CAPÍTULO DÉCIMO QUINTO
EM QUE SE COMEÇA A DESCRIÇÃO DA ILHA DA MADEIRA, COMEÇANDO PELA BANDA DO SUL, DA PONTA DE SÃO LOURENÇO, ATÉ À ENTRADA DA CIDADE DO
FUNCHAL (86)
A ilha da Madeira que, como tenho dito, lhe pôs nome assim o felicíssimo capitão primeiro dela, João Gonçalves Zargo, por causa do muito, espesso e grande arvoredo de que era coberta e toda cheia de infinidade de madeira, é alta, com montes e rochedos mui fragosos, que, por ser muito fragosa, dizem que seu nome próprio era, ou devera ser, ilha das Pedras; tão afamada e guerreira com seus ilustres e cavaleirosos capitães, e tão magnânimos, e com generosos e grandiosos moradores; rica com seus frutos; celebrada com seu comércio, que Deus pôs no mar oceano ocidental para escala, refúgio, colheita e remédio dos navegantes, que de Portugal e de outros regnos vão, e de outros portos e navegações vêm para diversas partes, além dos que para ela somente navegam, levando-lhe mercadorias estrangeiras e muito dinheiro para se aproveitar do retorno que dela levam para suas terras; saudosa com altíssimos montes e fundos vales, povoados de alto e frondoso arvoredo de diversas árvores; regada com grandes e frescas ribeiras de doces e claras águas; enobrecida com muitas e grandes povoações de soberbos e sumptuosos edifícios; esmaltada com ricas e formosas quintans; ornada de ricos e custosos pomares de esquisitas e diversas frutas; enfeitada com artificiosos e deleitosos jardins de várias e curiosas ervas e flores; um rubi, finalmente, que, com seu resplendor, cor e formosura, dá graça a toda a redondeza do anel do Universo em circuito, pois com seu licor e doçura, como com néctar e ambrosia, provê as Índias ambas, a Oriental aromática e a Ocidental dourada, chegando e adoçando seus frutos, de extremo a extremo, quase o mundo todo.
E ainda que os da ilha de Ormuz, que está na boca do mar Perseu, lhe chamam pedra do anel do Mundo, esta com muita mais razão, pois tem mais preminência (sic) na boca de todalas nações, não somente pedra desse anel grande, mas, pois o homem é um mundo pequeno, se pode com verdade chamar jóia de seu peito; que, por ser tal e parecer nele um único horto terreal tão deleitoso, em tão bom clima situada ou criada, disse um estrangeiro que parecia que, quando Deus descendera do Céu, a primeira terra em que pusera seus santos pés fora ela.
Está esta tão célebre ilha em altura de trinta e dois graus e dois terços desta nossa parte do Polo Setentrional. Tem da parte de Leste o cabo de Quantim em África (perto do cabo de Gué), que está com o cabo de São Vicente, Norte e Sul, em distância de oitenta léguas, e com esta ilha da Madeira, Leste Oeste, cento e dez léguas, e com o Porto Santo cem léguas. Tem figura de uma rica pirâmide, cujo basis está da parte do Ocidente, ainda que algum tanto rombo, com que também fica toda feita como uma folha de plátano, e o cume da parte do Oriente é a ponta de São Lourenço, a qual ilha com o Porto Santo está Nordeste Sudoeste, da mesma maneira que está o Porto Santo com a Barra de Lisboa, ou com os Cachopos, e são doze léguas de terra a terra; e tem três ilhas, de que adiante direi, que se chamam as Desertas e estão Norte e Sul com a mesma ponta de São Lourenço três léguas de uma terra a outra.
A Gran Canária está com esta ilha da Madeira ao Sul e à quarta do Sueste e, ordinariamente, quase todas as ilhas de Canária (como já disse acima) demoram desta ilha do Sul até o Sueste, pouco mais ou menos, e quem for por vinte e oito graus atravessará as ilhas Canárias todas; a Palma, que é uma delas e dista da cidade do Funchal setenta léguas, demora da mesma cidade ao Sul e quarta do Sudoeste, e, resguardando-se de irem ao Sudoeste, porque é derrota falsa, e errando a ilha, não a poderão tornar a tomar por causa dos ventos e aguagens que ventam naquelas partes. Tenerife está Norte e Sul com o porto da ilha da Madeira outras setenta léguas.
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Da parte do Norte não tem a ilha da Madeira carregações, para que navios possam carregar, senão no verão, porque a terra não é para isso, nem tem portos, mas tem bons abrigos para navios, quando há tempo contrário da parte do Sul, por ser alta.
Terá de comprido dezasseis léguas e meia e de largo quatro, pouco mais ou menos, ou, como outros querem, dezoito de comprido e perto de seis de largo; e principalmente dizem que tem esta largura, tomando a ilha pelo meio dela, para a parte de Loeste, que é a do Ponente, onde tem o basis rombo, mas para a parte de Leste vai aguçando até a ponta de São Lourenço e é mais estreita e delgada.
Sua compridão é de Leste a Oeste, da parte de São Lourenço, que está a Leste, até à ponta do Pargo, que está a Oeste, onde se acaba sua compridão. Tem uma grande baía da parte do Sul, que começa da Ponta de São Lourenço até à ponta do Pargo, que está uma légua antes de chegar à cidade, e terá de ponta a ponta cinco léguas; em toda esta costa se pode surgir, porque é bom surgidouro, de até vinte braças, a que se podem chegar os navios bem, sem temor dela.
Alguns dizem que a ponta de São Lourenço está a Lés-nordeste, e que demora o Porto Santo dela doze léguas ao Nordeste. Partindo da ponta de São Lourenço (que se chamou assim por ali o primeiro capitão, João Gonçalves Zargo, chamar por ele, acalmando-lhe o vento) pela banda do Sul para o Ocidente, uma légua da ponta está uma povoação de perto de quinze moradores, que se chama o Caniçal; são terras rasas e de pão. Do Caniçal até a vila de Machico há duas léguas, que são de terra muito alta, de rochas e picos e mato, e onde se emparelham com a vila, que é à boca de uma formosa e mui crescida ribeira, ao longo da qual a mesma vila está situada; faz a terra uma grande enseada com duas pontas, cuja boca terá um quarto de légua de largo, e da barra para dentro estão uns baixos no meio da enseada, sobre um dos quais (que de maré vazia descobre parte dele) está arvorada uma cruz por marca, com que se desviam os navios, para que, entrando no porto, não vão dar neles.
Este porto de Machico, além da grande majestade que tem (como já tenho dito), é muito bom com todos os ventos por ser a terra de uma e outra parte muito alta, e, como começam os navios a entrar da barra para dentro, ficam como em um manso rio, salvo quando aboca por ela o Lés-sueste que, então, se é muito rijo, não podem sair para fora e convém amarrar-se bem, porque, se se desamarram, não têm remédio senão enxorar pela ribeira acima e enfiar-se com ela, como já aconteceu muitas vezes.
Desta soberba entrada e nobreza desta vila já tenho dito acima. Terá de quinhentos até seiscentos fogos e uma formosa igreja, muito bem ornada com ricos ornamentos, antre os quais há uma rica charola, mais fresca e de mais obra que a da cidade do Funchal, ainda que mais pequena, em que levam o Santíssimo Sacramento, na procissão que se faz dia de Corpo de Deus.
Ainda que tem esta capitania de Machico outra vila, de Santa Cruz, que é maior que ela, esta foi a primeira cabeça de toda a capitania, pois ainda agora tem o nome dela, e também parece ser a primeira povoação, porque, como primeiro tronco e princípio, há nela muito fidalgos de geração e muita gente nobre, e ainda têm eles antre si que Machico é a gema da fidalguia de toda a ilha.
Tem esta vila pela ribeira acima dois ou três engenhos de açúcar, e vinhas e pomares de toda fruta, e boa, e bom açúcar; mas o vinho dizem ser o pior de toda a ilha, que, por ser tal, para poucas partes se carrega. Há também nesta vila muitas mulatas, e muito bem tratadas e de ricas vozes, que é sinal da antiga nobreza de seus moradores, porque em todas as casas grandes e ricas há esta multiplicação dos que as servem.
Para se regarem canas de açúcar nesta vila. e para o Caniçal, se tirou uma levada de água de tão longe, que do lugar, onde nasce, até à vila serão quatro léguas e meia, ou perto de cinco, na qual se gastaram mais de cem mil cruzados, por vir de grandes serras e funduras, e dizem que na obra dela se furaram dois picos de pedra rija, por não haver outro remédio. Rafael Catanho, genoês (87), com o grande espírito que têm quase todos os estrangeiros, e principalmente os desta nação, foi o primeiro que começou a tirar esta água, e depois el-Rei a mandou levar ao cabo; e, pelo muito custo que fazia, já não se usa.
Saindo desta vila de Machico (de cujos capitães direi adiante) meia légua para a parte do Ponente, está uma ribeira que se chama o Porto do Seixo, com que mói um engenho de açúcar dos herdeiros de George de Leomellim (88), ou de Mellim, como, outros dizem, genoês de
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nação, que é muito boa fazenda, junto do caminho que vai ao longo da costa desta banda do Sul, de que vou falando. Também há neste Porto do Seixo, pela ribeira acima, muitos vinhos de malvasias e vidonhos melhores que os de Machico, e muita outra fruta.
Do Porto do Seixo a meia légua está outro engenho de açúcar, que é dos Freitas, acima do caminho, e abaixo dele um moesteiro de frades franciscos, onde estão até oito religiosos de missa, que tem boa igreja, com boas oficinas e aposentos, de que António de Leomellim, do Porto do Seixo, homem fidalgo, rico e mui generoso é padroeiro, com quem ele reparte grandes esmolas de sua fazenda, além das que deixaram seus antepassados para aquela casa, que fizeram.
Do mosteiro um tiro de besta está a nobre e grande vila de Santa Cruz, a melhor de toda a ilha, situada em uma terra chã ao longo do mar, em que tem bom porto, a sua baía de um tiro de besta de largo e calhau miúdo, onde varam os batéis. Tem esta vila como oitocentos fogos, e rica igreja, e uma ribeira de água por meio dela, ao redor da qual há muitas vinhas de malvasias e de vinhos melhores que os de Machico, e muitas canas de açúcar, e uvas ferrais, e das mais frutas de peras e peros, e amexeas (sic), para a terra em muita abundância.
Desta vila para o Ocidente um quarto de légua está uma grande ribeira, de muita água, chamada de Boaventura (pela razão já dita), em que está um engenho de açúcar, e há por ela acima muitos canaviais dele e também muitos vinhos.
Andando mais adiante desta ribeira quase uma légua, está uma povoação de trinta vizinhos do mesmo termo de Santa Cruz, que se chama Gaula, que tem muitas vinhas de malvasias e muitos outros vidonhos.
De Gaula um tiro de besta, indo para a cidade, está uma grande ribeira, muito funda, que se chama do Porto Novo, por o ter muito bom para carregar os vinhos, que há nela, de boas malvasias, que são as melhores da ilha, e de outros vidonhos, que em aquela ribeira se colhem cada ano mais de trezentas pipas de vinho; e tem casais por ela acima, e muita fruta e muita água boa.
Meia légua mais adiante está a fazenda de João Dornelas (sic), do Caniço, homem fidalgo, casado com Dona Mécia, irmã de Dom Luís de Moura, estribeiro-mor do Infante Dom Duarte e pai de Dom Cristovão de Moura, muito privado do grande Rei Filipe e casado com uma filha de Vasqueanes Corte-Real, com a qual lhe fez el-Rei mercê da capitania da ilha Terceira, por falecimento do capitão Manuel Corte-Real, de que não ficou herdeiro; a fazenda de João Dornelas é uma quintã com seu engenho de açúcar e vinhas, e foi casa muito abastada (89).
Desta casa para o Ocidente um quinto de légua, pegado com o caminho, está a fazenda das Moças, filhas de um João de Teives (sic) (que assim se chamaram estas nobres fêmeas, ainda que velhas morreram, por permanecerem sempre, sem casar, na primeira limpeza, com muita honra e virtude e santo exemplo de vida), que é um engenho de açúcar, e boas e chãs terras de canas, e tem dentro, apegado com umas grandes casarias, uma rica igreja (90).
Daqui, adiante, quase meia légua está uma aldeia de duzentos fogos com uma igreja da invocação do Espírito Santo, que se chama o Caniço, em uma ribeira que corre do Norte para o Sul, acompanhada de muitas vinhas de muitos vidonhos e de boas malvasias; ao mar deste lugar está a ponta da Oliveira, onde se prantou uma, por balisa da repartição das duas capitanias, que por esta ribeira se partem, ficando a de Machico ao Nascente e a do Funchal ao Ponente, e por ela dizem que vai a demarcação da borda do mar do Sul até à outra banda do Norte; porque deste Caniço até o longo do mar haverá um quarto de légua, onde está o porto onde se carrega tudo o que há nesta parte, e chama-se Caniço de Baixo, a respeito do outro, que Caniço de Cima é chamado.
Do Caniço a um tiro de besta está uma azenha, a par do caminho, que mói com pouca água, que traz para os moradores do mesmo Caniço. E mais adiante uma légua, uma igreja de Nossa Senhora das Neves, à vista do Funchal, sobre uma ponta que se chama o Garajau, uma légua antes de chegar à cidade, na qual, ao longo do mar, estão alguns dragoeiros, que a fazem mais formosa.
Primeiro que cheguem a esta igreja um tiro de besta, estão no caminho umas árvores altas, chamadas barbuzanos, em cuja sombra costumam descansar os caminhantes, onde se conta que, vindo, de noite, um clérigo de missa do Caniço para o Funchal, debaixo das árvores achou um companheiro que lhe falou e, começando a caminhar ambos, emparelhando com uma
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igreja que está à borda do caminho e tem uma cerca de muro derredor, cometeu o clérigo ao companheiro que fossem fazer oração, o qual lhe respondeu que já lá fora. Foi, contudo, o clérigo a fazer a sua e, saindo da cerca, achou o companheiro, que lhe pediu a loba e lha levou às costas, e, começando a caminhar por uma ladeira abaixo por antre umas vinhas até uma ribeira seca, que está no fim da ladeira, onde faz um remanso como terreiro, ali o cometeu que lutasse com ele, sendo alta noite. Vendo o clérigo tal cometimento em tal lugar e tais horas, respondeu que vinha cansado do caminho e que não fazia a caso lutar, tendo ruim suspeita da companhia, e tornaram a andar indo ainda ladeira abaixo até chegar à rocha do mar, que é muito alta, ao longo da qual está o caminho; chegados à rocha, o tornou a cometer que lutassem, e o clérigo lhe pediu a loba e se começou a benzer e arrenegar do diabo, e ali lhe desapareceu e se deitou pela rocha abaixo com grande ruído, vindo o clérigo ao Funchal, que é dali uma légua. Dizem alguns que, por ser grande lutador este clérigo, o queria levar o demónio pelo erro que tinha, porque este é seu costume, e que se deixou cair, lutando ambos à primeira queda e, quando veio à segunda, por o clérigo o achar muito rijo, vendo-se levar para a rocha, disse «Jesus me valha», e que a esta palavra fugira o demónio. Mas o que primeiro se disse se tem por mais verdadeiro.
Meia légua de Nossa Senhora das Neves está uma grande ribeira seca, que não corre senão no Inverno, que se chama a Ribeira do Gonçalo Aires, onde dizem que aparece uma fantasma em figura de um sapateiro, algumas vezes com formas às costas. Há por esta ribeira acima muitas vinhas. E um terço de légua adiante dela está uma igreja de Santiago, um tiro de besta de outra, do Corpo Santo, que está pegada com as primeiras casas da cidade do Funchal; chama-se ali o cabo do Calhau.