Introdução
C om o Va n G e n n e p , ou o p róp rio M a rx, Fre d rik Ba rth é u m d os a u tore s m a is cita d os e , con tu d o, m e n os lid o p e los a n trop ólog os. Um e xe m p lo d e s-sa a m b iva le n te d e voçã o se e n con tra n o tra b a lh o re ce n te d e Fra n çoise M orin e Be rn a rd Sa la d in D’An g lu re (1997). O s d ois e n tu sia sta s d o n oru e -g u ê s a firm a m , se m m a iore s con stra n -g im e n tos, q u e a te oria b a rth ia n a d a e tn icid a d e a sse n tou a s b a se s p a ra “ u m a ru p tu ra e p iste m ológ ica ” (1997:161) n a a n trop olog ia — e m b ora , p a ra su ste n ta r ta l ju ízo, n ã o te -n h a m -n e ce ssita d o ir a lé m d a s q u a re -n ta p á g i-n a s d a fa m osa “ I-n trod u çã o” a Eth n ic g rou p s an d b ou n d arie s1. N ã o ob sta n te , a in flu ê n cia d a ob ra d e Ba rth p a re ce irre fu tá ve l. In ú m e ros tra b a lh os e voca m , con fe ssa d a ou d is-sim u la d a m e n te , su a ob ra m a is con h e cid a . N a op in iã o d e Ta la l Asa d (1972:74), a a n á lise d e Political le ad e rsh ip am on g th e S w at Path an s (1990 [1959]) é “ m a g n ífica ” e m e re ce se r con sid e ra d a “ u m clá ssico m od e rn o” ; p a ra Ad a m Ku p e r (1983:143), Ba rth foi u m a d a s fig u ra s m a is “ ch e ia s d e vid a ” d a a n trop olog ia socia l b ritâ n ica d os a n os 50 e 60. N o e n ta n to, a a colh id a d a ob ra b a rth ia n a n e m se m p re foi tã o u n â n im e e fe rvorosa . O m e sm o Asa d , log o a p ós o cita d o e log io a o rig or (1972), d e d icou p á g in a s in te ira s a critica r o m a g n ífico clá ssico m od e rn o; e u m d os a n tig os m e stre s d e n osso a u tor e m C a m b rid g e , o im p re visíve l Sir Ed m u n d Le a ch , ou tor-g ou -lh e o ob scu ro e sta tu to d e “ u m clássico m e n or” : e m b ora a ob ra d o n oru e g u ê s te n h a sid o “ e stim u la n te ” e m su a é p oca , “ já n ã o con stitu i u m foco ce n tra l d e in te re sse in te le ctu a l” (Le a ch 1982:271).
In d o a lé m d a s op in iõe s d ive rsa s, o ce rto é q u e a s te se s d e Ba rth su s-cita ra m g ra n d e s d iscu ssõe s, tra n sform a n d o-se e m u m m a rco p a ra a d isci-p lin a (Wa llm a n 1991; C oh e n 1978; M orin e Sa la d in D’An g lu re 1997). C on tu d o, fa la r d a “ O b ra ” d e Fre d rik Ba rth n ã o é ta re fa ise n ta d e d ificu
l-UMA ABORDAGEM CRÍTICA
DO CON CEITO DE “ETN ICIDADE”
N A OBRA DE FREDRIK BARTH*
d a d e s. N ote -se q u e n os re fe rim os a e la com o u m tod o, e n q u a n to, n a m a ior p a rte d os tra b a lh os m e n cion a d os, a d iscu ssã o se con ce n tra e m u m ú n ico te xto, e le va d o p or m é rito p róp rio à ca te g oria d e clá ssico, a p e sa r d a iron ia d e Le a ch : a “ In trod u çã o” a Eth n ic g rou p s an d b ou n d arie s (1976a ). N ã o n os su rp re e n d e a im e n sa im p ortâ n cia com fre q ü ê n cia a trib u íd a a e ste te xto — e le , com e fe ito, p a re ce ria se r o p a ra d ig m a , o sím b olo, o a rq u é ti-p o d a s ti-p re ocu ti-p a çõe s b a rth ia n a s. O n otá ve l é q u e , ti-p a ra d oxa lm e n te , e le n ã o p a re ça n e m tã o típ ico n e m tã o re p re se n ta tivo se , tom a n d o su a ob ra com o u m a tota lid a d e , o com p a ra rm os a ou tros e scritos d o n oru e g u ê s. Ao con trá rio, re ve la -se á rid o, re p e titivo, m on óton o e m e sm o te d ioso — se m fa la r d e su a in fe liz tra d u çã o p a ra o e sp a n h ol. O q u e n ã o d e ixa d e se r cu rioso, p ois, e m g e ra l, Ba rth e scre ve e m u m a p rosa cla ra , ord e n a d a , e stru tu ra d a e m fra se s b re ve s, con tu n d e n te s e p re cisa s; e m u m a lín g u a a u ste -ra , p or ve ze s e le g a n te , tota lm e n te d e sp oja d a d e ja rg ã o, q u e n ã o se d e ixa te n ta r p or g ra n d e s flore ios; e m u m e stilo, e m su m a , livre d e a m b içõe s p se u d olite rá ria s. As d e scriçõe s ja m a is se e ste n d e m a lé m d o e strita m e n te n e ce ssá rio, os ca p ítu los sã o in cisivos e su cin tos, o ord e n a m e n to lóg ico e o d e se n volvim e n to e xp ositivo d e se u s livros m ostra m -se tra n sp a re n te s, e os a rg u m e n tos, ig u a lm e n te im p e cá ve is, sã o se m p re re su m id os e m u m d e ta lh a d o p a rá g ra fo fin a l. Por isso, se a “ In trod u çã o” p a re ce se r te m a tica m e n te coe re n te com os in te re sse s d e n osso a u tor, ta l com o e ste s a p a re -ce m e m ou tros e scritos, n ã o se ria , p or ou tro la d o, a o m e n os e m u m -ce rto se n tid o, d e sca b id o vê -la com o u m te xto e xce p cion a l d e n tro d o corp u s b a rth ia n o. N ã o se tra ta , d e m od o a lg u m , d e m e n osp re za r su a im p ortâ n -cia , m a s sim p le sm e n te d e con te xtu a lizá -la e m re la çã o a o tra b a lh o d e Ba rth , d e m on stra n d o q u e a con ce p çã o d e e tn icid a d e n ã o su rg iu e m u m va zio.
Os condicionant es ocult os da et nicidade: o fator ecológico e a demografia
Q u a n d o se re visita a a rg u m e n ta çã o d e Ba rth a re sp e ito d a e tn icid a d e , ch a m a a a te n çã o se u a p e lo con sta n te e siste m á tico à s p e rsp e ctiva s d e n o-m in a d a s “ e cológ ica ” (1976a :23) e “ d e o-m og rá fica ” (1976a :24). Ecolog ia e d e m og ra fia sã o fa tore s cru cia is q u e d e te rm in a m o ê xito ou o e ve n tu a l fra ca sso d a s op çõe s, d a s d e cisõe s e d a s e stra té g ia s re la tiva s à id e n tid a d e é tn ica . N o p rólog o d a m on og ra fia sob re os Ba sse ri (1986 [1961]), p or e xe m p lo, Ba rth n ã o só d e cla ra q u e e m p re e n d e rá su a a n á lise “ e m te rm os d e u m p on to d e vista e cológ ico g e ra l” , m a s ta m b é m q u e isto se d e ve à n a tu re za d o p róp rio ob je to d e e stu d o. As ca ra cte rística s d a org a n iza çã o n ôm a d e , e m su a m a ioria , “ e stã o in te rcon e cta d a s e m te rm os d a s p ossib ilid a ilid e s e re striçõe s im p lica ilid a s n a a ilid a p ta çã o p a storil” . Por ve ze s, o n oru e -g u ê s é a in d a m a is ta xa tivo: “ Te n ta re i d e d u zir a s d istin ta s form a s d e or-g a n iza çã o d os p roce ssos b á sicos p e los q u a is [os Ba sse ri] se m a n tê m e se a d a p ta m a o m e io” (1986:ii). Essa s va riá ve is, p oré m , n ã o fora m m u ito d is-cu tid a s p e los críticos, a p e sa r d e e n ca rn a re m a s p re te n sõe s m a is forte s d o m od e lo b a rth ia n o, a o e n volve re m fa tore s ob je tivos q u e n ã o te ria m a té e n tã o — se g u n d o n osso a u tor — re ce b id o a d e vid a a te n çã o.
Ve ja m os m a is d e ta lh a d a m e n te , p a ra com e ça r, a in cid ê n cia d o fa tor e cológ ico. A con sid e ra çã o m a is e xa u stiva a se u re sp e ito a p a re ce e m u m d os p rim e iros a rtig os d e Ba rth , on d e , d e p ois d e p rocla m a r a im p ortâ n cia d e sse e le m e n to p a ra “ a form a e a d istrib u içã o d a s cu ltu ra s” , o a u tor a p re -g oa a u tiliza çã o d e a l-g u n s con ce itos d a “ e colo-g ia a n im a l” p a ra com-p re e n d e r a n a tu re za d os g ru com-p os é tn icos (1956:1079). Por e xe m com-p lo, o “ n i-ch o” é o locu s con cre to d e u m g ru p o n o a m b ie n te , ca ra cte riza d o n ã o só p or su a s re la çõe s com os re cu rsos n a tu ra is, m a s ta m b é m p or se u s vín cu -los com os ou tros g ru p os co-re sid e n te s n a á re a , q u e se rã o se u s e ve n tu a is com p e tid ore s. É im p orta n te le m b ra r e ssa d e fin içã o, q u e se m a n té m com o p re m issa in a lte ra d a a o lon g o d a s su ce ssiva s a rg u m e n ta çõe s b a rth ia n a s2. De se u s e stu d os e cológ icos, Ba rth d e d u z q u a tro p ostu la d os fu n d a m e n ta is (1956:1088):
1) a d istrib u içã o d os g ru p os é tn icos n ã o é con trola d a p or “ á re a s n a tu -ra is” fixa s e ob je tiva s, m a s p e la d istrib u içã o e m n ich os e sp e cíficos, q u e ca d a g ru p o e xp lora m e d ia n te su a org a n iza çã o p olítica e e con ô-m ica ;
3) se diferentes grupos étnicos exploram os mesmos nichos, espera-se que o m a is p od e roso e m te rm os m ilita re s a ca b e su p la n ta n d o o m a is fra co; 4) se d ife re n te s g ru p os é tn icos e xp lora m os m e sm os n ich os, m a s o m a is fra co d e n tre e le s é ca p a z d e e xp lora r os a m b ie n te s, re cu rsos e cli-m a s cli-m a rg in a is, coe xistirá cocli-m os ou tros n a cli-m e scli-m a á re a se cli-m cli-m a iore s p rob le m a s.
Em su m a , d ife re n te s g ru p os é tn icos tê m , com p a rtilh a n d o u m a m e sm a zon a , d istrib u içõe s e fron te ira s su p e rp osta s, flu id a s. Esm ou tra s p a la -vra s, re la cion a m -se e m u m con tin u u m d e vín cu los q u e va i d e sd e a m e ra co-re sid ê n cia — com o ocorre com d ois d os vizin h os d os Pa th a n , os G u ja r e os Koh ista n i — a té a sim b iose ritu a l, e con ôm ica ou p olítica — p re ssu p osta , p or e xe m p lo, n o siste m a d e ca sta s (Ba rth 1971). A q u á d ru p la con -clu sã o d e Ba rth p od e ria se r re su m id a , se m n os a rrisca rm os d e m a sia d o, n a fórm u la a “ sob re vivê n cia d o (g ru p o é tn ico) m a is a p to” . N o toca n te à e tn icid a d e , im p orta d e sta ca r, p or ora , q u e os a sp e ctos e cológ icos sã o a l-g u n s d os m u itos “ fa tore s” q u e — con form e re q u e ira a a rl-g u m e n ta çã o — “ con d icion a m ” , “ d e te rm in a m ” ou sim p le sm e n te “ in flu e m ” n a s op çõe s é tn ica s d os su je itos.
O e xa m e b a rth ia n o d a e colog ia , con tu d o, n orm a lm e n te , é b a sta n te e n xu to. Em u m e stu d o sob re p a re n te sco, d e fin e -se “ o q u e p od e ría m os, d e m od o g e ra l, ch a m a r d e e colog ia ” com o se n d o a q u e la s “ situ a çõe s con-cre ta s d a vid a su rg id a s q u a n d o se p e rse g u e m ce rtos p rop ósitos sob re s-triçõe s té cn ica s e p rá tica s” (Ba rth 1973:9). N o tra b a lh o a n trop ológ ico q u e ju lg o se r o m a is re fin a d o d e Ba rth , o tra ta m e n to d a “ e colog ia ” d e Sw a t m a l ch e g a a ocu p a r trê s p á g in a s. Tra ta se d a típ ica re se n h a sob re o a m -b ie n te a p re se n ta d a p e la s g ra n d e s e tn og ra fia s tra d icion a is. Ap ós m e n cion a r, e m u m a a b ord a g e m p a cion orâ m ica , a top og ra fia , a s via s d e com u cion ica -çã o, o clim a , a ve g e ta -çã o e a s con d içõe s n a tiva s p a ra a a g ricu ltu ra e a cria çã o d e g a d o (Ba rth 1990:57), o livro flu i com tra n q ü ilid a d e , se m n e ce ssid a d e a lg u m a d e se re fe rir a os con d icion a n te s e cológ icos d a e xistê n -cia h u m a n a . De fa to, a a rg u m e n ta çã o sob re os “ re cu rsos n a tu ra is” a rti-cu la -se m e lh or a o p roce sso d e d ivisã o p e riód ica d a te rra e n tre os g ru p os a g n á ticos p a k h tu n e a se u p oste rior “ con g e la m e n to” , q u a n d o d o su rg i-m e n to d o Esta d o n a cion a l — ou se ja , a os u sos sociais d a te rra .
Ba sse ri, tod os sã o fa tore s q u e Ba rth vin cu la d e m a n e ira con vin ce n te à su a e xp lica çã o d a s u n id a d e s d om é stica s, d o p a re n te sco e d a a lia n ça , d a s d ivisõe s se g m e n ta re s d a org a n iza çã o socia l e d os m e ca n ism os p olíticos e d e ch e fia (Ba rth 1986). A títu lo d e e xe m p lo, d e te n h a m on os n o tra ta m e n -to d a s p rá tica s ritu a is. Se g u in d o Le a ch , Ba rth a rg u m e n ta q u e os a n trop ó-log os costu m a m in corre r n o p re con ce ito n aïf d e con sid e ra r d istin tos os a sp e ctos “ té cn icos” e “ sim b ólicos” d o rito. C om o con se q ü ê n cia , su p õe m q u e a im p ortâ n cia té cn ica ou m a te ria l d e u m a to d e te rm in a d o im p lica q u e su a d e n sid a d e sim b ólica e ste ja “ a lh u re s” . En tre os Ba sse ri, a vid a “ re lig iosa ” , n o se n tid o clá ssico, é com p rova d a m e n te p ob re . M a s Ba rth d e scob re q u e ta l a sce tism o se d e ve à s ca te g oria s d a d e scriçã o a n trop oló-g ica ; n a ve rd a d e , “ o rito ce n tra l d a socie d a d e n ôm a d e ” é o p róp rio ciclo a n u a l d e m ig ra çõe s, ca p a z n ã o a p e n a s d e forn e ce r o m od e lo p a ra in te p re ta r e con ce itu a r o e sp a ço-te m p o, m a s d ota d o ta m b é m d e u m a a lta ca rg a va lora tiva e e m ocion a l. O “ va lor” n ã o se e xp re ssa p or m e io d e “ p a ra -fe rn á lia e xótica ” n e m d e “ a tos sim b ólicos d e sn e ce ssá rios” . É p róp rio d os Ba sse ri e xp rim ir va lore s e sím b olos m e d ian te su a s a tivid a d e s a d a p ta ti-va s, m e d ian te su a s re la çõe s com a e colog ia (Ba rth 1986:146-153)3.
N os e scritos p oste riore s, a a b ord a g e m d a e colog ia cu ltu ra l p a re ce te rse torn a d o fu n d a m e n ta lm e n te p rog ra m á tica . Le a ch , e m u m a á cid a re rse -n h a , criticou se u a lu -n o p or -n ã o te r id o su ficie -n te m e -n te lo-n g e -n a u tiliza çã o d os con ce itos e cológ icos, já q u e isto lh e te ria p e rm itid o e vita r a lg u m a s d i-ficu ld a d e s n a a b ord a g e m d o se m p re e sp in h oso d ile m a d os m od e los a n a lí-ticos e d e su a a d e q u a çã o a os fa tos e m p íricos (Le a ch 1982:272-273).
çõe s n ã o p a re ce n e m e xp ositiva n e m m e tod olog ica m e n te m a is n e ce ssá ria , in te n siva ou sig n ifica tiva d o q u e os e stu d os a p re se n ta d os p e los ve -lh os a frica n ista s com o “ in trod u çã o” a su a s m on og ra fia s5.
Ig u a lm e n te ou m a is d e ce p cion a n te é a va riá ve l “ d e m og rá fica ” . Alé m d e a d ve rtir q u e o a n a lista “ n ã o p od e p a ssa r a o la rg o d os p rob le m a s d e n ú m e ro e e q u ilíb rio” a o e stu d a r os g ru p os é tn icos, Ba rth lim ita -se à a fir-m a çã o — d ificilfir-m e n te re fu tá ve l — d e q u e , e fir-m te rfir-m os fir-m e tod ológ icos, é con ve n ie n te le va r e m con ta os fa tore s d e m og rá ficos n a con form a çã o e n a m a n u te n çã o d a s fron te ira s, p ois e n tre e la s p od e h a ve r “ osm ose ” e “ trâ n -sito d e in d ivíd u os” (Ba rth 1976a :25). O tra ta m e n to é m e n os in ócu o n a e tn og ra fia b a sse ri. Pa ra q u e a org a tn iza çã o socia l d os tn ôm a d e s se m a tn te -n h a , “ p e lo m e -n os re la tiva m e -n te e stá ve l” , e la d e ve d e se -n volve r com o a m b ie n te u m a e sp é cie d e e q u ilíb rio n ã o a p e n a s e cológ ico e d e m og rá fi-co, m a s ta m b é m e con ôm ico e p olítico (Ba rth 1986:113-114). Q u a n to a o “ e q u ilíb rio d e m og rá fico” p rop ria m e n te d ito, ce rtos fa tore s sã o “ ta n to b io-lóg icos q u a n to socia is” : a fe cu n d id a d e , o con trole d a n a ta lid a d e , a m or-ta lid a d e , a m ig ra çã o e a se d e n or-ta riza çã o. Por e xe m p lo, p od e -se con sor-ta or-ta r q u e , p a ra con tin u a r e xistin d o e m fa ce d e u m in cre m e n to con sta n te d a n a ta lid a d e (i.e ., a “ e n tra d a ” d e p e ssoa s n o siste m a ), o m od e lo n ôm a d e d e org a n iza çã o socia l d e ve “ con tra b a la n ça r” te n d ê n cia s con trá ria s, co-m o a se d e n ta riza çã o ou a s co-m ig ra çõe s (i.e ., a “ sa íd a ” ) (1986:116-121)6.
A et nicidade na t eoria dos grupos ét nicos e suas f ront eiras
N os te xtos in icia is d e Ba rth n ã o h á m e n çã o e xp lícita à “ e tn icid a d e ” . M a is ta rd e , n o livro sob re os Ba sse ri, o a u tor su g e re q u e se costu m a in corre r n o e rro d e con sid e ra r a lin g u a g e m o fa tor “ d e fin id or” d a id e n tid a d e é tn ica , e q u e o m e sm o ocorre com os e tn ôn im os e os g e n tílicos, fre q ü e n te m e n te d e riva d os d e p rob le m a s d e ob se rva çã o ou d e tra d u çã o. N o ca so d os n ô-m a d e s p e rsa s, os a trib u tos “ d e fin id ore s” ô-m a is iô-m p orta n te s, e ô-m lu g a r d a lín g u a ou d a s n a rra tiva s d e orig e m , sã o os a lin h a m e n tos e m u n id a d e s p o-lítica s a b ra n g e n te s (Ba rth 1986:100-ss.). Ba rth , d e ve -se n ota r, a in d a a va lia q u ais são os “ fa tore s” ou “ tra ços” cu ltu ra is — os “ d ia críticos” , d irá d e p ois — q u e “ d e fin e m ” o p e rte n cim e n to é tn ico; n ã o d iscu te se e le s e xiste m , ou se d e ve m e xistir, ou se , ca so e xista m , im p orta m a o ob se rva d or. A con ce p-çã o d a e tn icid a d e n ã o a lca n ça ra o re fin a m e n to a q u e h a ve ria d e ch e g a r.
d e q u e a id é ia d e “ g ru p o é tn ico” n ã o d e fin e u m a “ socie d a d e ” e , m e n os a in d a , u m a “ cu ltu ra ” . De fa to, b oa p a rte d a a rg u m e n ta çã o con siste e m d istin g u ir a “ org a n iza çã o socia l” d a “ cu ltu ra ”7. O g ru p o é tn ico é o “ su -je ito” d a e tn icid a d e : e m b ora p ossa h a ve r g ru p os q u e com p a rtilh e m u m a m e sm a cu ltu ra , a s d ife re n ça s cu ltu ra is n ã o con d u ze m à form a çã o ou a o re con h e cim e n to d e g ru p os é tn icos d istin tos. Pa ra Ba rth , o fa to d e com-p a rtilh a r u m a cu ltu ra é u m a con se q ü ê n cia, n ã o a ca u sa , a con d içã o ou , m e n os a in d a , a e xp lica çã o d a e tn icid a d e .
N o cora çã o d o m od e lo e n con tra -se o con ce ito d e “ socie d a d e p lu ra l” d e Fu rn iva ll, u m a socie d a d e colon ia l m u lticu ltu ra l e m q u e ca d a u m d os g ru p os con stitu in te s m a n té m su a re lig iã o, su a lín g u a e su a cu ltu ra , m a s n a q u a l tod os se re la cion a m n a situ a çã o com u m d o m e rca d o (Fu rn iva ll 1991; Ba rth 1986; 1990). Um a ve z m a is, p re ssu p õe -se u m ce n á rio on d e d ife re n te s g ru p os in te ra g e m , d e fin in d o, p or m e io d e sse m e sm o con ta to, a n a tu re za e o a lca n ce d e su a s re la çõe s re cíp roca s. Se m a p re ocu p a çã o d e te r d e ra stre a r “ u n id a d e s é tn ica s corre sp on d e n te s a ca d a cu ltu ra ” , Ba rth (1976a :9), e vita re strin g irse à q u e la s ilh ota s isola d a s e d iscre ta s q u e ob -ce ca va m a ve lh a a n trop olog ia :
Pre via m e n te , a a n trop olog ia se h a via lim ita d o a e stu d a r p ovos in d íg e n a s e m
te rm os d e su a org a n iza çã o socia l ou cu ltu ra l, com o se fosse m isola d os e in
-d e p e n -d e n te s. De -d icou -se p ou ca re fle xã o à s re la çõe s q u e m a n tin h a m com o
a m b ie n te e con ôm ico e socia l a se u re d or. Ta m p ou co se d e u m u ita a te n çã o à
m a n e ira com o via m a si m e sm os, ou com o se u s vizin h os os p e rce b ia m (M
o-rin e Sa la d in D’An g lu re 1997:159).
O n oru e g u ê s d e sloca o in te re sse a n a lítico d os p róp rios g ru p os é tn i-cos p a ra a cria çã o e a p e rsistê n cia d e su a s in te rfa ce s, su a s fron te ira s, su a s re la çõe s, e é su ficie n te m e n te e xp lícito a o q u a lifica r a e m p re ita d a com o “ u m a in ve stig a çã o e m p írica d o ca rá te r d os lim ite s é tn icos” (Ba rth 1976a :9).
q u a l e stã o con stru íd os os siste m a s socia is q u e ta is d istin çõe s con tê m ” (Ba rth 1976a :10). A a n á lise d e ve se r “ g e ra tiva ” e n ã o p od e lim ita r-se a e xp lora r a con se rva çã o ou a p e rsistê n cia d os g ru p os é tn icos, m a s te m d e p rocu ra r e scla re ce r a d in â m ica in ce ssa n te d e con form a çã o e re e stru tu ra -çã o d os m e sm os (1976a :11).
A m u d a n ça d e p e rsp e ctiva p a re ce ria re ve la r u m a m od ifica çã o d e ord e m on tológ ica . O s g ru p os é tn icos n ã o sã o u n iord a ord e s sociológ ica s ord iscre -ta s n e m u n id a d e s socia is e stru tu ra d a s e m torn o d e tra ços cu ltu ra is d istin-tivos, “ p orta d ore s” d a e sp e cificid a d e g ru p a l. Ba rth critica a “ d e fin içã o d e tip o id e a l” d e g ru p o é tn ico (Ba rth 1976a :11), ou se ja , o in ve n tá rio in -d u tivo -d e u m a sé rie -d e con te ú -d os cu ltu ra is com o te rritórios, lín g u a s, cos-tu m e s ou va lore s com u n s8. Esta visã o p re ssu p õe , p rim e iro, u m a e q u a çã o e rrôn e a (u m a ra ça = u m a cu ltu ra = u m a lin g u a g e m = u m a socie d a d e ); se -g u n d o, su p õe q u e e ssa form a çã o d iscre ta se ja o “ su je ito” ou o “ a tor” so-cia l, re sp on sá ve l p or a ce ita r, re cu sa r ou d iscrim in a r ou tra s form a çõe s si-m ila re s. O s g ru p os é tn icos sã o, a o con trá rio, cate g orias a d scritiva s n a ti-va s, q u e re g u la m e org a n iza m a in te ra çã o socia l d e n tro e fora d o g ru p o, sob re a b a se d e u m a sé rie d e con tra ste s e n tre o “ p róxim o” e o “ d ista n -te ” . Ta is con tra s-te s se “ a tiva m ” ou n ã o se g u n d o os re q u isitos d o con -te x-to. A m a n u te n çã o d a s fron te ira s d a e tn icid a d e n ã o re su lta d o isola m e n to, m a s d a p róp ria in te r-re la çã o socia l: q u a n to m a ior a in te ra çã o, m a is p o-te n o-te ou m a rca d o se rá o lim io-te é tn ico. N ã o som e n o-te o con ta to com ou tros g ru p os, m a s ta m b é m o vín cu lo com o a m b ie n te in flu i p a ra q u e , e m u m con te xto d e te rm in a d o, se a tive ou n ã o u m a ca te g oria é tn ica : “ C e rta m e n -te , u m m e sm o g ru p o d e in d ivíd u os, com su a s p róp ria s id é ia s e va lore s, p osto d ia n te d a s d ife re n te s op ortu n id a d e s ofe re cid a s p or d ife re n te s m e ios, se ve ria ob rig a d o a a d ota r d ife re n te s p a d rõe s d e e xistê n cia e a in stitu cion a liza r d ife re n te s form a s d e con d u ta ” (1976a :1314). O s crité -rios d e re con h e cim e n to p od e m m u d a r e , com fre q ü ê n cia , o p róp rio g ru p o p od e m u d a r. N o e n ta n to, o fa to form a l d a d istin çã o e n tre m e m b ros e n ã om e om b ros su b siste . Da í a cé le b re d e fin içã o: “ O s g ru p os é tn icos sã o ca te -g oria s a d scritiva s e d e id e n tifica çã o, q u e sã o u tiliza d a s p e los p róp rios a tore s e tê m , p orta n to, a ca ra cte rística d e org a n iza r a in te ra çã o e n tre os in d ivíd u os” (Ba rth 1976a :10-11).
-tá log o d e d ife re n ça s ob je tiva s, “ m a s som e n te a q u e la s q u e os p róp rios a tore s con sid e ra m sig n ifica tiva s” e m ca d a con te xto e sp e cífico (1976a :15; ê n fa se m in h a ). Ta m p ou co se d e ve p rocu ra r u m a lista im u tá ve l d e tra ços ou se p od e d ize r q u a is a s ca ra cte rística s q u e se rã o su b lin h a d a s e q u a is n ã o o se rã o: a lg u m a s se rã o u tiliza d a s com o sin a is e e m b le m a s d e d ife -re n ça , se ja com o “ d ia críticos” m a n ife stos (in d u m e n tá ria , lin g u a g e m e tc.) ou com o “ orie n ta çõe s d e va lore s b á sicos” (n orm a s d e m ora lid a d e e e xce lê n cia p e la s q u a is se ju lg a a a çã o). Tra ta se d e “ u m re cip ie n te org a n iza -cion a l ca p a z d e re ce b e r d ive rsa s p rop orçõe s e form a s d e con te ú d o n os d ife re n te s siste m a s sociocu ltu ra is” (1976a ). N ota se a q u i u m a ce rta q u a -lid a d e “ form a l” d o m od e lo: o q u e in te re ssa n ã o é o “ con te ú d o” cu ltu ra l, m a s o “ lim ite ” n e g ocia d o p e lo g ru p o e m con te xtos p re cisos, a o d e se n vol-ve r su a in te ra çã o com os d e m a is. O s a sp e ctos q u e a ssin a la m a fron te ira é tn ica p od e m m u d a r, m a s su b sistirá — a o m e n os e n q u a n to con ve n h a , co-m o ve re co-m os — a d icotoco-m ia e n tre co-m e co-m b ros e n ã o-co-m e co-m b ros.
O con se n so g ru p a l a re sp e ito d e cód ig os e va lore s n ã o costu m a se e ste n d e r a lé m d a s oca siõe s e sp e cífica s n a s q u a is se in te ra g e . Em ou tra s p a la vra s, só h á “ e tn icid a d e ” e m con te xtos b e m d e fin id os. Este a sp e cto “ d e ve se r g e ra l p a ra tod a s a s re la çõe s in te ré tn ica s” (Ba rth 1976a :18). N o e n ta n to, su b lin h a Ba rth , se e m a lg u m a s in te ra çõe s con cre ta s os d ia críti-cos à s ve ze s se a ce n tu a m , e m ou tra s su a m a n u te n çã o p od e se m ostra r “ in con ve n ie n te ” . Esta q u e stã o — a d e sa b e r o q u e é con ve n ie n te ou n ã o e a q u e m ca b e ju lg á -lo — é o p rob le m a ca p ita l.
O problema do ator racional
A sin g u la rid a d e d a a b ord a g e m d e Ba rth , n ã o só d a e tn icid a d e , m a s d e tod os os fe n ôm e n os socia is, n ã o a d vé m d e se u a p e lo a d e te rm in ism os n a -tu ra is n e m — a o con trá rio d o q u e fre q ü e n te m e n te se p e n sa — d o a sp e cto re la tivo ou form a l d a e tn icid a d e . O q u id n ã o é o va g o re cu rso a o a m b ie n -te ou à d e m og ra fia n e m a visã o “ re la cion a l” d o p e r-te n cim e n to g ru p a l — q u e , n a ve rd a d e , foi a n te cip a d a p or Eva n s-Pritch a rd , Du m on t e tod a a p lê ia d e e stru tu ra lista . O ce rn e é o q u e p od e ría m os ch a m a r d e “ p rob le m a d o a tor ra cion a l” . O u se ja , q u e m é o su je ito, o “ e u ” , ou m e lh or, o “ n ós” d a e tn icid a d e ; e , e m e sp e cia l, q u a n d o e p or q u e e le e n tra e m ce n a . Em u m a rtig o d e 1967, Ba rth e xp lica a m u d a n ça socia l n os se g u in te s te rm os:
Aq u ilo q u e a s p e ssoa s q u e re m ob te r, os fin s va ria d os q u e p e rse g u e m , forn e
e cológ ica s con d e n a m a lg u n s tip os d e con d u ta a o fra ca sso e re com p e n sa m
ou tros, e n q u a n to a p re se n ça d e ou tros a tore s im p õe re striçõe s e stra té g ica s e
op ortu n id a d e s q u e m od ifica m a s e scolh a s fa vorá ve is q u e a s p e ssoa s p od e m
fa ze r (Ba rth 1967:663).
Esta s lin h a s con tê m o g e rm e d e tod a s a s p re ocu p a çõe s b a rth ia n a s. Re a p a re ce a ve lh a p re ocu p a çã o com a sob re vivê n cia d o (com p orta m e n -to) m a is a p to, com o ê xito ou o fra ca sso d a a çã o q u e d e ve su p e ra r a s re s-triçõe s, ta n to n a tu ra is (e cológ ica s e d e m og rá fica s) q u a n to in te ra cion a is (os ou tros a tore s), im p osta s p e lo m e io. M a s a g ora o in te re sse se d e sloca p a ra o fa to d e q u e os con d icion a m e n tos in flu e m n ã o ta n to sob re o a tor, m a s sob re su a s a çõe s, su a s e scolh a s, su a s d e cisõe s, su a s con d u ta s. Esta s, e m ca d a con te xto e sp e cífico, con form e se a ju ste m a o m e io, com p orta m ou n ã o d e te rm in a d os “ b e n e fícios”9.
Inf luências
De te n h a m o-n os u m m om e n to p a ra d e ixa r b e m cla ro e m q u e con sis-te a ra cion a lid a d e d a fre e ch oice b a rth ia n a (Ba rth 1990). Tod a s a s e xp li-ca çõe s d e Ba rth p od e m se r tra d u zid a s com fa cilid a d e p a ra a lin g u a g e m d a s te oria s d a a çã o — ou , e m te rm os sociológ icos, p a ra u m a a n á lise q u e , a o b u sca r o “ se n tid o” d a con d u ta d o a tor in d ivid u a l, p a rte d e su a s m e ta s e e xp e cta tiva s. M a s n ã o se tra ta , a lé m d isso, d e q u a lq u e r a çã o, e sim d e u m m od o d e a g ir b e m d e te rm in a d o, loca liza d o, se m rod e ios, n o p la n o d a ra cion a lid a d e w e b e ria n a volta d a p a ra os fin s (Z w e ck ration e ll), d a “ ra zã o in stru m e n ta l” d e Pa rson s ou , re m on ta n d o u m p ou co n o te m p o, d a “ a çã o lóg ica ” d e Pa re to. Tra ta -se d e u m a a va lia çã o crítica b a se a d a n o cá lcu lo d e cu stos e b e n e fícios, n o in te rior d e u m con te xto e xp lícito d e m e ios e fi-n a lid a d e s (We b e r 1993; Pa rsofi-n s 1968). N e ssa ê fi-n fa se tã o m a rca d a fi-n a a ti-vid a d e ra cion a l d o in d ivíd u o, n e ssa d e fe sa siste m á tica d o p od e r d a ra cio-n a lid a d e e d a a çã o d os a tore s, cio-n e sse ch oq u e tã o frocio-n ta l cocio-n tra os d ive r-sos a va ta re s d o fu n cion a lism o, e n con tra m os u m u n ive rso coe re n te d e id é ia s, cu ja orig e m p od e m os ra stre a r e m p e lo m e n os trê s in flu ê n cia s in te le ctu a is d istin ta s. Essa s tra d içõe s, a p e sa r d e su a s p roce d ê n cia s a p a re n -te m e n -te d e scon e xa s, se a rticu la m d e m od o d e cisivo e m Ba rth .
su a a çã o10. Ta m b é m se p od e m e n cion a r a q u i a te oria d a e scolh a ra cion a l m a is sofistica d a , se g u n d o a q u a l os a tore s se re la cion a m p e rse g u in d o m e -ta s e sp e cífica s e b e m d e fin id a s, a o otim iza re m os m e ios, a va lia re m a lte r-n a tiva s, m a xim iza re m se u s p rob le m a s e ca lcu la re m cu stos e b e r-n e fícios.
Em se g u n d o lu g a r, ob se rva m os e m Ba rth tra ços cla ros d a in flu ê n cia p a rson ia n a . M a is p re cisa m e n te , d a te oria “ volu n ta rista ” d a a çã o (Pa r -son s 1968). Pa r-son s te n tou re con cilia r a a çã o in d ivid u a l e a e stru tu ra so-cia l, e m b ora , a cre r e m se u s críticos, te n h a te rm in a d o p or sa crifica r a p ri-m e ira n o a lta r d a se g u n d a . Ta lve z p a re ça e stra n h a e ssa re la çã o cori-m o sociólog o a m e rica n o, q u e é , a fin a l, u m a e sp é cie d e ca m p e ã o d o fu n cion a -lism o. C on tu d o, a cim a d os re q u isitos e d a s n e ce ssid a d e s d os siste m a s e d os su b siste m a s, a a çã o é , p a ra Pa rson s, u m a con d u ta ou u m com p orta -m e n to “ d irig id o” p or ce rtos sig n ifica d os, sí-m b olos ou va lore s a trib u íd os à s coisa s p e los a tore s, e a ca te g oria m a is im p orta n te d a a çã o é a in te ra -çã o, a “ a -çã o socia l” w e b e ria n a , a q u e la q u e le va e m con ta a s von ta d e s, a s n e ce ssid a d e s ou a s m e ta s d os ou tros a tore s. N os te rm os d e sse m a rco con ce itu a l, su p õe -se d e m a n e ira m a is ou m e n os im p lícita q u e a s d istin ta s e xp e cta tiva s se a ju sta m , ou (e m te rm os m a is m od e rn os) se n e g ocia m , ou (com o e stá e m m od a d ize r) se re in te rp re ta m m u tu a m e n te . Ap e sa r d o ca -rá te r a lg o in trin ca d o d a lóg ica p a rson ia n a , o q u e im p orta é q u e os a tore s d e Ba rth — os q u a is, e m b u sca d e d e te rm in a d a s m e ta s, e scolh e m ce rta s con d u ta s p a ra a lca n çá -la s, e n fre n ta n d o re striçõe s im p osta s p e lo m e io (n a tu ra l e socia l) — le m b ra m m u ito os “ a tore s” ou a s “ p e rson a lid a d e s” a q u e m ca b ia , n os u n it acts d e Pa rson s, le va r a d ia n te a a çã o socia l (i.e ., a s con fig u ra çõe s m ín im a s n a s q u a is ocorre a a çã o: m e io/ s con cre to/ s, fim / n s con cre to/ s, con d içã o/ õe s con cre ta / s) (Pa rson s 1968).
Em te rce iro lu g a r, n ã o p od e m os ig n ora r a loca liza çã o d a ob ra d e Ba rth d e n tro d a a n trop olog ia socia l b ritâ n ica ou , m a is p re cisa m e n te , d e n -tro d e u m a d e su a s ve rte n te s. N osso a u tor in scre ve -se e m u m a corre n te d e g ra n d e in flu ê n cia , q u e p od e m os re m on ta r a té M a lin ow sk i, p a ssa n d o, se m m a iore s p rob le m a s e xe g é ticos, p or Ra ym on d Firth e Ed m u n d Le a ch , m e n tor d o n oru e g u ê s e m C a m b rid g e .
con te xto a d e q u a d o, re con h e ce re m os q u e su a s a çõe s sã o tã o ra cion a is, ou a o m e n os tã o ra zoá ve is, q u a n to a s n ossa s. O ob je to d e e stu d o m a lin ow s-k ia n o é , p ois, o in d ivíd u o ra cion a l, q u e ca lcu la , a va lia e m a n ip u la a s p os-sib ilid a d e s e m se u p róp rio b e n e fício11. Pa ra a lé m d a s in ve stid a s con tra o H om o e con om icu s, e m Crim e an d cu stom in sav ag e socie ty o p olon ê s ta m -b é m o-b se rva : “ Q u a n d o o n a tivo p u d e r e va d ir su a s o-b rig a çõe s se m p e rd e r p re stíg io ou p re ju d ica r se u s g a n h os a lm e ja d os, e le o fa rá , e xa ta m e n te co-m o u co-m h oco-m e co-m d e n e g ócios civiliza d o” . Ve re co-m os log o coco-m o os tra b a lh os d e Ba rth re p e te m in te g ra lm e n te o a rg u m e n to: os líd e re s p a tta n tê m a s m e sm a s m otiva çõe s d e se u s h om ólog os ocid e n ta is e se com p orta m com o e le s; a fa m ília b a sse ri é e xa ta m e n te ig u a l à fa m ília ocid e n ta l e tc.
De ra íze s d u rk h e im ia n a s, a s te se s e stru tu ra lfu n cion a lista s m a is e xa -ce rb a d a s e n fa tiza va m , n a te rm in olog ia d e Ra d cliffe -Brow n , a s “ p e ssoa s” p or sob re os “ in d ivíd u os” . Em su a s ve rsõe s ” m á s” , e la s im a g in a va m u m m u n d o d e a u tôm a tos p a ssivos a ob e d e ce r ce g a m e n te a s n orm a s socia is. N a s va ria n te s “ b oa s” , ce le b ra va m a ra cion a lid a d e d os siste m a s. Lon g e d e tu d o isso, M a lin ow sk i e m u itos d e se u s d iscíp u los op ta ra m (com o b on s a tore s ra cion a is) p or se d e d ica r à a n á lise d a s te n sõe s e n tre os in te re sse s in d ivid u a is e a ord e m socia l, e stu d a n d o a a m b ig ü id a d e d a s re g ra s e a s con tra d içõe s e n tre d istin tos im p e ra tivos socia is, a n a lisa n d o a m a n ip u la -çã o in d ivid u a l d os siste m a s p olíticos e com p ra ze n d o-se com a ra cion a li-d a li-d e li-d a s e scolh a s, li-d a s e stra té g ia s e li-d a s op çõe s in li-d ivili-d u a is. Essa in flu ê n-cia é p a te n te n os tra b a lh os d e Ph iliys Ka b e rry, Au d re y Rich a rd s e Lu cy M a ir, p e sq u isa d ora s m a lin ow sk ia n a s d e p rim e ira h ora , e a in d a m a is e m Firth , cu jo in te re sse ob se ssivo p e la tom a d a in d ivid u a l d e d e cisõe s e ra p rove rb ia l (Firth 1949, Ku p e r 1983:134), e m Isa a c Sch a p e ra , cu ja a n á lise d a lid e ra n ça p olítica é se g u id a a o p é d a le tra p or Ba rth , e e m Ed m u n d Le a ch — o Le a ch d e se g u n d a a se xta -fe ira , o d e S iste m as p olíticos d a A l-ta Birm ân ia ou Pu l Eliy a, n ã o o e stru tu ra lista d os fin s d e se m a n a12. O m e s-m o se p od e ria d ize r d e b oa p a rte d a ob ra d e ou tros g ra n d e s a n trop ólog os d e C a m b rid g e : M e ye r Forte s e J a ck G ood y, q u e — m a is o se g u n d o q u e o p rim e iro — e stu d a ra m ca m p os e stru tu ra d os e m torn o d e re g ra s a m b íg u a s e p rin cíp ios con flitivos, n os q u a is os in d ivíd u os com p e te m , p rocu ra n d o m a xim iza r se u statu s, p re stíg io, p od e r ou in flu ê n cia .
O at or racional
a p e n a s n a con ce itu a çã o d a e tn icid a d e , re ve la n d o-se u m a con sta n te e m tod a s a s a n á lise s b a rth ia n a s. Isto p od e se r com p rova d o m e d ia n te os e xe m p los d o p a re n te sco, d a lid e ra n ça p olítica e d a te oria d a e tn icid a d e .
Em se u e stu d o sob re a a lia n ça e n tre os cu rd os (1954), Ba rth d e scre -ve o ca sa m e n to p re fe re n cia l com a p rim a p a ra le la p a trila te ra l (FBD). As n orm a s costu m e ira s e xp re ssa m e ssa p re fe rê n cia d e form a e xp lícita . C on -sid e ra n d o-se u m a d e te rm in a d a m u lh e r, se u s p rim os p a te rn os sã o os q u e tê m m a is d ire ito a se ca sa r com e la . Esse n íve l d e “ e n d og a m ia ” m ostra -se tã o a p rop ria d o d o p on to d e vista d a e tiq u e ta q u a n to con ve n ie n te d o p on to d e vista d a e con om ia d a lin h a g e m , p ois con se rva e m se u in te rior, se m d ivisõe s, a tota lid a d e d a p rop rie d a d e fa m ilia r. C om o “ p rivilé g io con se n su a l” , e sse s p rim os p a g a m u m p re ço m e n or p e la n oiva . Ba rth a p re -se n ta p rova s e sta tística s p a ra corrob ora r a a lta fre q ü ê n cia d a a lia n ça com a s p rim a s (Ba rth 1954:167).
M u ito b e m . O n oru e g u ê s p e rg u n ta -se e n tã o p or q u e Eg o, q u a n d o q u e r ca sa r su a filh a (a q u a l, d ig a -se d e p a ssa g e m , n ã o te m lá m u ita fre e ch oice n e ste ca so), “ d e cid e ” se g u ir o costu m e , “ d á -la ” a se u sob rin h o e b a ixa r se u p re ço, e m b ora p u d e sse p e rfe ita m e n te “ g a n h a r m a is” com a tra n sa çã o, e n tre g a n d o-a a ou tra p e ssoa . Em su m a , o q u e g an h a Eg o a o p e rd e r d in h e iro, d a n d o su a filh a a se u BS? A re sp osta e stá n o re forço d os la ços e n tre e le e se u s sob rin h os, n a m a n u te n çã o d a solid a rie d a d e d a li-n h a g e m p a te rli-n a : “ O p a i d a li-n oiva , a o d isp e li-n sa r o filh o d e se u irm ã o d e p a g a r o p re ço d a n oiva , cria u m a ob rig a çã o e fa z com q u e e ste d e va a p oiá -lo p olitica m e n te [...]. Esta tra n sa çã o p od e , e n tã o, se r p e n sa d a co-m o u co-m tip o d e troca d ife rid a ” (Ba rth 1954:168). O a rg u co-m e n to p a re ce , a ssim , se r u m a p e ça d a m a is p u ra ortod oxia fu n cion a lista . O b se rve se , con -tu d o: a q u ilo q u e n a te oria clá ssica a p a re cia com o u m a n e ce ssid a d e e s-tru tu ra l, com o u m re q u isito d o “ siste m a ” (o re forço d u rk h e im ia n o d o la ço socia l), tra d u zse a q u i e m m otiva çõe s p e ssoa is, cá lcu los d e g a n h os a lon -g o p ra zo, b u sca s d e b e n e fícios in d ivid u a is p or p a rte d os cu rd os13.
O d e sloca m e n to e m d ire çã o a o in d ivíd u o in te n sifica -se e m tra b a lh os p oste riore s. Em u m e stu d o p u b lica d o e m 1989, Ba rth a n a lisa a p rá tica d a te cn on ím ia . Q u a n d o os b a lin e se s u sa m te cn ôn im os,
[...] e m p re g a m ta l costu m e p a ra a g ra d a r a os org u lh osos p rog e n itore s d o p
ri-m og ê n ito re cé ri-m -n a scid o, d a n d o a te n çã o p a rticu la r a u ri-m e ve n to p e ssoa l a
q u e e sse s d ê e m m u ito va lor. M a is ta rd e , u sa n d o ta l n om e , re m e te rã o a e sse
te m p o fe liz e , a o m e sm o te m p o, p or m e io d a re cord a çã o com u m , e voca rã o
Dife re n te m e n te d o ca so cu rd o, com cu ja in te rp re ta çã o p od e m os con -cord a r e m a lg u n s p on tos, e ssa a n á lise e m te rm os tã o in g ê n u os d e p sico-log ia in d ivid u a l m e p a re ce in a ce itá ve l14. C on form e e n sin a a h istória d a a n trop olog ia , o se n tid o d e u m a n orm a n ã o se p od e e sg ota r n a s e xp e cta ti-va s e xp lícita s n e m n a s in te n çõe s con scie n te s d e se u s p ra tica n te s. Por e xe m p lo, n ã o é p re ciso a d ota r a s p e rsp e ctiva s h olística s (m a s con tra sta n -te s) d e u m Ra d cliffe -Brow n ou u m Lé vi-Stra u ss p a ra n os d a rm os con ta d e q u e os m e m b ros d e u m a socie d a d e n a q u a l se p ra tica o ca sa m e n to d e p rim os cru za d os p od e m fa zê lo com u m a a ssom b rosa re g u la rid a d e e sta -tística e , ao m e sm o te m p o, d e cla ra r com tota l d e se n voltu ra q u e se ca sa m com q u e m q u ise re m . Da m e sm a m a n e ira , n ã o é in com u m , m a s e xtre m a -m e n te fre q ü e n te , o fa to d e os -m e -m b ros d e u -m g ru p o q u e p ra tica a re sid ê n cia u xoriloca l “ e xp lica re m ” ta l n orm a com o u m p e ríosid o sid e p rova p a -ra o n ovo e sp oso-g e n ro. Em a m b os os ca sos, a s e xp lica çõe s n a tiva s n ã o e sg ota m o “ se n tid o” d a s n orm a s. Se g u n d o os e ve n tu a is ca p rich os d a s d istin ta s te oria s, o sig n ifica d o d e u m costu m e p od e se r e lu cid a d o p or m e io d e su a s re la çõe s com ou tros “ a sp e ctos” d o p róp rio siste m a d e p a re n te sco (n oçõe s sob re a filia çã o e a d e sce n d ê n cia , a on om á stica , a s p rá tica s d e re sid ê n cia , o e m p re g o d a te rm in olog ia cla ssifica tória ), com ou -tros a sp e ctos d a m e sm a cu ltu ra (p rá tica s ritu a is, a tivid a d e s p rod u tiva s, a lín g u a ) ou , in clu sive , com a s cu ltu ra s d a s socie d a d e s circu n d a n te s (com o e m ce rta s a n á lise s d e in sp ira çã o e stru tu ra lista ). Em d e fin itivo, tra ta -se d e re la cion a r u m fa to com u m a sé rie tã o lon g a q u a n to p ossíve l d e ra zõe s d e ord e m g e og rá fica , sim b ólica , e cológ ica , e con ôm ica ou h istórica , q u e se im p õe m a o in d ivíd u o — m a s, ce rta m e n te , ja m a is d e b a se a r a e xp lica çã o n a q u ilo q u e os a tore s crê e m ou d e se ja m q u e o d ito fa to se ja .
d e fin e u m jog o d e p osiçõe s e stru tu ra is: su rg e d o re su ltad o d as op çõe s in -d iv i-d u ais” (1990:4). É tã o cla ro, tã o e vi-d e n te o re in a -d o e xp lica tivo -d a fre e ch oice d o a tor, q u e m e d e ve m p e rd oa r a lon g a cita çã o:
O s in d ivíd u os sã o ca p a ze s d e p la n e ja r e re a liza r op çõe s e m te rm os d e u m in
-te re sse p riva d o e u m a ca rre ira p olítica p e ssoa l. N e s-te p on to, a vid a p olítica
d e Sw a t le m b ra a d a s socie d a d e s ocid e n ta is. M u itos d os in d iv íd u os p
olitica-m e n te ativ os e olitica-m S w at re con h e ce olitica-m a d istin ção e n tre o b e n e fício p riv ad o e o
g ru p al; e , q u an d o se d e fron tam com u m a d e cisão d e te rm in ad a, te n d e m a con
-sid e rar o p rim e iro acim a d o se g u n d o [...]. Assim , o siste m a d e au torid ad e —
e m te rm os d e re la çõe s d e d om in a çã o e d e su b m issã o, com o ta m b é m d e re
-cru ta m e n to d a s p e ssoa s n os g ru p os — con strói-se e se m an té m m e d ian te o
e x e rcício d e sé rie s con tín u as d e e scolh as in d iv id u ais (1990:2; ê n fa se s m in h a s).
A p ostu ra é cla ra : e m u m con te xto e m q u e tod os os a tore s p e rse g u e m su a s m e ta s in d ivid u a is, a “ p e rsp e ctiva p olítica ” é só “ u m m a rco d e m e ios e fin s, d irig id o a re u n ir p a rtid á rios e m b u sca d e ce rta s m e ta s d e se ja d a s” . A le a ld a d e , e m con se q ü ê n cia , “ n ã o se con ce b e ta n to com o a lg o a se ofe -re ce r a u m g ru p o, m a s com o o q u e os in d ivíd u os d ã o e m troca d e ou tros b e n e fícios” (Ba rth 1990:2). Ba rth ch e g a in clu sive a a firm a r: “ Tod a s a s re -la çõe s q u e im p lica m d om in a çã o sã o re -la çõe s d iá d ica s e d e n a tu re za vo-lu n tá ria ou con tra tu a l” (1990:2)15. A p olítica con siste n a a rte d e m a n ip u -la r ou ca n a liza r e ssa s re -la çõe s d iá d ica s p a ra cria r clie n te -la s, fa cçõe s ou g ru p os e fe tivos d e se g u id ore s (1990:3).
Em ou tro d e se u s livros, Ba rth a firm a q u e , e n tre os n ôm a d e s b a sse ri, “ tod o o a ca m p a m e n to” d e cid e d ia ria m e n te , p or con se n so, a on d e se tra s-la d a r ou q u a n d o m ig ra r. A tom a d a d e d e cisõe s “ é u m d os p roce ssos socia is fu n d a m e n ta is d a socie d a d e n ôm a d e ” (Ba rth 1986:43). M a s os p ra ze -re s d a fre e ch oice n ã o p a re ce m re p a rtir-se d e form a ig u a litá ria , e a lg u n s d e scob re m te re m m a is d ire ito ou força q u e ou tros p a ra re sp a ld a r su a s d e -cisõe s. Por e xe m p lo, su ste n ta -se q u e “ a a u torid a d e in te rn a n a fa m ília b a sse ri é m u ito sim ila r à d a fa m ília ocid e n ta l” (1986:15). C on tu d o, a p e -n a s u m a p á g i-n a d e p ois, a firm a -se : “ O le vira to e o sorora to sã o p ra tica d os q u a se se m e xce çã o, m e sm o con tra a von ta d e d a s m u lh e re s e n volvid a s” (1986:33). E d e scob rim os ta m b é m q u e , n a vid a cotid ia n a , a s tra n sa çõe s, a s n e g ocia çõe s, a coop e ra çã o e o in te rcâ m b io ocorre m , m a is q u e e n tre o h om e m e a m u lh e r b a sse ri, e n tre o h om e m e se u s a fin s m a scu lin os (1986:34).
sa , a id é ia d o con ta to, d o con tra ste ou d a re la çã o com os O u tros com o b a -se d a id e n tid a d e g ru p a l n ã o é n ova . Ate sta m -n o Eva n s-Pritch a rd e su a s cé le b re s lin h a s sob re o con ce ito d e cie n g ; Lou is Du m on t e se u tra b a lh o sob re a s ca sta s e a s id e olog ia s m od e rn a s; e u m a le g iã o d e e stu d os e stru -tu ra lista s (Du m on t 1987; 1975a ; 1975b ; Lé vi-Stra u ss 1971)16. N ã o só a n o-çã o d e id e n tid a d e re la cion a l foi cu n h a d a m u ito m a is ce d o d o q u e a te oria b a rth ia n a d a e tn icid a d e p re te n d e in sin u a r, com o se u p róp rio a u tor já a e m p re g a va a n te s d e d a r a con h e ce r su a a cla m a d a “ In trod u çã o” . N o e s-tu d o d o p a re n te sco, “ d e ve m os le va r e m con ta a con fron ta çã o ‘n ós-e le s’ con tid a n a in te ra çã o socia l e in ve stig a r com o a e xp e riê n cia d e q u e m sã o ‘e le s’ m old a a con ce p çã o q u e o a tor te m d e ‘n ós’” (1973:6), a firm a va Ba rth , e m u m tra b a lh o in clu íd o n o Fe stsch rift p a ra M e ye r Forte s.
De fin itiva m e n te , a id é ia d a id e n tid a d e re la cion a l n ã o é u m a d e sco-b e rta . N ã o osco-b sta n te , a n ovid a d e d a te oria sco-b a rth ia n a e stá n a ra zã o p e la q u a l a id e n tid a d e se “ a tiva ” ou n ã o e m d e te rm in a d os con te xtos. O a rg u -m e n to é si-m p le s. E-m ce rtos con te xtos, a “ e xp re ssã o” d a e tn icid a d e -m os-tra -se in con ve n ie n te : “ A fid e lid a d e a n orm a s d e va lor b á sica s n ã o se p od e ria su ste n ta r e m situ a çõe s e m q u e , com p a ra tiva m e n te , a p róp ria con -d u ta é tota lm e n te in a -d e q u a -d a ” (Ba rth 1976a :31). Em b om p ortu g u ê s: à s ve ze s, n ã o con vé m m ostra r a id e n tid a d e é tn ica . O m e io im p õe u m a e sp é -cie d e “ se le çã o n a tu ra l” d os d ia críticos, e com isso re torn a m os m a is u m a ve z à ra cion a lid a d e d os cu stos e d os b e n e fícios, a o cá lcu lo d e in stru m e n -tos e fin s, à s op çõe s, à s e stra té g ia s e à s e scolh a s d os a tore s in d ivid u a is. A con d u ta p ú b lica d e ve se r a va lia d a e m e stre ita re la çã o com a s a lte rn a ti-va s d isp on íve is n o a m b ie n te . Este é o corolá rio m e tod ológ ico. C om p re e n-d e r a e tn icin-d a n-d e é com p re e n n-d e r se u con te xto. O u m e lh or, os con te xtos re sp on sá ve is, e m ca d a ca so p a rticu la r, p or re q u e re r, p e rm itir, tole ra r ou d ire ta m e n te n e g a r su a e xp re ssã o: “ Um a com p re e n sã o d os m e ca n ism os re g u la d ore s d a id e n tid a d e é tn ica p a th a n d e p e n d e d e u m a com p re e n sã o d os fa tore s e sp e cia is q u e , e m a lg u n s ca sos, d e te rm in a m a in su ste n ta b ili-d a ili-d e ili-d a con se rva çã o ili-d e ssa iili-d e n tiili-d a ili-d e e a fa lta ili-d e in ce n tivos a e la ” (Ba rth 1976b :161). Ba rth form u la su a le i sociológ ica d a se g u in te form a :
E s t a id e n t id a d e só p od e se r con se rv ad a caso se p ossa con su m ar d e form a
m od e rad am e n te satisfatória; d o con trário, os in d iv íd u os re n u n ciarão a e la,
e m fav or d e ou tras id e n tid ad e s, ou a a lte ra rã o m e d ia n te u m a m od ifica çã o
d a s n orm a s p a ra a a trib u içã o d a id e n tid a d e (1976b :173-174; ê n fa se s m in h a s).
Te n te i d e m on stra r q u e , n a m aioria d as situ açõe s, é v an tajoso p ara os atore s
-d e e xiste u m a i-d e n ti-d a -d e a lte rn a tiva a o a lca n ce , o re su lta -d o con sistirá e m
u m trâ n sito d e p e ssoa l d e u m a id e n tid a d e a ou tra , e m b ora n ã o se e fe tu e a
l-te ra çã o a lg u m a n a s ca ra cl-te rística s d e statu s (1976b :175; ê n fa se s m in h a s).
Re vise m os u m e xe m p lo con cre to. N a fron te ira su l d e Sw a t, os Pa -th a n in te ra g e m com os Ba lu ch e . Se os p rim e iros se org a n iza m e m g ru p os d e d e sce n d ê n cia loca liza d os, os ou tros o fa ze m e m ch e fa tu ra s. As p a re n te la s p a th a n p ossu e m u m a e stru tu ra d ificilm e n te p e rm e á ve l a o re cru ta -m e n to d e e stra n h os; a s ch e fia s b a lu ch e s, flu id a s e e lá stica s, in corp ora -m com a vid e z n ovos m e m b ros (Ba rth 1976b :161-162). C on se q ü e n te m e n te , u m in d ivíd u o ou u m g ru p o p a th a n q u e se d e slig u e d e se u s vín cu los so-cia is op ta rá p or se a ssim ila r à e stru tu ra p olítica b a lu ch e , e m ve z d e fica r só (1976b :163). N o le ste , sã o ou tra s a s ra zõe s d a flu id e z é tn ica : a li os Pa th a n d e ve m tra ta r com g ove rn os forte s e ce n tra liza d os, q u e re com p e n sa m a d ip lom a cia , a su b m issã o e o com p rom isso, ca stig a n d o a d e sob e -d iê n cia e a a -d e sã o a u m a cu ltu ra con si-d e ra -d a a rca ica e ri-d ícu la : “ con ti-n u a r p re te ti-n d e ti-n d o se r p a th a ti-n ti-n ã o lh e s d a rá va ti-n ta g e m a lg u m a ” (1976b :169). Fin a lm e n te , n o n orte , os Pa th a n ta m b é m a b a n d on a m su a id e n tid a d e é tn ica , e m b ora p or m otivos d istin tos: a ssim ila n d o-se a os Ko-h ista n i, con se g u e m ce rto re sp e ito e a lg u m a in d e p e n d ê n cia (1976b :170-172). N o p rim e iro ca so, b u sca -se se g u ra n ça ; n o se g u n d o, o in g re sso e m u m a socie d a d e p e rce b id a com o m a is p od e rosa e rica e m op ortu n id a d e s; n o te rce iro, tra n q ü ilid a d e e ce rta a u ton om ia . As ca u sa s e os ob je tivos m u -d a m , m a s, p a ra o p a th a n -d e sa fortu n a -d o, o p roce -d im e n to é se m p re o m e m o: ob se rva n d o q u e su a id e n tid a d e lh e tra z d e te rm in a d os p rob le m a s, e s-tu d a e a va lia a s a lte rn a tiva s d isp on íve is e , fin a lm e n te , o p ta p e la m a is p rove itosa d e la s. Ba rth n ã o vê in con ve n ie n te a lg u m n o fa to — e , p or ve -ze s, o ce le b ra — d e q u e a e tn icid a d e a ca b e se n d o u n ica m e n te a ca p a ci-d a ci-d e ci-d e o a tor se livra r ci-d e la q u a n ci-d o lh e con vie r.
A concepção int eracionist a da sociabilidade
Fin a lize m os d e sta ca n d o com o e ssa ê n fa se m e tód ica n a on ip otê n cia d o a tor se tra d u z, com fa cilid a d e a la rm a n te , e m u m a con ce p çã o in te ra cio-n ista d o la ço socia l. Ad a m Ku p e r ob se rvou com o Ba rth , “ u m d os m e lh ore s a lu n os d e Le a ch , d e se n volve u ou tro te m a , d irig in d o su a a te n çã o p a ra a s e stra té g ia s in d ivid u a is e p a ra a m a n ip u la çã o d os va lore s, e e la b ora n d o u m m od e lo ‘tra n sa cion a l’ d a s re la çõe s socia is” (Ku p e r 1983:166). Firth d is-tin g u ia con ce itu a lm e n te a “ e stru tu ra socia l” (o siste m a d e con stra n g im e n-tos in stitu cion a is, sim b ólicos e d e con d u ta q u e lim ita m a s op çõe s d o in d i-víd u o) d a “ org a n iza çã o socia l” (o re su lta d o con cre to d a s e scolh a s fe ita s p e los a tore s, d e a cord o com ta is lim ita çõe s). N ã o sa tisfe ito e m p rivile g ia r cla ra m e n te a se g u n d a in stâ n cia , Ba rth le va o ra ciocín io u m p a sso a lé m , tra ta n d o-a com o “ ca u sa ” d a p rim e ira : “ C on sid e ro ra zoá ve l p e n sa r a s in s-titu içõe s ou os costu m e s socia is com o a a g re g a çã o com p le xa d e n u m e ro-sos m icroe ve n tos d e con d u ta , b a se a d os e m d e cisõe s in d ivid u a is m e d ia n te a s q u a is ca d a p e ssoa te n ta e n fre n ta r a vid a ” (1973:5). As op çõe s e a s e s-colh a s cotid ia n a s d os in d ivíd u os (“ org a n iza çã o socia l” ) a cu m u la m -se e con stitu e m , n o p róp rio p roce sso d a in te ra çã o, os n ovos la ços socia is (“ e s-tru tu ra socia l” )18. É cla ro q u e p a ra e le a s d e cisõe s e a s a çõe s d os in d iví-d u os sã o a “ ca u sa ” iví-d ire ta iví-d a socie iví-d a iví-d e . As p e ssoa s “ cria m ” o sig n ifica iví-d o d o é tn ico n a in te ra çã o socia l, ou m e lh or, e m cad a in te ra çã o19. O sig n ifica -d o, n e ssa s oca siõe s, se “ a ju sta ” re cip roca m e n te se g u n -d o a s e xp e cta tiva s m ú tu a s, ou m e lh or, se n e g ocia20. N ã o su rp re e n d e q u e Ba rth te n h a d e d ica -d o p e sq u isa s e sp e cífica s a o p rob le m a -d os e n tre p re n e u rs, p rom otore s p ri-vile g ia d os — e m su a op in iã o — d a m u d a n ça socia l (Ba rth 1967).
N o ca so p a rticu la r d a e tn icid a d e , Ba rth d á e sp e cia l ê n fa se a os a sp e c-tos su b je tivos ou volu n ta rista s d a a çã o: tra ta -se cla ra m e n te d e u m a q u e s-tã o d e a u tod e fin içã o (u m fa tor su b je tivo) e , n o m e lh or d os ca sos, d e d e fin i-çã o p or p a rte d os ou tros (u m fa tor, n o m á xim o, in te rsu b je tivo). Fora a in o-p e ra n te e colog ia , n ã o h á n otícia d e fa tore s ob je tivos, re striçõe s, con d icion a icion te s, coe rçã o, coa çã o. Asa d critica Ba rth com ra zã o: “ Su a id é ia d e org a -n iza çã o -n ã o é m a is q u e o fu -n cio-n a m e -n to, e m u m -n íve l su p e rior, d o m e sm o tip o d e con d u ta con tra tu a l e m a xim iza d ora d o in d ivíd u o” (Asa d 1972:79).
“ u tilid a d e s” ou a s “ fu n çõe s” d a s socie d a d e s, com o fa zia Ra d cliffe -Brow n . Ta m p ou co é d e g ra n d e se rve n tia ra stre a r u m a su p osta ra cion a lid a d e d o siste m a , com o p re te n d ia Pa rson s. O la ço socia l cria -se n a s d e cisõe s cotid ia n a s, n a s tra n sa çõe s p a rticu la re s e n tre in cotid ivícotid u os con cre tos q u e ca lcu -la m , ju lg a m e a va lia m os re su lta d os d e su a s a çõe s. A socie d a d e é u m a m e ra a d içã o, u m a g re g a d o e sta tístico, u m e p ife n ôm e n o d a s in te ra çõe s p a rticu la re s. O s h om e n s “ cria m ” ou “ con stroe m ” se u p róp rio m u n d o e , con se q ü e n te m e n te , o m od e lo p a ra e xp licá -lo d e ve se r “ g e ra tivo” :
De ve m os in corp ora r e m n osso m od e lo d e com o a cu ltu ra é g e ra d a ta n to u m
olh a r d in â m ico sob re a e xp e riê n cia , re su lta d o d a con stru çã o d e e ve n tos p e los
in d ivíd u os, com o u m olh a r d in â m ico sob re a cria tivid a d e , re su lta d o d a lu ta
d os a tore s p a ra su p e ra r a re sistê n cia p or p a rte d o m u n d o (Ba rth 1989:134).
M a is e sp e cifica m e n te , a socie d a d e é a som a e a re p e tiçã o d a s a çõe s ou con stru çõe s “ b e m -su ce d id a s” . Ba rth su p õe q u e a “ socie d a d e ” e ste ja n a m e n te d os in d ivíd u os con cre tos, n a form a d e m e ta s, ob je tivos, va lore s, n e ce ssid a d e s, e xp e cta tiva s. A a çã o socia l é p lore cisa m e n te a sa tisfa -çã o ou o cu m p rim e n to d e ta is n e ce ssid a d e s e m u m m e io d e in te ra -çã o, com p e tiçã o, coop e ra çã o ou a n ta g on ism o: “ a s p e ssoa s d e cid e m p a rticip a r d e u m g ru p o, le va n d o e m con ta a s re com p e n sa s q u e e sp e ra m ob te r [...] se a s re com p e n sa s fore m g ra n d e s, p od e se e sp e ra r q u e e sse com p orta -m e n to se ja i-m ita d o p or ou tros; se , p or se u tu rn o, os re su lta d os n ã o fore -m d e se já ve is p a ra o a tor, n ã o h a ve rá im ita çã o” (Ba rth 1967:668). O se n tid o d o é tn ico n e g ocia se e m ca d a in te ra çã o, q u a se com o u m a tra n sa çã o e n tre ig u a is. À e xce çã o d os fa tore s e cológ icos e d e m og rá ficos ou d a s m ú -tu a s e xp e cta tiva s d os a tore s, n ã o h á e stru -tu ra ou con d içã o e xte rn a a li-m ita r, ob stru ir ou se q u e r p e rtu rb a r a p le n a sob e ra n ia d a s p a rte s.
Palavras f inais
op orlh e a lg u n s re p a ros. As form u la çõe s b a rth ia n a s e n cob re m — ou m e -lh or, su ste n ta m -se sob re — u m a p e cu lia r con ce p çã o d a s re la çõe s e n tre o se r h u m a n o e su a vid a e m socie d a d e . N ã o p od e m os a ce ita r se m m a is a id é ia d e u m a tor q u e “ op ta ” ou “ e scolh e ” e m ca d a con te xto u m a id e n ti-d a ti-d e é tn ica , p a ra a b a n ti-d on á -la tã o log o e la lh e re su lte in con ve n ie n te21.
Em p rim e iro lu g a r, se ria p ossíve l in voca r com fa cilid a d e ca sos e m p í-ricos n os q u a is in d ivíd u os ou g ru p os se a fe rra m à su a id e n tid a d e é tn ica , m e sm o q u a n d o isso lh e s ca u sa p rob le m a s. A e tn icid a d e p od e ta m b é m e xp re ssa r, volu n tá ria ou in volu n ta ria m e n te , o statu s “ in fe rior” d e u m a m in oria e m fa ce d e u m a m a ioria , se m se r a b a n d on a d a , a p e sa r d e su a in -con ve n iê n cia e stra té g ica .
Em se g u n d o lu g a r, Ba rth d e scre ve u m a e sp é cie d e jog o d e a u tod e fi-n içã o, fi-n o q u a l a s op çõe s “ é tfi-n ica s” e xp re ssa ria m a “ id e fi-n tid a d e g e ra l m a is b á sica ” . Ap e sa r d e se ve r força d o a re con h e ce r q u e a id e n tid a d e é tn ica é “ im p e ra tiva ” (1976a :20), n osso a u tor n ã o d e se n volve e sse te m a . Pa ra d o-xa lm e n te , p re ssu p õe , a ssim , u m a tor q u e ca lcu la e ra cion a liza , m a s q u e , a o m e sm o te m p o, ca re ce d e m e m ória e d e ve e n fre n ta r a p e n osa ta re fa d e com e ça r d o ze ro e m ca d a in te ra çã o, se n d o in ca p a z d e p a ssa r d a s im p re -cisõe s in icia is d e ca d a e n con tro com o O u tro a a lg u m tip o d e a va lia çã o, in d u çã o ou e xp e cta tiva g e n e ra liza d a , a p ta a se rvir — ou con d icion a r — su a s in te ra çõe s fu tu ra s.
Em te rce iro lu g a r, o fa to d e a e tn icid a d e se r “ n e g ocia d a ” n ã o a im -p e d e d e -p od e r se volta r con tra os a tore s, “ con g e la n d o” ce rtos d ia críticos q u e — e m b ora Ba rth n ã o o q u e ira re con h e ce r — se se d im e n ta m com o re -q u isitos sin e q u a n on d e p e rte n cim e n to g ru p a l. O s g ru p os é tn icos re in ve n ta m se , e n ã o p re te n d o n e g a r ta l a firm a çã o, m a s isso n ã o é in com p a -tíve l com a id é ia d e o fa ze re m com b a se e m con d içõe s tra n sm itid a s, in sti-tu cion a is, tra d icion a is, q u e p od e m se r va riá ve is, m a s q u e e xiste m e se im p õe m à s d in â m ica s d e p e rte n cim e n to é tn ico. O a rg u m e n to d o n oru e -g u ê s é , com isso, con d u zid o d e volta a se u in côm od o p rin cíp io. A te oria d a e tn icid a d e n ã o se p od e b a se a r som e n te n o m om e n to “ cria tivo” (e ca rism á tico) d a con stitu içã o d a s fron te ira s é tn ica s, m a s d e ve ta m b é m con -te m p la r, n e ce ssa ria m e n -te , o p roce sso d e “ in stitu cion a liza çã o” d e sse s li-m ite s. Isso n os le va a u li-m n ovo p rob le li-m a . O s g ru p os d e d ica d os a “ n e g o-cia r” su a s e stra té g ia s e m ca d a in te ra çã o g e ra lm e n te n ã o d isp õe m , tod os, d os m e sm os re cu rsos p a ra fa zê -lo: a lg u n s sã o m a is ig u a is q u e ou tros e tê m m a is p ossib ilid a d e s d e m a te ria liza re m a s id e n tid a d e s q u e lh e s con -vie re m22. Ba rth ch e g a a in d ica r e ssa con d içã o, m a s a p e n a s in sin u a n d o-a a ca n h a d a m e n te e m su a s ob scu ra s “ le is e cológ ica s” . A e tn icid a d e é u m p roce sso a n cora d o e m con d içõe s h istórica s con cre ta s. O s g ru p os socia is im e rsos e m u m m e sm o a m b ie n te d e com p e tiçã o n e m se m p re sã o “ sim-b ióticos” ou “ com p le m e n ta re s” , e e n tre e le s h á d e sig u a ld a d e s d e p od e r im p ossíve is d e se re m ig n ora d a s ca so se p re te n d a re ve la r com o se fixa m su a s re sp e ctiva s id e n tid a d e s (Fe n ton 1999; Brion e s e Siffre d i 1989)23.
Ao d e fe n d e r a té a s ú ltim a s con se q ü ê n cia s a p rim a zia d o a tor, a o comb a te r os e n fe rru ja d os fa n ta sm a s d o fu n cion a lism o, a o ig n ora r d e licomb e ra d a -m e n te os siste -m a s, a s e stru tu ra s, a s h ie ra rq u ia s e tod a s a s re striçõe s p os-síve is, p a re ce q u e Ba rth p e rd e u a lg o p e lo ca m in h o. N ã o se p od e e sca p a r a u m a coe rçã o e xce ssiva sim p le sm e n te ig n ora n d o-a , n e m a e tiq u e ta n d o com o “ e colog ia ” . Em u m m od e lo n o q u a l a fre e ch oice d o a tor in d ivid u a l re in a sob e ra n a n a h ora d e e xp lica r a a çã o, tu d o fa z cre r q u e a e colog ia e n tra p e la ja n e la , p a ra sa lva r a fa lta d e con d icion a n te s socia is ou e stru tu -ra is — u m re cu rso q u a se d e se sp e -ra d o p a -ra e sta b e le ce r a lg u m tip o d e li-m ite e li-m situ a çõe s n a s q u a is a li-m e ra “ tra n sa çã o” , a “ e scolh a ” ou a “ n e g o-cia çã o” e n tre os g ru p os é tn icos ou os in d ivíd u os n ã o b a sta m p a ra com-p re e n d e r com-p rob le m a s sociológ icos con cre tos.
Re ce b id o e m 30 d e ju lh o d e 2003
Ap rova d o e m 28 d e ja n e iro d e 2004
Die g o Villa r é p e sq u isa d or-b olsista d o C on se jo d e In ve stig a cion e s C ie n tífi-ca s y Té cn itífi-ca s (C O N IC ET), Arg e n tin a . E-m a il: <d villa r@fu llze ro.com .a r>
Not as
* Ag ra d e ço a os se n h ore s Pa b lo Se n d ón e J osé Bra u n ste in , e ta m b é m a u m p a re ce rista a n ôn im o d e M an a, p or se u s va liosos com e n tá rios a u m a p rim e ira ve r-sã o d e ste a rtig o.
1 Q u a re n ta n a e d içã o e m e sp a n h ol; n a e d içã o orig in a l in g le sa sã o a p e n a s 29.
2 O s fa tos e m p íricos q u e su ste n ta m e ssa s a firm a çõe s sã o os q u e n osso a u tor
re p e tiria — in te g ra lm e n te , se m re toq u e s n e m p ru rid os — e m se u p oste rior e m e -n os ig -n ora d o e stu d o sob re a id e -n tid a d e d os Pa th a -n (Ba rth 1976b ).
3Pod e m os p e rg u n ta r q u e socie d a d e n ão ilu stra ria e sse p ostu la d o. De sd e a s
ve lh a s p olê m ica s sob re o tote m ism o a u stra lia n o, sa b e m os q u e , e m ca d a socie d a d e , a s form a çõe s sim b ólica s n e g a m , a firm a m , p roje ta m , re fle te m (p re e n ch e r a s la cu n a s com o ve rb o q u e se q u e ira ) ce rta s im a g e n s d o a m b ie n te ; ou , e m te rm os lé -v i- st r a u ssia n o s, q u e o “ b o m p a r a p e n sa r ” t e m a lg o a -v e r c o m o “ b o m p a r a c o-m e r” . N ã o é a p e n a s lóg ico, o-m a s tota lo-m e n te p re visíve l, q u e os N u e r e os Din k a , p ovos e m in e n te m e n te p a storis, a b u n d e m e m sím b olos re la cion a d os a o g a d o. M a s isso n ã o é tu d o. Por trá s d a in sistê n cia n os fa tore s “ té cn icos” , “ m a te ria is” e “ a d a p -ta tivos” com o ve ícu los p rivile g ia d os d o sim b olism o ritu a l, Ba rth a firm a q u e , a o te rm in a r a se d e n ta riza çã o força d a sofrid a p e los Ba sse ri, m u itos d e le s d e cid ira m volta r à rotin a n ôm a d e , “ a p e sa r d e isso n ã o lh e s con vir e m te rm os d e cu stos e b e -n e fícios” . Em ú ltim a i-n stâ -n cia , p ois, a s p róp ria s m ig ra çõe s n ão p o d e m s e r c o m-p re e n d id a s m-p or ra zõe s a d a m-p ta tiva s ou u tilitá ria s, e su a e xm-p lica çã o m-p rofu n d a d e ve se r ra stre a d a e m su a form a “ d ra m á tica ” e p le n a d e “ se n tid os im p lícitos” (Ba rth 1986:153). O u , e m ou tra s p a la vra s, m e d ia n te u m a le itu ra a n trop ológ ica tra d icio-n a l; com isso, tod o o b a ru lh o e m toricio-n o d e u m a “ p e rsp e ctiva e cológ ica ” se m ostra d e scon ce rta n te m e n te d e sp rop osita d o.
4 Por e xe m p lo, n ote -se a a m b iva lê n cia d e ssa fra se : “ Pa ra os Ba sse ri, in ve
s-tir tra b a lh o e m q u a lq u e r coisa q u e n ã o se ja cu id a r d os a n im a is ou sa tisfa ze r a s n e ce ssid a d e s im e d ia ta s p a ra a com od a r os m e m b ros d o g ru p o d om é stico re q u e re -ria form a s d e org a n iza çã o in e xiste n te s e n tre e le s” (Ba rth 1986:101).
5 Re cord e m os u m a ve z m a is os N u e r e os Din k a d e Eva n sPritch a rd e G od
-se s e cológ ica s d e Ba rth . Estu d os a in d a m a is a n tig os, com o o d e M a u ss e Be u ch a t sob re os e sq u im ós, con ce d e m à e colog ia u m a im p ortâ n cia ig u a l ou su p e rior à e n -con tra d a n a s m on og ra fia s b a rth ia n a s. Q u a lq u e r a m e rica n ista se p od e p e rg u n ta r o q u e o e n foq u e d e Ba rth te m d e e sp e cifica m e n te “ e cológ ico” , se com p a ra d o a ce r-tos tra b a lh os d e Ph ilip p e De scola ou , a in d a , à h oje m a is ou m e n os fu rtiva , m a s se m-p re in fa tig á ve l, “ e colog ia cu ltu ra l” n orte -a m e rica n a . É q u a se d e sola d or se ve r o p róp rio Ba rth re con h e ce r, n o p rólog o d e su a e tn og ra fia b a sse ri, q u a n d o re ve la a s m otiva çõe s p a ra a d ota r a “ orie n ta çã o e cológ ica ” , q u e “ a lg u m a s ra zõe s p od e ria m se r su b je tiva s e re fle tir m a is a s n e ce ssid a d e s p e ssoa is d o p e sq u isa d or q u e os re -q u isitos a n a líticos d o m a te ria l […] a lg u m a s fa ce ta s d a vid a n ôm a d e se m ostra m tã o su rp re e n d e n te s p a ra u m m e m b ro d e u m a socie d a d e se d e n tá ria […]” (Ba rth 1986).
6 Pa b lo Se n d ón su g e riu u m a le itu ra a lte rn a tiva d a e colog ia b a rth ia n a , loca
-liza n d o-a d e n tro d o a m p lo e sp e ctro d e e stu d os sob re socie d a d e s p a storis, n o q u a l a “ e colog ia cu ltu ra l” g oza a in d a d e g ra n d e p re d om in â n cia . N e sse con te xto, o m o-d e lo o-d o n oru e g u ê s op õe -se a os e n foq u e s re o-d u tore s q u e vê e m n a e colog ia o o-d e te rm in a n te tod op od e roso d a con d u ta h u rm a n a ; e , e rm con se q ü ê n cia , o q u e in te rp re -ta m os com o u m a in con sistê n cia p od e se r p e n sa d o com o u m a va n -ta g e m e xp lica ti-va (ve r Kh a za n ov 1994).
7 C on form e a ssin a la G ood y, a d istin çã o — virtu a lm e n te in e xiste n te n a s ciê n
-cia s so-cia is a n g lo-fra n ce sa s — e n tre “ socie d a d e ” e “ cu ltu ra ” é tip ica m e n te p a rso-n ia rso-n a (1995:146). C om o com p rova re m os, o fa to d e Ba rth te r sid o a lu rso-n o d e Pa rsorso-n s te ve su a s con se q ü ê n cia s.
8C h a m a a a te n çã o – m a is a in d a e m u m d iscíp u lo d e Pa rson s e e m a lg u é m
q u e d e n u n cia “ fa lh a s d e lóg ica ” (Ba rth 1976a :12) n o olh a r a lh e io — a su rp re e n -d e n te in te rp re ta çã o b a rth ia n a -d a s “ tip olog ia s” e -d os “ tip os i-d e a is” (1976a :11, 13, 24, 36). C a so se tra ta sse d e u m “ tip o” w e b e ria n o e m se n tid o e strito, a e q u a çã o u m a te rra = u m a e tn ia = u m a cu ltu ra = u m a lín g u a n ã o se ria u m a sín te se in d u tiva a re u n ir a s ca ra cte rística s q u e ce rtos g ru p os d e v e m te r p a ra se re m q u a lifica d os d e “ é tn icos” (e m su m a , a a ce p çã o d e se n tid o com u m : te m os u m a d e fin içã o g e ra l e ve m os log o se o ca so p a rticu la r se “ e n ca ixa ” n e la ). Tra ta r-se -ia , p e lo con trá rio, d e u m re cu rso h e u rístico, d e u m a con stru çã o m e tod ológ ica q u e e xa ce rb a ce rtos tra ços d o fe n ôm e n o p a ra log o cote ja r com e la o ca so p a rticu la r, d o q u a l se b u sca a p re e n d e r a sin g u larid ad e . Te n d o e m m e n te p re ocu p a çõe s com u n s a Dilth e y, Win -d e lb a n -d , Rick e rt, Som b a rt e Sim m e l, a sociolog ia w e b e ria n a b u sca va e scla re ce r a sin g u la rid a d e , n ã o a g e n e ra lid a d e d o fe n ôm e n o ou a “ in d ivid u a lid a d e ” (e n ã o o in d ivíd u o) q u e se con sid e ra va e m ca d a ca so (We b e r 1993; Be n d ix 1960; Pa rson s 1968; Aron 1985).
9 Por e xe m p lo, a te se d a b rilh a n te m on og ra fia sob re os líd e re s p a th a n é a