CAPÍTULO DÉCIMO
DOS ILUSTRES CAPITÃES QUE HOUVE NA ILHA DO PORTO SANTO, DESDE O PRINCÍPIO DE SUA POVOAÇÃO ATÉ À ERA DE MIL E QUINHENTOS E NOVENTA (55)
Contente Bartolomeu Palestrelo, primeiro capitão do Porto Santo, com a ilha que lhe coube em sorte, povoou a vila de gente, e a ilha mandou lavrar e cultivar de sementes, com que tudo estava satisfeito, como já disse. Era fidalgo da casa do Infante Dom Henrique e foi casado com Breatis Furtada de Mendoça, de que não houve filho barão, senão três filhas, Catarina Furtada, que foi mulher de Mem Rodrigues de Vasconcelos, do Caniço, e Iseu Palestrela, que foi casada com Pero Corrêa, senhor da ilha Graciosa, e outra, que se chamou Breatis Furtada.
Andando assim o tempo (que tudo muda), ficou viúvo este capitão Bartolomeu Palestrelo desta primeira mulher, e casou segunda vez com Isabel Moniz, irmã de Garcia Moniz e de Cristovão Moniz, frade carmelita, que foi bispo de anel (56). Desta segunda mulher houve um só filho barão que se chamou, como seu pai, Bartolomeu Palestrelo, que sucedia na casa. Sendo este bem pequeno e de pouca idade, faleceu seu pai e, como sua mãe se enfadasse de morar no Porto Santo, houve um alvará de el-Rei, com que, sendo seu filho menino, vendeu a capitania a Pero Corrêa, capitão da Graciosa, que lhe caía em lugar de genro, por ser casado com Iseu Palestrela, filha de seu marido, e vendeu-lha assim como o marido a possuía por preço de trezentos mil réis em dinheiro contado e trinta mil de juro (57).
Governou Pero Corrêa alguns anos a ilha, até que, sendo Bartolomeu Palestrelo de idade que foi ao Regno e daí a África a servir el-Rei, e vindo uma vez de Larache, arribado à ilha da Madeira, pousou no lugar do Caniço com seu cunhado Mem Rodrigues de Vasconcelos, por cujo conselho, dando-lhe também para isso ajuda e todo o necessário, se pôs em preito com Pero Corrêa, que comprado tinha a ilha, e por demanda (visto como era menor, e el-Rei, em prejuízo seu, sem sua outorga dera licença para se vender a capitania) foi havida e julgada a venda por nula e de nenhum vigor, e que se descontasse pelas rendas o que se dera por ela, donde ficou o dito Bartolomeu Palestrelo investido e metido de posse da dita capitania do Porto Santo, que ficara de seu pai, a quem el-Rei a concedera de juro para seus filhos e descendentes por linha direita masculina, e nela foi este Bartolomeu Palestrelo confirmado por el-Rei (58).
Bartolomeu Palestrelo, segundo do nome e segundo capitão do Porto Santo, foi casado com Guiomar Teixeira, filha de Tristão Vaz, primeiro capitão de Machico; houve dela somente um filho, que se chamou Bartolomeu Palestrelo, como o pai, sem haver mais filhos de ambos, pelo que a ilha veio a ele per direita sucessão.
Bartolomeu Palestrelo, terceiro do nome e terceiro capitão do Porto Santo, foi casado com Aldonça Delgada, filha de Garcia Rodrigues da Câmara; dela houve um filho, que chamavam Garcia Palestrelo, que herdava a casa.
Este terceiro capitão, porque era primo com-irmão do capitão de Machico, tinha muita continuação em sua casa e, pelo conseguinte, muita conversação com Dona Solanda, irmã de Tristão Teixeira, das Damas, com a qual (dizem) que determinou de casar e matar sua própria mulher, que bem mal lho merecia. Vindo ao Porto Santo, tomando mui leve ocasião, matou sua mulher Aldonça Delgada e foi-se casar com Dona Solanda, sua prima, e, o peor que é, impetrou rescrito para poder casar com ela; porém, sempre andou homiziado, porque o capitão do Funchal trabalhou polo prender e o foi buscar ao Porto Santo, onde se escondeu. Houve, enfim, de vir preso por sua vontade a Machico, donde por seus modos alcançou perdão das partes e se foi livrar ao Regno.
Teve desta segunda mulher os filhos seguintes: Emanuel Palestrelo, que nunca casou e vive hoje pobre, ainda que rico de virtudes; houve mais Hierónimo Palestrelo que foi casado
Capítulo Décimo 29
com Dona Hervira, irmã de Cristovão Martins de Grinão, por alcunha o Perú, e houve Dona Francisca Palestrela, que foi casada com João Rodrigues Calaça no Porto Santo. Estes filhos, que houve da segunda mulher, por sentença no seu livramento, foram julgados por bastardos em pena da morte da sua primeira mulher.
O morgado Garcia Palestrelo, porque herdava a casa, foi cometido para casar com uma filha de Diogo Taveira, desembargador e corregedor na jurdição do Funchal, com a qual casou, e dela houve os filhos seguintes: Diogo Soares, que herdou a casa, Ambrósio Palestrelo, que foi frade carmelita, e duas filhas, que foram freiras no mosteiro da Anunciada em Lisboa.
Este Garcia Palestrelo, em vida de seu pai (como dizem), porque em tudo se parecesse com ele, matou sua mulher também muito mal, pelo que não veio a ser capitão, e, como a mulher era filha de desembargador, foi acusado de maneira que morreu degolado por sentença. Depois de sua morte, a poucos dias, faleceu também o capitão seu pai, Bartolomeu Palestrelo, pelo que teve maneira o desembargador Diogo Taveira com que meteu de posse da capitania seu neto Diogo Soares, havendo sobre isso grandes demandas com os filhos de Dona Solanda, que, por alegar o desembergador que eram bastardos, foram sobre isso a Roma e lá foram julgados por legítimos, porém que a causa matrimonial se determinasse no foro contencioso, o que não teve effecto, porque neste meio tempo faleceu Hierónimo Palestrelo e Emanuel Palestrelo ficou carecido da vista e de todo cego, e a causa ficou sem se determinar, e a capitania com Diogo Soares, que estava já de posse dela, a qual governou muitos anos (59).
Bartolomeu Palestrelo, terceiro do nome e terceiro dos capitães, faleceu no Algarve em Aljazur, tendo de sua idade setenta anos, dos quais governou vinte e três. Por sua morte sucedeu na capitania Diogo Soares, primeiro do nome e quarto capitão desta ilha do Porto Santo. Foi casado com Dona Joana de Crasto (60), mulher mui principal e parentada na ilha do Porto Santo; houve dela os filhos seguintes: Diogo Palestrelo, que herdou a casa, e Emanuel Soares, que foi casado com Dona Maria Loba. e André Soares, e Dona Joana de Crasto, que casou no Caniço.
Diogo Palestrelo, o segundo do nome e quinto capitão do Porto Santo, vive hoje em dia, bom cavaleiro, brando e de boas artes; é casado na vila da Calheta com Dona Maria, filha de Gaspar Homem, fidalgo, morador na mesma vila, onde reside o mais do tempo, porque sua mulher não quere viver no Porto Santo. Porém, todos os anos, no verão, vai este capitão à dita sua ilha, por ser tempo de cossairos franceses, que muitas vezes a saqueiam, dos quais a ele defende mui valorosamente; e como aparecem franceses (de que naquela paragem andam muitos), logo se acha na praia, que tem quase três léguas de areal, donde em covas, que manda fazer, com arcabuzes, defende a desembarcação aos cossairos. E nunca se achou que, estando este capitão na ilha, fosse tomada de franceses, havendo sido saqueada já três vezes em sua ausência (61).