p ois ta n to re cob re a m a n e ira com o sã o d e sig n a d os p e la socie d a d e , com o o m o-d o com o o g ru p o sob q u e stion a m e n to se re con h e ce . N o e n ta n to, p a ra o a u tor, isto n ã o e lim in a os m e can ism os d e re -g u lação d o Esta d o e m re la çã o a e le e a e ssa m od a lid a d e d e re lig iã o, m a s a p e -n a s e xp re ssa ou tra con fig u ração d e q u e a re g u la çã o se re ve ste . A a u sê n cia d e u m a le g isla çã o g e ra l d e re g u la çã o d a s re lig iõe s p e lo Esta d o b ra sile iro fa z com q u e tod a s a s in icia tiva s d e m on itora -m e n to e con trole in stitu cion a l – in icia ti-va s q u e e n volve m a tore s d os ca m p os in te le ctu a l, ju ríd ico, re lig ioso e jorn a lís-tico – se re a lize m n os te rre n os e sp e cífi-cos d a s d ive rsa s con ju n tu ra s e m od a li-d a li-d e s. N e sse se n tili-d o, n e m os in te le ctu a is, re p e rcu tin d o u m a a g e n d a e sta b e -le cid a p e lo ca m p o socia l e m id iá tico, a lca n ça m u m d ista n cia m e n to d a p rob le -m á tica e -m q u e e stã o in se rid os. Ao se u m od o a ca d ê m ico, m a n tê m a fin id a d e s e p a rticip a m d a s m e sm a s p re ocu p a çõe s d e ou tros ca m p os q u a n to à n e ce ssid a d e d e e n q u a d ra m e n to d o fe n ôm e n o (:312). Q u a n to à q u e stã o d a re g u la çã o d o re lig ioso p e la socie d a d e m od e rn a , e n -q u a n to n a Fra n ça h á coord e n ação , n o Bra sil h á d isp e rsão, p a ra le m b ra r a clá s-sica visã o g ra m scia n a d a “ g u e rra d e p osiçã o” e “ g u e rra d e g u e rrilh a ” . C om isso, a IURD m u ltip lica su a s p e n d ê n cia s e m vá ria s e sfe ra s d a socie d a d e , m u ltip lica n d o ta m b é m su a visib ilid a d e e ltip a -re ce n d o “ e sta r e m tod a p a rte !”
O livro re su lta e m u m tra ta d o com su a s 456 p á g in a s com p a cta d a s e a com-p a n h a d a s com-p or u m a com-p rofu sã o d e n ota s q u e in d ica m e sm e ro e rig or n o tra b a lh o e con e cta m a a rg u m e n ta çã o d o a u tor com m ú ltip la s ob ra s d e re fe rê n cia . Em-b ora se ja le itu ra p a ra u m p ú Em-b lico m a is “ in te rn o” a o te m a , su a n a rra tiva , p or via d a re con stitu içã o d e u m a se q ü ê n cia d e con ju n tu ra s e fa tos, é e n volve n te e e s-cla re ce d ora . Pod e se r lid o a p a rtir d e
trê s e n tra d a s, u m a m a is g e ra l, q u e p ro-b le m a tiza o e sta tu to e o lu g a r d a re li-g iã o n a m od e rn id a d e à lu z d os ca sos fra n cê s e b ra sile iro, e ou tra s d u a s m a is con cre ta s, se rvin d o ta n to p a ra in te re s-sa r os e stu d iosos d o fe n ôm e n o “ n e w ag e ” q u a n to p a ra e n g rossa r a va sta e re ce n te lista d e tra b a lh os sob re a “ Ig re -ja Un ive rsa l d o Re in o d e De u s” . N o p ri-m e iro ca so, a cre sce n ta a u ri-m te ri-m a e ri-m g e ra l a ssocia d o a p ós-m od e rn id a d e , u m vié s volta d o p a ra cliva g e n s e m u m “ ca m-p o m in a d o” , m-p a ra re tom a r u m a im a g e m d e Pa tricia Birm a n ; e , n o se g u n d o, a cre sce n ta u m olh a r d ife re n cia d o a os e sq u e -m a s q u e vê e -m a IURD a -m p lifica n d o ce rta s ca ra cte rística s d e u m ch a m a d o n e op e n te costa lism o, p re fe rin d o tom á -la com o u m ca so e m b le m á tico q u e d e s p e rta d istin ta s p e rce p çõe s sob re a re g u -la çã o d o “ re lig ioso” n o Bra sil a tu a l.
Ap ós fin a liza r u m a d e n sa le itu ra , fi-ca u m a q u e stã o e coa n d o: a fora a a b or-d a g e m e m p re e n or-d ior-d a p or G iu m b e lli or-d e m a p e a m e n to d a d in â m ica d o “ ca m p o d e con trov é rsias” e d e su a re coloca çã o n o q u a d ro d a p rob le m á tica e n tre re li-g iã o e m od e rn id a d e , u m a a p re cia çã o m a is su b stan tiv a e d ire ta d os a sp e ctos e m jog o (m e sm o q u e , e p rin cip a lm e n te , a ca d ê m ica ) con se g u irá e sca p a r a o cír-cu lo in clu siv o d e sse ca m p o?
L’ESTOILE, Benoît de, NEIBURG, Fede-rico e SIGAUD, Lygia (orgs.). 2002. An-t ropologia, Impérios e EsAn-t ados nacio-nais. Rio de Janeiro: Relume Dumará/ FAPERJ. 295 pp.
Heloisa Pont es
De p a rta m e n to d e An trop olog ia d a Un ica m p
-ria d a id é ia a lg o in tra n q ü ila d e q u e ‘so-m os tod os n a tivos’ – p a ra se tra n sfor‘so-m a r e m u m a d a s rotin a s d e tra b a lh o m a is fe cu n d a s d a a n trop olog ia con te m p orâ -n e a . C u -n h a d a p or C lifford G e e rtz h á vin te a n os, e m se u e n sa io “ Th e w a y w e th in k n ow ” , e la p e rm itiu a u m a p a rce la d e a n trop ólog os in trig a d os com os con stra n g im e n tos q u e p e rp a ssa m a p rod u çã o d o p e n sa m e n to (e n ã o só d os ‘ou tros’) a le g itim id a d e in te le ctu a l n e ce s -sá ria p a ra tra ze re m p a ra d e n tro d a su a d iscip lin a ob je tos a té e n tã o re fra tá rios a u m a a b ord a g e m m a is e tn og rá fica . N ã o p or q u a lq u e r ca ra cte rística in trín se ca a e sse s ob je tos, m a s e m virtu d e d a d e m a rca çã o d a s se m p re a rb itrá ria s e con -tin g e n te s fron te ira s d iscip lin a re s e n tre a a n trop olog ia , a sociolog ia e a h istória . Assim , se con ce p çõe s m a is a la rg a d a s d o fa ze r a n trop ológ ico, com o a s e n u n -cia d a s p or M e rle a u -Pon ty, e n te n d ia m a a n trop olog ia n ã o com o u m re corte ou ca m p o d e in ve stig a çã o p a rticu la r, m a s, fu n d a m e n ta lm e n te , com o u m a m a n e ira d e p e n sa r q u e se im p õe q u a n d o o ob je -to é ‘ou tro’, o ce r-to, p oré m , é q u e h a via d om ín ios n os q u a is os a n trop ólog os n ã o se a ve n tu ra va m . En tre e le s, o d a p rod u -çã o cu ltu ra l d a s e lite s ‘ocid e n ta is’ e d e se u s cie n tista s.
Ve rd a d e ira lu fa d a d e a r fre sco p a ra m u itos, a id é ia d a e tn og ra fia d o p e n sa -m e n to p a re cia , p a ra ou tros, a rro-m b a r p orta s a b e rta s, visto se re m se u s p re ssu p ostos te óricos e d e sd ob ra m e n tos m e -tod ológ icos e le m e n ta re s p a ra os p ra ti-ca n te s d a sociolog ia d a cu ltu ra e d o con h e cim e con to, com o b e m m ostra m os tra -b a lh os d e Ra ym on d Willia m s, N or-b e rt Elia s e Pie rre Bou rd ie u – p a ra cita r u m a trin ca d e p rim e ira lin h a n a á re a . Q u e re la s d iscip lin a re s à p a rte , va le a p e n a su -b lin h a r, n o e n ta n to, o vig or d e ssa e mp re ita d a q u a n d o con d u zid a mp or a n tro -p ólog os d is-p ostos a e sca ra fu n ch a r os in te rstícios d a p rod u çã o cie n tífica e a ca
-d ê m ica . Lyg ia Sig a u -d , Fe -d e rico N e ib u rg e Be n oît d e L’Estoile , os org a n iza d ore s d e ssa m a is q u e b e m vin d a cole tâ n e a , fa ze m p a rte d e sse g ru p o d e a n -trop ólog os in te re ssa d os e m d e sve n d a r a s con d içõe s socia is, cu ltu ra is, in te le c-tu a is, p olítica s e in stic-tu cion a is q u e e s-tã o n a b a se d a con stitu içã o d a a n trop o-log ia e d e su a a tu a liza çã o e m ce n á rios n a cion a is ou im p e ria is d ive rsos.
ca m p o in te rn o d os se u s p ra tica n te s e a os d isp ositivos e sp e cíficos a cion a d os p e los Esta d os n a cria çã o e n a m a n u te n -çã o d a s in stitu içõe s n a s q u a is os a n tro-p ólog os a tu a m .
O con ju n to d e ca sos a n a lisa d os n o livro e vid e n cia a re la çã o d e d e p e n d ê n -cia m ú tu a e n tre a a çã o p olítica , a e la b o-ra çã o e im p le m e n ta çã o d e p olítica s e s-ta s-ta is p or p a rte d os a g e n te s d a a d m in is-tra çã o e a p rod u çã o d e con h e cim e n to sob re a s p op u la çõe s a d m in istra d a s. Es-tru tu ra l e e sEs-tru tu ra n te , a re la çã o e n tre os sa b e re s a n trop ológ icos e a con stru -çã o d o Esta d o va i se n d o p in ça d a p e los org a n iza d ore s p or m e io d e u m tríp lice e ixo a n a lítico. Em p rim e iro lu g a r, p e la a p re e n sã o d a n a tu re za d a s u n id a d e s p olítica s e m q u e stã o (Esta d os n a cion a is ou im p e ria is) e d e su a s im p lica çõe s n a d e fin içã o in te le ctu a l e n a form a ta çã o in stitu cion a l d a a n trop olog ia . Em se -g u n d o, p e lo e xa m e d a a rticu la çã o e n tre a con stitu içã o e o d e se n volvim e n to d a s tra d içõe s a n trop ológ ica s n a cion a is, e m su a in te rfa ce com os m od e los e sta ta is d e g e stã o d e p op u la çõe s sob se u e scru -tín io a n a lítico, e a q u e stã o cru cia l d a s a ssim e tria s d e p od e r d e ord e m d ive rsa q u e p on tu a m a circu la çã o in te rn a cion a l d e te oria s e p a ra d ig m a s d a d iscip lin a . Em te rce iro, p e la in ve stig a çã o d a s p osi-çõe s d e sfru ta d a s p or ca d a u n id a d e p olí-tica n o e sp a ço in te rn a cion a l, com o p rop ósito d e e n te n d e r com o a s tra n sform a -çõe s p rod u zid a s a o lon g o d o te m p o n o siste m a d e in te rd e p e n d ê n cia e n tre os Esta d os n a cion a is re ve rb e ra m n a a g e n -d a in te le ctu a l -d a s a n trop olog ia s e m te la .
Assim é q u e , se m p e rd e r d e vista a e sp e cificid a d e d a s d ive rsa s a n trop olog ia s e n foca d a s n o livro (b ra sile ira , m e xica n a , su la frica n a , fra n ce sa , n orte -a m e ric-a n -a e p ortu g u e s-a ), e st-a s, q u -a n d o ilu m in a d a s p e lo trip é a n a lítico sin te ti-za d o a cim a , n ã o se d e ixa m e n ca p su la r p e la d icotom ia sim p lista q u e te n d e a
e n xe rg á -la s com o n a cion a is ou m e tro-p olita n a s. Isto é , com o “ m e n ore s” e m e sca la e e m con te ú d o, n o ca so d a s p rm e ira s, e “ rm a iore s” , e rm e sca la e a rm b i-çã o te órica , n o ca so d a s se g u n d a s, tid a s com o sin ôn im os d e a n trop olog ia s in te r-n a cior-n a is. N a cior-n a l e m e trop olita r-n o, com o te rm os h istorica m e n te circu n scritos à d in â m ica p róp ria d o siste m a d e in -te rd e p e n d ê n cia e n tre os Esta d os n a cio-n a is, d ize m re sp e ito ta m b é m , com o m os-tra m os org a n iza d ore s, a o e scop o e a o a lca n ce p ossíve l d e q u e stõe s p e rse g u i-d a s p e la a n trop olog ia .
In sp ira n d o-se e m N orb e rt Elia s, m ostra m com o in flu ê n cia s in te le ctu a is d e ixa m d e a p a re ce r com o u m p rob le m a d e riva d o a p e n a s (o q u e e stá lon g e d e se r p ou co) d o m a ior ou m e n or a lca n ce d e id é ia s e p a ra d ig m a s e p a ssa m a se r e n te n d id a s ta m b é m com o re su lta d o d a a rticu la çã o e n tre os sa b e re s e a n a tu re -za p olítica d os Esta d os n o in te rior d os q u a is e le s se se d im e n ta m . C om e ssa d iscu ssã o, o ca p ítu lo in trod u tório d o li-vro con trib u i p a ra rom p e r com vá rios d os e sq u e m a s h a b itu a is d e p e n sa m e n -to, q u e , in te rn a liza d os sob a form a d e ju ízos d e va lor (d e d e n ú n cia s ou e n g a ja m e n to, n o p la n o d a p olítica , d e re p u -ta çõe s, ch a n ce la s ou m a ze la s, n o â m b i-to in te le ctu a l e cie n tífico), te n d e m a la n -ça r p a ra fora d a h istória , sob a form a d e ca te g oria s e sse n cia liza d a s, tu d o a q u ilo q u e só p od e se r a p re e n d id o e m re lação.
r-sid a d e é tn ica , lig a va -se a o ap arth e id e à s u n ive rsid a d e s d e lín g u a a fricâ n e r. A ou tra , u m a ra m ifica çã o loca l d a a n tro -p olog ia socia l b ritâ n ica , su b ord in a d a n o p la n o in te rn o, m a s vitoriosa q u a n to à su a in te rn a cion a liza çã o, op u n h a -se à p olítica g ove rn a m e n ta l e in te re ssa va -se , sob re tu d o, p e los d e b a te s ce n tra d os n a e stru tu ra e n a s tra n sform a çõe s so -cia is. C u ltu ra e e stru tu ra a d q u ire m , a li, sin a is a n ta g ôn icos. N ã o só e m virtu d e d e p rop osiçõe s in te rn a s a o ca m p o con ce itu a l d a d iscip lin a , m a s, fu n d a m e n -ta lm e n te , com o m ostra Ku p e r, e m ra zã o d o á sp e ro con fron to p olítico q u e fa zia com q u e tod os os con te n ciosos e stive s-se m n e ce ssa ria m e n te m a rca d os p e la p olítica d o Esta d o. O q u e e sta va e m p a u ta e ra m m a n e ira s d istin ta s d e q u a li-fica r a e sp e cificid a d e d a socie d a d e su l-a fricl-a n l-a , l-a n l-a tu re zl-a d os se u s p rob le m l-a s e a “ e n g e n h a ria ” socia l m a is a d e q u a d a p a ra re solvê -los. N e sse con te xto, n om e s e p a rte s torn a m -se ca te g oria s cla ssifi-ca tória s in trig a n te s, trossifi-ca s in te le ctu a is se tra n sform a m e m a lia n ça s p olítica s e te rm os q u e , a p rin cíp io, soa m ca ros a os a n trop ólog os, com o d ive rsid a d e cu ltu -ra l e é tn ica , se e n rije ce m sob cliva g e n s p olítica s.
O m e sm o con ju n to a m p lo d e q u e s -tõe s se rá p e rse g u id o, com re su lta d os a n a líticos d istin tos, p e los d e m a is tra b a -lh os d a cole tâ n e a . Be n oît d e L’Estoile , su ste n ta n d o a id é ia d a e xistê n cia d e u m a a fin id a d e e n tre ra cion a lid a d e a d -m in istra tiva e ra cion a lid a d e cie n tífica , ilu m in a a s re la çõe s e n tre o Esta d o colo-n ia l e o d e se colo-n volvim e colo-n to d os sa b e re s sob re a s p op u la çõe s in d íg e n a s, a p a rtir d o ca so d a África sob d om in a çã o fra n -ce sa , e n tre 1920 e 1950. O m a r Rib e iro Th om a s m ostra com o, e m Portu g a l, n ã o é p ossíve l se p a ra r rig id a m e n te u m a a n trop olog ia q u e tin h a com o ob je to a n a çã o d a q u e la q u e tin h a com o ob je to p re fe re n cia l o im p é rio. M e scla d os, os te r
-m os ‘n a cion a l’, ‘colon ia l’ e ‘i-m p e ria l a lu -d e m a q u i à con stitu içã o sim u ltâ n e a -d e sa b e re s colon ia is e a u m a sé rie d e e stu d os sob re a cu ltu ra p ortu g u e sa n o in te -rior d os q u a is a a n trop olog ia te ria u m p a p e l d e sta ca d o.
O m e sm o ocorre ria n o M é xico, só q u e n o â m b ito n a cion a l, com o re ve la C lá u d io Lom n itz a o e xa m in a r o lu g a r ocu p a d o p e lo con h e cim e n to a n trop oló-g ico sob re p op u la çõe s in d íoló-g e n a s, n a te oria e n a p rá tica d o n a cion a lism o m e -xica n o. C on tra p on d o-se à le itu ra d a h istória d a a n trop olog ia m e xica n a , q u e se re p e tiria e m u m ciclo in te rm in á ve l d e in corp ora çã o p e lo Esta d o, Lom n itz p rop õe se e xp lica r a s orig e n s, a e volu -çã o h istórica e o q u e e le e n te n d e com o a tu a l e sg ota m e n to d a tra d içã o m e xica -n a , e m ra zã o d o se u co-n fi-n a m e -n to a u m a a n trop olog ia n a cion a l. An ton io C a rlos d e Sou za Lim a , p or su a ve z, p ro-cu ra e n te n d e r com o se a rtiro-cu la ra m , n o ca so b ra sile iro, a s tra d içõe s d e sa b e r d e g e stã o d o ín d io, e sp e cia lm e n te a q u e la forn e cid a p e lo in d ig e n ism o m e xica n o, e os sa b e re s a n trop ológ icos q u e se fir-m a ra fir-m a p a rtir d a in stitu cion a liza çã o a ca d ê m ica e u n ive rsitá ria d a a n trop olo-g ia socia l n o p a ís. Dife re n te m e n te d o q u e ocorre u n o M é xico, o in d ig e n ism o b ra sile iro, con sid e ra d o com o sa b e r d e Esta d o a p lica d o à g e stã o d a s socie d a d e s in d íg e n a s, a fa stou se d e fin itiva m e n -te d a a n trop olog ia socia l.
n o siste m a d e in te rd e p e n d ê n cia d a s n a -çõe s. Assim , Fe d e rico N e ib u rg e M a rcio G old m a n m ostra m com o, re strita , d e in ício, a te m a s, q u e stõe s e ob je tos loca -liza d os d e n tro d e su a s fron te ira s n a cion a is (ícion d ios, cion e g ros, im ig ra cion te s, p e q u e n a s com u n id a d e s ru ra is e g ra n d e s cid a -d e s), a a n trop olog ia n orte -a m e rica n a , a o m e sm o te m p o q u e in ve n ta u m n ovo ob je to te órico, os e stu d os sob re o “ ca rá -te r n a cion a l” , con h e ce , n o con -te xto d a Se g u n d a G u e rra , u m n ovo d om ín io d e a p lica çã o p a ra e le s: a p olítica e xte rn a . O s Esta d os Un id os d e ixa m d e se r o ‘-ca m p o’ p rivile g ia d o d os a n trop ólog os e m u m m ovim e n to in ve rso a o q u e se ob -se rva va n o m e sm o p e ríod o n o M é xico.
A in te rn a cion a liza çã o d a a n trop olo-g ia n orte -a m e rica n a fu n cion a com o u m e sp e lh o in ve rtid o p a ra a a n trop olog ia fra n ce sa , q u e , a p e sa r d a força in te le c-tu a l e d a re con h e cid a in flu ê n cia d e se u s p rota g on ista s m a is b rilh a n te s, te n -d e ca -d a ve z m a is a se r e m p u rra -d a p a ra a p e rife ria d os d e b a te s. De u m a a n trop olog ia m e trotrop olita n a , re strop on sá ve l trop e -la cria çã o e a tu a liza çã o d e a lg u m a s d a s ve rte n te s te órica s m a is vig orosa s, e la p a re ce , h oje , se g u ir a s trilh a s d a s ch a -m a d a s a n trop olog ia s n a cion a is. C on s-tra n g id a a re d ire cion a r o foco d e se u s in te re sse s p a ra d e n tro d a s fron te ira s fra n ce sa s, é força d a a e n fre n ta r ve lh os fa n ta sm a s, com o n os m ostra Flore n ce We b e r, p on d o a n u u m p e ríod o com p le -xo d a h istória in te le ctu a l fra n ce sa , o g ve rn o d e Vich y, d u ra n te o q u a l a e tn o-log ia fin cou b a n d e ira s p a ra d e m a rca r a su a d ife re n ça e m re la çã o a os folcloris-ta s e re g ion a lisfolcloris-ta s.
O re sta n te d o livro a n a lisa o im p a cto e os d e sd ob ra m e n ctos d e n ova s d e -m a n d a s p olítica s p ro-m ovid a s p e la so-cie d a d e civil ou p e lo Esta d o n a cria çã o d e n ovos m e rca d os d e tra b a lh o e d e in -te rve n çã o p a ra os a n trop ólog os. J org e Pa n ta le ón e xa m in a a s im p lica çõe s d a
cre sce n te p a rticip a çã o d e a n trop ólog os la tin oa m e rica n os n o ca m p o d a s org a -n iza çõe s -n ã o-g ove r-n a m e -n ta is e e m a g ê n cia s n a cion a is e in te rn a cion a is d e d e se n volvim e n to. J oã o Pa ch e co d e O li-ve ira a n a lisa os riscos, os d e sa fios e os p a ra d oxos e n fre n ta d os p e los a n trop ólo-g os q u a n d o sã o ch a m a d os p or a ólo-g ê n cia s d o Esta d o a in te rvire m com o p e ritos e m q u e stõe s lig a d a s à d e fin içã o d e g ru p os é tn icos e à d e lim ita çã o d a s b a se s te rri-toria is d a s socie d a d e s in d íg e n a s. Por fim , Alb a Be n sa a p re se n ta u m a su g e stiva re fle xã o sob re os re su lta d os d a cola -b ora çã o e n tre u m a n trop ólog o (e le p ró-p rio) e u m a rq u ite to d e va n g u a rd a , com re n om e in te rn a cion a l (Re n zo Pia n o), e m p e n h a d os a m b os e m re sp on d e r com su a s re sp e ctiva s lin g u a g e n s – a n trop o-lóg ica e re la tivista , e m u m ca so, a rq u ite tôn ica e e sté tica , n o ou tro – a os d e sa -fios p ostos p e lo e sp in h oso e fa scin a n te tra b a lh o d e “ tra d u zir” a cu ltu ra k a n a k (N ova C a le d ôn ia ) e su a s con ce p çõe s d e m u n d o n a s form a s p lá stica s q u e se ria m im p re ssa s n o tra ça d o d o C e n tro C u ltu ra l Tija b ou , u m a re a liza çã o d a p olítica cu l-tu ra l d o m ovim e n to n a cion a lista k a n a k .
N e sse p e n sa r a a n trop olog ia e m re -la çã o a d e m a n d a s p olítica s d e ord e m va ria d a e a os con te xtos n a cion a is ou im p e ria is q u e a con form a m e m ch a ve s d ive rsa s re sid e o m é rito m a ior d e sse livro in te lig e n te e b e m a rm a d o. N o e n -ta n to, con form e va m os n os in te ira n d o d a s a g e n d a s in te le ctu a is e d os vá rios form a tos in stitu cion a is q u e a d iscip lin a re ce b e u n os d ive rsos ce n á rios a n a lisa -d os, som os te n ta -d os a p ôr ta m b é m e m q u e stã o a p róp ria n oçã o d o q u e se ja a n -trop olog ia .
-ciclop é d ia ch in e sa d e Borg e s. N ã o p or-q u e e la n os con d u za à im p ossib ilid a d e d e p e n sá la , m a s p orq u e n os le va a d u vid a r q u e se ja n e ce ssá rio a in d a m a n -te r u m a ú n ica n om e n cla tu ra p a ra u m a p rá tica in te le ctu a l tã o d ive rsa com o a d e la . Em fa ce d a s g rita n te s d ife re n ça s te órica s, e m p írica s e in stitu cion a is q u e e xp lica m su a tra je tória e a tu a liza çã o – e q u e sã o tã o b e m a n a lisa d a s n o livro –, s e r á q u e a s c o n t in u id a d e s a in d a s ã o forte s o su ficie n te p a ra con tin u a rm os a in sistir n a su a id e n tid a d e d iscip lin a r? O q u e h á d e com u m , p or e xe m p lo, e n t r e a a n t r o p o lo g ia p o r t u g u e s a n o p e -r ío d o d o s a la z a -r is m o – p -r a t ic a d a n a s h ora s va g a s p or m é d icos, b iólog os, m ission á rios, a d m in istra d ore s e a té m e s m o m ilita re s q u e se d izia m a n trop ólo g o s – e a q u e la q u e , s e n d o u m d e s d o b ra m e n to d a e scola sociológ ica fra n ce -sa , d e corte u n ive rsitá rio e a ca d ê m ico, a p a rtou o folclore d e se u h orizon te ? O q u e a fin a l é isto q u e te im a m os e m con -t in u a r a c h a m a r d e a n -t r o p o lo g ia n o sin g u la r?
LOPES DA SILVA, Aracy, NUNES, Ange-la e M ACEDO, Ana Vera (orgs.). 2002. Crianças indígenas: ensaios ant ropo-lógicos.São Paulo: Global. 280 pp.
Flávia Pires
Dou tora n d a , PPG AS/ M N / UFRJ
O livro Crian ças in d íg e n as: e n saios an -trop ológ icos é u m a te n ta tiva d e rom p e r com m a is u m d os ta n tos “ ce n trism os” q u e a ssom b ra m a a n trop olog ia . Se a s cria n ça s fora m p or ta n to te m p o tra ta d a s com o a d u ltos e m m in ia tu ra , isso n ã o se d e ve u a u m a ca ra cte rística p róp ria d a in fâ n cia , m a s sim a u m a p ostu ra “ a d u l-tocê n trica ” , n a s p a la vra s d e An g e la N u -n e s, p re d om i-n a -n te a o lo-n g o d a h istória
d a s ciê n cia s socia is. Se n u n ca fora a tri-b u íd a a g ê n cia à s cria n ça s, n ã o é p orq u e e sta s fosse m m e ros re p rod u tore s d a so-cie d a d e a d u lta , m a s p orq u e h a via u m com p le to d e scon h e cim e n to d a s e sp e cificid a d e s d o m u n d o in fa n til. N e sse se n -tid o, o livro filia -se e xp licita m e n te a u m p roje to in te le ctu a l e m te rm os d o q u a l a s cria n ça s d e ve m se r tra ta d a s com o su je itos socia is com p le itos e in te rlocu tore s le -g ítim os d o p e sq u isa d or. A con stitu içã o d e ste p a ra d ig m a e ste ve a ssocia d a à p rolife ra çã o d os e stu d os sob re cria n ça s e m con te xtos u rb a n os, in d u stria is e g lo-b a liza d os, p rin cip a lm e n te n a Eu rop a (:12-15); p rocu ra n d o e ste n d ê -lo, e ste li-vro forn e ce u m a p orta d e e n tra d a a os e stu d os sob re cria n ça s e m con te xtos in d íg e n a s (e m b ora os ca p ítu los b ib liog rá -ficos d a se g u n d a p a rte fa le m ta m b é m d e ou tros con te xtos). A p rim e ira p a rte d a cole tâ n e a é com p osta p or se te a rti-g os, tod os b a se a d os e m p e sq u isa d e ca m p o e m socie d a d e s in d íg e n a s (Xa -va n te , Ka ia p ó-Xik rin , G u a ra n i, Ka iow á , Asu rin i) e orie n ta d os p e lo p roje to d e con stitu içã o d e u m a a n trop olog ia d a cria n ça ou d a in fâ n cia .