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IN HONORE ORDINIS SANCTI BENEDICT

5.6 JESUS E AS MULHERES

O sétimo capítulo, jesus macho e fêmea, não traz nenhuma epígrafe, possui nove páginas e novamente promove uma mudança brusca de tema: Leminski agora discorre sobre a relação de seu biografado com as mulheres, e sugere que Jesus era um homem namorador. Mas o próprio biógrafo também o era, e vale lembrar que foi “expulso” do Colégio São Bento por esconder debaixo do colchão fotos de mulheres, de vedetes e atrizes. Leminski teve algumas namoradas - entre elas sua grande companheira de estrada, Alice Ruiz, com a qual teve três filhos e, num determinado momento, tentou desastradamente um relacionamento aberto. Ao mesmo tempo, teve casos e muitas escapadas. Segundo Toninho Vaz, na orelha de O bandido que sabia latim, Leminski, assim como Jesus, seu biografado, gostava de namorar: “O bandido que sabia latim resgata a vida deste artista que foi hippie; professor de judô,

História e redação; publicitário; inveterado conquistador e bebedor de vodca; candidato a monge beneditino; gênio e doido” (VAZ, 2009, n.p.).

De acordo com Toninho Vaz, no final da década de 1970 e começo dos anos 1980, Leminski e Alice tiveram uma conversa séria que mudaria o rumo de seu relacionamento. “Baseados num leque de argumentos, inclusive a própria infidelidade dele, até então mantida na obscuridade das conveniências, eles decidiram ‘abrir’ o casamento.” (Ibid., p. 230). Vaz escreve que era quase público o envolvimento de Leminski com outras mulheres, e recorda de uma delas, Mara, a proprietária do bar Kapelle, com quem o poeta foi visto em inúmeras madrugadas saindo acompanhado.

Alguns amigos contabilizaram pelo menos quatro “namoradas” para ele num período de dois anos. Tinha inclusive uma moça reconhecidamente lésbica e uma colega da agência Múltipla, onde ele agora trabalhava como redator. Alice, por sua vez, conheceria um rapaz, um caso definido por ela como “superficial”, mas suficientemente poderoso para causar o efeito de uma bomba na vida conjugal. Para complicar a situação, eles viveram um romance duplo certa noite, quando dois amigos ficaram para dormir. Alice deitou-se com o rapaz num dos quartos e Leminski ficaria com a moça em outro. A experiência seria amarga para todos, reconhece Alice:

— Foi uma tolice o que fizemos. Nenhum de nós tinha o perfil para esta situação. Nos agredimos e sofremos muito com estes casos mal resolvidos. (VAZ, Toninho, 2009, p. 230, 231)

O namorador Leminski enxergou em seu biografado Jesus, o homem antes do santo, um correspondente. É claro que no caso do biografado, o contexto da inserção e autonomia feminina na sociedade era bastante diferente – eram tempos ainda mais patriarcais e falocráticos do que os nossos, fato que é facilmente perceptível em inúmeras passagens bíblicas. Para Leminski, a explicação sobre a origem da mulher dada pelo Evangelho - “e ela se chamou ‘mulher’ porque do ‘homem foi extraída” - se explica pela linguagem: “em hebraico, homem é isch, mulher, ischah: nenhuma dúvida, ischah é uma forma derivada de isch...”. (LEMINSKI, 2014b, p. 207). Dessa forma, os evangelhos promovem uma inversão da biologia: não é o homem que vem da mulher, mas o contrário. Nada mais natural, argumenta o biógrafo, afinal o cristianismo, assim como as demais religiões monoteístas, têm como base um “patriarcalismo falocrático” e não permitem às mulheres o acesso às funções sacerdotais. Os intermediários de Deus são sempre homens.

Nesse universo patriarcal, falocrático, poligâmico, a mulher só pode ter uma existência, uma condição ontológica rarefeita, essencialmente subalterna, secundária, menor, algo entre os camelos e rebanhos e os humanos plenos, que são os machos.

Daí os rigores da lei mosaica contra o homossexualismo e a sodomia, instâncias de aguda feminilização do homem, punidos com a morte.

Por isso mesmo, espanta o registro da saga de várias mulheres, entre os antigos hebreus, tal como os apresenta o Antigo Testamento: Míriam, irmã de Moisés, Judite, Rute, Ester.

(LEMINSKI, Paulo, 2014b, p. 208)

Para Leminski, as relações de Jesus com as mulheres são complexas, afinal em seu tempo, ainda que a poligamia (permitida apenas aos homens) houvesse quase desaparecido, substituída pela monogamia, particularmente entre as classes mais pobres, o status social feminino ainda era baixo. De qualquer forma, a presença e a palavra de Jesus, segundo Leminski, pareciam exercer grande fascínio entre as mulheres, afinal sua saga é repleta delas, algumas em papeis determinantes, como o da Virgem Maria e de Maria Madalena. Além disso, as primeiras conversões da alta nobreza romana ao cristianismo começaram com mulheres.

Religião de escravos, em seus primórdios, o cristianismo passou por um processo de ascensão social até chegar ao palácio dos imperadores romanos. Nessas altíssimas rodas, os primeiros convertidos foram imperatrizes e grandes damas da família imperial. A partir da dinastia Flávia, em meados do século I, suspeita-se que inúmeras imperatrizes e familiares de imperadores romanos fossem adeptas do cristianismo.

O terreno já estava preparado pela infiltração da fé judaica entre as mulheres desde os primórdios do império. (LEMINSKI, Paulo, 2014b, p. 210)

Muitos episódios bíblicos têm a participação de mulheres, no entanto, não há uma linha sequer sobre a vida sexual de Jesus. Segundo Leminski, isso se explica pelo fato dele ser um nazir, homem que opta pela abstinência sexual e alcoólica e despreza a aparência exterior. É compreensível, para o biógrafo, que nós, leitores de um mundo moderno, tenhamos dificuldades em aceitar um mundo em que o sexo é negado. “Mas isso é possível. Milhões de monges e monjas, padres e freiras disseram não ao mais imperioso desejo. Vamos imaginar que Jesus disse não.” (LEMINSKI, 2014b, p. 211).

Mas o desejo, prossegue Leminski, tem formas estranhas de se manifestar - “formas sublimadas. Espiritualizadas. Abstratizadas. Jesus, por exemplo, era muito namorador”. (Ibid., p. 211). Em todo o evangelho, Leminski vê dois momentos claros em que Jesus galanteou mulheres, namorou, paquerou. A primeira foi com a mulher samaritana na beira do poço, para quem ele pediu um copo d’água. A segunda com as irmãs de Lázaro, Maria e Marta, com quem tinha uma amizade bastante íntima, recorrente em passagens da Bíblia. Em uma delas, Maria lava os pés de Jesus com unguento de nardo, bastante caro na época, e então seca-os com seus próprios cabelos. A cena é narrada no evangelho de João, cujo detalhamento de sons e aromas soa, para Leminski, como o erotismo do Cântico dos Cânticos. Mas não só isso: “A

este ato de amor, este excesso, este literal derramamento de Maria sobre Jesus, estranha metáfora de uma ejaculação às avessas, culminando com a fricção dos cabelos de Maria nos pés de Jesus”. (Ibid., p.213).

Ao longo dos séculos, nos círculos de religiosidade cristã, o episódio sempre foi usado como parábola que ilustrasse a eminência da vida teórica sobre a prática (um mestre zen acharia exatamente o contrário...).

Marta, apenas (apenas, Alice?) lavava roupas, amassava o pão, assava o peixe, cozinhava a lentilha e queimava os dedos tirando a coxa de carneiro do forno, arrumando a casa, preparando a comida de todos.

Maria, sim, é que estava certa, arrodilhada aos pés do profeta, ouvindo as maravilhas que saíam da boca do nabi e poeta, palavras bonitas de tão verdadeiras, parábolas fascinantes, aforismos que deixavam alguma coisa vibrando dentro do coração da gente... (LEMINSKI, Paulo, 2014b, p. 213)

Notável neste trecho duas inserções, dois fragmentos autobiográficos: o mestre zen, que reverbera não apenas seu outro biografado, Bashô, mas também o orientalismo de Leminski, que sempre encontra brechas em seus textos para se mostrar; e “Alice”, sua companheira, a qual é nominada nesta passagem, numa pergunta direta feita por Leminski para ela, indicando que em sua casa todo este trabalho (lavar roupas, amassar o pão, arrumar a casa e etc.) fosse feito por sua companheira, e que ele reconhecia os méritos e as dificuldades desse labor. Nota-se, também, mais um reforço das intenções de sua carta quando chama Jesus de “nabi e poeta”, alguém cujas palavras bonitas faziam mexer com os demais, especialmente com as mulheres.

No entanto, nem todo o apreço que Jesus tinha para com essas mulheres foi suficiente para torná-las apóstolas. A partir da atuação do apóstolo Paulo, responsável pela fundação do que viria a se tornar a Igreja Católica Romana, o cristianismo passou a adotar, cada vez mais, uma rígida hierarquia que separava as funções de cada sexo. Foi também Paulo que, segundo Leminski, consagrou para sempre a inferioridade feminina e seu definitivo afastamento do altar, quando escreveu a Epístola dos Cortíntios66: “Depois de Paulo, na Epístola dos

Coríntios, só restava às mulheres se transformarem em bruxas.” (LEMINSKI, 2014b, p. 215).

66 “A cabeça de todo varão é Cristo, e a cabeça da mulher é o varão [...]. Na Igreja, o varão não deve cobrir a cabeça, porque é imagem e glória de Deus, mas a mulher é glória do varão, pois o varão não procede da mulher e sim a mulher do varão, nem o varão foi criado para a mulher, mas a mulher para o varão.” (PAULO apud LEMINSKI, 2014b, p. 215).