CAPÍTULO DÉCIMO NONO
DA DESCRIÇÃO DA ILHA DA MADEIRA PELO MEIO DA TERRA; E DE DUAS COISAS QUA FEZ UM MARCOS DE BRAGA, O VELHO, DE GRANDE ÂNIMO E FORÇAS, UMA NA
SERRA E OUTRA NA CIDADE; E DE UMA GRANDEZA DE ÂNIMO, QUE MOSTROU DOMINGOS DE BRAGA, SEU FILHO
Tomando a terra desta ilha pelo meio, da ponta de S. Lourenço, que está ao Nascente, à ponta do Pargo, que jaz ao Ocidente, toda é terra de grandes serranias e altos montes, alta em tanta maneira, que faz abrigo aos navios, que se chegam a ela da banda do Norte, ventando muito do Sul, até dez léguas da terra.
Toda esta ilha é fragosíssima e povoada de alto e fresco arvoredo, que, por ser tal, se perdem alguns caminhantes nos caminhos, e aconteceu já alguns, perdidos, neles morrerem. E não, tão somente, há pelo meio e lombo da terra grandes e alevantadas serranias, mas também grotas e altas funduras, cobertas de matos e grossos paus e arvoredo de til, que, quando o serram, dentro, no cerne, é muito preto e cheira mal; deste pau se faz muito taboado para caixas de açúcar e solhado de casas e madres, e dele é a maior parte da lenha que se queima nos engenhos. Também há outro pau vermelho, que se chama vinhático, de que se fazem as caixas para o serviço de casa, que são muito boas, mas as feitas dele para o mar são muito mais prezadas.
Outros paus há de aderno, de que se faz muita madeira para pipas para vinho e mel, mas para o mel são melhores que para o vinho, não porque a qualidade da madeira o faça ruim, mas porque é muito rijo e seco e não revê (113) tanto o mel nele, como o vinho, que o faz
humedecer, e algumas vezes o deita pelo meio do pau, o qual pau aderno é tão rijo, que se fende à cunha.
Há também muitos folhados, que crescem muito direitos e grossos, de que se faz a armação para as casas, e muitas vezes de um pau fazem três e quatro pernas de asnas, mas não é tão rijo como o desta ilha de São Miguel; é brando de cortar, quase como o cedro, e dele se fazem os temões para servirem na lavoura.
Há outro pau, azevinho, muito rijo, de que se fazem os cabos de machado, mas não é branco como é o desta ilha. Também há paus de louro, e nas faldras da serra, da banda do Sul, muita giesta, que é mato baixo, como urzes, que dá flor amarela, de que gastam nos fornos e dele se colhe a verga, que esburgam como vimes, de que se fazem os cestos brancos, mui galantes e frescos, para serviço de mesa e oferta de baptismos e outras coisas, por serem muito alvos e limpos, e se vendem para muitas partes fora da ilha e do reino de Portugal, porque se fazem muitas invenções de cestos, mui polidos e custosos, armando-se, às vezes, sobre um dez e doze diversos, ficando todos juntos em uma peça só; e para se fazerem mais alvos do que a verga é de sua natureza, ainda que é muito branca, os defumam com enxofre.
Há também muita madeira de barbuzano, de que, pela maior parte, fazem os tanchões para as latadas, por ser pau muito rijo e durar muito no chão. E não faltam muitas urzes, de que se faz o carvão para os ferreiros e fogareiro.
Tem finalmente esta ilha tantos matos e rochas, tantos montes e grotas, que afirmam todos que, das dez partes da ilha, não aproveitam as duas, porque a maior dela são serranias, terras dependuradas, rochas e grotas e ladeiras, e não há terra chã, senão a bocados, mas esses são tais, que valem mais que outro tamanho ouro; e, geralmente, não tem preço a substância, que tem todas as coisas, que esta ilha de si está produzindo, quer por natureza, quer com arte.
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É terra massapez pela maior parte, mais que terra preta, e outra, como ruiva, se chama salões; toda se rega com a grande abundância das águas que tem, que, como veias em corpo humano, a estão humedecendo e engrossando e mantendo, com que se faz rica, fresca, formosa e lustrosa; e com ser tão alta, não se vai com elas ao mar (como esta de S. Miguel faz em grande quantidade, quando chove), e depois de estar a terra farta de água, levarão um rego dela sem se sumir duas, três e mais léguas.
Tem muita hortaliça de muitas couves murcianas, mas não espigam, pelo que sempre vem a semente delas de Castela; cria muitas alfaces e boas, e outras muitas maneiras de hortaliças toda regada com água, como as canas, afora os muitos pomares que tem de fruta de espinho e ricos jardins de ervas cheirosas, em tanto que dizem os mareantes que, mais de dez léguas ao mar, deita esta ilha de si uma fragrância e um confortativo e suave cheiro, que parece cheirar a flor de laranja. Em muitas partes desta ilha há muitas nogueiras e castanheiros, que dão muita noz e castanha, em tanta maneira, que vale o alqueire a três e quatro vinténs e se afirma que se colhe em toda ela de ambas estas frutas de noz e castanha, juntamente cada ano, passante de cem moios; também dá amêndoas, e de tudo carregam bem as árvores.
Há nesta ilha da Madeira muito sumagre, que serve para curtir couro, principalmente o cordavão (114), porque o faz muito brando e alvo; este sumagre se pranta em covas pequenas, como quem pranta rosas e vinha; tem a haste, como feitos (115), e a rama semelhante ao
mesmo feito; dá-se em terras altas e fracas; colhe-se cada ano, cortando-se rente com a terra para não secar a soca dele e poder tornar a arrebentar, por ser planta que dura muitos anos na terra. É novidade de muito proveito, porque multiplica tanto, que se enchem os campos dele como enchem as roseiras, e lavra a raiz por baixo da terra, e o que se dá na ilha é muito fino e, apanhada a rama, que é o dito sumagre, se deita ao Sol, seca, se mói em engenho de água, assim como se mói o pastel nesta ilha, e se faz em pó, e, moído, o carregam para diversas partes em sacas e pipas.
Criam-se também na ilha da Madeira alguns gaviões e açores, que parece que vêm ali com tormentas de alguma terra perto, que está por descobrir, bilhafres, francelhos, corujas, e há nela muitas perdizes, pavões, galipavos, galinhas de Guiné, e as outras domésticas, pombos trocazes, pretos e brancos, patas e adens, pombas bravas e mansas, muitos melros, canários, pintassirgos (sic), toutinegras, lavandeiras, tentilhões, codornizes, rolas, poupas e coelhos, cagarras, afora gaivotas, estapagados e outras aves do mar.
E porque não passe com silêncio uma coisa notável que fez um Marcos de Braga na serra, e outra na cidade, direi aqui ambas, brevemente.
Veio de Portugal à ilha da Madeira um Marcos de Braga, homem nobre e principal, rico e abastado, e morava fora da cidade do Funchal perto de uma légua, pela terra dentro, para a banda do Norte, em uma quintã sua, e teve dois filhos, um, por nome Marcos de Braga, o Moço, e outro, Domingos de Braga, todos homens principais, e de grandes estaturas e muito forçosos. O Marcos de Braga, pai destes, era tão sedeúdo (116) de cabelo, que até as unhas, pela banda de fora, e no rosto, até junto dos olhos, era coberto de cabelos, e, sendo de idade de sessenta anos para cima, lhe aconteceu na serra da ilha da Madeira, junto da qual morava, o que agora direi.
Havia um mulato cativo, fugido de seu senhor e alevantado no mato, o qual, para granjear de comer, se vestiu de peles de animais, que matou, e se cingiu de chocalhos, que para isso buscou, e, andando no ermo, saía desta maneira, a modo de salvage, aos caminhos e salteava os mateiros e caminhantes, que pelo caminho passavam, e os roubava do que levavam, e tanto dano fazia por aquela parte, que já nenhuma gente ousava passar por ali, porque, em vendo-o, se espantavam dele, cuidando que era salvage ou diabo, pelo verem alto de corpo e disfarçado daquela maneira; o qual mulato era de idade de trinta e cinco anos, pouco mais ou menos, e quem quer que o via fugia dele como do diabo e deixava o que levava e ele tomava o que queria, e aqueles, que alcançava, a que não achava que comer, lhe dava muitas pancadas.
Vindo isto ter a notícia de Marcos de Braga, determinou de querer saber o que era, e assim o fez; porque, partindo só de sua casa, se foi ao lugar que lhe disseram onde esta salvaje (117) saía a fazer seus saltos e, fazendo-se caminhante, o mulato salvage lhe saiu ao caminho com grande estrondo e matinada e terror para o espantar, como fazia a todos os que por ali caminhavam, e, arremetendo ao dito Marcos de Braga (que lhe não fugiu, como os outros faziam), se abraçou com ele, e tanto andaram a braços até que o mulato caiu no chão debaixo,
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e aí o despiu das peles que trazia, e o amarrou e levou para casa, e o meteu a lavrar com um boi em uma canga e arado, e, lavrando o mesmo Marcos de Braga com o arado, quando picava o boi, nomeava-o por seu nome, dizendo «ei raiado», e quando picava ao mulato, dizia «ei diabo»; e assim o teve alguns dias em casa e o sogigou, e livrou do trabalho, que naquela serra padeciam os caminhantes que por ela passavam, até, depois de o ter bem castigado, tornar o mulato salvage a seu senhor.
Sendo este mesmo Marcos de Braga de idade de setenta anos e mais, estando em sua quintã recolhido, sem ir à cidade por causas crimes que tinha, no ano em que nasceu o Príncipe Dom João, filho de el-Rei Dom João, terceiro do nome, e pai de el-Rei Dom Sebastião, fazendo-se festas de seu nascimento na cidade do Funchal, antre as quais correndo-se muitos touros grandes e bravos, o dito Marcos de Braga mandou pedir licença às justiças para vir ao corro, onde se corriam os touros, que era no terreiro defronte da Sé, dizendo que também queria ajudar a festejar as festas do nascimento do Príncipe, e, dando-lha a justiça licença e seguro que viesse, veio ele, e recolheu-se em uma casa do mesmo terreiro, e pediu à justiça que mandasse deixar para derradeiro o mais bravo touro que antre os outros estivesse, e assim foi que ficou um touro marchano pintado, que veio de cabo de Gué para esse mesmo efeito das festas do Príncipe, o qual touro, tanto que foi solto no campo, meteu tanto temor a todos, que pessoa nenhuma ousou esperá-lo no corro, nem chegar a ele, para lhe tirar com garrocha, e, ficando o corro todo pelo touro, saiu o dito Marcos de Braga da casa donde estava, vestido em corpo em um pelote preto de petrina e abas muito compridas, como se, então, costumava, trazendo somente um pau grande e grosso na mão, como tranca. E assim se foi, pelo corro passeando, para onde o touro estava e, antes de chegar a ele, arredado bom espaço, o touro virado para ele lhe acenava com a cabeça, como que já o levava nos cornos, e Marcos de Braga esteve quedo, esperando a determinação do touro, e, vendo que o não cometia, deu mais algumas passadas adiante, chegando-se mais a ele, e pondo a ponta do pau no chão diante de si, tendo-o com uma mão, com a outra acenou ao touro e, tanto que o touro viu o aceno, arremeteu a ele e, cuidando que o levava, deu com a testa no pau, como em uma torre imóbil, ficando sempre tão firme o dito Marcos de Braga e com tanto acordo, que, tomando-o por diante pelos cornos e abaixando-lhe a cabeça para baixo, meteu o touro os cornos no chão e, dando uma volta por cima da cabeça, ficou de costas, com o pescoço quebrado.
Então, se tornou Marcos de Braga mui quieto para a casa dondo saíra, pondo grande espanto nas gentes de seu grande ânimo e forças, sendo de tanta idade. E foi esta uma das coisas mais louvada e nomeada que se naquelas festas fizeram.
Mas, se as forças corporais do pai, Marcos de Braga, o Velho, são ocasião para louvar muito a Deus, que as deu tão excessivas, maior motivo nos darão para engrandecer e amar ao mesmo Senhor, dador de todo bem, as forças da alma, que deu ao filho, Domingos de Braga, que imitou bem a seu pai, não somente nas forças do corpo, mas parece que sobrepujou na magnanimidade e grandeza do ânimo em se vencer a si mesmo, perdoando a seu imigo, que o tinha ofendido, em tempo que se pudera vingar dele, como agora contarei.
Pero Ribeiro, pai de António de Carvalhal, era cunhado de Domingos de Braga, filho de Marcos de Braga, o Velho, o qual Domingos de Braga foi homem grande de corpo e de tantas forças, que atirava com uma pedra a um touro e lhe metia os testos para dentro e o derribava. Andando estes dois cunhados, ambos, em grandes demandas sobre fazenda de heranças, o Pero Ribeiro, com um galego seu criado, tomou a Domingos de Braga dentro em uma casa e lhe deu tanta cutilada, que o deixou por morto e, dizendo-lhe o galego: «senhor, matai-o, que tem sete fôlegos, como gato», respondeu que tão mortos fossem seus pecados como ele ficava. E idos de casa, o Domingos de Braga, como era homem de grande esforço e grandes forças, arrancou uma távoa do sobrado da casa, em que ficava como morto, e lançou-se em baixo na lógea, por saber que nela estava muita quantidade de linho, e, embrulhando-se nele, com o sangue que dele corria, se apegou o linho de maneira que as feridas se estancaram, o que vendo ele, com muito ânimo levando a porta da lójea, que para a rua estava, com as mãos, e botando-a fora do coice, se foi a uma ermida, que perto estava, e, achando-a fechada, lhe fez o mesmo que à da lógea e, tirando-lhe a porta do coice, se meteu debaixo do altar. Ao dia seguinte, indo o vigairo ali dizer missa e espantando-se muito de ver a porta daquela maneira, lhe rogou Domingos de Braga que se calasse e, contando-lhe seus trabalhos e mostrando-lhe suas feridas, lhe pediu de comer, por não haver comido depois do jantar do dia passado até aquelas horas e por estar fraco do muito sangue que se lhe fora; o vigário lhe deu pão e vinho
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e lhe trouxe uma égua, na qual se foi para sua casa, que tinha na cidade do Funchal três léguas da Ponta Delgada, onde isto aconteceu.
Depois de curado e são, ele com seu irmão Marcos de Braga, o Moço, e com parentes e criados, que seriam por todos até vinte, se foi a casa do cunhado, Pero Ribeiro, para o matar, em vingança do que lhe fizera, e, achando-o, lhe disse o velho Pero Ribeiro: «Filho, não me mates», ao que lhe respondeu: «Confessai que o que me haveis feito o fizestes não como cavaleiro, e que agora vos dais por morto, e que eu vos faço mercê da vida». E, respondendo Pero Ribeiro que tudo isto confessava, se foi Domingos de Braga sem lhe fazer mais mal, ainda que seu irmão, Marcos de Braga, o importunava que o matasse, pois por morto o deixara a ele, ao que respondendo Domingos de Braga que o matassem seus pecados, estiveram estes dois irmãos muitos anos que se não falaram, por causa deste feito tão heróico e magnânimo de Domingos de Braga, com que se pudera chamar, como Júlio César, esquecedor das injúrias, e, todavia, foi seminário de ódio que seu irmão, por isso, lhe teve, devendo-o amar e estimar mais pelo mesmo caso.
Muitos homens forçosos e grandiosos, desta maneira, fidalgos e esforçados cavaleiros, houve e há na mesma ilha da Madeira, de nobre progénie e heróicos feitos, que, por serem tantos e não poder eu saber todos, não digo seus apelidos, nem conto suas façanhas, forças e valentias, polas não obscurecer, dizendo o pouco que delas sei, em comparação do muito que eles fizeram.
Afora o que se recolhe na terra, há mister a ilha da Madeira cada ano doze mil moios de pão para seu mantimento e, se lhe vão de fora menos mil, passa medianamente com onze mil, e com dez mil passa mal, ainda que com eles se sustenta (118).