CAPÍTULO DÉCIMO SEGUNDO
COMO CHEGARAM OS DOIS CAPITÃES JOÃO GONÇALVES ZARGO E TRISTÃO VAZ À ILHA DA MADEIRA, E DE ALGUMAS COISAS QUE FIZERAM E CASAS DE DEVAÇÃO, QUE
NELA FUNDARAM (66)
Deixando os dois capitães, João Gonçalves Zargo e Tristão (a quem muitos chamavam Tristão Vaz, mas nas doações dos Infantes e nas provisões, que el-Rei lhe mandava, não o nomeava mais que por Tristão da Ilha, como em seu lugar se dirá) a Bartolomeu Palestrelo na ilha do Porto Santo, beneficiando a terra e governando sua capitania, se partiram para a ilha da Madeira e, chegando a ela, o primeiro porto que tomaram foi o dos Ingreses, a que se pôs nome Machico, pelo Machim, ingrês, que na terra estava sepultado, como já tenho dito.
Saindo em terra, doendo-se deste Machim, primeiro descobridor dela, a primeira coisa, que se fez, foi traçar uma igreja da invocação de Cristo, como o ingrês pedia nas letras que ali deixara escritas, e, mandando cortar a árvore que estava sobre a sepultura, foi traçada a igreja, de maneira que sobre as mesmas sepulturas ficou a capela. E porque neste lugar a primeira missa, que se disse, foi da Visitação de Santa Isabel, ficou esta Casa da Misericórdia, onde hoje em dia fazem a festa por tal dia o provedor e irmãos desta confraria em Machico. E foi esta a primeira igreja que se fez naquela ilha da Madeira, e chamou-se de Cristo, porque a ilha era do Mestrado de Cristo (67).
Esta vila de Machico, cabeça e assento deste capitão primeiro, Tristão, (ali então fundada) ainda que seja pequena e de poucos vizinhos, é mui bem assentada e alegre, de muitas hortas e pomares, situada no meio de uma ribeira tão fresca como soberba, por ser mui espaçosa, amena e caudal, e não foi menos deleitosa aos olhos que de proveito, pelos canaviais de açúcar, que se nela depois prantaram, de uma parte e de outra regados com a mesma ribeira, que mui grande, larga e formosa parece, assim da terra como do mar, onde vai acabar e se mete na água salgada por antre a vila, que ali se fundou, em um recebimento de praia, tão soberba à vista de quem a ela chega, resguardada de todos os ventos e tormentas do Sul, que, com razão, se pode afirmar ser uma das mais formosas e alegres obras da Natureza, pela frescura da ribeira e remanso que faz o mar, quase como rio, pela terra entrando, onde podem seguramente ancorar grossas e poderosas naus. E foi esta sorte, que coube a Tristão, tão felice naquele tempo, como agora enganosa pola fertilidade que o resto da ilha de si mostrou por discurso do tempo na jurdição do Funchal, que coube ao Zargo, como, adiante, veremos.
Deste lugar de Machico se passou o capitão João Gonçalves para o Funchal, onde, abrigando os navios aos ilhéus que no cabo deste lugar estão, por haver ali uma formosa enseada, determinou fazer sua morada em terra, de madeira, a qual logo fez, apegada com o mar, em um lugar alto, onde depois a capitoa Constança Rodrigues fundou uma igreja de Santa Catarina (68).
Feita pousada neste lugar, em que agasalhou sua mulher e filhos, entendeu o capitão Zargo em fazer uma igreja que fosse princípio e fundamento da vila do Funchal, e, por estar segura e bem assentada, a mandou ordenar à beira do mar, no cabo do vale do Funchal, ao longo da primeira ribeira deste prado, onde fazia o mar contino (sic), a corrente da ribeira, uma abra de muitos calhaus e seixos miúdos, lavados da continuação das ondas dele, que nela batiam, e por esta razão houve nome esta primeira igreja do Funchal, vulgarmente, Nossa Senhora do Calhau, sendo seu orago da Natividade da Virgem, cuja festa celebra a Igreja em os oito dias de Setembro (69).
Daqui acordou o capitão, vendo que não se podia com trabalho dos homens desfazer tanto arvoredo que estava nesta ilha des (sic) o começo do mundo, ou da feitura dela, e para o consumir para se lavrarem as terras e aproveitar-se delas era necessário pôr-lhe o fogo. E,
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como quer que com o muito arvoredo, pela muita antiguidade, estava dele derribado pelo chão e outro seco em pé, apegou o fogo de maneira neste vale do Funchal, que era tão bravo, que, quando ventava de sobre a terra, não se podia sofrer a chama e quentura dele, e muitas vezes se acolhia a gente aos ilhéus e aos navios até o tempo se mudar; e por ser o vale mui espesso, assim de muito funcho como de arvoredo, ateou-se de maneira o fogo que andou sete anos apegado pelas árvores e troncos e raízes debaixo do chão, que se não podia apagar e fez grande destruição na madeira, assim no Funchal como em o mais da ilha, ao longo do mar, na costa da banda do Sul, onde se determinou roçar e aproveitar (70).
Tinha el-Rei e o Infante avisos, cada mês, da fertilidade e frescura da ilha, e das muitas ribeiras e fontes de água, de que a terra era abundante, pelo que, cada verão, mandava navios com animais domésticos, ferro, aço e gado, que tudo frutificava grandemente, em tanto que de cada alqueire de trigo, que semeavam, colhiam pelo menos sessenta alqueires. E as rezes e o gado, ainda que mamavam, já pariam; e de tudo se dava em abundância, e não semeavam coisa que não multiplicasse em tresdobro com a muita fertilidade e grossura e viço da terra.
O Infante Dom Henrique, como era mestre e governador do Mestrado de Cristo, em cuja Ordem cabia esta ilha da Madeira, como ministrador dela, mandou a Sicília buscar canas de açúcar para se prantarem na ilha, pela fama que tinha das muitas ribeiras e águas que nela havia; com elas mandou vir mestres para temperamento do açúcar, se as canas nela se dessem; a qual pranta multiplicou de maneira na terra que é o açúcar dela o melhor que agora se sabe no Mundo, que, com o benefício que se lhe faz, tem enriquecido muitos mercadores, forasteiros e boa parte dos moradores da terra. Na qual havia tanta quantidade de madeira, tão formosa e rija, que levavam para muitas partes cópia de távoas traves, mastos (sic), que tudo se serra com engenho de água, dos quais ainda agora há muitos, da banda do Norte da mesma ilha.
E neste tempo, pela muita madeira que dela levavam para o Reino, começaram com ela a fazer navios de gávea e castelo d’avante, porque dantes não os havia no Regno, nem tinham para onde navegar, nem havia mais navios que caravelas do Algarve e barinéis em Lisboa e no Porto.
Depois que o fogo desapegou do arvoredo e da costa do mar, determinou o capitão fazer sua morada (como fez) em um alto, que está sobre o Funchal, e, logo defronte de suas pousadas, fundou uma igreja da invocação de Nossa Senhora da Concepção para seu jazigo (olhando, como prudentíssimo, para o fim logo no começo), a qual vulgarmente lhe chamam Nossa Senhora de Cima, por estar fundada em cima da vila, em um teso ao pé de um pico, onde depois seu filho, João Gonçalves, de raiz fez um convento de freiras de Santa Clara, da ordem de São Francisco da observância, tão magnífico na fábrica como ilustre nas muitas e virtuosas madres, que nele hoje em dia fazem vida de santas religiosas, porque, além de ser um dos grandes e famosos moesteiros (sic) do Regno de Portugal, é tão observante e experimentado na virtude, que deste convento levam algumas madres para reformação de outros virtuosos conventos (71).
A capitoa Constança Rodrigues, por ser mulher santa e muito devota da bem-aventurada Santa Caterina, ali, onde primeiro fez o capitão morada, quando chegou ao Funchal, mandou fazer uma igreja desta santa, e a par dela fez muitas casas para gasalhado de mulheres de boa vida, pobres, merceeiras, a quem deixou esmola para sempre terem cuidado de limparem e servirem aquela casa, como ainda agora se costuma. E, porque vieram frades com o capitão, da ordem de São Francisco, e os que achou no Porto Santo, mandou-lhe fazer um gasalhado no Funchal, onde depois, por tempo, se fez uma igreja de São João Baptista, pela ribeira, acima de Santa Caterina, onde estes frades se agasalharam em umas casas que, apegado com a igreja, fizeram com sua horta e frescura de água. Mas porque este lugar era ermo, e nele um frade (por induzimento do demónio, que sempre urde semelhantes teias) se enforcou por ser despovoado, estes religiosos ordenaram uma casa em baixo, na vila do Funchal, em chãos e terras defronte de Santa Catarina, além da ribeira, onde ora está fundada uma das melhores casas desta ordem, que a província tem em Portugal; o qual convento é da observância, tão sumptuoso como fresco, em que sempre estão perto de cinquenta frades, muitos letrados, religiosos de tanta virtude e exemplo, quanta se pode achar no mundo; e assim está esta ribeira com estes dois sumptuosos e aprovados moesteiros ornada, acompanhada e enobrecida de aquém e de além com tanta religião e virtude.