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CAPÍTULO DÉCIMO PRIMEIRO

No documento livro2 (páginas 41-45)

CAPÍTULO DÉCIMO PRIMEIRO

DO QUE FIZERAM UM HOMEM E UMA MULHER NATURAIS DA ILHA DO PORTO SANTO ENGANADOS PELO ESPÍRITO MAU, A QUEM O POVO DEPOIS COMUMMENTE,

PELO NOME DA MESMA ILHA, CHAMOU PROFETAS DO PORTO SANTO (62)

Pois a Santa Igreja Católica, nossa piedosa mãe, com o dito de São Pedro, primeiro logotente (63) de Deus na terra e geral pastor seu, cada dia esperta e ensina aos que são suas ovelhas, dizendo que sejamos temperados e vigiemos, porque nosso adversário, o diabo, como leão rugindo e bramindo, anda derredor, buscando se alguma das ovelhas do católico curral se desmanda, saindo fora dele, para logo a tragar, ao qual resistamos, fortes na fé, para lhe escapar das unhas.

Não parece razão passar com silêncio o que aconteceu a um homem e uma mulher, naturais da ilha do Porto Santo, enganados pelo demónio, a quem comummente depois chamaram todos Profetas do Porto Santo, para que, com fazer experiência no perigo da cabeça alheia, saibamos melhor guardar a nossa e escapar dos laços que tão sotilmente sempre nos arma o imigo do género humano, para que, já que enganou a nossos primeiros pais e a outros, vendo nos seus enganos, saibamos fugir deles, pedindo para isso o favor divino, sem o qual nada sabemos, nem podemos.

Estando a ilha do Porto Santo próspera e abastada, e vivendo a gente dela contente e rica, por oculto juízo de Deus, ou por os querer castigar, ou humilhar em sua prosperidade, permitiu que o demónio antre eles urdisse e tecesse uma revolta nunca ouvida, como se colige da devassa que escreveu um Henrique Coelho, escrivão de Machico, e de outras informações de outras pessoas da ilha da Madeira dignas de fé, da maneira seguinte.

Na era de 1532 e 33 anos, na capitania de Machico, da ilha da Madeira e na ilha do Porto Santo estava por corregedor o licenciado João d’Afonseca, com alçada por el-Rei Dom João, terceiro do nome, que está em glória, o qual licenciado, por morrerem de peste na Vila de Santa Cruz da capitania de Machico no ano de mil e quinhentos e trinta e três, se foi para a Queimada, onde morou em umas casas perto da dita Vila de Santa Cruz, donde se saiu com seu meirinho, Álvaro Vieira, e, estando ali, aconteceu na ilha do Porto Santo este estranho caso.

Havia na dita ilha do Porto Santo, da banda do Norte, onde se chama o Farrobo, que é uma povoação de até quinze vizinhos, um homem honrado, cristão velho, chamado Bartolomeu Nunes, o qual tinha um filho, já homem, por nome Fernão Nunes, o qual filho, por se criar no ermo e ser montanhês, criador e lavrador, e ser homem já de idade para isso, sem se casar, e, de maravilha, ouvir missa (segundo se dizia), e muito poucas vezes ir à Vila, pelo que, por outro nome, era de todos chamado Fernão Bravo, do qual se suspeita que, por ser assim bravio e rústico solitário, lhe apareceu o demónio e lhe fazia dizer coisas notáveis e secretas, de tal modo que, sendo a terra povoada de gente muito nobre, fidalga, de bons entendimentos e mimosa, permitiu Deus que saíssem muitas vezes dos mimos e viços da terra, que naquele tempo era mui abastada e famosa na abundância e fartura dos moradores, pelo engano que o demónio fez a este Fernão Nunes, por alcunha o Bravo, pela razão dita, e ele a eles, crendo todos o que ele dizia, tendo-o por santo profeta.

Havia na dita ilha uma moça de idade de dezasseis ou dezassete anos, pouco mais ou menos, sobrinha de um Nuno Vaz, clérigo e beneficiado na vila da mesma ilha, por nome Filipa Nunes, que estava doente na dita vila, havia alguns anos, em cama tolhida, paralítica, sem se poder mandar, nem mover da cinta para baixo, a qual também era sobrinha do dito Fernão Nunes, o Bravo; o qual, depois de ser enganado pelo demónio, que lhe meteu em cabeça de o fazer adivinhador, para que o tivessem por profeta e, assim, infamar muita gente, por o mesmo

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diabo ser infame e querer ver todos infamados, como ele, por seu mandado e inspiração diabólica se veio do deserto, donde andava, uma noite, à vila ter com a sobrinha, com uma campainha tangendo. E, chegando onde ela estava, lhe disse que o Espírito Santo o mandava ter com ela, para que ambos pregassem ao povo daquela ilha e lhe dissessem seus pecados, e que com ele vieram os fiéis de Deus em procissão, em que ele tangia a campainha, com que fez ajuntar alguma gente do povo, amiga de novidades, que vinha a ver aquela. E Filipa Nunes lhe respondeu que o Espírito Santo lhe revelara que vinha ele daquela maneira. E, sendo ali junta muita gente em casa da dita Filipa Nunes, que acudia à campainha por ver o que aquilo seria, o tio se chegou à sobrinha e falaram ambos de parte pouco espaço, a qual prática acabada, se virou ele para os que aí estavam e lhe começou a dizer suas culpas, que tinham feitas, e pregar de maneira que se ajuntou toda a gente da ilha, juízes e vereadores, homens dos principais, altos e baixos, e todo o povo, a quem fez uma pregação, em que lhe descobriu seus pecados, dizendo: «tu, Fuão, fizeste isto, e tu estoutro; tu fizeste tal coisa em tal tempo, e tu estoutra»; assim, a todos e a cada um dizia suas culpas secretas, que fizeram com pretexto e engano, que fizessem penitência delas, com que todos, pasmados, o criam.

E vendo que já estava acreditado, fez um porteiro castelhano tecelão, por nome Francisco Fernandez, o qual, logo de seu mandado, lançou pregão: «ouvi o mandado do santo profeta Fernando e profeta Filipa, que todos vão em procissão a Nossa Senhora da Graça». Onde foi todo o povo com o vigairo e clérigos, e lá lhes disse coisas grandes de seus pecados, de modo que todos andavam confusos, espantados e desconsolados, sem comer; as mulheres deitaram no mar todas as posturas do rosto, sem curar de vestidos preciosos, antes os pobres que traziam despiam e ficavam em faldra de camisa, como fazendo penitência, sem comer, senão pouco, e em pé.

Estando um dia pregando, muitos se confessaram pubricamente de pecados graves e abomináveis que tinham feitos. E, porque estando o profeta Fernando pregando, um João Calaça, tabalião, estava rezando por um livro, como quem lhe não dava crédito a suas pregações; disse o profeta que aquele que rezava tinha o demónio no corpo, que lho tirassem. Saltaram, então, nele muitos homens e lhe deram tantas punhadas, que o mataram; ele, morto, disse o profeta que o levassem logo a uma ermida de São Sebastião, onde o deixassem estar, porque antes de três dias ressurgiria, e lá o levaram e deixaram.

Uns, com temor da morte deste João Calaça, não ousavam contrariar o que o profeta falso dizia, e outros, pelos secretos que lhe descobria, criam quanto lhe ouviam, obedecendo a seus mandados. Andavam após ele, ouvindo-o, deixando perder suas fazendas, sem as negociar e beneficiar. Tão cegos estavam, que as mulheres muito fidalgas e nobres iam à igreja em camisa por ante (sic) seus maridos com cestos grandes de vimes, como os em que nesta ilha apanham pastel, cheios de leite escorrido, e queijos, e pão, e outros mantimentos para comerem os que estavam na igreja de noite e de dia, ouvindo a pregação do profeta, e tão crentes estavam nele, que se afirma que os levou em procissão a um pico para os lançar pela rocha dele abaixo, dizendo-lhe que se haviam de deitar à (sic) voar dela para o céu; mas livrou- os Deus de tamanho perigo, não sei como.

Tanto pode a novidade no povo que, como diz Quinto Cúrcio, Nulla alia res magis

multitudinem regit, quam superstitio; nenhuma outra coisa mais rege a multidão dele que a vã

superstição.

Este profeta Fernando não fazia mais que aquilo que lhe dizia secretamente a sobrinha Filipa Nunes, profeta, dizendo ela que o Espírito Santo lho revelava, e fingia que não comia e que se mantinha na graça do mesmo Espírito Santo, por se acreditar com a gente, pelos pecados e fazendas alheias levadas, que ela e ele descobriam; e, por isso, iam tomar conselho com eles, para o que tinham o porteiro à porta, como se foram príncipes, que não deixava entrar pessoa alguma, senão quem a profeta mandava.

Conta-se também que, andando um mouro, pastor de ovelhas, que se chamava Barque, na serra como salvaje, o trouxeram para crer no profeta, dizendo-lhe que era homem santo e fazia milagres, ao que respondeu o dito mouro Barque, se o profeta sarasse uma negra de seu senhor, tão aleijada das pernas de seu nascimento, que andava de geolhos, que ele creria nele e o adoraria por santo, mas não de outra maneira, o que o profeta não fez; o qual dito de um mouro salvaje foi para mais confusão dos moradores, tão cristãos e discretos.

A cabo de alguns dias que durava esta abusão e desaventura, com que andava a gente atemorizada, por parecer já que andavam os demónios soltos naquela terra, o mais do tempo

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se ocupavam em fazer cruzes e pô-las sobre si e seus corpos, e polas ruas e casas, como que os viam, pelo que no dito ano de mil e quinhentos e trinta e três se embarcaram algumas pessoas da dita ilha em uma barca para a ilha da Madeira, em que somente ia um Joanne Anes, escrivão na dita ilha do Porto Santo, e um António Feijó e outro homem, a que não soube o nome, e três barqueiros os quais chegaram à vila de Machico aos seis dias de Fevereiro do dito ano e saíram em terra descarapuçados, cada um com uma cruz pequena de pau na mão, onde logo se ajuntou muita gente, vendo aquela novidade, para saber o que era; os quais disseram que iam dar novas ao corregedor João d’Afonseca que na ilha do Porto Santo estavam dois profetas, que tinham posto o povo em grande confusão do que diziam e faziam, com que andava a gente pasmada, sem comer, nem dormir. E por o corregedor estar na Queimada, como acima tenho contado, o dito Joanne Anes com os mais se tornaram a embarcar e se foram à cidade do Funchal a dar novas ao capitão e justiça dela, com que houve grande alvoroço e espanto em todo o povo.

Dando este rebate ao corregedor, o licenciado João d’Afonseca, logo ao outro dia pela manhã foi ter a São Sebastião, junto da vila de Machico, onde se ajuntou toda a gente principal da vila, e ali lhe fez o corregedor uma fala, em que declarou ser aquilo obra dos demónios e que ele, por sua pessoa, queria acudir a isso, como logo pôs seu dito por obra, embarcando-se no mesmo dia, levando consigo dois escrivães, João Simão e Henrique Coelho. E chegou ao outro dia seguinte à ilha do Porto Santo a horas de meio-dia e, tanto que foi sabida sua desembarcação, fugiu o profeta Fernando para a serra, e o corregedor, com ambos os escrivães, foi a casa da profeta Filipa Nunes, a qual achou na cama, e lhe disse que abusões eram aquelas que fizeram no povo, fazendo crer que não comia. E buscando-lhe a cama, de que a fez alevantar, donde dantes se não levantava, achou nela pedaços de bolos que ela comia, e logo a mandou à cadeia, enviando em busca do profeta Fernando à serra, onde era acolhido, ao seu meirinho, que o trouxe preso à mesma cadeia. E ao outro dia o mandou à prisão da vila de Machico, e logo começou a tirar devassa do caso, na qual se mostrou por testemunhas que o dito profeta Fernando, estando uma noite em casa da profeta Filipa Nunes, onde estava muita gente, e mulheres muito honradas e homens, todos descalços e em geolhos, em que entravam um Rodrigo Álvares, homem muito honrado e rico, e sua mulher, e Manuel de Crasto, almoxarife, e sua mulher, e outras muitas pessoas e mulheres nobres, ele, perante todos, chegou à mulher de Rodrigo Álvares e lhe meteu a língua na boca, dizendo a seu marido: «pesa-te, Rodrigo»? E ele lhe respondeu: «Deus o sabe»; e, então, o fez pôr de geolhos diante de si e lhe deu duas bofetadas. E disse a Manuel de Crasto que fosse buscar pão e vinho para comerem os que ali estavam, o qual foi e trouxe um saco de pão e um barril de vinho, que todos comeram. Depois de comer, mandou a Manuel de Crasto e a sua mulher que se despissem, o que logo fizeram, ficando em camisa, sem ninguém olhar, nem atentar para isso, como se fora no estado da inocência, e, assim, meios nus os mandou que fossem a Santo Espírito e que daí iriam para o Paraíso; e eles se foram despidos, sendo Inverno, em Fevereiro, e assim estiveram na dita ermida do Espírito Santo até ante manhã, em que então se foram para casa e não para a glória, como o profeta dissera.

Foi o corregedor a São Sebastião, onde estava o morto João Calaça, que já cheirava mal, o qual tinha os cabelos feitos em tranças, e o mandou enterrar honradamente, por ser homem honrado e muito aparentado na dita ilha, onde parece que morreu mártir, por não dar crédito a um truão e rústico enganado do diabo.

Mostrou-se mais, por inquirição, que em uma cevada, que estava em um sarrado (sic), fez debulhar mulheres e homens, dizendo que por isso lhe eram perdoados seus pecados.

Tanto era o atrevimento do demónio e o engano dos homens que até os eclesiásticos se enganaram, de tal modo que na Confissão da missa diziam São Pedro e São Paulo e o beato profeta Fernando, e assim o nomeavam no Intróito e orações.

Dizem que também foi, então, do Funchal à ilha do Porto Santo um frei Gaspar Gato, pregador da ordem de São Francisco, onde teve prática com o profeta Fernando e a profeta Filipa, e, vendo que era bulra (sic) tudo o que diziam, por lhe não saberem responder bem ao que lhe perguntava, nem ele, nem a sobrinha, disse que os prendessem e não cressem no que diziam, o que logo fizeram.

Ou fosse pelo dito do pregador, ou pela devassa que se tirou, o dito corregedor, o licenciado João d’Afonseca, prendeu o vigairo e clérigos e os levou presos todos com a profeta Filipa Nunes à cadeia da vila de Machico, depois de acabada sua devassa, que durou até dez dias

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de Março, que lá esteve; e, quando dantes chegou, a seis de Fevereiro do dito ano de mil e quinhentos e trinta e três, à ilha do Porto Santo, havia dezoito dias que duravam as abusões dos falsos profetas. E prendeu também ao porteiro, que, quando apregoava, dizia que manda o santo profeta Fernando tal coisa que logo fizessem, o que sem tardar se fazia, e dizia ele que bem aventurado fora em ser pregoeiro do santo profeta, o qual outras muitas coisas e abusões fazia fazer ao povo, de noite e de dia.

Tanto que foram trazidos os presos à vila de Machico, a Filipa Nunes, que dantes fingia que não comia, logo comeu de praça (64), dizendo que não sabia nada do que lhe diziam que fizera. O corregedor os mandou ambos presos a el-Rei com a devassa, que levou o escrivão Henrique Coelho e deu a Sua Alteza, que lho teve muito em serviço, com que foram sentenciados os profetas que ambos estivessem à porta da Sé de Évora em uma escada, cada um com sua corocha de papel na cabeça, com letras que diziam: «Profeta do Porto Santo», com um círio aceso, cada um, na mão, enquanto se disse a missa da terça, ela vestida, e ele nu da cinta para cima, e fossem soltos, visto ser obra dos demónios.

E quanto à morte de João Calaça, se não procedesse por ela contra pessoa alguma, por serem também obras do demónio que os cegou, a todos. E condenou el-Rei a todos os moradores da ilha do Porto Santo, por crerem as ditas abusões dos profetas falsos, em duzentos cruzados para uma obra da dita ilha, sc. os juízes, vereadores e pessoas da governança da ilha, cada um em dez cruzados, e o outro povo, segundo tivesse a fazenda, os quais duzentos cruzados se pagaram e, estando na dita ilha o dito escrivão Henrique Coelho, se arrecadaram e se entregaram a Estêvão Calaça, nela morador, para se gastarem em coisas necessárias à terra, como el-Rei mandava.

Os clérigos foram condenados em penas e castigados pelo provisor António Machucho, que, então, era em Portugal, da Sé do Funchal, por estar vacante. Estas e outras muitas coisas se passaram na verdade, como consta da devassa, que aqui não declaro. Do profeta Fernando dizem alguns que endoideceu, ou se fingiu doido para melhor se livrar; outros que morreu preso no Limoeiro; outros que, depois de sentenciado e penitenciado, se foi em romaria a terras estranhas, fazendo penitência, e, finalmente, nunca mais veio à ilha, nem apareceu, nem se viu. Mas a profeta casou e viveu em Portugal, sem tornar mais ao Porto Santo, onde tinha feito coisas não santas.

Alguns, por este feito, querem alrotar (65) dos moradores da ilha do Porto Santo, que não têm a culpa de seus antepassados, mas, ainda que a tiveram, não é ofício de homem cristão, humano e fraco, alrotar das culpas alheias, pois pode cair em outras semelhantes e maiores; e já que o cordão, que está torcido muitas vezes, se destorce, o que tem o telhado de vidro não devia tirar pedrada a telhado alheio.

No documento livro2 (páginas 41-45)