A PANDEMIA DA COVID-19

No documento VISÕES INTERDISCIPLINARES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS VOL. 1 (páginas 119-124)

LIBERDADE INDIVIDUAL VS. BEM COMUM

1. A PANDEMIA DA COVID-19

No final do ano de 2019 a cidade de Wuhan, na República Popular da China, registrava os primeiros casos de pneumonia, decorrentes de uma nova cepa de coronavírus. A Organização Mundial da Saúde (OMS) foi alertada e começou a estudar o novo vírus, na tentativa de erradica-lo e evitar sua propagação e disseminação. (OPAS, 2021).

Mesmo após as últimas emergências de saúde pública, como a pan-demia de H1N1 e as epipan-demias de Ebola e Zika, o novo coronavírus se mostrou extremamente contagioso e não foi fácil controlar a extensão que a, até então, epidemia tomaria. O desenvolvimento da ciência não foi tão rápido quanto o avanço do vírus; em março de 2021, a Co-vid-19 (doença causada pelo vírus), foi caracterizada pela OMS como uma pandemia, se espalhando por muitos países e regiões do mundo.

(OPAS, 2021). Contudo, o assunto ultrapassa a seara médica ou bioló-gica, gerando problemas sociais, políticos e até mesmo econômicos em todo o mundo. Além da falta de preparo logístico, os países também não estavam moralmente preparados para enfrentar uma nova pande-mia. (SANDEL, 2020, p. 5)

Além dos danos à saúde, o vírus exigiu que as pessoas ficassem em casa, se distanciassem umas das outras, se afastassem de seus trabalhos, resultou em diversos prejuízos para a sociedade, como aumento do de-semprego e perdas salariais. Coincidindo os conceitos de solidariedade e distanciamento. (SANDEL, 2020, p. 6).

As dificuldades trazidas pelo novo coronavírus ao Brasil ultrapassa-ram questões de saúde pública ou economia, atingindo até mesmo a edu-cação, com grandes prejuízos ao aprendizado das crianças e adolescentes que se virão afastados das escolas por mais de um ano.

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1.1. PASSAPORTE DE IMUNIZAÇÃO

Hoje, após um ano e meio do início da pandemia, já há tempo hábil para o desenvolvimento científico e testagem de medicamentos e vacinas, evidenciando ainda mais questões éticas, morais e de direitos humanos.

Com todo esse avanço, na busca de uma reabertura do comércio e das fronteiras, muitos países veem na vacinação uma esperança para que tudo volte à normalidade.

De acordo com o site da CNN (2021), países como Israel, União Europeia, Áustria, Dinamarca, Eslovênia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Holanda, Portugal, Japão e Coreia do Sul, estão adotado o passaporte de imunidade. Os Estados emitem do-cumentos que atestam a vacinação do indivíduo, garantindo que este não vá adquirir ou transmitir o vírus, estando apto a frequentar determinados lugares, ou a retornar ao trabalho.

No Brasil, a cidade de São Paulo chegou a anunciar que exigiria o comprovante de vacinação para qualquer pessoa que frequentasse eventos, shoppings e restaurantes, mas o projeto não se efetivou. (G1, 2021).

Inicialmente, o passaporte da vacina pode parecer uma boa ideia, ten-do em vista que assegura o controle da ten-doença, e o estímulo a vacinação.

Entretanto, se pensarmos mais sobre o assunto, por serem medidas ine-ficazes e até mesmo invasivas, podendo ser uma forma de privação de liberdade da população, segregação, discriminação e desrespeito aos di-reitos humanos. Além disso, a vacinação não é garantia de imunidade, nem proteção contra a transmissão ou contra variantes do vírus. A própria OMS afirmou que a ação somente será justa quando todos tiverem acesso a vacinação, como é o caso da exigência da vacina contra a febre amarela, já cobrada em diversos países e estados brasileiros.

Com projetos tramitando no Congresso Nacional brasileiro, o pas-saporte nacional da imunização foi defendido por alguns especialistas no plenário, alegando que estimula o avanço da vacinação, favorecendo uma retomada econômica.

1.2. ECONOMIA

O cononavírus chegou nas Américas depois de devastar a China e a Europa, e sem o devido preparo a proliferação foi inevitável e imprevisível.

ROSÂNGELA TREMEL (ORGS.)

Apesar do vírus ter iniciado em dezembro de 2019, só chegou ao Brasil em fevereiro de 2020, avançando deliberadamente e a única opção do go-verno foi o isolamento social e o fechamento do comércio.

Com o fechamento do comércio houve uma queda brutal na ativi-dade econômica, pois todos os serviços estavam suspensos até segunda ordem, apenas as atividades essenciais estavam mantidas. Supermercados, farmácias, postos de combustíveis e hospitais, eram os únicos comércios funcionando nas cidades de todo o Brasil, e ainda assim com muitas res-trições. Aos poucos foi sendo autorizada uma reabertura, e as atividades foram voltando ao normal, ainda com restrições de distanciamento, uso de máscaras e álcool em gel.

A adoção da estratégia de isolamento social foi pautada na contenção da pandemia, mas depois de mais de 18 meses obedecendo essas restri-ções, e ainda há esperanças de um início de recuperação em 2021, muito relacionada à vacinação, e ao controle da pandemia.

1.3. LIBERDADE INDIVIDUAL, O BEM COMUM E OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS

Para muitos, a liberdade individual pode ser confundida com indi-vidualismo, ou até aparentemente egoísmo. Mas, na verdade a liberdade individual é um bem essencial, previsto como direito em diversos textos Constitucionais pelo mundo.

Movimentos sociais comunitaristas surgem no século XXI, defen-dendo o bem comum e a liberdade coletiva, diante do indivíduo, travando uma verdadeira luta por direitos sociais na construção desse espaço co-mum. O filósofo Charles Taylor (2011, p. 14) afirma que “o lado sombrio do individualismo que é o centrar-se em si mesmo, que tanto nivela quan-to restringe nossa vida, quan-tornando-a mais pobre em significado e menos preocupada com os outros ou com a sociedade.”

A defesa do liberalismo, muitas vezes se pauta na restrição dos direi-tos coletivos e do bem comum, colocando o princípio da liberdade acima destes. Defendendo o direito da autonomia de vontade do indivíduo, cada um deve decidir por si.

O constituinte de 1988, trouxe no preâmbulo do Texto, a instituição de um Estado Democrático de Direito, com garantias de direitos

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duais como liberdade, segurança, bem-estar, igualdade e justiça. Deter-minou também a sociedade brasileira como uma sociedade pluralista, que se concretiza com o princípio da supremacia do interesse público. Entre-tanto, quando se chega no âmbito de aplicação dessas normas, começam a surgir conflitos entre a liberdade dos indivíduos e seus direitos individuais e o bem comum, e teoricamente, em obediência ao princípio supracitado, o último deveria prevalecer, pois beneficia o maior número de pessoas.

A aplicação de tal princípio acaba por ser limitada, uma vez que a liberdade individual também deve ser observada. A solução então, é que ambos se apliquem, sem supressão do outro, apenas criando uma forma harmônica de coexistência.

Adentrando na discussão e conceituação da Razoabilidade e da Pro-porcionalidade constitucionais, extrai-se importantes definições, nas pa-lavras da juíza Oriana Piske (2011), apud Paulo Bonavides:

O critério da proporcionalidade é tópico, e, tal qual a eqüidade, volve-se para a justiça do caso concreto ou particular. No dizer de Paulo Bonavides "é um eficaz instrumento de apoio às decisões judiciais que, após submeterem o caso a reflexões prós e contras (abwägung), a fim de averiguar se na relação entre meios e fins não houve excesso (Übermassverbot), concretizam assim a necessidade do ato decisório de correção".

Prossegue a dita magistrada:

A doutrina constatou a existência de três elementos ou subprincí-pios que compõem o princípio da proporcionalidade. O primeiro é a pertinência. Analisa-se aí a adequação, a conformidade ou a validade do fim. Portanto se verifica que esse princípio se confunde com o da vedação do arbítrio. O segundo é o da necessidade, pelo qual a medida não há de exceder os limites indispensáveis à conservação do fim legítimo que se almeja. O terceiro consiste na proporcionalidade mesma, tomada "stricto sensu", segundo a qual a escolha deve recair sobre o meio que considere o conjunto de interesses em jogo.

A aplicação do princípio da proporcionalidade demanda dois en-foques. Há simultaneamente a obrigação de fazer uso de meios

ROSÂNGELA TREMEL (ORGS.)

adequados e interdição quanto ao uso de meios desproporcionais.

Desta forma, a proporção adequada torna-se condição de legali-dade. Portanto, a inconstitucionalidade ocorre quando a medida é excessiva, injustificável, ou seja, não cabe na moldura da propor-cionalidade.

Como importância dos princípios acima ventilados, nas palavras da julgadora em apreço,

Os princípios da proporcionalidade e razoabilidade, a despeito de suas eventuais diferenças, afiguram-se em princípios fundamentais à noção de Estado Social e Democrático de Direito. Inúmeros fa-tores impedem a efetivação dos ideais democráticos albergados na maioria das cartas constitucionais dos Estados denominados for-malmente democráticos e dos Estados em transição para a demo-cracia. Dentre eles, exerce papel de relevo a desatenção aos princí-pios da razoabilidade e da proporcionalidade.

O Estado Social é aquele que, além dos direitos individuais, sal-vaguarda os direitos sociais, sendo obrigado a ações positivas para realizar o desenvolvimento e a justiça social, como assinala Carlos Ari Sundfeld. A razoabilidade e a proporcionalidade são princí-pios fundamentais à concreção do Estado de Direito ou do Estado Social e Democrático de Direito, entendido este como aprimora-mento daquele e não como categoria distinta. Assumem primor-dial importância quando da análise de Estado em concreto e da efetivação do disposto em seu perfil constitucional, já que, sem o atendimento destes princípios não se realiza, efetivamente, a con-cepção teórica informadora deste tipo de Estado.

A importância dos princípios ventilados revese como aspecto la-tente no sopesamento entre a liberdade individual e o bem comum, con-ceitos que serão confrontados no que tange à discussão acerca do passa-porte da vacina no Brasil, a seguir. Como mitigação do conflito entre ambas as garantias constitucionais colocadas em confronto, a observância dos princípios comentados mostra-se de grade relevância, ainda mais em um contexto prático pandêmico, como o que se vive atualmente.

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