CAPÍTULO DÉCIMO QUARTO
DE COMO O CAPITÃO JOÃO GONÇALVES ZARGO TRAÇOU A VILA DO FUNCHAL, QUE SE FOI ENOBRECENDO COM O CRESCIMENTO DOS FRUTOS E MORADORES DE
TODA A ILHA E FORAIS E LIBERDADES QUE OS REIS LHE DERAM
Indo-se o capitão Tristão Vaz para Machico, o deixemos, por agora, nele ocupado em mandar cultivar e beneficiar a terra para dar fruto, e edificar na vila e em outros lugares casas e povoações para povoar a ilha, por fazer menção do que também fazia o capitão João Gonçalves Zargo na sua jurdição do Funchal para o mesmo efeito (76).
Nesta jurdição do Funchal estão duas vilas e dois lugares, ao presente acima nomeados, além de outras aldeias, lugares e fazendas, povoadas ao longo da costa, de que não faço, por agora, menção, por terem seu nome fundado no que depois as fazendas e frutas da terra lhe deram, pelos nobres e ricos homens que os lavraram e possuíram, como é a Madalena (77), coisa tão singular e nobre, pela ermida que os moradores ali fizeram desta Santa, onde se colhe muito proveito de açúcares, e o Paúl, e outros lugares e fazendas conhecidas. Tem finalmente esta jurdição do Funchal catorze léguas da banda do Sul, e é o melhor de toda a ilha, e três da banda do Norte, pouco mais ou menos, que estes felicíssimos capitães possuem há mais de cento e setenta anos, sem intermissão alguma de sucessores (78).
Chegado João Gonçalves ao Funchal começou a traçar a vila e dar as terras de sesmaria, como tinha por regimento do Infante Dom Henrique, senhor da dita ilha da Madeira, e, conforme ao dito regimento, deu as terras que não eram lavradas por cinco anos, dentro nos quais se obrigavam aproveitá-las e lavrá-las, sob pena que não cumprindo neste termo de lhas tirarem e dá-las a quem as aproveitasse.
Foi assim tudo tanto em crescimento em ambas as jurdições, com a boa diligência de seus capitães, que em breve tempo se povoou e enobreceu a ilha toda.
E estando o Infante Dom Henrique no Algarve, em Aljazur, mandou ao capitão João Gonçalves umas lembranças, em que lhe encomendava muito a justiça, principalmente, e a lavrança da terra, e que lhe mandasse mostra dos frutos dela, pela fama que corria de sua fertilidade, e que lhe encomendava que, para se gastar o trigo que semeavam, seria bem pô-lo por preço de oito rs. o alqueire, para os lavradores terem algum proveito (porque dantes valia menos); e usava nestas lembranças destas palavras antigas: «Enviarmeis senhos (79) pedaços de paus de toda a ilha, e senhos ramos dela, e escreveime como hão nome, e o fruto também como se chama; enviame senhos pedaços de pedras, e um saco de terra, e lembrevos o pão para a novidade segundo vos falei, se o querem vender a quatro rs., que me apraz de lhos dar por ele; e sede bem lembrado que se me pague a dízima de toda outra coisa, quanto houver; e que façam canaviais nas outras povoações; e mandai a João Afonso que correja outra mó, e se faça um moinho de água, segundo o de Tomar; seja-vos em lembramento de mandardes o pastel, que se carrega; e dizei a João Afonso que mande algum, se está corregido». E outras coisas mais miúdas, que estão no cartório da cidade do Funchal, pelo qual se verá a fertilidade daquela próspera ilha e o seu fundamento. E de todas estas coisas sobejas não há na terra mais que açúcar e vinho, porque o mais não o dá a terra em abundância, antes vem tudo de carreto.
O ano seguinte mandou o capitão João Gonçalves ver que coisa era a ilha que aparecia defronte daquela, ao Sueste, e distará da ilha da Madeira cinco léguas, e, pela notícia que lhe deram dela como era alta, pequena e sem água, e de pouco proveito por ter muitas rochas, não curou de a mandar povoar, por não ser de qualidade para isso; antes daí à (sic) certos anos lhe mandou lançar gado, grosso e miúdo, pavões e outras aves, e animais mais de
Capítulo Décimo Quarto 39
proveito, que multiplicaram na terra muito bem. E, por não se povoar esta ilha, deu-lhe nome a Deserta, da qual e de outras, que perto dela estão, direi adiante (80).
Povoada a vila do Funchal, a que o capitão deu o nome por se fundar em um vale formoso de singular arvoredo, cheio de funcho até o mar (como já tenho declarado), trabalhou (81) por manter todos em justiça, paz e quietação, e que vivessem (82) em serviço de Deus, para o que escreveu ao Infante lhe mandasse sacerdotes (além dos religiosos que trouxera) para o estado eclesiástico apascentar o povo em doctrina e ministério dos sacramentos da Santa Madre Igreja. E, como o Infante fosse governador e administrador do Mestrado de Cristo, de cuja Ordem são os freires da vila de Tomar, a requerimento do Infante, o Dom Prior desta Ordem, que Dom Frei Pero Vaz se chamava, mandou certos clérigos com um vigairo, beneficiados, para a vila do Funchal e a de Machico; os do Funchal serviram em Santa Maria do Calhau, onde um domingo diziam missa ao povo e outro domingo em Nossa Senhora da Concepção de Cima, porque estas duas igrejas eram as principais da vila. E por causa do capitão, que morava em Nossa Senhora de Cima, vinha o povo ouvir missa nesta igreja um domingo e outro não.
Depois, por discurso do tempo, que a terra foi mostrando seus frutos e dando fama deles no regno, e enobrecendo-se com moradores ricos, vendo o Bispo, que, então, era de Tânger, como esta ilha ia em crescimento e que não tinha bispo e prelado que a governasse, impetrou do Papa um breve, sem licença de el-Rei, para anexar esta ilha a Tânger, o que sabido pela Infanta Dona Breatiz (que, como tutora de seu filho, o Duque, governava a ilha), enviou uma provisão ao capitão e moradores do Funchal na era do Senhor de mil e quatro centos e setenta e dois, que ora está no Livro do Tombo da Câmara do dito Funchal, que tal Bispo não consentissem na ilha, nem o povo obedecesse a provisão sua, porquanto o estado eclesiástico pertencia à jurdição dos freires de Tomar, ao vigairo da qual Ordem e convento somente haviam de obedecer, por ser ilha do dito Mestrado e descoberta pelo Infante Dom Henrique, Mestre da Ordem e Cavalaria de Jesu Cristo. E, juntamente com esta provisão, veio outra do mesmo vigairo da vila de Tomar, notificando ao povo a provisão que o Bispo de Tânger tinha e como, indevidamente, queria usurpar o estado eclesiástico, que pertencia a sua Ordem, e que lhes notificava que a tal Bispo não obedecessem, e que se não agastassem, porque cedo, com o favor divino, esperava el-Rei, nosso Senhor, criar bispo da mesma Ordem na ilha. E o mesmo escreveu ao vigairo de Machico, que se chamava frei João Garcia e o primeiro que houve na mesma vila.
Crescendo e multiplicando o fruto da terra, assim iam crescendo as povoações e moradores com a fama de sua fertilidade, e os filhos do capitão João Gonçalves Zargo, fazendo-se homens, que foram servir a el-Rei em África, principalmente o morgado e o segundo filho, Rui Gonçalves da Câmara, que depois foi capitão desta ilha de São Miguel (como a seu tempo direi, quando dela tratar), em remuneração dos quais serviços el-Rei Dom Afonso, quinto do nome, no ano do Senhor de mil e quatro centos e sessenta e sete, confirmou sua (83) doação, que o Infante Dom Fernando tinha feita ao dito Rui Gonçalves, das saboarias pretas de toda a ilha da Madeira.
E os descobridores, pessoas nobres que em companhia do dito capitão João Gonçalves vieram, tiveram filhos, e muitas terras e propriedades, que grangearam, e geração mui nobre, como foi a de Gonçalo Aires, de quem procede a casta, que se diz na ilha da Madeira, a Grande (84), e a de João Lourenço, e Rui Pais, e Álvaro Afonso, que destes procedeu, então, a
mais antiga e nobre casta da mesma ilha, excepto a dos capitães e seus filhos, com os quais se liaram depois alguns desta geração, assim pelas propriedades que estes aquiriram (sic), como por sua nobreza.
El-Rei Dom Afonso, quinto do nome, deu a esta vila do Funchal muitos e bons forais e liberdades, e que os moradores, nem mercadores que a ela viessem, não fossem obrigados a portagens e outras fintas que havia no Regno, e outros privilégios, como consta de seus alvarás, concedidos à mesma vila no ano de mil e quatrocentos e setenta e dois, que estão no Tombo da Câmara do Funchal, que sempre foi vila até o tempo de el-Rei Dom Manuel, que a fez cidade e a acrescentou, e enobreceu com obras que nela mandou fazer, e lhe confirmou liberdades e deu outras, como adiante, em seu lugar, se dirá, com as quais liberdades e com os fertilíssimos frutos da terra veio a ilha ser tão rica e populosa, como agora direi (85).