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ACOMPANHANTE DE SOUL-DALF

No documento extraterrestres (páginas 70-72)

JAFFER BEN-ROB DA TERRA

ACOMPANHANTE DE SOUL-DALF

Deram-me um belo quarto com uma sacada com vista para nosso povoado. De vez em quando, eu ficava na sacada olhando por entre as árvores para, talvez, ver num relance um familiar, mas isso raramente acontecia. Enquanto estava na vila, eu era proibido de visitar minha família por qualquer razão. Toda minha atenção deveria ser dispensada a Sou-Dalf e a mais ninguém. No começo, isso não foi fácil. Ele não me disse uma palavra por cerca de duas semanas, agindo como se eu não estivesse lá. Exceto quando dormíamos, eu não ficava a mais de dez passos dele.

Sou-Dalf nunca fazia as refeições com sua família e parecia estar evitando os pais. Falava apenas com a irmã e com um simm alto e magricela chamado Rubdus, que nos fornecia, a ele e a mim, as roupas limpas que usaríamos no dia. Descobri depois que nosso guarda-roupa e cardápio diários eram selecionados pela mãe invisível de Sou-Dalf.

A vila tinha um ótimo estábulo para cavalos, mas Sou-Dalf nunca os cavalgava. Sua irmã Valneri nunca chegava perto dos animais porque eles se assustavam como se estivessem na presença de uma cascavel e, se estivessem soltos, disparavam. Valneri era uma menina lindíssima e secretamente apaixonei-me por ela. Normalmente estava acompanhada por um ganso maldequiano branco, que ela às vezes levava numa correia. O ganso, três vezes maior do que qualquer um da Terra atual, atacava qualquer coisa ao comando de Valneri. De vez em quando, o bico e os pés do ganso apareciam pintados de cor diferente, adornado com ouro ou outro material decorativo como esmeraldas em pó. Eu sempre ficava curioso para ver como estaria o ganso da próxima vez..

Certa tarde, eu estava andando no terreno da vila com Sou-Dalf e Rubdus, o pajem simm, quando demos com Valneri e seu ganso de estimação. O simm disse-me para esperar enquanto Sou-Dalf tinha uma conversa particular com a irmã. De repente, Sou-Dalf, Valneri e o ganso vieram correndo até mim, empurrando-me para cima das costas do simm que estava de quatro atrás de mim. Depois que recobrei o fôlego, dei com o grande ganso pousado no meu peito olhando-me ameaçadoramente nos olhou e Sou-Dalf, Valneri e Rubdus riam histericamente. Eu fora vítima de uma armadilha maldequiana há muito planejada. A falta de comunicação de Sou-Dalf comigo fora parte de uma brincadeira cuidadosamente planejada. Descobri que ele decidira por um fim na brincadeira porque não queria explicar seu comportamento silencioso para comigo aos avós maternos e paternos e um tio, que estavam vindo para a vila naquela noite.

Depois de ser mostrado aos parentes visitantes de Sou-Dalf fui dispensado. Passei o resto da noite conversando com Rubdus e os demais simms. Mandaram os criados provenientes de nosso povoado passar a noite em casa, sendo os maldequianos servidos por criados especiais trazidos pelos visitantes. Ocasionalmente, um jovem maldequiano uniformizado dava uma olhada para ver se estávamos cuidando de nossa própria vida.

Foi a primeira vez que falei com um simm. Havia uma barreira de idiomas, pois apenas um grupo seleto de simms tinha permissão de aprender e falar a língua da Terra. Tive sorte de Rubdus ser um desses poucos. Os simms não eram telepáticos. Nós, da Terra, naquele tempo conseguíamos nos comunicar telepaticamente, mas nos faltava a conhecimento de como fazê-lo da forma correta. Era uma prática estenuante, assim, muito poucos a tentavam, exceto numa emergência.

Rubdus tinha cerca de 38 anos terrestres. Contou-me que estava a serviço de Cro-Swain e Debettine há quase três anos. Aprendera seu ofício durante sua permanência em Maldek, dois anos antes. Antes, vivera em seu mundo natal chamado Simm. Tudo o que pôde contar-me foi que Simm era um planeta localizado num sistema solar remoto e orbitava um sol/estrela chamado Druma. Contou-me que o quarto planeta daquele sistema era habitado por um povo que chamava a si mesmo de graciano. Os gracianos tinham espaçonaves e haviam apresentado os maldequianos a seu povo. Os maldequianos gostavam do senso de lealdade dos simms e os empregaram como criados e funcionários subalternos. Os simms não eram um povo primitivo, e sim moravam em grandes cidades e já usavam a eletricidade quando foram visitados pela primeira vez pelos gracianos. Apenas certas áreas da Terra, inclusive nosso povoado de Tigrillet, dispunham de força hidrelétrica.

Perguntei a Rubdus sobre as condições em Maldek. Ele sussurrou em meu ouvido: "É um ótimo lugar para se viver desde que se seja maldequiano." Pôs o dedo nos lábios e tremeu um pouco. Sei agora que se arrependeu de dizer-me aquilo, temendo as conseqüências. Rubdus disse que ele tinha um contrato de trabalho de dez anos com os maldequianos, ainda faltavam cinco anos para poder ser devolvido à sua família em Simm. Ele disse que não fora selecionado por Cro-Swain, e sim cedido para servir a família pelo supremo governante de Maldek, Mic-Corru. Maldek era, na verdade, governado por Mic-Corru, três príncipes sem parentesco (Tra-Vain, Hol-Canter e Serc-Rhis) e Mishaymu, uma princesa com sangue de Mic-Corru. Seu marido era uma pessoa muito poderosa tanto em seu mundo natal, como em outros. [ Nota: ouvi o nome do marido de Mishaymu muitas vezes em comunicações passadas, mas por alguma razão, um bloqueio mental me impede de recebê-lo telepaticamente

agora ou lembrá-lo de memória. - W.B.]

Nos meses que se seguiram àquela visita noturna dos avós de Sou-Dalf, um grande edifício de estilo maldequiano foi erguido nos fundos da vila. Tratava-se de um quartel luxuoso que posteriormente foi ocupado por 24 krates maldequianos. Seu comandante, Sake-Kover, morava na vila. Os krates eram novos na Terra e passavam a maior parte do tempo sendo secretamente instruídos sobre sabe-se lá o que, na absoluta privacidade de seus aposentos. Eles também foram ensinados a montar cavalos. Quando Sou-Dalf e eu por acaso encontrávamos um krate, ele saudava Sou-Dalf, mas me lançava um olhar que poderia congelar água.

Sou-Dalf e eu conversávamos sobre muitas coisas. Seu assunto predileto eram as mulheres da Terra e quaisquer experiências que eu pudesse ter tido com elas. Não falava das mulheres maldequianas de modo algum. Sem ter qualquer experiência sexual naquela época, eu inventava histórias para agradá-lo. Ele sabia que eu estava mentindo, mas não se importava. Sou-Dalf se recusava a discutir o que quer que tivesse natureza espiritual ou religiosa.

Falou-me dos povos de outros mundos que sua família conhecera ao viajar a bordo de uma espaçonave graciana. Quando descrevia o que sabia sobre os povos desses outros mundos, falava deles em termos depreciativos. Referia-se com insultos ao modo de vida deles. Divertia-se com seus próprios diálogos e queria que eu risse com ele sempre que descrevia uma prática de outro mundo que ele achava estúpida. Com o conhecimento que tinha na época, achei que ele devia estar certo, e ria. Quando perguntei por que esses povos não eram ensinados de maneira diferente nos costumes dos maldequianos, ficou muito sério. Disse-me que eles não foram criados para ser mais do que eram. Algum dia, eles preencheriam seu lugar de direito no universo servindo o povo de Maldek e, talvez, várias outras raças dominantes que governariam o universo com eles. Deu a entender que considerava a nós, da Terra, uma das assim chamadas raças dominantes. Sei agora que ele estava mentindo.

Carros aéreos transportando dignitários maldequianos vinham e iam da vila diariamente. Dois novos carros aéreos foram entregues para uso dos krates. Nunca vi os krates usarem essas naves. Elas permaneciam estacionadas ao lado do quartel, sendo continuamente lavadas e polidas pelos simms.

Muitas vezes vi Valneri acompanhada por um jovem oficial krate chamado Mills-Bant. Eu era muito ciumento. Tanto Valneri como Sou-Dalf sabiam disso. Tiravam um prazer perverso de minha dor emocional e também da dos outros.

Por meio de rumores (por intermédio de Rubdus), descobri que os krates estavam presentes devido a uma situação surgida em função de algumas espaçonaves estranhas que haviam sido localizadas nas proximidades da Terra. Havia mais de dez desses veículos pintados com listras horizontais vermelhas, brancas e pretas. Eram maiores e mais rápidas do que as 20 naves gracianas usadas pelos maldequianos. Além disso, sabia-se que os UFOs (não consegui resistir) eram operados por pessoas telepáticas e que também tinham a capacidade de ésper (ver mentalmente coisas a uma grande distância). Os maldequianos estavam apreensivos porque esses recém-chegados até então haviam ignorado Maldek, parecendo mais interessados em entrar em contato com o povo de Wayda (Vênus), Marte, e os planetóides dos quatro sistemas radiares [Júpiter, Saturno, Netuno e Urano].

Pensei imediatamente que se esses viajantes espaciais tinham as habilidades descritas por Rubdus, deviam ser uma das raças dominantes que, segundo Sou-Dalf, deviam se unir aos maldequianos (e a nós da Terra) para governar a vasta população de retardados e imbecis do universo. O fato de os maldequianos acharem melhor desconfiar dos novos visitantes, preparando-se para uma possível guerra me fez pensar bastante. Os maldequianos, tanto em Maldek como na Terra, tornaram-se ainda mais paranóicos quando foram localizadas espaçonaves maiores no sistema solar. Essas naves eram pintadas de preto e não tinham marcas.

Nossa tropa de krates se revezava a cada duas semanas, exceto Sake-Kover, o comandante, e o pretendente de Valneri, Mills-Bant. Os krates eram levados a algum outro local onde podiam relaxar e desfrutar a companhia feminina.

A viagem proposta a Maldek (parte de meu bônus) foi adiada indefinidamente. As escolas do povoado estavam fechadas e a maioria dos jovens eram recrutados para uma milícia que foi comandada por pouquíssimo tempo por meu pai. Posteriormente, a milícia foi assumida por um krate do posto mais baixo. (Descobri depois que o tempo de um oficial maldequiano não devia ser desperdiçado no treinamento desses tolos.)

Certo dia, um carro aéreo aterrissou no gramado frontal da vila. Em sua fuselagem havia a figura de uma serpente coberta de plumagem de cores brilhantes. Rubdus e sua gente correram para a nave antes que vários krates, que corriam atrás deles, conseguissem impedí-los. Quando os ocupantes do carro saíram, pode-se ver que eram homens altos vestidos com penas e jóias. Esses três homens eram gracianos. Um deles levou Rubdus para o carro aéreo e os outros dois ficaram do lado de fora, fitando os krates. Os krates fizeram uma saudação e recuaram.

Depois de cerca de 15 minutos, emergiu do carro um choroso Rubdus, acompanhado pelo graciano. Quando se reuniu ao grupo de simms seus companheiros, teve de passar pelos krates. Um deles bateu na cabeça de Rubdus com um bastão, derrubando-o no chão. Um graciano veio em seu socorro, colocando-se entre o simm caído e os

krates. Os krates ficaram imóveis por um momento e então foram embora.

Descobri depois que Rubdus pedira em prantos aos gracianos que falassem com os maldequianos em nome de sua gente e dele, pedindo sua liberação do contrato. Se naquele tempo eu soubesse o que sei agora, esse pedido feito a um graciano naquela época teria com certeza sido negado. Sua filosofia era: "trato é trato."

Os gracianos, ficaram na vila por cerca de uma semana, durante a qual tiveram permissão de se encontrar com Rubdus e seu povo. Seja o que for que disseram aos simms, os sorrisos voltaram a seus rostos e os simms assobiavam enquanto trabalhavam e não havia maldequianos por perto. O real propósito da viagem dos gracianos foi para discutir um projeto de construção que coordenariam para os maldequianos.

No documento extraterrestres (páginas 70-72)