3 A TEORIA DO PODER EM MICHEL FOUCAULT E SUA
3.4 Teoria da Proteção Integral e manifestações de poder
3.4.1 A categoria governamentalidade e o Código de Menores
O Código de Menores visava regularizar a vida dos “menores”, a infância empobrecida, quando ultrapassavam o limite da “normalização”. No âmbito do Direito da Infância, em oposição ao Direito da Criança e do Adolescente, o conjunto de direitos estava voltado para aqueles que os adultos tinham sobre as crianças. Nesse ponto se assemelha a concepção foucaultiana de governamentalidade, de normalização das condutas e das subjetividades, do governo sobre o outro. Lima (2014) ao analisar o tema, afirma que há muitos conflitos e usos contraditórios por parte dos operadores da lei que substituiu a legislação menorista, o Estatuto da Criança e do Adolescente. E em sua análise para a compreensão das ações do Conselho Tutelar, discute se o órgão pode ser considerado um espaço de onde se produz e reproduz uma forma de governo, isto é, se seria um dispositivo que visa à governamentalidade da infância e adolescência e sua normalização.
Ao desenvolve seu arsenal categórico acerca do poder, Foucault o fez para compreender a doença, a loucura e a prisão, identificadas como formas de disciplinamento e aprisionamento dos micro-corpos individuais. Ao aprimorar sua teoria para uma análise mais global, concebeu o conceito de bio-política ou bio-poder, que se articula com o de poder disciplinar, já que a ideia corresponde à aparição do poder sobre a vida da comunidade. Assim, defendemos que as representações do menorismo na legislação e nas práticas de seus operadores, se enquadram também nas categorias de bio-poder e poder disciplinar, com fins de controle.
A categoria mais conhecida de sua obra, o panoptismo, conceito que o autor retoma, nome do cárcere projetado por Jeremy Bentham em 1791 e que serve à sua visão de “vigilância generalizada” (FOUCAULT, 2014, p. 228), está diretamente ligado ao menorismo, pois de acordo com essa ideia, a ela estão submetidos todos os indivíduos nas sociedades disciplinares, em um contínuo processos de sujeição das forças e dos corpos (FOUCAULT, 2014, p. 241). Essa forma de Foucault explicar a sociedade liberal do seu tempo permite correlacioná-la com a Teoria da Situação Irregular, em que o aspecto decisório das políticas públicas para a infância estavam centralizados na figura do Juiz de Menores, como claro objetivo de “regular através da judicialização” as questões sociais.
Alessadroni (2016) entende que o panóptico provoca a asfixia e o aniquilamento da diferença, e aqui defendemos, estar diretamente ligado ao menorismo, especialmente se considerarmos a forma imposta para a organização das políticas para crianças e adolescentes, que no paradigma anterior tinham foco em uma estrutura piramidal e hierárquica, bloqueando
a interferência de atores externos ao Estado, movimento que só foi possível com a incorporação normativa do paradigma protetivo, onde a ênfase está na atuação em rede de atores institucionais e sociais, abrindo a possibilidade para a criação do Conselho Tutelar.
Há bastante conexão entre a visão de Foucault e o desenvolvimento normativo que culminou na positivação da Teoria da Proteção Integral no interior da Constituição de 1988. A “Campanha Criança e Constituinte”41, no bojo da Assembleia Nacional Constituinte de 1987,
mobilizou e provocou o debate nacional sobre o tema da criança e do adolescente, resultando, naquele momento, no nascimento de dois grupos em torno do tema da infância: os menoristas e os estatutistas, cujo resultado das discussões se concretizou no produto legislativo quanto à matéria. No caso do Estatuto da Criança e do Adolescente não foi diferente, na verdade essa dinâmica foi mais acirrada, pois envolveu a mudança de um período da história do país, em transição para a democracia, com reflexos na alteração dos paradigmas sócio-normativos informadores do então Direito da Criança e do Adolescente. Considerando o próprio processo legislativo como uma construção que envolve poder, a lei é o resultado desse embate entre forças políticas e sociais de um dado momento histórico.
As posições defendidas, notadamente marcadas por pontos de vista e ações opostas em relação à situação de vida e desenvolvimento da infância nacional, geraram como produto final a incorporação no texto constitucional de uma Teoria da Proteção Integral mitigada, com traços de menorismo e que se refletiram na legislação infraconstitucional, no Estatuto da Criança e do Adolescente.
A noção de governamentalidade em Foucault está diretamente ligada ao debate nacional travado na esfera pública, de governar a infância, sob a forma e através de instrumentos de disciplina conformadora ou punitiva previstos no Código de Menores. A proteção integral buscou substituir tais ações e práticas, para a instituição de um novo agir nas políticas públicas para esse público. Pode-se dizer que a matriz protetiva traduz um conjunto de princípios e valores morais no trato da criança e do adolescente, mas que, de acordo com a concepção foucaultiana de ética, considerada pelo filósofo como uma consequência imaginaria da lógica política para o funcionamento econômico-social, a proteção integral seria apenas uma utopia legislativa, sem exequibilidade, e que a ênfase em uma atuação democrática, descentralizada e em rede não representa de fato a verdade da sociedade, trazendo como consequência a desarmonia entre poder direito e poder verdade.
41 A campanha foi deflagrada pelo Ministério da Educação, decorrente da criação, em 1986, da Comissão
Nacional Criança e Constituinte, por meio da Portaria Interministerial nº 449, de setembro de 1986, resultante da articulação entre os Ministérios da Educação, Justiça, Previdência e Assistência Social, Saúde, Trabalho e Planejamento, contando também com a participação de entidades da sociedade civil (BRASIL, 2003).
3.4.2 Entre o poder como verdade e o poder como direito: o Estatuto da Criança e do