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CAPÍTULO DÉCIMO SÉTIMO

No documento livro2 (páginas 59-63)

CAPÍTULO DÉCIMO SÉTIMO

EM QUE SE VAI CONTINUANDO A DESCRIÇÃO DA ILHA DA MADEIRA PELA BANDA DA COSTA DO SUL, DESDE A PRAIA FORMOSA, UMA LÉGUA ALÉM DA CIDADE DO FUNCHAL, ATÉ À PONTA DO PARGO, QUE É O FIM DA ILHA DA PARTE OCIDENTAL

Indo da Praia Formosa para o Ocidente um quarto de légua, está uma grande ribeira, que se chama dos Acorridos, pela razão já dita, que vem de montes muito altos e bravas serranias e é muito larga e chã, que, sem falta, terá de largo um tiro de arcabuz, e toda esta largura ocupa tanto a água quando vem cheia, que parece um bom rio. Tem ao longo do mar uma praia de areia e, perto dele, dois engenhos de canas de açúcar, um de Manuel da My (sic) e outro de António Mendes, muito nobre fidalgo, ambos portugueses; por esta ribeira acima há muitas vinhas de malvasias e bons vidonhos, e canas de açúcar.

É tão estranha ribeira, de grande e de muita água quando chove, que toda a lenha que se gasta nos dois engenhos que estão nela e em outros dois, que tem Câmara de Lobos, que está perto, trazem por ela abaixo, que podem ser oitenta mil cárregas de azémala (sic) cada ano, antes mais que menos. E tem esta ordem para trazer esta lenha: tendo-a cortada nos montes, a põem em lanços perto das rochas da ribeira, e cada senhorio da lenha, que a mandou cortar, tem posto sua marca em cada rolo, que, pela maior parte, é toda lenha grossa, pondo uma mossa, outros duas, outros três ou quatro, e tanto que chove se ajuntam como cem homens das fazendas, indo-se aos montes e serranias, onde têm suas rumas de lenha posta, e lançam- na à ribeira pelas rochas abaixo, que são muito altas; a água, como é muita, traz aquela multidão de lenha e muitos daqueles homens trazem uns ganchos de ferro metidos em umas hastes de pau compridas, com os quais desembarcam e desembaraçam a lenha, que vem toda pela ribeira abaixo, e, se (como acontece muitas vezes) acerta de cair algum deles na ribeira, com aqueles ganchos apegam dele por onde se acerta, ainda que o firam, com que, ou morto ou vivo, o tiram fora da água, e acontece algumas vezes morrerem alguns homens neste grande trabalho. Vindo com esta lenha pela ribeira abaixo com grande arruído e pressa, e comidas e bebidas, que para este efeito ajuntam e o trabalho requer, quando chegam junto dos engenhos, onde a ribeira espraia e faz maior largura, espalha-se a água, por ser a ribeira muito chã, e, ficando quase em seco, dali a tiram com os mesmos ganchos, e cada um dos senhorios, por sua marca, aparta a sua, pondo-a em rumas muito grandes para o tempo da açafra do açúcar. Mas acontece algumas vezes, chovendo em demasia na serra, que enche a ribeira muito e leva muita cópia desta lenha ao mar, em que se perde grande parte do custo que têm feito.

Perto da fonte, onde nasce a água desta ribeira dos Acorridos, se tirou a levada dela para moer o engenho de Luís de Noronha, e dizem que do lugar donde a começaram de tirar até onde vai ao engenho e regar os canaviais, há bem quatro léguas, por se tirar de tão grande fundura da ribeira em voltas, que, para chegar arriba, à superfície da terra, para começar a caminhar, atravessando lombas, fazendo grandes rodeios per cima, pela serra, por onde vai esta levada, tem de alto mais de seiscentas braças, da qual altura, que é muito íngreme, se tira a água em cales (102) de pau, em voltas, até se pôr na terra feita; e sem falta custou chegar pô-

la em tal lugar passante de vinte mil cruzados, afora o muito mais que fez de custo levada dali quatro léguas, além de muitas mortes de homens, que trabalhavam nela em cestos amarrados com cordas, dependurados pela rocha, como quem apanha urzela, porque é tão alcantilada e íngreme a rocha em muitas partes, que não se faziam, nem se podiam fazer de outra maneira estâncias para assentar as cales sem passar por este perigo. Tem duzentos e oitenta lanços delas, por onde vai esta água, que, postos enfiados um diante do outro, terão um quarto de légua de comprido. São de tavoado de madeira de til, que, pela maior parte, tem cada távoa vinte palmos de comprido e dois e meio de largo; e, depois de assentadas estas cales na rocha, fazem o caminho por dentro delas os levadeiros, que continuamente têm cuidado de as

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remendar e consertar, alimpando-as também da sujidade e pedras que acontece cair nelas, e fazer outras coisas necessárias à levada, pelo que têm grossos soldos, por terem ofício de tão grande trabalho e tanto perigo.

Nesta rocha está uma furna muito grande, que serve de casa para os levadeiros e para guardar nela munições necessárias de enxadas, alviões, barras, picões e marrões e outras ferramentas; e nela se metem cada ano dez, doze pipas de vinho para os que trabalham na levada e outras pessoas que a vão ajudar a reformar, quando quebram alguns lanços de cales. E é coisa monstruosa a quem vê isto com seus olhos a estranha e aventureira invenção, que se teve para se tirar dali esta água.

Tem o senhor desta levada alvará de el-Rei para que os seus levadeiros e homens, que trabalham nela, possam tomar para comer cabras e porcos, que há muitos naquelas serras, ainda que seus não sejam, sem por isso serem crimemente acusados, mas que os donos dos tais gados serão pagos do seu, sem crime da justiça.

Da mesma ribeira, mais abaixo para o Sul, tirou António Correia outra levada para regar as terras da Torrinha, que estão sobre Câmara de Lobos, também de muito custo.

Indo da ribeira dos Acorridos para o Ocidente um quarto de légua, está uma aldeia, que chamam Câmara de Lobos, perto do mar, que tem uma calheta pequena e uma furna, onde dormiram, ou dormem ainda, lobos, de que tomou nome o lugar e os capitães da ilha, os Câmaras, pelos achar nela o primeiro capitão, João Gonçalves Zargo, quando ali desembarcou a primeira vez, como já tenho contado. Tem esta aldeia como duzentos fogos e uma só rua principal e muito comprida, e no cabo dela a igreja, muito boa e bem consertada. Tem mais dois engenhos de açúcar, um, que foi de António Correia, e outro de Duarte Mendes, e muitas canas e vinhas de boas malvasias, e muitas frutas de toda sorte, e muita água.

Dois tiros de besta de Câmara de Lobos para o Norte, pela terra dentro, está um moesteiro da invocação de São Bernardino, de frades franciscos, em que estão continuamente sete ou oito frades, bons religiosos, muito abastado de toda a fruta e vinhos. Acima dele estão os pomares do Estreito, que têm muita castanha e noz, e peros de toda sorte, muito doces, e vinhas e criações, e uma freiguesia, que se chama o Estreito, de até trinta fogos, cuja igreja é de Nossa Senhora do Rosairo.

De Câmara de Lobos para o Ocidente ladeira acima está uma lombada (que assim se chamam as lombas de terra naquela ilha), que parte com a rocha do mar e é a mais alta de toda a terra, chamada Cagagirão e, por outro nome, a Caldeira (por uma cova, que tem ali a terra, que é agora dos herdeiros de António Correia, homens mui principais e generosos), que dá muitas e boas canas de açúcar. E parece que daqui tomaram o nome os Caldeiras da ilha, se o não trouxeram do Regno, que nela há muitos, e gente muito honrada. De maneira que de Câmara de Lobos a uma légua está a quintã de Luís de Noronha, senhor da levada da ribeira dos Acorridos, que já disse, em que tem um engenho e grandes casarias de seus aposentos, e sua ermida, perto da fazenda, com seu capelão, para que ouçam missa os que trabalham nela, para que cumpram com o precepto da Igreja os domingos e festas, e o mesmo se há-de entender de todas ou as mais das fazendas da ilha, que estão fora da cidade e vilas, ou aldeias, porque todas têm suas igrejas para este efeito.

Tem esta quintã boas terras de canas e de trigo e centeio, mas vinhas poucas, por ser a terra alta, ainda que ao longo do mar tem o mesmo Luís de Noronha uma fajã de grande pomar e vinhas de muito preço, e passatempo, que dá cada ano quarenta, cinquenta pipas de malvosias. E está a ribeira dos Melões, que parece que os há naquela parte muitos e, sobretudo, estremados, que dá também muitas canas e, em parte, algumas vinhas.

Indo da quintã do Noronha para o mesmo Ocidente meia légua, está um lugar de cem fogos espalhados, a que chamam o Campanairo; tem a igreja junto do caminho, da invocação do Espírito Santo. São terras de criações e lavoura de trigo e centeio, por ser gente montanhesa, dados mais a criar gado que a cultivar vinhas, nem outras fruteiras, mas, contudo, isto se há-de entender que neste e em todos os lugares da ilha houve sempre, e há hoje em dia, gente honrada e fidalga e de altos pensamentos.

Ao Ocidente, uma légua do Campanairo, está a Ribeira Brava que por extremo tem este nome; é uma aldeia que terá como trezentos fogos, com uma igreja de São Bento e bom porto de calhau miúdo, que, pela chã da ribeira acima, tem as casas, e muitas canas de açúcar, e dois engenhos, e pomares muito ricos de muitos peros e peras, nozes e muita castanha, com

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que é a mais fresca aldeia que há na ilha, pelo que, e pelo merecer, por ter bom porto e ser muito viçosa, já muitas vezes tentaram os moradores de a fazerem vila. Tem também muitas vinhas, ainda que o vinho não é tão bom como é o do Funchal. A ribeira é tão furiosa, quando enche, que algumas vezes leva muitas casas e faz muito dano, por vir de grandes montes e altas serras, e por ser desta maneira lhe vieram a chamar Brava.

Neste lugar nasceram os Coelhos, cónegos da Sé do Funchal, estremados homens de ricas vozes; um deles, chamado Gaspar Coelho, foi mestre da capela da Sé muitos anos sendo cónego, e Francisco Coelho, seu irmão mais moço, sendo cónego, foi também mestre da capela de el-Rei na corte.

Da Ribeira Brava meia légua está a ribeira da Tabua, com uma freiguesia de quase trinta fogos; teve já dois engenhos e tem muitas vinhas e canas e frutas, mas o vinho é semelhante ao da Ribeira Brava, sua vizinha. Desta ribeira da Tabua são os Medeiros, gente nobre e honrada.

Da Tabua pouco mais de meia légua está a Lombada de João Esmeraldo, de nação genoês (103), que chega do mar à serra, de muitas canas de açúcar e tão grossa fazenda, que já se aconteceu fazer João Esmeraldo vinte mil arrobas de sua lavra cada ano, e tinha como oitenta almas suas cativas antre mouros, mulatos e mulatas, negros, negras e canários. Foi esta a maior casa da ilha e tem grandes casarias de aposento, e engenho, e casas de purgar, e igrejas. E depois do falecimento de João Esmeraldo, ficou tudo a seu filho Cristóvão Esmeraldo, que o mais do tempo andava na cidade do Funchal sobre uma mula muito formosa, com oito homens detrás de si, quatro de capa e quatro mancebos em corpo, filhos de homens honrados, muito bem tratados, e trazia grande contenda com o Capitão do Funchal sobre quem seria provedor da Alfândega de el-Rei, que é uma rica coisa de renda de Sua Alteza e ricas casarias. Casou João Esmeraldo na ilha com Ágada de Abreu, filha de João Fernandes, senhor da Lombada do Arco.

Da Lombada de João Esmeraldo um quarto de légua está a vila da Ponta do Sol, que se chama assim por ter uma ponta ao Ocidente da vila, que tem o parecer que já disse, aonde dá também o Sol primeiro que na vila, quando nasce. Tem esta vila como quinhentos fogos e boa igreja; é povoada de gente nobre, por ser das mais antigas da ilha, mas os vinhos não são tão bons como são os do Funchal (104).

Acima da Ponta do Sol para o Norte da vila está um lugar, que se chama os Calcanhos, que tem um engenho, e muitas frutas, e ricas águas, e vinhas, e terra de lavoura de trigo e centeio, onde há uma honrada geração de homens nobres, que se chamam os Escovares.

Meia légua da vila da Ponta do Sol, ao longo do mar, está a freiguesia da Madalena, de até trinta fogos; tem um engenho, que foi de um Manuel Dias, e boa fazenda de boas terras de canas e muita água e fresca. Há nesta freiguesia uma ermida de Nossa Senhora dos Anjos que, tirando ser pequena, é uma rica casa com um retábulo pequeno e fresco e bem ornado, junto da qual está uma fresca fonte, debaixo de uns seixos, antre uns canaviais de açúcar de mui formosas canas.

Da Madalena um quarto de légua está a Lombada que foi de Gonçalo Fernandes, marido de Dona Joana de Sá (105), camareira-mor da Rainha. É muito grossa fazenda; tem engenho de

açúcar e muitas terras de canas, e grandes aposentos de casas e igreja com seu capelão. Um quarto de légua desta Lombada de Gonçalo Fernandes está outra, que se chama o Arco, ou Lombada do Arco, que foi de João Fernandes, irmão de Gonçalo Fernandes, fazenda também muito grossa, que tem engenho e muitas terras de canas, e grandes aposentos de casas e igreja e capelão. E adiante direi o que em estas duas Lombas aconteceu a um António Gonçalves da Câmara, filho de Gonçalo Fernandes e de sua mulher, a camareira-mor da Rainha.

Da Lombada do Arco, indo para o Ocidente até à vila da Calheta, de que foi conde o ilustre Capitão Simão Gonçalves da Câmara, haverá uma légua. Está esta vila por uma ribeira acima, que tem as rochas tão altas, que acontece às vezes caírem pedras da rocha e derrubar as casas dela. Terá quatrocentos fogos e a igreja, da invocação do Espírito Santo, e o porto, vindo da vila para o Nascente um quarto de légua, que é uma estrita (sic) calheta, onde varam os barcos. Acima da vila, pela terra dentro um quarto de légua, está o engenho dos Cabrais e, perto dele, está outro do doutor da Calheta, físico, chamado mestre Gabriel (106).

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E logo perto de uma légua da Calheta está a fazenda de João Rodrigues Castelhano, que se chamou assim por falar castelhano, sendo ele genoês de nação, que é grossa fazenda de canas com seu engenho e capelão; este João Rodrigues casou duas filhas no Funchal muito ricas, e são agora as melhores fazendas da ilha. Teve muitos escravos, cinco dos quais lhe mataram um feitor, mas ele os entregou à justiça e foram enforcados na vila da Calheta.

Da fazenda deste João Rodrigues Castelhano obra de meia légua está outro engenho, de Diogo de França, que teve doze filhos, nobres e ricos, boa fazenda de canas e vinhas, e águas, e frutas.

Daqui a meia légua está uma freiguesia, que se chama o Jardim, de quarenta fogos, com uma igreja da invocação de Nossa Senhora da Graça; também tem engenho, terras de pão e vinhas, e, abaixo do Jardim para o mar, está uma grande fajã, que se chama o Paúl, com um engenho, que é de Pero do Couto, homem muito rico e possante, e boa fazenda de açúcar, mas tem perigoso caminho por terra, por ser a rocha muito alta para descer abaixo.

Do Jardim para o Ocidente até chegar à Ponta do Pargo, que é o fim da ilha da banda do Sul e também é freiguesia de duzentos fogos, haverá duas léguas; a igreja é da invocação de São Pedro. São terras lavradias de trigo e centeio e criações de gado e porcos; tem muitas frutas e águas. E por aqui acabo de dar conta da parte do Sul desta ilha o melhor que pude saber na verdade.

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