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CAPÍTULO DÉCIMO SEXTO

No documento livro2 (páginas 55-59)

CAPÍTULO DÉCIMO SEXTO

DA DESCRIÇÃO DA NOBRE CIDADE DO FUNCHAL E DO QUE HÁ PELA COSTA DA IGREJA DO CORPO SANTO, ONDE ELA COMEÇA, ATÉ À PRAIA FORMOSA, QUE ESTÁ

ALÉM DELA

Da ponta do Garajau, que está ao Nascente, até uns ilhéus, que estão ao Ocidente, perto da terra, e a ponta da Cruz, que é quase uma légua e meia, faz a terra uma enseada muito grande e formosa, e do Corpo Santo a São Lázaro e as Fontes de João Diniz, que estão ao longo do mar, que é um quarto de légua, há pela costa calhau miúdo e areia, o qual é o porto da cidade, onde ancoram naus e navios, que ali carregam e descarregam, tão povoado e cursado sempre deles, com tanto tráfego de carregações e descarregas, que parece outra Lisboa. E deste quarto de légua de calhau miúdo e areia pela costa é a compridão da grande e nobre cidade do Funchal, ali situada em lugar baixo, em uma terra chã, que do mar se mostra aos olhos mui soberba e populosa, tão bem assombrada nos edifícios como nos moradores, não somente dela, mas também de toda a ilha. Está assentada antre duas frescas ribeiras, a de Nossa Senhora do Calhau, a Leste dos muros com esta igreja, que é freguesia fora deles, e a ribeira de São Pedro, ou de São João, ermidas que estão para o Ponente, porque ambas elas estão ali, no cabo da cidade, ficando a ribeira fora dos muros antre elas, e a igreja de São Pedro dos muros para dentro àquem da ribeira, e São João de fora deles, da batida de Loeste: das quais, para o Ponente, até Câmara de Lobos são terras de canas de açúcar e de novidades de pão, vinhos e frutas. E, para mais fresquidão, vai pelo meio dela a ribeira de Santa Luzia (assim chamada por estar sobre ela no monte uma ermida desta Santa), com a qual moem quatro engenhos de açúcar, que estão dentro na cidade, que a enobrecem muito, um de Simão Achioli (91) que é agora de seu filho Zenobre Achioli (92), florentim (93) de nação, e outro acima, que se chama do Caramujo, outro de Duarte Mendes de Vasconcelos, e mais acima outro de Simão Darja (94); com a qual moem também os moinhos com pedras alvas, com

que se fazem boas farinhas; da qual saem as mais das levadas com que se rega a flor e o melhor dela de canas, vinhas e frutas; e por ela acima se colhem cada ano quatrocentas pipas de vinho extremado de bom e grande cópia de frutas de espinho e outras; e há muitas hortas de couves murcianas e outra hortaliça que ela rega.

Está a cidade amurada, da ribeira de Nossa Senhora do Calhau, junto da qual está uma fortaleza nova, até à fortaleza velha, onde tem o capitão sua morada, donde defende o mais da cidade que fica fora do muro, da banda de Loeste até São Lázaro, e, pela ribeira de Nossa Senhora do Calhau, vai o muro em compridão perto de meia légua pela terra dentro, a entestar com rochas mais ásperas, fortes e defensáveis que ele mesmo, (sic) o qual, fabricado com rubelos e seteiras, da banda da ribeira tem três portas, em que estão suas vigias e guardas, pelas quais se serve a cidade, que fica da banda de Loeste deste muro para dentro e para fora. E no muro da banda do mar tem uma porta de serventia, junto de Nossa Senhora do Calhau, e outra, mais no meio da cidade, junto dos açougues, e outra, que é a mais principal, aos Varadouros, defronte da rua dos Mercadores.

Meio tiro de besta desta porta principal está a casa da Alfândega, mais próspera e de melhores oficinas que a da cidade de Lisboa, bem amurada de cantaria e fechada pela terra e pelo mar, que está junto dela e nela bate muitas vezes, quando há aí maresias.

Adiante logo da Alfândega um tiro de besta está a Fortaleza Velha, que é a principal, situada sobre uma rocha, e tem pela banda do mar seis grandes e formosos canos de água, que dela sai e nela nasce, na mesma rocha sobre que é fundada, e de nenhuma maneira se pode tomar nem tolher, pela banda da terra, de nenhuns imigos; a qual fortaleza tem, pela parte do mar, dois cubelos, como torres mui fortes, que guardam o mesmo mar e a artilharia, de que estão bem providos, e, pela banda da terra, outros dois, que guardam toda a cidade por

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cima, por estarem mais altos que ela, em a qual parte tem também um muro muito alto e forte, com uma fortíssima porta de alçapão; e, assim como tem dentro água, não lhe faltam atafonas, fornos e celeiros para recolher os mantimentos, e ricos aposentos, onde o capitão pousa, adornados com seu jardim e frescura (95).

A primeira rua, das mais principais dos muros para dentro, é a dos mercadores e fanqueiras, ingreses e framengos e outros forasteiros, e de homens ricos e de grosso trato, que vai de Nossa Senhora do Calhau até à fortaleza, e no começo dela, junto de Nossa Senhora do Calhau, está uma não muito grande, mas formosa e cercada praça, de boas casas sobradadas, algumas de dois sobrados, com um rico pelourinho de jaspe, do qual uma grande e larga rua, que se chama a Direita e é a maior da cidade, vai ter ao pinheiro, que é uma árvore que está no cabo dela, a mais grande e formosa que há na mesma cidade. E nesta rua tem o ilustríssimo Bispo Dom Hierónimo Barreto seus aposentos muito ricos, com seus frescos jardins de trás, que entestam com a ribeira de Santa Luzia; e logo mais acima, indo pela mesma rua, está a casa e igreja, da invocação de São Bartolomeu, dos padres da Companhia de Jesu, de muita virtude, exemplo e doctrina, sofredores de muito trabalho por salvar as almas, de que direi adiante; e defronte desta casa, da outra banda, mora Dona Maria, mulher que foi de Duarte Mendes, homem fidalgo, em sumptuosas casas dentro em uma cerca bem amurada, onde tem um engenho de açúcar e casas de purgar açúcares. E, indo mais acima pela mesma rua, está uma boa igreja de São Bartolomeu, e daí até o cabo dela são tudo casas de homens honrados, no fim da qual está um engenho de açúcar de Simão Darja, que chega à ribeira; na qual rua mora também o generoso e rico Zenobre Chiol (96), que tem ali seu engenho de

açúcar, que parte com a mesma ribeira.

Desta rua dos Mercadores, além da rua Direita, sai outra, não tão comprida, de outros de menos trato, como é fruta, pano de linho e coisas de fancaria, que vêm de fora, no cabo da qual está um poço, pelo que se chama rua do Poço Novo, logo além está outra, que sai desta primeira dos Mercadores e se chama de João Esmeraldo, por ele ter ali seu aposento, antigo, mui rico, com casas de dois sobrados e piares (97) de mármores nas janelas, e em cima seus eirados com muitas frescuras; e na mesma rua estão ricas casas e aposentos, onde mora o nobre Pero de Valdavesso e Francisco de Salamanca, e outras nobres pessoas. Outra sai desta primeira, chamada rua do Sabão, que serve de lógeas e granéis de trigo, onde mora um Tristão Gomes, que chamam o Perú, o qual tem umas ricas casas de dois sobrados, com poço dentro e portas de serventia, com muitos abrolhos de ferro da banda de fora, e defronte dele, algum tanto mais acima, estão uns paços muito grandes, em que, o mais do tempo, habitam mercadores muito grossos, ingreses.

Desta rua do Sabão sai uma, que se chama do Capitão, por ser a mais direita serventia para sua casa, onde mora uma nobre mulher em ricos aposentos, e, logo mais adiante, Martim Vaz de Cairos em umas casas como paços muito grandes, onde tem uma comprida sala, em que jogam a péla, e janelas de boa vista para a Sé. Nela moram outras pessoas honradas, o cabo da qual entesta com a fortaleza.

E desta rua saem serventias para a Sé, que é uma igreja mui populosa, bem assombrada e fresca, e tem uma formosa torre, muito alta, de cantaria, com um formoso coruchéu de azulejos, que, quando lhe dá o raio do Sol, parecem prata e ouro, em cima do qual está um sino de relógio, tão grande, que levará em sua concavidade trinta alqueires de trigo, de tão soberbo e grande tom, que se ouve de duas léguas, onde acode a gente a qualquer rebate de guerra, quando se ele tange; e, mais abaixo, na torre, estão três janelas, onde estão quinze sinos.

O corpo da igreja, que está sujeita à torre, é grande, com seu adro, também espaçoso, e cercado, em partes, de muro, e com dez degraus, per (sic) que sobem a ele, fora do qual tem um campo tão grande, que correm nele touros e cavalos, jogam as canas e fazem outras festas.

Está esta igreja (que é da invocação de Nossa Senhora da Estrela) arrumada de Leste a Oeste, com a porta principal para o Ponente e as duas portas travessas de Norte a Sul; estão guarnecidos os altares (que são nove) de ouro e azul, com três ricas capelas, afora a principal, onde tem o coro, do arco para dentro, com seus assentos custosos e bem lavrados de rica macenaria (98), e no cruzeiro se diz a Epístola e Evangelho em seus púlpitos. Tem daião, dignidades, cónegos, mestre de capela e cantores de boas e delicadas vozes, todos com

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honesta renda, mas não com quanta merecem, por serem ministros mui doctos, virtuosos, destros e escolhidos, como agora o é o ilustríssimo prelado deles, Dom Hierónimo Barreto (99).

Além da Sé, para o Ponente, um tiro de besta esforçado está defronte o moesteiro de São Francisco da observância, de boas oficinas, como um dos mais nobres e graves do regno, que terá até cinquenta religiosos. Tem uma igreja muito grande e lustrosa, e principalmente depois que a acrescentou e a levantou o padre frei Diogo Nabo, guardião dela e comissairo de toda a ilha, como ordinariamente o são os guardiães da mesma casa, em a qual há oito capelas mui ricas e dois altares, afora o da capela-mor, e grande cerca, dentro da qual tem água de levadas, com que regam muita hortaliça de couves murcianas, berengelas e cardos e da mais que há, e pomar de árvores de espinho, palmeiras, aciprestes, pereiras, romeiras e toda frescura que se pode ter de frutas e ervas cheirosas, sem ter necessidade das de fora; tem também dentro muitas uvas, e é a gente de tanta caridade, que no verão ajuntam de esmolas trinta pipas de vinho. Dizem missa uma hora ante manhã, onde concorre muito povo; dão muitas esmolas a sua portaria; tem o púlpito, e sempre antre eles há quatro, cinco pregadores. E nesta rua, que vai da Sé para o moesteiro não há mais que um aposento com uma cerca, onde moram João Dornelas e António Barradas, homens mui principais que governam a terra, e o demais são hortas de hortaliça para os moradores da cidade.

Pelas costas da capela-mor de São Francisco, vai uma rua, que se chama do seu nome, ter ao moesteiro das freiras, na qual mora Manuel Vieira, homem principal, em uns ricos aposentos, e no cabo dela está situado o moesteiro das freiras da observância, de grandes rendas e de maiores virtudes, onde haverá setenta religiosas, das quais são sessenta de véu preto, sobre uma rocha mui forte, muito amurado, com boas vistas para o mar e poucas para a terra, por causa dos seus muros serem altos e de pedra e cal, ainda que não é muito grande cerca. E, logo, por vizinho tem o ilustre Francisco Gonçalves da Câmara, tio do Capitão Conde, que haja glória, em uns paços grandes e sumptuosos, o qual governava e governa a capitania pela doença e falecimento do mesmo conde, seu sobrinho.

Deste moesteiro das freiras meia légua para o Norte está uma ribeira, que se chama de Água de Mel, e por ela acima muitas vinhas de bons vinhos e canas de açúcar, muitos castanheiros e nogueiras, e formosas quintãs, que há muitas perto e derredor da cidade.

Do meio desta rua de São Francisco se aparta outra, também principal, de homens mui honrados, que vai ter a São Pedro; chama-se a Carreira dos Cavalos, pelos costumarem correr nela. Logo, na entrada, mora Francisco George, mui nobre e principal, em uns aposentos frescos e ricos, e adiante Tomé Sardinha, casado com uma colaça de João Gonçalves da Câmara, morgado do Capitão Conde defunto (que depois teve a capitania pouco tempo e já também o chamou Deus para o seu Regno), também em uns sumptuosos paços, e, logo defronte dele, em outras ricas casas, Pero Gonçalves, escrivão dos quintos, homem muito honrado e querido de todos e bem julgado. No fim desta rua mora um Pero Pimentel, também dos principais, que se recolhe dentro de uma cerca de muita frescura de vinhas e canas. Mais adiante, mora André de Betancor, fidalgo dos maiores que há na ilha e morgado, filho de Francisco de Betancor e de Dona Maria, todos naturais desta ilha de São Miguel, em outras casas, como paços, muito boas e frescas, e tem, por vizinho, defronte a casa do bem- aventurado São Pedro, e uma fresca ribeira, que se chama, como tenho dito, de São João, ou de São Pedro, a qual casa de São Pedro é o cabo da cidade da banda do Ponente, donde se começa o muro que vai entestar com a rocha, por onde não podem subir nenhuns imigos.

Da porta principal da Sé sai uma rua, não muito grande, que se chama de João, ou de Manuel Tavila (100), por ele morar nela, onde moram pessoas de muita qualidade, cónegos e

clérigos, e este Tavila em casas de muito preço. E acima dela, em uma rua que chamam das Pretas, mora Gaspar de Aguiar, fidalgo e rico, em umas casas mui grandes. E também desta rua descende outra, que chamam a dos Netos, homens mui principais e cavaleiros, Miguel Rodrigues Neto, George Pestana, Francisco Moniz, em boas e frescas casas com seus jardins e canaviais para trás. Desta rua sai outra, que vai ter aos moinhos; e, antes que cheguem a eles, está um engenho de açúcar, arriba do qual, fora da cidade, estão seis casas de moinhos, que moem com a levada com que todos os engenhos, atrás ditos, se servem, que são cinco por todos e estão abaixo deles ao longo desta ribeira, que se chama de Santa Luzia, como já disse.

Do Corpo Santo se começa uma rua que chega a Nossa Senhora do Calhau, que vai de Leste a Oeste dentro dos muros, que, por começar dela, se chama de Santa Maria, onde

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pousa António Ferreira, contador da cidade, em umas casas mui ricas, com seus jardins de trás, e em outras Francisco de Medeiros, homem fidalgo, e Dona Maria, mulher que foi de António de Aguiar, em outras casas grandes e formosas, com boa vista para o mar; da qual vai outra rua para o Norte, chamada da Olaria, em que estão umas casas de Mem de Ornelas, fidalgo, casado com uma filha de António Correia, e na mesma rua outras casas grandes, em que mora Bento da Vega, escrivão, homem mui honrado, e no cabo dela outras formosas casas, defronte da Misericórdia, em que por vezes pousam muitos fidalgos por elas serem para isso e terem a vista que têm, que é a mesma ribeira e um poço, debaixo das janelas, que lhe fica ao Sul da que está da banda do mar.

A Casa da Misericórdia é de ricas oficinas e de mais ricas esmolas e obras de caridade, que nela se fazem pelos provedores e irmãos, curando muitos enfermos e remediando muitos pobres e necessitados, não somente da mesma ilha, mas que vêm de fora, de diversas partes e navegações, ter a ela, que é rica e abastada, e piedosa escala e refúgio de todos.

Estas são as ruas principais desta cidade, afora muitas menores e travessas, que todas estão calçadas de pedra miúda, e de tal maneira que, quando chove, fica lavada e limpa a cidade e, com as muitas águas que a regam no verão, sempre aprazível e fresca.

Mas, tornando à ordem que pela costa levo da igreja do Corpo Santo, onde, antes que na cidade entrasse dois tiros de besta, está a igreja de Nossa Senhora do Calhau, que é agora freiguesia, onde está a casa da Misericórdia, junto da ribeira de João Gomes, pela qual acima há muitas vinhas de malvasias e vidonhos, em que se colhem cada ano duzentas pipas de vinho. Passando esta ribeira de João Gomes por uma ponte de pau muito grande e forte, entram na praça do Funchal. E, vindo da praça para o Ocidente, um tiro de pedra está a ribeira de Santa Luzia e, passada outra ponte quase dois tiros de besta para o Ocidente, está logo a Sé. Da Sé para o Ponente um tiro de besta está o moesteiro de São Francisco; dele para o mesmo Ponente dois tiros de besta está a ribeira de São Pedro, por estar ali sua igreja, que é agora freiguesia, pela qual ribeira acima há muitas vinhas, que dão cada ano mais de duzentas pipas de bom vinho. Dela para o Ocidente, passando e dobrando a ponte da Cruz, pouco menos de uma légua está a praia que se chama Formosa, por não haver outra semelhante em toda a ilha, que terá como um quarto de légua de areia (101).

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