SEGUNDA PARTE
V. A teoria do sentido espectral
Uma particularidade do modelo de comunicação espectral é que ele só existe na dependência d e uma teoria do sentido espect ral que lhe empreste conjunto. A primeira parte deste trabalho tratou de discorrer sobre quatro áreas fundamentais das ciências humanas e da filosofia com o intuito de extrair suas respectivas contribuições para o conceito de sentido . Essas quatro áreas, a saber: a lógica, a lingüística, a fenomenologia e a teoria dos sistemas foram uma vez mais revisitadas neste capítulo com o intuito de resumir as contribuições desses campos para a teoria do sentido eletrônico.
A dependência que a descrição da comunicação espectral tem em relação a uma teoria do sentido é um complicador em vista da opacidade do próprio conceito de sentido. A lingüística, cujo debate consta na primeira seção deste trabalho, é uma área que sabiamente evita abordar a questão do sentido. E quando os lingüistas ou os pesquisadores da análise do discurso se referem ao sentido, estão mormente se referindo ao significado. Nas ciências humanas, a despeito da obra de Frege, o campo da significação absorveu todo o campo do sentido.
A fenomenologia, que poderia ajudar na elucidação do problema, vai de encontro à definição seminal trazida pela lógica. Mas o conceito de expressão, que encont ramos em Husserl, e que também contaminou a teoria de Deleuze e Merleau-Ponty, desenha um conceito de sentido vinculado à consciência mas sem qualquer elemento psicologista. Apesar da recorrência com que tema e conceito foram debatidos, ou talvez precisamente por conta dessa recorrência, não há por ora nenhuma convergência, mas sobretudo d ivergência, entre as escolas e autores abordados no que tange ao conceito de sentido.
Os primeiros autores que contribuem para um desenho da teoria do sentido são, de um lado, Frege e Wittgenstein, e de outro, Saussure e Deleuze. A segunda leva de autores que contribuem para essa teoria é constituída pela fenomenologia de Husserl e Merleau -Ponty, de um lado, e pela teoria dos sistemas sociais de Luhmann, por outro lado. Com isso, poderemos
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explorar e aprofund ar a tensão entre as idéias de Luhmann e Deleuze, autores que forneceram os horizontes d a teoria do sentido espectral e que, por sua vez, deverá oferecer uma alternativa às teorias do sentido baseadas na centralidade da subjetividade para explicar a geração de sentido.
O conjunto das teorias acima expostas apresenta uma aporia epistemológica que preexiste entre os sistemas abertos e fechados. Se a lógica e a teoria dos sistemas tendem a privilegiar unidades fechadas de análise, a fenomenologia e a filosofia de Deleuze e Serres enfocam a transitoriedade e a abe rtura operacional que caracterizam as operações do sentido. O conceito de sentido espectral permeia a incompatibilidad e alógica entre essas duas abordagens, uma vez que o espectral é um padrão d e produção de sentido ao mesmo tempo aberto e fechado. Foi aliás Merleau-Ponty quem primeiro sugeriu um contorno semelhante para o problema d o sentido. Estendendo a intencionalidade para o âmbito motor, afetivo e orgânico, Merleau-Ponty pensava a constituição de sentido substituindo o “eu penso” cartesiano por um “eu posso” embrionário. Sua intencionalidade, fundada no corpo, permitia unificar as acepções de sentido interior e exterior, debate que Husserl não havia resolvido.
Isso porque ela estabelece um contínuo entre a organização física da percepção e a interpreta ção simbólica dos textos da cultura. Haveria contigüidad e entre percepção corpórea e circulação sígnica, aliança que transforma a intencionalidade em uma intuição total. Com isso, a intencionalidade encampa tanto o sentido sensível como o sentido proposicional, operação que acaba por emagrecer os limit es conceituais entre sentido e significado. Isto é, essa ação corporal transita de um sentido corporal para o um significado lingüístico, e o conceito mesmo de sentido deixa de ter uma substância teórica própr ia. A contribuição que Merleau-Ponty traz para o debate entre as acepções de sent ido interior e exterior é fundamental para superar essa aporia epistemológica entre a teoria dos sistemas sociais e a fenomenologia. Ou, em outros termos, entre os sistemas fechados e autopoiéticos de Niklas Luhmann e os sistemas abertos e permeados por retroalimentação de Ludw ig von Bertalanffy. A imagem de um sistema de expressão desenhada por Merleau -Ponty contribui para um conceito de sentido que supera essa dicotomia heurística da teoria dos sistemas.
A contribuição de Merleau-Ponty foi fundamental para descrever o último componente do sentido espectral: a disrupção do sentido. Sua fenomenologia definia a relação interior e exterior como uma permanente abertu ra incond iciona l, um fluxo ou ainda uma carne do mundo. Se a fenomenologia pensa em abertura, recept ividade e integração com o mundo, a teoria dos sistemas fala em atenção, precaução e fechamento operacional. E se a comunicação é essa dinâmica de abertura e fechamento, o sentido seria, por sua vez, uma processualidade part icular da abertura. É porque os sistemas psíquicos (o homem) e os sistemas sociais podem se abrir ao
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ambiente (mundo) que o sentido percorre os circuitos lingüísticos e os canais não lingüísticos, com a cond ição de haver certa abertu ra operacional. Sentido seria a relação vinculante entre os sistemas, aquilo que Merleau-Ponty percebe como uma significação obtida pela iniciat iva pessoal de se abrir ao mundo. Sentido, portanto, remete ao horizonte de possibilid ades husserliano ou ao nexo condicionante da int encionalidade subjet iva, isto é, o ponto de onde se desdobram, d e um lado, a fenomenologia como desenho aberto dos sistemas, e de outro, a autopoiese que Luhmann retoma para propor um desenho de todo original para o sentido.
O interessante e irônico em relação ao conceito de sentido é que, destarte toda a celeuma conceitual, trata-se d e um fenômeno cuja ident ificação não é controversa. É apenas a d escrição das etapas ou a identificação de seus componentes que constitui problema. Um paralelo interessante pode ser encontrad o na facilidade de se compreender o gol em uma part ida de futebol. Não obstante as regras do jogo possam ser de difícil assimilação para um leigo, todos compreendem imediatamente o sentido de um gol dentro de uma partida de futebol. Toda a complexidade tecida para atingir a meta adversária automaticamente faz sentido uma vez que o feito tenha sido logrado. Os passes e os dribles que precederam a jogada fazem então sentido em retrospectiva, e sua significação momentânea dentro da partida d e futebol só existe em dependência da realização d esse acontecimento futebolístico. O gol, com isso, atualiza a significação de múltiplas jogadas precedentes dentro do fenômeno do sentido.
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NO TAS
1 No original em i nglês: “The concept of infor mati on developed in this theory at first seems disappointing and
bizarre—disappointi ng becaus e i t has nothi ng to do wi th the meani ng, and bi zarre becaus e it deals not with a single messag e but rath er with the statisti cal ch aracter of a whol e ens embl e of messages. (…) I think, however, that these should b e onl y temp orary reactions; and that on e should say, at th e en d, th at this analysis has s o penetratingly cleared the air that o ne is n ow, p erhaps for th e first tim e, ready for a r eal theory of m eani ng”. Shannon, C, & Weav er, W. The
mathematic al theory of com municatio n. Urban a: University of Illinois Press, 1962. (p.116).
2 “É ess e co nti nuum amorfo qu e r epres enta, por enqu anto, o papel de „significado‟, mas ele não pára de deslizar sob o
significante p ara o qual serv e apen as d e meio ou de muro: tod os o s conteúdos vêm diss olver n ele suas formas próprias. Atmosferização ou mu ndani zação d os con teú dos. Abs trai -se, en tão, o conteúdo. Estamos n a situação descrita por L évi-Strauss: o mund o co meçou por significar antes qu e se soub esse o que el e significava, o significad o é dado s em ser por isso conh ecido. Su a mulh er olhou para vo cê co m um ar estranho, e essa manhã o porteiro lhe entregou uma no tificação d e imp osto cruzando os d edos, d epois vo cê, pis ou em um co cô d e cach orro, viu na calçada dois pequ enos p edaços d e mad eira disp ostos com o os pon teiros d e um rel ógio, as pesso as sussurraram à sua passagem qu ando você entrou no escritório. Pouco imp orta o qu e isso queira dizer, é s em pre o significan te. O signo que rem ete ao signo é atingido p or uma estran ha im potênci a, por uma in cer teza, m as poten te é o significante que consti tui a cadeia. Eis p orque o par anói co parti cipa d essa im potênci a do signo des territoriali zad o que o ass alta p or todos os lados na atmosfera escorregadia, mas ele acede ainda mais ao so brepo der do significan te, n o sen tim ento real da cól era, como s enh or da red e qu e se propaga na atm osfera. R egime d espó tico paranóico: eles me atacam e me fazem sofrer, mas eu adivinho su as in ten ções, eu os an tecipo, eu o sabia durante tod o o tem po, tenh o o po der até em minha impotênci a, „eu os vencer ei‟.” Deleuze, Gilles & Guattari, Félix. Mil Platôs - Capitalismo e Esquizof renia. Vol. 2. São Paulo: E ditora 34, 2000. (p.62-63).
3 Finnemann, Ni els Ol e. The I nternet: A New Comm unic ational Infrast ructure. Pap ers from CFI, 2001.
4 Na tradu ção es panhola: “Mi conclusión, por tanto, pu ede ser expres ada dici endo que el sentido es una representació n de
la compl ejidad. El sen tido no es u na i magen o un mod elo us ado por l os sistem as psíq uicos o s ocial es, sino, simplem en te, una nueva podero sa forma de af ront ar l a compl ejidad bajo la condición i nevit able de una selectividad forzosa”. Luhmann, Niklas. Com plejidad y Moderni dad. D e la U nidad a l a Diferencia. Madrid: Tro tta, 1998. (p.29).
5 Ainda que o diagrama de Luh man n não poss a ser automaticamente transp osto p ara a internet com o um tod o, há
fortes razões p ara consid erar a W eb como u ma su bclass e dos sis temas autop oié ticos. A red e mundi al de compu tad ores é, afinal, co nstruíd a por m eio d e processos recursivos d e co mpo nen tes qu e se i nfluenci am u ns aos outros. O limite op eracional é tam bém o ambi ente e não h á um con trole central ou a função d e agentes in ten cion ais. Embor a a Web n ão efetue pro cess os autonom am ente, sua dinâmica intern a é decidida em movi men tos de autod esenvolvimento e auto-repro dução. Adem ais, a auto-ref erênci a e a auto-obs ervação provêm a reflexibilid ade necessária para des crev er ess e media como um sistemas que se diferen cia a si mes mo em relação ao ambiente. Ver a esse resp eito, Andersen, Peter Bøgh. WWW as self-org ani zing system. I Cybern etics & Hum an Kno wing, Vol. 5, no. 2, pp. 5-41, 1998.
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3. ERA DO CO MPUTADOR
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