de Figueiredo e Lemos, e ainda
substituir por novas folhas o cap.º XLIII (que trata dos honrosos feitos do capitão Simão Gonçalves da Câmara e dos filhos e filhas que teve) e o começo do XLIV (como foi saqueada a cidade do Funchal por corsários luteranos), ambos, presumivelmente, da autoria de Frutuoso, ou, pelo menos, da sua letra.
Embora o papel seja da marca que figura na maior parte dos capítulos dedicados a Tristão Vaz da Veiga e igual ao que serviu para a escrituração do Livro VI, a letra é com toda a evidência muito diferente; bastante legível, grada e inclinada para a direita, apresenta algumas semelhanças com a do copista dos últimos capítulos do Livro IV.
Igualmente não nos repugna acreditar que tal elogio ao bispo do Funchal se incluísse na obra com a aquiescência de Frutuoso; não só o prelado era figura das mais marcantes entre os açorianos da época, como o cronista tivera ocasião de o conhecer, quando aquele exerceu as funções de pároco da freguesia de S. Pedro de Ponta Delgada e as de vigário geral da diocese de Angra. Aliás, a data da nomeação de D. Luís de Figueiredo para bispo do Funchal — 1585 — já posterior à confecção da obra, coloca-se numa época em que Frutuoso não hesita em apresentar-se, ou aparentemente se revela como defensor dos direitos de Filipe II à coroa de Portugal.
Com todos os seus problemas, e apesar do «Descobrimento da ilha da Madeira», de Jerónimo Dias Leite, ser hoje a fonte informativa mais segura dos primórdios da existência daquele arquipélago como terra habitada, o Livro II das «Saudades da Terra» não desmerece do conjunto da obra, se atentarmos às circunstâncias em que Frutuoso teve de trabalhar, no isolamento da sua remota vila da Ribeira Grande, onde paroquiava, e numa época em que dificilmente as pessoas se podiam deslocar para colher «de visu» os materiais necessários à composição de um trabalho da envergadura daquele que realizou. Nem se lhe leve a mal a cópia quase servil do texto de Jerónimo Dias Leite, aliás elaborado a seu pedido para figurar nas «Saudades da Terra», circunstância que o cronista micaelense jamais escondeu, pois que por mais de uma vez a ela se refere e sempre em termos elogiosos para o seu autor. É verdade que alterou a ordenação dos assuntos que o Cónego da Sé do Funchal lhe havia dado, e do critério que a isso o levou poderemos discordar com maior ou menor fundamento, mas lembremo-nos de que a outras fontes ele recorreu para nos dar obra mais vasta, em que se contêm capítulos de indiscutível valor, como sejam as descrições topográficas da Madeira e de Porto Santo, que não figuram no trabalho daquele prebendado, e outros, que nem pelo aspecto anedótico que os informa, deixam de ter interesse para o conhecimento da vida madeirense no século XVI.
E tenhamos em consideração de que se não fora o gosto do nosso cronista em legar aos vindouros esse autêntico monumento, que são as «Saudades da Terra», possivelmente não teria o Cónego Jerónimo Dias Leite a oportunidade de redigir o seu valioso «Descobrimento da Ilha da Madeira», de que hoje, e com toda a razão, tanto se ufanam os naturais do distrito do Funchal.
Palavras Prévias XIV
Sem preocupações de inoportuno e deslocado bairrismo, mantemo-nos na linha daqueles vultos micaelenses que, apesar dos exageros ou deslizes que na sua Crónica se podem apontar e foram sobretudo resultado das condições em que ao tempo se trabalhava em matéria histórica, tiveram sempre pelo Dr. Gaspar Frutuoso o respeito e a admiração que ele merece, como fonte a muitos títulos inesgotável e mesmo preciosa para reconstituir o passado das nossas ilhas atlânticas, designadamente as dos Açores.
Manuscrito Original das Saudades da Terra XV
FOTOCÓPIA DA PÁGINA N.º 63 DO MANUSCRITO ORIGINAL DAS SAUDADES DA TERRA, EM QUE SE DÁ COMEÇO AO LIVRO SEGUNDO
Livro Segundo das Saudades da Terra
LIVRO SEGUNDO DAS SAUDADES DA TERRA
DO DOUTOR GASPAR FRUCTUOSO EM QUE SE TRATA DO
DESCOBRIMENTO DA ILHA DA MADEIRA E SUAS
ADJACENTES, E DA VIDA E PROGÉNIE DOS ILUSTRES
Capítulo Primeiro 3
CAPÍTULO PRIMEIRO
DO NASCIMENTO, PROGÉNIE, AUTORIDADE E COSTUMES DO INFANTE DOM HENRIQUE, QUE MANDOU DESCOBRIR AS ILHAS DE PORTO SANTO, MADEIRA E DOS
AÇORES
Tratado tenho, Senhora, do princípio remoto e, para que trate agora de outro mais chegado ao que destas ilhas me pedistes vos contasse, não será sem razão dizer alguma coisa da vida e costumes do infante Dom Henrique, digno de imortal e gloriosa memória, pois hei de tratar das ilhas da Madeira e dos Açores, que ele mandou descobrir neste grande mar Oceano ocidental. Para o qual se há de notar que Dom João, de Boa Memória, décimo Rei de Portugal e primeiro do nome, casou com a Infanta Dona Filipa, de nação inglesa, neta de el-Rei de Inglaterra Dom Duarte, terceiro do nome, e filha de João de Gand, Duque de Alencastre, filho quarto de el-Rei Duarte e irmão de Ricardo, Rei de Inglaterra, que neste tempo reinava.
Havia casado o Duque João de Gand com Madama Branca, herdeira do Ducado de Alencastre, de quem houve um filho chamado Henrique, que foi Duque de Alencastre e, depois, Rei de Inglaterra, e duas filhas, uma chamada Isabel, que foi condessa de Holanda, casada com João, Conde de Holanda, e a outra é esta rainha Dona Filipa, de quem el-Rei Dom João, seu marido, houve nobre e grande geração.
Primeiramente houveram a Infante Dona Branca, que de oito meses faleceu e jaz sepultada na Sé de Lisboa aos pés da sepultura de el-Rei Dom Afonso quarto, seu bisavô; e o Infante Dom Afonso, que faleceu moço e jaz sepultado na Sé de Braga; e o Infante Dom Duarte, que reinou depois de seu pai, e o Infante Dom Pedro, que foi Duque de Coimbra e Senhor de Montemor-o-Velho e de Aveiro e das terras do Infantado; e o Infante Dom Henrique, que foi Duque de Viseu e Senhor de Covilhã e Mestre da Ordem de Cristo, cuja era a vila de Lagos, e a de Sagres; e Dona Isabel, que foi casada com o Duque Filipe de Borgonha e Conde de Flandres, poderoso príncipe, de alcunha o Bom Pai, e Senhora de outros grandes estados e mãe do Duque Charles, que mataram os suiços e alemães na batalha de Nanci, em terra de Lorena. Houve mais el-Rei Dom João da Rainha Dona Filipa, sua mulher, o Infante Dom João, que foi Mestre da Ordem de Santiago e Condestável do Reino, pai da Rainha Dona Isabel, mulher de el-Rei Dom João de Castela, segundo de nome. Houve mais dela o Infante Dom Fernando, Mestre da Ordem de Avis e Senhor de Salvaterra e de outros povos, de grande caridade com os próximos, por cuja ajuda e liberdade ficou em terra de mouros e lá morreu cativo em Fez. Esta é a real e alta progénie do Infante Dom Henrique, que mandou descobrir estas Ilhas da Madeira e dos Açores, como adiante contarei. Teve também el-Rei Dom João, sendo Mestre, antes que reinasse, dois filhos bastardos de uma mulher, chamada Dona Inês, que depois foi Comendadora de Santos, sc. Dom Afonso, que casou com uma filha herdeira de Dom Nuno Álvares Pereira (chamada Dona Breatiz), que foi Conde de Ourém e Barcelos, e uma filha, chamada Dona Breatiz, que casou com Dom Tomé, Conde de Arendel e Borga em Inglaterra.
O Infante Dom Henrique, quarto filho de el-Rei Dom João, de Boa Memória, e da Rainha Dona Filipa, nasceu na cidade do Porto em quarta-feira de Cinza, quatro dias do mês de Março do ano de mil trezentos noventa e quatro, e foi (como disse) Duque de Viseu e Mestre da Ordem de Cristo, cuja militar religião reformou ele de suas sobejas estreitezas com autoridade do Papa Eugénio quarto.
Há-se mais de notar que o Infante Dom João, filho quinto de el-Rei Dom João, de Boa Memória, e da Rainha Dona Filipa, sua mulher, nasceu em Santarém no mês de Fevereiro e, segundo outros dizem, no mês de Julho, o qual Infante foi Mestre de Santiago e Condestável dos Reinos de Portugal e casou com uma sua sobrinha, Dona Isabel, filha de Dom Afonso, primeiro Duque de Bragança, seu meio irmão, filho fora de matrimónio de el-Rei Dom João, seu
Capítulo Primeiro 4
pai, da qual Dona Isabel, sua mulher, houve primeiramente um filho, chamado Dom Diogo, a que outros chamam Dom Luís, que, depois do Infante, seu pai, faleceu de pouca idade, e uma filha, chamada Dona Isabel, que veio a ser Rainha de Castela, mulher de Dom João, segundo deste nome, que, sendo ele em idade de quarenta anos, a houve por sua segunda mulher. Teve mais o Infante Dom João da Infanta Dona Isabel, sua mulher, a segunda filha, que se chamou Dona Breatiz, a qual, andando os tempos, fez as pazes perpétuas de Portugal e Castela, entre Dom Afonso, o quinto deste nome, duodécimo Rei de Portugal, e Dom Fernando quinto e Dona Isabel, Reis Católicos de Castela, no fim do ano de mil quatrocentos e oitenta. Esta casou o Infante Dom Pedro, governador, então, do Reino, com seu primo carnal, dela, o Infante Dom Fernando, irmão de el-Rei Dom Afonso e filho segundo de el-Rei Dom Duarte; os quais, Dom Fernando e Dona Breatiz, houveram estes filhos sc. Dom Domingos ou Dom Diogo (que parece teve dois nomes, ou por lhe mudarem o primeiro na crisma, ou por qualquer outra razão que seja), Duque de Viseu, e Dom Manuel, que depois foi Rei de Portugal. Houve mais o Infante Dom João (32) de sua mulher, a Infanta Dona Breatiz (sic), a terceira filha, que se
chamou Dona Filipa, como a Rainha, sua avó paterna, a qual Dona Filipa, sendo Senhora de Almeida, havendo sustentado grande casa e muita honra e castidade, sem casar, casando e fazendo muito bem a seus criados e criadas, acabou virtuosamente sua vida. E no fim do mês de Outubro do ano de mil quatrocentos e quarenta e dois faleceu este Infante Dom João, irmão do Infante Dom Henrique, que descobriu estas Ilhas, em Alcácer do Sal, de febre, donde levaram seu corpo ao mosteiro da Batalha, onde tem sua sepultura dentro da capela de el-Rei Dom João, seu pai. E a seu filho, Dom Diogo, fez logo condestável o Regente do Reino Dom Pedro, seu tio, dando-lhe o mestrado de Santiago com todas as rendas e cousas que o Infante Dom João, seu pai, tinha, o que tudo logrou pouco, pois, como está dito, faleceu muito moço, de febre contínua, logo no ano seguinte de mil e quatrocentos e quarenta e três, cuja herança e casa passou a Dona Isabel, sua irmã maior, e depois, porque esta casou com el-Rei de Castela, passou por contrato à filha segunda, Dona Breatiz, casada com o Infante Dom Fernando. E, porque do Infante Dom João não ficava outro herdeiro barão (33), o Infante Dom
Pedro, governador, então, do Reino, fez com el-Rei que proveu, logo, do ofício de Condestável a Dom Pedro, seu filho maior, do mesmo Dom Pedro. E parece que, depois, el-Rei Dom Afonso, o quinto do nome, morto o Dom Pedro, fez condestável a Dom Diogo ou Dom Domingos, filho do Infante Dom Fernando, seu irmão, e da Infanta Dona Beatriz, pois ele nas cartas das doações destas ilhas põe este título de Condestável.
Era o Infante Dom Henrique, que mandou descobrir a ilha da Madeira e suas adjacentes e estas ilhas dos Açores, tão poderoso no Reino e de tanta autoridade, por suas muitas virtudes e saber, que, fazendo-lhe queixume o Infante Dom Fernando, seu sobrinho (34) Mestre de Aviz,
como el-Rei Dom Duarte, seu pai, do mesmo Dom Fernando, e irmão do mesmo Dom Henrique, não lhe queria dar licença para passar a África (que era coisa que ele muito desejava), rogou a el-Rei que lha desse e logo a alcançou, ainda que eram contra isso o Infante Dom João e o Infante Dom Pedro. E, quando uma vez el-Rei Dom Afonso, o quinto do nome, partiu de Santarém para Lisboa, onde o mesmo Infante Dom Henrique (que estava no Algarve) lhe foi falar, sentindo que a honra e vida do Infante Dom Pedro, seu irmão, com modos falsos de seus inimigos era maltratada e se dispunha a destruição e perigo, atalhou a isso, falando com el-Rei. Bem bastara sua autoridade a pôr tudo em paz e acabar com el-Rei que não cresse o que lhe diziam do infante Dom Pedro, se não fora Dom Afonso, Conde de Barcelos, e seus filhos Dom Diogo, Conde de Ourém e Marquês de Valença, e Dom Fernando, Conde de Arraiolos e Marquês de Vila Viçosa, e Dom Pedro de Noronha, arcebispo de Lisboa, cunhado do Conde Dom Afonso, irmão de Dona Constança, sua segunda mulher, e Dom Frei Nuno de Goes, prior de São João, que é a cabeça do priorado do Crato, e Dom Afonso, Senhor de Cascais, e outros servidores da Rainha viúva Dona Leonor, mulher que fora de el-Rei Dom Duarte, e mãe do mesmo Rei Dom Afonso, quinto do nome, que eram da mesma parcialidade contra o Infante Dom Pedro, os quais receosos, se o Infante Dom Henrique, segundo era poderoso no Reino e de grande autoridade, pendesse à banda do Infante Dom Pedro, que suas imaginações ficariam com dano deles muito aquém de seu propósito, trabalharam de fazer a el-Rei suspeitosas suas muitas virtudes e segura lealdade, afirmando-lhe que nas desculpas do infante Dom Pedro o não devia crer, porque na culpa do engano e desterro da Rainha, sua mãe, e em outros desmandos, que, por morte de el-Rei Dom Duarte no Reino, se fizeram, ambos foram causadores e participantes. Mas, como isto era falso, não danava na limpeza do Infante Dom Henrique, ainda que foi causa para que el-Rei Dom Afonso lhe não cresse as desculpas e razões que ele lhe deu por parte do Infante, seu irmão.
Capítulo Primeiro 5
Além do que João de Barros dele diz no cap.º 17.º do primeiro livro da primeira Década de sua Ásia, era este excelente Infante Dom Henrique valoroso cavaleiro e mui grande cosmógrafo e matemático, e tão afeiçoado às letras, que deu suas próprias casas para os estudos de Lisboa, e tão dado à contemplação e virtude, que jamais se quis casar; e, para poder melhor gozar da vista e curso das estrelas e orbes celestes, escolheu para sua habitação uma montanha no Cabo de São Vicente, porque ali chove poucas vezes e por maravilha se turba a serenidade do Céu, fazendo discursos, como bom filósofo e cosmógrafo, de uma razão em outra; e por outras razões e conjecturas, que direi adiante, e por certo roteiro, que dizem que achou do tempo dos Romanos, e com conselho dos cosmógrafos e homens peritos e experimentados na navegação, desejando estender e alargar os reinos paternos com novas conquistas e descobrimentos, veio a concluir que se podia navegar de Portugal à Índia Oriental pela parte do meio dia, e, desejando saber por experiência o que alcançava por arte, armou à sua custa certos navios e mandou com eles gente a descobrir aquela navegação, e em diversas vezes veio a ter notícia de gram parte daquela costa da terra firme e de algumas ilhas no mar Atlântico; e em todas as em que havia gente fez pregar a fé de Nosso Senhor Jesus Cristo e, por sua boa diligência, se converteram à nossa santa religião os infiéis bárbaros de algumas daquelas partes. E, então, se descobriu a ilha da Madeira e a do Porto Santo e estas dos Açores, como depois particularmente direi. E como tinha vontade de bem fazer, como ele tinha por moto de sua divisa nestas palavras francesas «Talent de bien faire», ainda que fosse à sua custa, continuou este excelente Infante Dom Henrique este descobrimento e conquista por mais de vinte e oito anos.
Passadas estas coisas e outras, que adiante contarei, veio a morrer no ano de mil quatrocentos sessenta e três (sic) (35), a treze dias de Novembro, deixando descoberto do Cabo de Não até a Serra Leoa, que está desta nossa banda em sete graus e dois terços, ou, como outros dizem, oito graus de altura. Faleceu em Sagres, vila sua do Algarve, sendo de idade de sessenta e sete anos, e foi enterrado na igreja de Lagos, donde depois foi trasladado ao mosteiro real da Batalha, que el-Rei D. João, seu pai, havia edificado, e posto na capela do mesmo convento, que está no cruzeiro à banda direita, onde está enterrado el-Rei Dom João, seu pai, e, ao redor dele, seus filhos, os Infantes Dom Pedro, Dom João e Dom Fernando. Tem por divisa este Infante Dom Henrique na sepultura, dourada, umas bolsas e letras douradas, tudo já gastado. Dizem ter isto assim, por ser ele o por cuja indústria se descobriu a Mina, da qual veio e vem a Portugal muito ouro.
Este Infante têm todos por certo que morreu virgem; cuja morte sentiu muito todo Portugal, e muito mais el-Rei Dom Afonso, seu sobrinho, a quem dos Sereníssimos Infantes, seus tios legítimos, só este lhe havia ficado, porque o Infante Dom João, Mestre de Santiago e Condestável do Reino, e o Infante Santo, Dom Fernando, Mestre de Aviz, já então eram falecidos, e também o Infante Dom Pedro, Duque de Coimbra; e o tio, fora de matrimónio, que era Dom Afonso, Duque de Bragança, de mais idade que todos seus irmãos, faleceu no ano seguinte e sucedeu-lhe no ducado seu filho, Dom Fernando, Conde de Arraiolos e Marquês de Vila Viçosa, segundo Duque de Bragança, neto do primeiro Condestável Dom Nuno Álvares Pereira por linha de sua mãe, a Condessa de Barcelos, Dona Breatiz, filha única herdeira do Condestável, e, por linha masculina, neto também de el-Rei Dom João de Boa Memória, o primeiro do nome.
Este Infante Dom Henrique, tio natural e pai adoptivo do Infante Dom Fernando (ao qual devem estes reinos, como tenho dito, o descobrimento de muitas ilhas e terras firmes e princípio dos reinos e províncias que se descobriram e se conquistaram depois no Oriente), por reconhecimento das mercês que de Deus recebera na ampliação dos senhorios destes reinos, mandou fazer em sua vida em Restelo, lugar de ancoragem antiga, ali, onde ora é o mosteiro de Belém, mais de meia légua de Lisboa, e, segundo outros, uma légua, uma ermida da invocação de Nossa Senhora de Belém, em que se pudesse recolher alguns freires da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo do convento de Tomar, de que ele era Mestre, os quais servissem ali a Deus e com os mercantes estrangeiros exercitassem as obras de caridade, assim espirituais, confessando-os e consolando-os, como corporais, agasalhando os pobres e ajudando os enfermos e enterrando os mortos que ou ali falecessem ou o mar ali lançasse, tendo o Infante desta casa, que tinha neste surgidouro de Restelo, feito doação à mesma Ordem de Cristo, com algumas heranças de pomares, fontes e terras que comprara para se manterem os freires, com encarrego de todos os sábados dizerem uma missa por sua alma.
Capítulo Primeiro 6
Depois que Vasco da Gama tornou da Índia, vendo el-Rei Dom Manuel quão obrigado estava (acrescentando Deus em seu tempo à coroa destes reinos outros tantos e tão grandes) acrescentar-lhe também o templo e magnificência da obra para limpeza do culto divino e perfeição de maior religião, determinou de edificar ali o mosteiro de Belém, da ordem de São Jerónimo, prosseguindo a memória e santa tenção do Infante Dom Henrique, seu tio e avô adoptivo, e irmão de el-Rei Dom Duarte, seu avô natural, como disse. E logo em satisfação e recompensão deu à Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo a igreja de Nossa Senhora da Concepção de Lisboa, que, antes da conversão dos judeus, fora Sinagoga, e ele a convertera e mudara em serviço de Deus e templo da Virgem Nossa Senhora.
Mas, como o edifício de Nossa Senhora de Belém era sumptuoso, e por sua muita grandeza e qualidade da obra requeria largo espaço de tempo para se acabar na ordem em que o ele principiara, e sua morte foi tantos anos antes do que, segundo o comum curso dos homens, pudera ser, pois faleceu aos treze dias de Dezembro do ano do Senhor de mil e quinhentos e vinte e um, dia de Santa Luzia, nos paços da Ribeira, não de velhice, senão de uma febre, espécie de modorra, doença de que naquele tempo morria muita gente em Lisboa, da qual, a cabo dos nove dias que lhe tocou, deu a alma a Deus em idade de cinquenta e dois anos, seis meses e treze dias, dos quais reinou os vinte e seis, um mês e dezanove dias, deixou encomendado a el-Rei Dom João, terceiro do nome, seu filho, e sucessor também de suas obrigações, como o era dos regnos e senhorios que lhe deixava, o prosseguimento e fim dela; e, para mais o obrigar a prossegui-la, acabá-la e dotá-la da maneira que ele, se vivera, o determinava fazer, ordenou e mandou em seu testamento que enterrassem seu corpo na igreja de Belém antiga, que o Infante Dom Henrique mandara edificar, e, como a igreja do mosteiro fosse acabada, lhe trasladassem a ela seus ossos pola (sic) escolher para sua sepultura, e agora o é também dos mais Reis, seus sucessores.
Dizem e escrevem alguns que, por o Infante Dom Henrique não ter filhos e no tempo de seu falecimento regnar em Portugal el-Rei Dom Afonso, o quinto do nome, (como se vê claramente, pois este Rei nasceu em Santarém no ano de mil quatrocentos trinta e dois e faleceu a vinte e oito dias de Agosto, em dia de Santo Agostinho, na era de mil quatrocentos e oitenta e um), deixou em seu testamento a conquista do descobrimento das terras à coroa real, como ao tronco donde ele descendia. E parece que também deixou, com aprazimento de el-Rei Dom Afonso, o mestrado de Cristo e quanto tinha ao Infante Dom Fernando, que ele perfilhou, casado com sua sobrinha, a infanta Dona Breatiz, filha de seu irmão, o Infante Dom João, já neste tempo falecido, ou, como conta o grave e docto cronista Damião de Goes, no ano de 1460, depois do falecimento do infante Dom Henrique, fez el-Rei Dom Afonso quinto doação das ilhas do Cabo Verde e das dos Açores, que ele chama Terceiras, ao Infante Dom Fernando, seu irmão, e, por morte do Infante Dom Fernando, ficou o dito mestrado e o mais a seu filho, Dom Diogo.
Como quer que seja, sua mãe, deste Dom Diogo, a Infanta Dona Breatiz, por ele naquele tempo ser de pouca idade, sendo sua tutor e curador fez e confirmou as doações destas ilhas da Madeira e dos Açores aos capitães delas, e o mesmo Duque Dom Diogo, depois de ter idade para isso. as confirmou, como de algumas delas parece. E por morte deste Dom Diogo, que el-Rei Dom João, o segundo do nome, matou às punhaladas por lhe tratar treição, (sic) sucedeu Dom Manuel no mestrado e ducado de Viseu a seu irmão, por mercê de el-Rei, e no Regno ao mesmo Rei, seu cunhado, pelo seu testamento e por aí não haver outra pessoa a quem mais pertencesse o Regno que ao dito Dom Manuel, regedor e governador da Ordem e Cavalaria do Mestrado de Nosso Senhor Jesus Cristo, Duque de Viseu e de Beja, Senhor de Covilhã e de Moura e das ilhas da Madeira e Cabo Verde e destas dos Açores, que são do mesmo mestrado.
E, depois que Dom Manuel sucedeu no Regno, ficou o dito Mestrado de Cristo encorporado na coroa, como parece que profetizou el-Rei Dom João, o segundo, quando, falando com o Duque Dom Manuel e fazendo-lhe mercê do ducado e terras e senhorios que tinha seu irmão Dom Diogo, defunto, (como conta o curioso Garcia de Rezende) lhe disse que ele matara o Duque seu irmão, porque ele, Duque, com outros o quiseram matar. E, porque todalas coisas, que ele em sua vida tinha, por sua morte ficavam livremente à coroa, ele de todas, dali em diante, lhe fazia mercê e pura doação para sempre, porque Deus sabia que ele o amava como a próprio filho e lhe dizia que, se o seu próprio filho falecesse, sem outro filho legítimo que o sucedesse, que daquela hora para então o havia por seu filho, herdeiro de todos os seus Regnos e Senhorios; e, sendo isto dito e ouvido, de uma parte e da outra, com muita tristeza e
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lágrimas (porque el-Rei tudo atribuía a seus pecados), o Senhor Dom Manuel, com muito acatamento pondo os giolhos em terra, lhe beijou por tudo a mão, e o mesmo fez Diogo da Silva, seu aio. Então, lhe mudou el-Rei o título de Duque de Viseu, por se não intitular como seu irmão, e houve por melhor que se intitulasse Duque de Beja e Senhor de Viseu, como daí em diante se chamou. E, logo nesta mesma fala, el-Rei tocou ao Duque em querer para si as vilas de Serpa e Moura e que por elas lhe daria dentro do Regno mui inteira satisfação; e assim apontou nas saboarias do Regno, que tinha, em que, porventura, haveria mudança, porque as havia por opressão dos povos e por cárrego de sua consciência. E também lhe disse que a ilha da Madeira, no que pertencia a sua coroa, ele, Duque, a teria em sua vida inteiramente, mas que por seu falecimento, quando Deus o ordenasse, era razão que, por ser cousa tamanha, se tornasse à coroa e aos Reis destes Regnos, que os sucedessem. As quais palavras, que el-Rei, então, disse ao Duque, foram todas (como disse) profecias do que ao diante se viu, pois tudo foi como ele, então, o disse, e ficou o mestrado à coroa no tempo que o Duque Dom Manuel ficou Rei.
E esta parece ser a razão porque são as doações, em aqueles tempos, aos capitães destas ilhas concedidas pela dita Infanta Dona Breatíz, como curador e tutor de seu filho, o Duque Dom Diogo, enquanto era de pouca idade, e foram depois confirmadas pelo dito Dom Diogo, quando já tinha idade para isso, e pelos Reis destes regnos; e, sucedendo por Duque no ducado de Beja, Dom Manuel, por morte de seu irmão Dom Diogo, e vindo depois a ser Rei o mesmo Dom Manuel, ficou o Mestrado da Ordem de Cristo encorporado na Coroa Real, como agora está, e os Reis de Portugal são os que agora fazem as doações destas capitanias destas ilhas e as confirmam, ainda que dantes eram concedidas (como tenho dito) pela lnfanta Dona Breatiz, como curador e tutor de seu filho, o Infante Dom Diogo, enquanto era menino, e depois confirmadas por ele, quando já teve idade para isso. E qualquer Rei que agora sucede no Reino é o Mestre da Ordem de Cristo, de cujo Mestrado são a ilha da Madeira e suas adjacentes e estas ilhas dos Açores.
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CAPÍTULO SEGUNDO
DO QUE ESCREVE JOÃO DE BARROS DO DESCOBRIMENTO DAS ILHAS DE PORTO SANTO E DA MADEIRA, E DOUTRAS OPlNlÕES QUE DELE TÊM OUTROS AUTORES
Segundo escreve o não menos docto que curioso João de Barros quase no princípio de sua Ásia, depois que el-Rei Dom João, de gloriosa memória, o primeiro deste nome em Portugal, passando a África, no mês de Julho, por força de armas tomou a cidade de Cepta, na tomada da qual o Infante Dom Henrique, seu filho terceiro génito, foi parte mui principal, e, como conta o grave cronista Damião de Goes, quatro anos depois que el-Rei Dom João tomou a cidade de Cepta aos mouros, eles a requerimento de el-Rei de Granada, chamado o Esquerdo, a vieram cercar no mês de Agosto com grão poder, ao qual cerco el-Rei Dom João mandou muita e mui nobre gente de seus regnos, por cujo capitão foi o Infante Dom Henrique.
E porque, além de ele ser mui arriscado cavaleiro, era mui dado ao estudo das letras, principalmente da Astrologia e Cosmografia, trazendo, como Júlio Cesar, a lança em uma mão e o livro na outra, tornando do dito cerco o mesmo Infante, sabendo a obrigação do cárrego e administração que tinha de governador da Ordem da Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, que el-Rei Dom Dinis, seu trisavô, para a guerra dos infiéis ordenou e novamente constituiu, desejoso de acrescentar o Regno de Portugal e descobrir outro mundo de novo, já que não lhe cabia o descobrimento ou conquista de África, e vendo como os mouros do Regno de Fez e Marrocos ficavam por conquistar, metidos na coroa destes Regnos por o novo título que seu pai tomou de Senhor de Cepta, e que ele já não podia intervir como conquistador, senão como capitão enviado, e, indo desta maneira, havia de seguir a vontade de el-Rei e a disposição do Regno e não a sua, assentou mudar esta conquista, que muito desejava, para outras partes mais remotas de Espanha; com fundamento da qual empresa (que até o seu tempo nenhum príncipe tentou), para que este seu propósito houvesse efeito, era mui diligente na inquisição das terras e seus moradores e de todalas coisas que pertenciam à Geografia, dando-se muito a ela, com que veio a ter notícia de muitas terras, estando recolhido em uma vila, que novamente fundava no regno do Algarve, na angra chamada Sagres, por estar junto do cabo de São Vicente, chamado pelos antigos históricos Sacrum Promontorium, que quere dizer Grande Cabo (como se podem chamar todos os outros cabos grandes que ao mar saem). Assim chama Virgílio à grande fome e sede de ouro, auri sacra fames, a que os latinos chamam execrabilis, ex-fugienda, de que se deve fugir e arredar, como dos grandes cabos ou promontórios, onde quase sempre há tormentas e perigos, donde se derivou o corrupto nome de Sagres, que para mais verdadeira imitação da língua latina, donde a nossa traz seu (sic) origem (como diz o cronista Damião de Goes), se deve chamar, mudando o g em c, Sacres; à qual vila o dito Infante pôs nome Terçá Nabal, e ora se chama a Vila do Infante.
Como coisa que lhe fora revelada, segundo alguns dizem, ainda que o mais certo é pela certeza que alcançou do trabalho de seu estudo e grande curiosidade que a navegação para a Índia Oriental já fora em outros tempos achada, logo no mesmo ano que tornou do cerco de Cepta, que foi o de mil e quinhentos (36) e dezanove, um dia, em se levantando com muita
diligência, mandou armar dois navios que foram os primeiros com que começou mandar descobrir a costa de África. E, porque naquele tempo nenhum português passava do cabo de Não, que está em vinte e nove graus de altura, deu aos capitães por regimento que seu descobrimento fosse deste cabo por diante; mas estes e outros, que doutras vezes foram e vieram, não descobriram mais que até o cabo Bojador, que será avante do cabo de Não obra de sessenta léguas.
Tornados estes navios, falaram-lhe dois nobres e esforçados cavaleiros de sua casa, a um dos quais chamavam João Gonçalves, Zargo de alcunha, e outro Tristão Vaz, de menos idade, vendo os desejos que ele tinha de descobrir terra e eles de o servirem na tal empresa, como
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naquelas idas de além o tinham em África mui bem servido, pedindo-lhe muito que, pois armava navios para descobrir a costa de Berbéria e Guiné, lhe aprouvesse irem eles em algum navio a este descobrimento que eles sentiam em si que nele o poderiam bem servir. O Infante, vendo suas boas vontades e conhecendo deles serem homens para qualquer honrado feito, pela experiência que tinha de seus serviços, mandou-lhe armar um navio a que chamavam barca naquele tempo, e deu-lhes regimento que corressem a costa de Berbéria até passarem aquele temeroso Cabo Bojador, e daí fossem descobrindo o que mais achassem.
Como este Infante Dom Henrique era um barão tão puro, tão limpo e de coração tão virginal como foi, segundo nota João de Barros, a ele convinha descobrir estas terras idólatras e abrir os alicesses (sic) da Igreja Oriental que nelas se depois edificou. E, assim, permitiu Deus que este novo descobrimento (pela majestade dele) passasse pela lei que têm as grandes coisas, as quais têm uns princípios trabalhosos e casos não cuidados e de tanto perigo, como passaram estes dois nobres cavaleiros, que o Infante mandou descobrir, depois de partidos em sua barca, porque, antes que chegassem à costa de África, saltou com eles tamanho temporal, com força de ventos contrairos à sua viagem, que perderam a esperança das vidas, por o navio ser tão pequeno e o mar tão grosso, que os comia, correndo a árvore seca à vontade dele.
E como os marinheiros naquele tempo não eram costumados a se engolfar tanto no pego do mar e toda sua navegação era por sangraduras, sempre à vista da terra, e, segundo lhes parecia, eram mui afastados da costa deste regno, andavam todos tão torvados e fora de seu juízo, pelo temor lhe ter tomado a maior parte dele, que não sabiam julgar em que paragem eram; mas aprouve à piedade de Deus que o tempo cessou e, posto que os ventos lhe fizeram perder a viagem que levavam, segundo o regimento do Infante, não os desviou de sua boa fortuna, descobrindo a ilha que agora chamamos do Porto Santo (37), o qual nome lhe eles,
então, puseram porque os segurou do perigo que nos dias da fortuna passaram. E bem lhe pareceu que terra, em parte, não esperada não somente lha deparava Deus para sua salvação, mas ainda para bem e proveito destes regnos, vendo a disposição e sítio dela, e mais não ser povoada de tão fera gente como, naquele tempo, eram as ilhas Canárias, de que já tinham notícia. Com a qual nova, sem ir mais avante, se tornaram ao regno, de que o Infante recebeu o maior prazer que até naquele tempo desta sua empresa tinha visto, parecendo-lhe que era Deus servido dele, pois já começava ver o fruto de seus trabalhos.
E pela informação que estes dois cavaleiros davam dos ares, sítio e fresquidão da terra, e por comprazer ao Infante, se moveram muitos e ofereceram a ele com propósito de a povoar, antre os quais foi uma pessoa notável, chamado Bertolameu Perestrelo, que era fidalgo da casa do Infante Dom João, seu irmão, para a qual ida mandou armar três navios, um dos quais deu a Bertolameu Perestrelo, e os outros dois a João Gonçalves e a Tristão Vaz, primeiros descobridores. E antre as sementes e plantas e outras coisas, que levavam, era uma coelha, que Bertolameu Perestrelo levava prenhe, metida em uma gaiola, que pelo mar acertou de parir e, depois de chegados à ilha, e solta a coelha com seu fruto, em breve tempo multiplicou tanto que não semeavam ou prantavam coisa que logo não fosse roída por espaço de dois anos que ali estiveram, o que foi causa que, importunado, Bertolameu Perestrelo se tornou para o regno.
João Gonçalves e Tristão Vaz, como tiveram melhor estrela que o Perestrelo, partido ele, determinaram de ir ver se era terra uma grande sombra que lhe fazia a ilha a que ora chamamos da Madeira e, vendo o mar para isso disposto, passaram-se a ela em dois barcos que fizeram, a qual chamaram da Madeira por causa do grande e espesso arvoredo de que era coberta.
O Infante, depois que estes dois capitães vieram ao Regno com a nova do novo descobrimento desta ilha, por consentimento de el-Rei Dom João, seu pai, a repartiu em duas capitanias: a João Gonçalves deu a que chamamos a do Funchal, onde está a cidade nomeada deste lugar, e a Tristão Vaz deu a outra, onde está a vila de Machico; e começaram ambos de povoar a ilha na era de 1420. E a ilha do Porto Santo deu o Infante a Bertolameu Perestreio.
E o mesmo João de Barros diz que Gomes Eenes (sic) de Zurara, cronista destes regnos, em soma, conta que João Gonçalves e Tristão Vaz, ambos descobriram a ilha da Madeira. E (como conta o capitão António Galvão) outros dizem que, vendo um castelhano os desejos que o Infante tinha de descobrir novo mundo, lhe dera conta como eles acharam a ilha do Porto Santo, parece ser quando foram descobrir as Canárias ou fazendo outra viagem, e, por ser cousa pequena, não faziam dela conta; que foi causa de mandar lá o Infante Bertolameu