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A VIAGEM PARA FORA E A VIAGEM PARA DENTRO

4 BASHÔ O JAPÃO EM MIM

4.1 A VIAGEM PARA FORA E A VIAGEM PARA DENTRO

Retornando ao texto de Bashô- a lágrima do peixe, logo após a dedicatória, o biógrafo inclui uma longa epígrafe, um trecho do conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Jorge Luís Borges.

[...] e um cone de metal reluzente, do diâmetro de um dado. Em vão um garoto tentou recolher esse cone. Um homem mal conseguiu levantá-lo. Eu o tive na palma da mão alguns minutos: recordo que o peso era intolerável e que, depois de retirado o cone, a opressão perdurou. Também recordo o círculo preciso que me ficou gravado na carne. Essa evidência de um objeto tão pequeno e a uma só vez pesadíssimo deixava uma impressão desagradável de asco e medo. (BORGES, Jorge Luís. In: LEMINSKI, Paulo, 2014b, p. 83)

Danilo Bernardes Teixeira, na dissertação Vida e Verso: A Lágrima do Peixe - um estudo da biografia de Bashô escrita por Paulo Leminski, dedica algumas linhas a analisar a correspondência entre este trecho e o livro. Para ele, o tom misterioso do conto de Borges reforça o “espírito epigráfico” da obra (ainda que, diferente da biografia de Cruz e Sousa, nesta haja poucas epígrafes capitulares), e sugere uma relação entre o “cone” e o haicai, “também uma forma de pequenas proporções, a despeito de sua profundidade, de seu alcance poético.” (TEIXEIRA, 2008, p. 32).

Se a epígrafe de fato faz uma alusão ao haicai, já se configura desde já um procedimento que vai nortear toda a biografia: a identificação entre a figura do biografado e sua obra, seu universo. Tal identificação conhecerá níveis extremos nesta obra de Leminski, tanto pelo foco de atenção do narrador, quanto pela inserção, no corpo do texto, de representações do próprio Bashô (seus poemas, trechos de seus livros etc). Leminski sabe que está representando a vida de um homem que produziu suas próprias representações. E que tais representações, por sua força, acabaram por gerar uma impossibilidade de dissociação entre o criador e suas criaturas. De

poeta responde: “Acredito que, como um ser vivo do planeta, eu pertenço a uma ordem maior do que a mim, uma ordem que vai do tubarão ao gafanhoto. Desde o carvalho até um amor-perfeito. Eu estou no interior do mistério. É difícil compreender o mistério. As religiões todas, pra mim, são uma tentativa tosca e grosseira de homenagear o Mistério, com letra maiúscula. Eu me dou por satisfeito de ter a sensação de pertencer ao Mistério. […] Tudo o que a gente tem a fazer é realmente homenagear o Mistério.” O entrevistador pergunta, então, como Leminski faz para homenagear o Mistério. “Escrevendo. É o único tipo de oração que eu sei.” Por fim, Assunção questiona se essa oração tem algo a ver com o zen. “De todos os tipos de atitude de homenagear o Mistério, para mim, a atitude superior é o zen. Claro.” (LEMINSKI. In: ASSUNÇÃO, 2012, p. 35, 36).

forma que, e a biografia de Bashô é a prova disso, o próprio ser do poeta japonês se veja confundido com o ser de sua poesia. (TEIXEIRA, Danilo Bernardes, 2008, p. 32)

Como apontou Teixeira, parece-me que salta aos olhos a relação entre o cone – pequeno, porém pesado, e que deixa a marca de seu peso na mão – e o haicai - geralmente formado por 17 sílabas distribuídas em três versos, no esquema 5-7-5. Recuperando as ideias de Everton Oliveira Moraes, mais uma vez Leminski traça sua intertextualidade através de referências “insuspeitas” (desta vez com as palavras de Borges, escritor argentino do século XX, introduzindo uma biografia de Bashô, poeta japonês do século XVII), conectando temporalidades e autores de forma surpreendente e deixando lacunas a serem preenchidas pelo leitor (como escreveu Elisa Helena Tonon).

Logo após a epigrafe de Borges, o biógrafo insere um desenho, um autorretrato feito pelo próprio Bashô, no qual ele é representado como um viajante, caminhando com uma vara de apoio na mão direita e carregando alguns pertences no ombro.

Figura 1 – Autorretrato de Bashô

Fonte: LEMINSKI, Paulo, 2014b, p. 84

Como legenda do desenho, Leminski escreve: “’Tabi’ (viagem) é uma das palavras prediletas de Bashô (a outra é ‘yumê’, sonho). Assim viajou Bashô, a pé, em sua vida errante, por todo um Japão agreste e agrário, atrás de luas, lagos, templos dentro de florestas, buscando o vaga-lume do haikai.” (LEMINSKI, 2014b, p. 84). Ele principia, dessa forma, a pintura de sua imagem de Bashô como um andarilho em busca do haicai, um homem na rota da iluminação poética, desprendido de bens materiais mas muito dado às coisas do espírito. Esse viés é escancarado no fim da biografia, quando Leminski inclui novamente este mesmo

desenho, porém invertido e com uma legenda reveladora: “A viagem para fora é a viagem mais para dentro”. (Ibid., p. 150).

Figura 2 – Autorretrato invertido de Bashô

Fonte: LEMINSKI, Paulo, 2014b, p. 150

Para Teixeira, esse recurso ajuda a ressaltar não apenas a imagem de Bashô como um viajante, mas instaura nele, e em sua biografia, uma ideia de temporalidade cíclica, também cara ao haicai. (TEIXEIRA, 2008, p. 34). A imagem reforça também a ênfase de que as viagens de Bashô, por mais longas e duras que fossem, objetivavam alcançar um horizonte interior, ou seja, ele percorria a pé um caminho para dentro de si mesmo, onde a poesia está – a morada do haicai. Uma jornada, por fim, de autoconhecimento.

Antes do primeiro capítulo, Leminski inclui ainda um trecho de Sendas de Ôku, “o mais célebre dos relatos de viagem de Matusó Bashô”, do qual, como vimos, aproximou a divisão capitular da biografia, através das estações do ano, além de ser, também, um tema recorrente no haicai. (LEMINSKI, 2014b, p. 86). Note-se que antes de iniciar a biografia propriamente dita, a exemplo do que fez com Cruz e Sousa, Leminski dá a Bashô a palavra, e neste caso foi ainda mais longe e deu a ele também a imagem – assim Leminski deixa que seu biografado se apresente por si mesmo antes de começar a descrevê-lo. É claro que esta abordagem é também uma escolha deliberada do próprio biógrafo, que empresta as palavras de outro para introduzir as suas. Destaco abaixo trechos que me parecem importantes.

Luas e sóis (meses e dias) são viajantes da eternidade. Os anos que vêm e se vão são viajantes também. […] O ano passado dediquei a vagar pela costa. No outono, voltei a minha cabana às margens do rio e a limpei de teias de aranha. Aí, me surpreendeu o fim do ano. Quando veio a primavera e houve neblina no ar, pensei em ir a Oku, atravessando a barreira de Shirakawa.

Tudo o que via me convidava a viajar, e estava tão possuído pelos deuses que não podia dominar meus pensamentos. Os espíritos do caminho me faziam sinais, e descobri que não podia continuar trabalhando.

[…] Quando desembarcamos num lugar chamado Senju, a ideia de começar uma viagem tão longa me encheu de tristeza. De pé sobre o caminho que talvez ia nos separar para sempre nesta vida que é como um sonho, chorei lágrimas de despedida:

primavera não nos deixe pássaros choram lágrimas

no olho do peixe

(BASHÔ, Matsuô. In: LEMINSKI, Paulo, 2014b, p. 86)

Percebe-se, nesta citação direta de Bashô, uma espécie de justificativa do biógrafo para o título de sua biografia, e também uma nuance do poeta como um andarilho, como um viajante, reverberando a imagem anterior. Ou, como escreveu Alice Ruiz no prefácio de Vida, em Sendas de Ôku, Bashô mostra uma marginalidade semelhante à de Cruz e Sousa, ao escolher a viagem como vida e a vida como viagem.

A mochila na mão e o próximo haikai na cabeça. Seu grande projeto zen: transformar a vida em arte. A fórmula: fazer de sua vida o único alimento dessa arte. Ex-samurai (um tipo muito especial de militar), Bashô optou pela estrada da poesia na metade da vida, e caminhou a segunda metade com o desapego, o desprendimento, a interiorização e a concretude de um monge zen. Esse pai do haikai, que se recusava a dar aulas de poesia, deixava em cada verso e em cada gesto um ensinamento. Porque é assim que o zen é. Realiza-se e transmite-se através da prática. (RUIZ, Alice. In: LEMINSKI, Paulo, 2014b, p. 12)

Bashô era samurai, “um tipo muito especial de militar”, enquanto Leminski era filho de um militar, um filho que, segundo Alice Ruiz, abandonou o sonho de seguir as pegadas paternas para seguir, como Bashô, a poesia. Leminski seria, nas palavras de sua companheira, um “nipônico de coração” que imergiu profundamente na cultura japonesa e como poeta mereceu o codinome de “samurai”, usado por muitos críticos e admiradores, entre eles Haroldo de Campos e Leyla Perrone-Moisés (além de André Dick, Antonio Riserio, Domingos Pellegrini e etc.). “Assim, foi zen e monge, a seu modo. Salvando, de forma atravessada, o conceito de santidade contido em vidas que foram conduzidas, de forma excessiva, em direção à luz.” (RUIZ. In: LEMINSKI, 2014b, p. 12).

4.2 OS SAMURAIS

O primeiro capítulo da biografia, intitulado haru (primavera), traz apenas uma epígrafe: “(dói aquilo / dentro do elmo / um grilo – Bashô)”. (BASHÔ apud LEMINSKI, 2014b, p. 87). Além de ser o primeiro, é também o único capítulo dedicado a contar e explicar fatos da vida do biografado, os demais centrarão foco na análise do haicai e sua tradução, além de um percurso pelo pensamento zen e suas conexões com as filosofias ocidentais – como na biografia de Cruz e Sousa, a estrutura do livro escolhida por Leminski sugere um texto híbrido em que breves informações biográficas são cercadas por capítulos contextuais e analíticos.

Neste capítulo solitário sobre a vida de Bashô, Leminski narra a saga que levou o samurai a se tornar um rônin (samurai sem senhor) e então abraçar a poesia e o haicai. Ele conta que Bashô é um pseudônimo – em tradução para o português significa “bananeira”, uma árvore que o poeta japonês admirava muito – e que pouco se sabe de sua infância e adolescência. Ele pontua que para entender Bashô não se pode esquecer sua origem: “Um samurai. Uma obra de arte.” (LEMINSKI, 2014b, p. 88). Os samurais, segundo Leminski, eram um grupo altamente especializado em sua função social, como “os escribas do Egito, brâmanes da Índia, jesuítas, bolcheviques da Revolução de Outono, os samurais se pareciam muito com as ordens combatentes da Idade Média europeia (Templários, Cavaleiros de Malta, Ordem dos Cavaleiros Teutônicos).” (Ibid., p. 89). Ele então arrisca sua própria definição para o que é ser um samurai: “ao mesmo tempo, um guerreiro e um idealista. Um atleta, um místico, um artista.” (Ibid., p. 88, 89).

A forma poética como Leminski descreve este grupo especializado, os samurais, aproxima-se, me parece, de visão que têm de si mesmo como um poeta-samurai. Como vimos, ele também era chamado de “samurai”: era um artista (renomado poeta e escritor) e foi atleta (faixa preta de judô); seu misticismo talvez esteja refletido no estudo do zen-budismo, em seu orientalismo e no seu vínculo com a contracultura; já seu idealismo se vê na aproximação com as vanguardas artísticas e com grupos trotskistas (voltaremos a esse tópico durante a análise da biografia de Trótski). O samurai de Leminski não é, portanto, um mero espadachim dotado das melhores artes marciais, mas um híbrido que se paraleliza com a especialidade literária dos escribas egípcios, com a elevação espiritual de um membro da casta sacerdotal hindu, com a catequização religiosa dos jesuítas, ou com o idealismo dos revolucionários soviéticos. Dessa forma, além de vincular lateralmente pelo menos dois de seus outros biografados (Jesus e Trótski), ele os aproxima de Bashô e localiza características

comuns entre eles, características estas que os aproximam do próprio biógrafo. Desenha-se assim um ascetismo idealista, posto que, nesse sentido, há variação caso comparemos o dionisíaco em Cruz e Sousa e o apolíneo em Bashô a partir da pena leminskiana.