• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO DÉCIMO OITAVO

No documento livro2 (páginas 63-66)

CAPÍTULO DÉCIMO OITAVO

DA DESCRIÇÃO DA ILHA DA MADEIRA PELA COSTA DA BANDA DO NORTE, TORNANDO A COMEÇAR DA PONTA DE SÃO LOURENÇO E ACABAR NA PONTA DO

PARGO

Tornando à ponta de São Lourenço, que está da parte do Oriente, e começando andar dela para o Ocidente da ilha pela costa da banda do Norte (que, como tenho dito, toda tem bom e seguro surgidouro e bom abrigo para os navios, quando os ventos ventam da outra parte, por ser a terra muito alta), da mesma ponta de São Lourenço para o Ocidente perto de duas léguas está uma aldeia, que se chama o Porto da Cruz (pela razão que já tenho dito), que tem junto do mar um engenho que foi de Gaspar Dias; é grossa fazenda, com boas terras de canas e muitas águas. Haverá neste lugar trinta fogos espalhados, afora a gente da fazenda, e são os moradores todos criadores, porque os matos são em toda a ilha gerais a todos para criarem neles.

Do Porto da Cruz a Nossa Senhora do Faial (por ali o haver grande) haverá uma légua. Terá esta freiguesia como cem fogos; a igreja está antre duas ribeiras muito altas das rochas; tem muita fruta de espinho, de cidras e limões, peras e peros e maçãs, e castanha e noz. Sendo a igreja de bom grandor, dizem que toda se armou de um grandíssimo pau de cedro, que se achou perto dela; pelo seu dia, que vem a oito de Setembro, se ajuntam de romagem de toda a ilha passante de oito mil almas, onde se vê uma rica feira de mantimentos de muita carne de porco e vaca, e chibarro, a qual é uma extremada carne de gostosa naquela ilha, ainda que em outras muitas terras e ilhas seja a pior de todas. Ali se ajuntam muitos cabritos e frutas, e outras coisas de comer, para comprarem os romeiros, que muitas vezes se deixam estar dois, três e mais dias em Nossa Senhora, descansando do trabalho do caminho, porque vêm de dez e doze léguas por terra mui fragosa; e juntos fazem muitas festas de comédias, danças e músicas de muitos instrumentos de violas, guitarras, frautas (107), rabis e gaitas de fole; e pelas faldras das ribeiras, que têm grandes campos, no dia de Nossa Senhora e em seu oitavairo, se alojam (108) os romeiros em diversos magotes, fazendo grandes fogueiras antre aquelas serranias. Dizem que ali apareceu Nossa Senhora, onde tem a igreja.

Tem esta freiguesia dois engenhos de açúcar, um de António Fernandes das Covas, que está perto de Nossa Senhora, e outro de Luís Dória (sic). No fim das ribeiras (que ambas se vão ajuntar em uma), perto do mar, tem bom porto. Está nesta freiguesia uma serra de água, que foi um grande e proveitoso engenho, em que dois ou três homens chegam por engenho um pau de vinte palmos de comprido e dois e três de largo à serra, e, por arte, um só homem, que é o serrador, com um só pé (como faz o oleiro, quando faz a louça) leva o pau avante e a serra sempre vai cortando e, como chega ao cabo com o fio, com o mesmo pé dá para trás, fazendo tornar o pau todo, e torna a serra a tomar outro fio; de maneira que quem vir esta obra julgará por mui grande e necessária invenção a serra de água naquela ilha, onde não era possível serrarem-se tão grandes paus, como nela há, com serra de braços, nem tanta soma de tavoado, como se faz para caixas de açúcar, que se fazem muitas, e para outras do mais serviço, que vem ser cada ano muito grande soma. Tem esta freiguesia grandes montados de criações à (sic) muitos proveitosas.

De Nossa Senhora para o Ocidente a uma légua está uma freiguesia da invocação de Santa Ana, que terá até quarenta fogos. São terras de lavrança de muito pão e criações; tem muita castanha e noz, e muitas águas e frutas de toda sorte.

De Santa Ana a meia légua está a freiguesia de São Jorge, de cento e cinquenta fogos, a par do mar, com muito bom porto; tem muitas vinhas de bom vinho de carregação, e muitas terras de lavrança de pão e criações, e muita fruta de toda sorte, com muitas águas.

Capítulo Décimo Oitavo 53

Adiante de São Jorge uma légua e meia está a freiguesia da Ponta Delgada (assim chamada por ser ali um passo muito perigoso, que se passa por riba de dois paus, que se atravessam de uma rocha a outra, e em tanta altura fica o mar por baixo, que se perde a vista dos olhos, onde está um porto, em que desembarcam e embarcam com vaivém, a modo de guindaste), com uma igreja da invocação de Jesu, (sic) de até sessenta fogos e bom porto, e vinhas, e criações, e lavrança de pão e frutas de toda sorte, e muitas águas, onde tem duas serras de água.

Neste lugar reside António de Carvalhal, homem tão cavaleiro como esforçado por sua pessoa, nobre e magnífico por sua condição e grande virtude, com a qual, por sua magnificência, tem acquirido (sic) tanta fama e ganhado tanto nome com as vontades dos homens, que por isso lhe obedecem, e, se for necessário dar um brado, ajuntará quinhentos homens da banda do Norte a seu serviço para qualquer feito de guerra, como já lhe aconteceu, ou para qualquer outro feito; e não sem razão, porque sua casa é hospital e acolheita de todo pobre, hospedagem de caminhantes e refúgio, finalmente, de necessitados. Assim despende sua fazenda toda (que muita possui desta banda) nestas obras, que em sua casa se gastam cada ano trinta moios de trigo, afora outros muitos que empresta, e com ele socorre a quem tem necessidade, que todos recolhe de sua lavoura. É filho de Duarte Ribeiro e casado com Dona Ana Esmeralda, filha de Cristóvão Esmeraldo, provedor que foi da Fazenda de Sua Alteza nesta ilha da Madeira e na do Porto Santo (109). É tão forçoso, que anda pelas serras da ilha da Madeira, que são mui ásperas, a cavalo, sem ter conta com cilha porque as pernas lhe servem disso; é homem grande, seco, largo das espáduas e bem proporcionado em todos os membros, pelo que tem tanta força que, indo um dia por antre um mato a cavalo, passando por baixo de uma árvore, lançou as mãos a um ramo grosso e, cingindo o cavalo com as pernas pela barriga, o alevantou do chão mais de um palmo. E, estando mancebo em casa de seu pai, estava o pai em uma sua eira, ao redor da qual andavam umas porcas (110), às quais

arremetendo um grande e furioso cachaço, cometeu a feri-lo e, fugindo o velho ao redor de um penedo, o cachaço o ia seguindo; chegando neste tempo o filho, António do Carvalhal lhe lançou mão das orelhas e, não o podendo bem ter, disse ao pai, que cansado estava, lançasse mão do manchil que na cinta tinha e o matasse antes de lhe fugir, o que o pai logo fez (111).

Veio depois a ter tanta força que, apertando um homem pelo pulso, lhe fazia perder o alento; e por mostrar suas forças ao Bispo Dom Jorge de Lemos, não podendo um ferrador ferrar duas mulas bravas, as tomou ele ambas pelas orelhas e as fez estar quedas até que as ferraram. E, andando no paço, sendo mancebo e moço-fidalgo, em o moesteiro de Santo Augostinho, em Santarém, outros moços fidalgos junto do Entrudo se puseram todos contra ele às laranjadas, e ele (vendo-se perseguido deles, arremeteu a uma de duas pedras de atafona que viu estar ali perto e, metendo o braço pelo meio de uma delas e alevantando-a, se escudou com ela quase tão facilmente como com uma rodela. E, estendendo os dedos de uma mão sobre o pescoço de uma galinha viva e alevantando com a outra o dedo do meio, da pancada que dá com ele, deixando-o cair, mata a galinha. E, mandando um dia a mulher buscar meia dúzia de galinhas grandes, de boa casta, para criar, trazendo-lhas, lhas amostrou, e ele, tomando-as todas juntas em uma mão pelos pescoços, lhe sacudiu os corpos no chão, ficando-lhes os pescoços na mão, dizendo: «tomai aí vossas galinhas»; e muitas outras coisas faz de grandes forças. E da campãa (sic) de uma sepultura de dura pedra, onde estava esculpido um carvalho com suas landes, as quebrava com os dedos e dava aos moços fidalgos, seus companheiros, como fruta.

E é tão animoso e valente cavaleiro, que na era de mil e quinhentos e sessenta e nove, dia da Visitação de Santa Isabel, estando em sua casa em Machico, onde, então, era provedor da Misericórdia, jantando com mais de vinte hóspedes à sua mesa, antre os quais estava o reverendo padre pregador Frei Manuel Marques, da ordem de São Francisco, que foi comissairo neste bispado de Angra, porque o levava ali António do Carvalhal a pregar aquele dia, e dando-lhe rebate que vinham demandar o porto de Machico franceses com sete velas, de que era capitão o grande cossairo Jaques Soria, o qual havia sido sota-capitão do Pé de Pau, quando foi saquear a ilha da Palma no tempo que França tinha guerra com Carlos Quinto, imperador e Rei de Castela, António do Carvalhal se alevantou da mesa e acudiu logo ao porto, onde acudiam também todos, assim os da vila como os de fora, com tanto ânimo e esforço que mais não podia ser.

E podia-se ver quem era António do Carvalhal na confiança que todos tinham dele, que, com o ter ali presente consigo, estavam tão contentes e seguros como se tiveram muitos mil

Capítulo Décimo Oitavo 54

homens, e ele com todos estava determinado e oferecido a morrer, em tanto que rogou ao padre Frei Manuel Marques que visse a peleja de longe e, se o visse morrer, lhe pedia que fosse consolar sua mulher. Estando, assim, ele e os outros apostados a morrer por defender a desembarcação aos franceses, dali a pouco, chegando os imigos ao porto, puseram bandeira branca de paz e mandaram um batel a terra, dizendo que não vinham de guerra, e pediram que lhe dessem água a troco de homens que traziam cativos de um navio que tomaram, indo da mesma ilha para Portugal, antre os quais ia o mestre-escola e um Fuão Mendes e um pregador de S. Francisco, chamado Frei João de S. Pedro, natural do Funchal, com um companheiro Frei Hierónimo, os quais levou à Arochella (112), dando outra gente por água, e não a estes, que

não quis, então, dar por lhe dizerem no navio que eram gente de grande resgate. E não curaram de apertar muito com eles os de Machico, por estarem sem tiros de artilharia e haverem medo de os imigos lhe esbombardear as casas.

Uma légua além da Ponta Delgada está a freiguesia de S. Vicente, de duzentos e cinquenta fogos, com grandes terras de lavranças de pão, e criações e muitas frutas de castanha, noz e de outra sorte, muitas vinhas, e muitas águas, e duas serras de água.

De S. Vicente a três léguas está o Seixal, que é freiguesia de até vinte fogos, com uma igreja da invocação de São Braz. Tem muitas terras de grandes criações, e lavrança de pão, e vinho, e fruta de toda sorte.

Do Seixal a meia légua está a Madalena, que é freiguesia de trinta fogos, que tem muitas criações e lavoura de pão, e muitas águas. Está esta freiguesia, pela terra dentro, perto de meia légua na ponta de Tristão, que se chama assim por ele a descobrir primeiro, onde se partem as capitanias pela banda do Norte, porque por esta parte se estende mais a capitania de Machico que pela banda do Sul, onde começa na ponta da Oliveira, pela que ali mandou prantar o capitão João Gonçalves, como tenho dito, que está ao mar do lugar do Caniço ao Sueste, vindo dela a demarcação pelo meio da terra, que são grandes serranias do Nascente para o Ponente, pela banda do Norte, até chegar a esta ponta de Tristão, que está ao Noroeste; sendo estas duas pontas, a da Oliveira, da banda do Sul, e a de Tristão, da parte do Norte, as balisas e extremos da repartição destas duas capitanias do Funchal e Machico, ficando a ilha partida de Noroeste a Sueste, como estão estas pontas, e, tirando catorze léguas, da banda do Sul, que é o melhor de toda a ilha, e três da banda do Norte, da jurdição da capitania do Funchal, todo o mais da ilha fica da jurdição da capitania de Machico.

Desta ponta de Tristão, que está ao Noroeste, da parte do Norte, vira a costa para o Sul, fazendo a terra, ou a figura de pirâmide dela, sua basis, ou pé, e assento por espaço de três léguas, que, segundo alguns, há dela e desta freiguesia da Madalena, pela banda do Ocidente, até a ponta do Pargo, onde acabei a banda do Sul e acabo agora a descrição de toda a ilha pela costa dela, com que fica com a figura de pirâmide, que já disse, um lado da qual é da ponta de S. Lourenço, que está ao Oriente, até à ponta do Pargo, que está ao Ocidente, pela banda do Sul, e o outro lado é da mesma ponta de S. Lourenço, do Nascente, até à ponta de Tristão, que está ao Ocidente, pela batida do Norte; e a basis é desta ponta de Tristão até à ponta do Pargo, que outros dizem ser duas léguas, com que fica com figura de pirâmide, mas, por nesta basis não ir a terra cortando direita, senão com algum rodeio curva e no meio larga e na ponta aguda, fica toda esta ilha da Madeira parecendo mais folha de plátano que pirâmide. E, ainda que, como pirâmide se acha pintada em algumas cartas de marear, em outras tem figura de folha de álamo, porque, como esta árvore, está prantada e alevantada no meio das águas do grande mar Oceano Ocidental, em bom clima, e regada com muitas e frescas ribeiras e, abundantemente, dá seus frutos mui perfeitos a seu tempo.

No documento livro2 (páginas 63-66)