VI O IMPACTO DA MORTE
1. A enfermidade de Enkidu
O Enlil ofendido parece conquistar a vitória no conselho dos deuses, porque, após este sonho, Enkidu adoece. Gilgamesh derrama torrentes de lágrimas e diz:
"Meu irmão, meu querido irmão, por que eles me inocentaram em teu lugar?"
Além disso, ele disse: "Deverei sentar-me ao lado do espírito dos mortos. Junto à porta do espírito dos mortos? E será que nunca mais verei meu querido irmão com os meus olhos?"
(Tab. VII, col. i, linhas 19-22, Heidel, p. 57)
A sua primeira reação, como podemos ver, é um sentimento de que os deuses praticaram uma injustiça em não condená-lo, e no lugar dele condenaram Enkidu. Ele se dá conta de que Enkidu será sacrificado em seu lugar. Mas levanta apenas a sua questão dolorosa perante os deuses e a deixa aberta como uma pergunta, como se sentisse que o que vai acontecer será ao mesmo tempo trágico e significativo. Os deuses não são justos, mas criam um sentido que, na melhor das hipóteses, podem ser igual a uma justiça superior. O que acontece com Enkidu pode ser comparado ao destino de Esaú, o filho primogênito, que deveria receber a bênção do pai, segundo um costume antigo. Mas é rejeitado em favor de Jacó, porque este último é o portador da salvação, isto é, o portador de novo desenvolvimento espiritual, e, por isso, é posto acima do irmão mais velho porém mais primitivo. Este acontecimento (Gn 27), que é injusto e ao mesmo tempo significativo, é realizado pelo plano de Deus, e a própria Rebeca, a mãe dos gêmeos, é cúmplice de Deus. Depois que Gilgamesh percebeu o que estava acontecendo, ocorre a sua reação puramente pessoal e simplesmente humana. Ele sente ansiedade e dor pela perda iminente do seu companheiro querido.
O próprio Enkidu, este homem natural semelhante a um animal, saído do domínio materno, que foi seduzido para o mundo da cultura, sofre, durante a sua enfermidade, uma explosão de ressentimentos reprimidos contra o mundo da cultura. De forma tipicamente primitiva, ele primeiramente amaldiçoa o portal da floresta de cedros que, pela sua beleza, o seduziu para entrar na floresta. Como podemos lembrar, foi nesta ocasião que o seu destino trágico foi pela primeira vez previsto pela paralisia de sua mão. Em seguida, ele invoca a maldição de Shamash sobre o caçador, e, por último, amaldiçoa a hieródula:
"Vem, ó prostituta, o teu destino decretarei, Um destino que não acabará por toda a eternidade. Amaldiçoar-te-ei com uma poderosa maldição.
...que suas maldições logo se levantem contra ti.
[seguem 9 linhas muito fragmentadas para poder ser traduzidas]
...a rua será a tua morada.
A sombra da muralha será a tua habitação. ...teus pés.
Que os bêbados bem como os sedentos golpeiem o teu rosto". (Tab. VIII, col. iii, linhas 6-22, Heidel, p. 58) Quando Shamash ouve isto, chama-o lá do alto:
"Por quê, ó Enkidu, amaldiçoas a cortesã, a prostituta, Que te ensinou a comer o pão preparado para a divindade, A beber o vinho preparado para a realeza, Que te agasalhou com uma veste magnífica, E que te deu como companheiro o esplêndido Gilgamesh?"
(linhas 35-39, Heidel, p. 59)
e continua descrevendo como Gilgamesh lhe demonstra muita honra, e quão profundamente o lamentará quando morrer. E o texto prossegue: "Quando Enkidu ouviu as palavras do valente Shamash, o seu coração irado se acalmou". De bom grado ele agora começa a bendizer a hieródula a quem antes havia amaldiçoado:
Reis, príncipes e poderosos amar-te-ão. ...o... afrouxará para ti o seu cinto. ...basalto, lápis-lazúli e ouro. Para ti... os seus silos estão repletos. Perante os deuses o sacerdote conduzir-te-á. Por tua causa, a esposa, a mãe dos sete, será abandonada.
(Tab. VIl, col. iv, linhas 2-10, Heidel, pp. 59s)
Desta mudança repentina da mente de Enkidu podemos deduzir que ele não foi realmente afetado em seu íntimo por Shamash, e que só foi levado para o caminho heróico. Ele está obedecendo a Shamash, mas não está realmente convencido no seu íntimo. O texto prossegue:
...Enkidu, cujo corpo está doente. ...dorme na solidão.
...durante a noite, abre o coração para o amigo. "Meu amigo, tive um sonho esta noite. Os céus trovejavam, a terra ecoava. ...eu estava de pé, sozinho.
...apareceu, seu semblante estava sombrio O seu semblante era igual ao de Zu. ...suas garras eram como as garras da águia. ...ele me subjugou.
...ele pula. me submergiu.
[interrupção de 9 linhas] ...ele me transformou,
a tal ponto que meus braços ficaram cobertos de penas como um pássaro.
Ele olha para mim e me conduz até a mansão das trevas, até a morada de Irkalla;
Até a mansão da qual aquele que entra nunca mais sairá;
Até a casa cujos inquilinos são privados da luz; Onde o pó é sua comida e a lama, o seu sustento; Onde eles estão vestidos como aves, com vestes de asas; Onde eles não vêem a luz e habitam nas trevas. Na mansão do pó, aonde entrei.
Lá também reside Ereshkigal, rainha dos infernos. Bêlit-sêri, a escriba dos infernos,
agacha-se à minha frente.
Ela segura uma tabuleta e lê perante ela. Ergueu a cabeça e olhou para mim. Ela disse: "Quem trouxe este homem aqui?"
(Tab. VII, col. iv, linhas 11-54, Heidel, pp. 60s)
Temos aqui uma descrição do mundo infernal babilônico. Enkidu, tragicamente sacrificado por causa do caminho iluminado pelo sol rumo à consciência do seu amigo, incapaz de compreender por que tem que morrer, recebe de novo neste sonho a confirmação de um veredito imutável dos deuses. No sonho, um homem-pássaro com rosto escuro o conduz para a mansão dos mortos, e Bêlit-sêri, a escriba da mansão dos mortos, então o recebe afetivamente no reino da morte. O homem com o rosto de ave pode ser um demônio da mansão dos mortos, que para lá conduz os homens e os transforma, como acabamos de ver, em aves cobertas de penas.