CAPÍTULO DÉCIMO TERCEIRO
COMO O CAPITÃO JOÃO GONÇALVES ZARGO CORREU GRANDE PARTE DA COSTA DA ILHA, INDO TAMBÉM COM ELE O CAPITÃO TRISTÃO VAZ PARA REPARTIREM A ILHA,
E DO QUE LHE ACONTECEU ATÉ SE DESPEDIREM
Depois de ter o capitão João Gonçalves Zargo ordenadas as casas de devação (sic) e outras para gasalhado dos que vinham povoar, mandando chamar a Tristão Vaz para (descobrindo a terra) fazer antre ambos a repartição da ilha, determinou correr toda a costa dela, porque o fogo era já desapegado do lugar do Funchal, e ordenou repartir a terra com quem a aproveitasse, para que mandou fazer prestes certos batéis que haviam de ir por mar, e ele com alguns de cavalo e gente de pé por terra, uns diantes dos outros, por não haver ainda caminhos; e com a detença que tinham em partir as terras andavam pouco cada dia.
Chegando a um alto sobre a Câmara de Lobos, traçou ali onde se fizesse uma igreja do Espírito Santo; passando mais abaixo a umas serras (72) muito altas, ali traçou outra igreja da
Vera Cruz. E todos estes altos tomou para seus herdeiros.
Daqui se meteu nos batéis para ver a terra do mar e mandou gente por terra, que caminharam com grande trabalho e perigo, não pelo haver na ilha de animais feroces, nem bichos peçonhentos e nocivos, como em outras partes, porque nesta fresca ilha se não achou outro género de bichos senão umas lagartixas pequenas de um dedo, que não fazem dano notável, nem são peçonhentas. Mas, tornando à gente que por terra descobriam, por ser mui fragosa a ilha, daqui para baixo, de altas rochas, profundas ribeiras, ásperos caminhos, espessos montados, passaram mal e puseram muitos dias no caminho até chegarem daí a três léguas a uma furiosa ribeira, na praia da qual os estava aguardando o capitão, que em terra desembarcara e tinha traçado uma povoação, a que deu nome Ribeira Brava, pela que corria neste lugar que aqui depois se fundou, tão nobre e fresca dos melhores da ilha, que, além de ter muitos frutos e mantimentos em abundância, é e foi sempre tão generosa com os moradores, que nela vivem, que, quando convinha (73) aos capitães do Funchal, que depois
foram, socorrer os lugares de África com gente, deste só lugar tiravam tão nobres cavaleiros e gente lustrosa, que à sua custa iam servir a el-Rei e tinham tanto nome, como se ao diante verá no discurso da história, além de outra nobre gente, criados dos capitães, que sempre daqui os tiveram mui cavaleiros e de nobre geração.
Não é este lugar vila, pollo deixar de ser à míngua de muitos vizinhos e bom assento, e ser o somenos da ilha; antes é o mais bem assentado e magnífico de todos, senão por ser termo da cidade do Funchal e uma fresca quintã, donde os moradores da cidade acham e lhe vai o melhor trigo, frutas, caças, carnes e em mais abundância que em toda a ilha; e pode-se com razão chamar celeiro do Funchal, como a ilha de Sicília se chama de Itália.
Aqui se tornou o capitão a meter nos batéis e chegou até uma ponta, que se faz abaixo uma légua, que entra muito no mar, e, porque na rocha, que está sobre a ponta, se enxerga de longe e se vê claro uma veia redonda na mesma rocha com uns raios que parece Sol, deu-lhe nome o capitão a Ponta do Sol, onde também traçou uma vila, que depois se fundou, a primeira de sua jurdição. Aqui está a nobre e rica fazenda que se diz a Lombada do Esmeraldo, tão célebre por nome como por fama (74), pelos muitos açúcares que se nela recolhem, que já
foi ano que deu vinte mil arrobas dele. A qual Lombada o capitão tomou para seus filhos, e depois correu tais transes, que agora nenhum deles a possui, por se dividirem e a venderem.
Daqui tornou o capitão a caminhar por terra, a cavalo, com os que com ele costumavam ir e, passando uma ribeira que está além desta Ponta do Sol, traçou uma igreja, em uma ladeira, do Apóstolo Santiago. E, além, acharam ainda o fogo que mandou pôr pela costa, pela qual razão não puderam passar, por estar o arvoredo muito cerrado e com grande fogo em parte dele,
Capítulo Décimo Terceiro 37
pelo que desceram a uma ribeira e, sempre ao som da água, foram dar no mar, onde acharam os batéis; ali deixaram os cavalos a quem os levasse por terra, como pudesse, e meteram-se outra vez nos batéis. E, correndo a costa bem duas léguas sem achar onde desembarcar, foram dar em uma grande abra, onde, desejosos de saber a terra, desembarcaram antre os penedos, fazendo ali à mão um desembarcadouro, a que o capitão pôs nome Calheta; e sobre esta Calheta tomou uma lombada grande para seu filho João Gonçalves. E nesta mesma ribeira da Calheta, para o Ponente, tomou outra para sua filha Breatiz Gonçalves. E logo aí, em outra lombada da mesma filha, em um lugar alto, de boa vista do mar e da terra, traçou de sua mão o mesmo capitão uma igreja de Nossa Senhora de Estrela e disse que esta igreja havia de deixar muito encomendada a seus filhos, porque havia muito tempo que desejava edificá-la em um lugar de seu gosto.
Neste lugar da Calheta, mais abaixo, chegado a uma formosa ribeira, se fundou a vila, que tomou o nome da Calheta, a mais fértil de todas as da ilha, por ter maior comarca. É esta vila tão nobre em seus moradores, como abastada pelos muitos e baratos mantimentos que nela se acham. Desta saíram em companhia dos capitães do Funchal muitos e nobres cavaleiros a servir el-Rei, à sua custa, nos lugares de África e nos socorros que os capitães levaram, onde todos, além de darem mostras de suas pessoas, gastaram muito do seu, porque eram ricos, pelas grossas fazendas que neste termo há, como é a do Arco, tão afamada, e outras, que andam agora divididas por diversos herdeiros. Esta vila da Calheta, e seu termo, foi o condado do ilustríssimo capitão Simão Gonçalves da Câmara, conde desta Vila Nova da Calheta, como se dirá em seu lugar.
Da Calheta passou o capitão abaixo, até à derradeira ponta sobre o mar, donde parece que não há mais terra; e, estando aqui, lhe trouxeram os do batel de Tristão e do batel de Álvaro Afonso um peixe, que parecia pargo de maravilhosa grandura e o maior que até àquele tempo tinham visto, por razão do qual peixe, ficou nome àquela ponta a do Pargo. Desta ponta do Pargo vira a terra para o Norte até outra ponta, que distará desta, uns dizem duas, outros três léguas, a qual mandou descobrir por Tristão, e, por ser ele o primeiro que chegou a ela, lhe ficou o nome que hoje tem, a ponta de Tristão, que jaz ao Noroeste. E daqui para trás traçou o capitão João Gonçalves a capitania de Machico, que ficou a Tristão, como trazia por regimento do Infante Dom Henrique, partindo a ilha de Noroeste a Sueste, que vem sair a outra ponta da banda do Sul, em que se fincou um ramo ou pau de oliveira, que viera do regno, por balisa desta jurdição, donde ficou à ponta nome ponta da Oliveira, e está ao mar de um lugar que chamam Caniço, por nele estarem as terras cobertas de um carriço, como canas delgadas, donde tomou o nome, ainda que corruptamente, porque esta erva, que chamam carriço, tem uns grelos como compridas canas; o qual lugar do Caniço é fim da jurdição de Machico e princípio da jurdição do Funchal.
Da ponta do Pargo se tornaram os capitães para o Funchal, fazendo o mais do caminho por mar por a terra ser ainda mui trabalhosa. E, despedindo-se, por então, um do outro, começaram, cada um em sua capitania, a entender no enobrecimento delas e pôr em obra a edificação das igrejas, e das vilas e lugares, e lavrança das terras (75).