CAPITULO 1. A MULTIVOCALIDADE NO CENÁRIO DA ARQUEOLOGIA
1.2 ARQUEOLOGIA PUBLICA E COLABORATIVA: PREÂMBULO
A Arqueologia Pública é uma perspectiva que a arqueologia adquiriu nas últimas décadas quando percebeu que ela cientificamente poderia ser bem alinhavada, mas era socialmente incompleta na medida em que não abrangia as perspectivas que as próprias comunidades ou os grupos sociais com as quais ela lida tem da sua história, e ao mesmo tempo ela não incorporava os mesmos grupos sociais dentro do seu layout de pesquisa, então a arqueologia colaborativa busca justamente corrigir esta perspectiva, desenvolvendo projetos de pesquisa que estejam atrelados às perspectivas que as comunidades têm da sua história, do seu patrimônio, da sua herança, da sua memória e ao mesmo tempo incorporando os grupos sociais ao seu layout de pesquisa. (Entrevista - R0BRAHN- GONZALÉZ, 2014)
Os arqueólogos Erika Marion Robrahn-González e Pedro Paulo A. Funari, contemporâneos e pioneiros no estudo da Arqueologia Pública no Brasil, vêm ao longo dos 10 últimos anos, se debruçando no desenvolvimento deste conceito como uma ciência aplicada para o cenário brasileiro.
Em 2005 a Drª Robrahn-González defendeu sua tese de Livre Docência voltada ao tema “Sociedade e Arqueologia”, tratando das interfaces civis e éticas das pesquisas e na necessária busca de serem desenvolvidos projetos que tenham, como meta final dos esforços, a realização de uma Ciência Aplicada às sociedades com as quais se relaciona.
Como decorrência natural desse processo, em 2006 surgiu a criação do Núcleo de Arqueologia Pública e da Revista de Arqueologia Pública, organizado por P. P. Funari e Robrahn-GONZÁLEZ na UNICAMP /São Paulo, criando o primeiro espaço específico de reflexão no Brasil sobre estes assuntos emergentes. A Revista tem obtido grande visibilidade no país e no campo internacional, estando atualmente em sua 10ª edição.
Em 2009 Funari, em cooperação com pesquisadores interdisciplinares, cria o Laboratório de Arqueologia Pública Paulo Duarte - LAP nas dependências da NEPAM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais – UNICAMP) com a missão de desenvolver pesquisas arqueológicas em interação com a sociedade por meio de várias iniciativas, seja por meio de divulgação científica, ações patrimoniais, estudos dos acervos patrimoniais, estágios, seminários, parcerias com outras universidades e empresas de arqueologia (OCAR, 2015; CARVALHO e FUNARI, 2009). O LAP tem grande visibilidade nos estudos da Arqueologia Pública no Brasil, contando com um robusto acervo de estudos e publicações sobre sua teoria e práxis.
Deve-se também mencionar a atuação de outros estudiosos brasileiros no campo da Arqueologia Pública.
Na Amazônia a arqueóloga Drª Marcia Bezerra – docente da Universidade Federal do Pará - vem desempenhando um papel preponderante na perspectiva da Arqueologia Pública com as comunidades da Vila de Joanes na Ilha do Marajó, PA, num continuo processo de apropriação, ampliando a compreensão das relações de empoderamento e fruição do patrimônio arqueológico local (BEZERRA, 2014). Dentre os seus trabalhos mais relevantes destaca-se a sua tese de doutoramento “O Australopiteco Corcunda: As Crianças e a Arqueologia em Um Projeto de Arqueologia Pública na Escola”, defendida na Universidade de São Paulo –MAE- USP em 2002.
Na região semiárida, do sudeste do Piauí, foi criado o Parque Nacional Serra da Capivara, 1979 (PNSC), conhecido mundialmente pelas pesquisas arqueológicas pré-históricas que indicam a presença do primeiro homem moderno nas Américas. Com isso tornou-se necessária a criação de um órgão para proteger o Parque e empreender projetos de preservação patrimonial por meio da inclusão social, nascendo assim, por iniciativa da arqueóloga Niède Guidon e equipe, a Fundação Museu do Homem Americano. Com isso, montou-se um projeto intensivo com as comunidades locais, com destaque para escolas integrais de educação ambiental, formação de arqueólogos mirins, criação de associação de artesões, técnicos em arqueologia, técnicos em conservação de arte rupestre, técnicos em laboratório, formação profissionalizante em guias de turismo, criação de um centro de artesanato em cerâmica com motivos rupestres, sendo que a principal abordagem metodológica concernia da arte-educação (RODRIGUES, 2011).
Ainda que a abordagem implantada no Piauí adviesse da arte-educação, o principal objetivo da iniciativa não era formar artistas, mas envolver a comunidade no universo da arqueologia por meio das diversas linguagens artísticas. Apesar da vertente metodológica utilizada não deixar clara a rubrica conceitual da Arqueologia Pública, a sua práxis tratou de um projeto que envolvia as comunidades locais nas pesquisas arqueológicas de forma a legitimá-las como produtoras de mudanças positivas e não desintegradoras dos seus modus-vivendi, fornecendo novas possibilidades de sobrevivência na região, de novas fontes de atividade, trabalho e fruição cultural (SILVA, 1990, apud RODRIGUES, 2011:81) – finalidades da Arqueologia Pública.
Considera-se pertinente abrir um parêntese para destacar, também, a influência do humanista Paulo Duarte, vanguardista nos debates sobre a preservação e difusão do patrimônio arqueológico brasileiro, com destaque para a valorização da memória das comunidades tradicionais do Brasil. Foi o criador do primeiro órgão do país a zelar pela preservação do patrimônio arqueológico pré-histórico – a Comissão de Pré-História de São Paulo, em 1952
(embora atuasse apenas no Estado de São Paulo). A missão do órgão era cuidar do tombamento de sítios arqueológicos do tipo sambaqui, lapas e grutas de interesse científico. Adiante, Paulo Duarte propôs a criação do Instituto de Pré-História e Etnologia (IPHE) em 1959 a 1962. Dentre os principais objetivos do instituto estava a relação intrínseca entre pesquisa e difusão dos resultados científicos. (SANABRIA, 2013; FUNARI, 2014).
Paulo Duarte foi também o responsável pela implantação da mais importante lei de defesa do patrimônio arqueológico - a lei 3.924, em 1961 (SANABRIA, 2013) que trata dos "monumentos arqueológicos e pré-históricos" e estabelece sua proteção pelo Estado, não sendo sujeitos às normas gerais de propriedade privada. Os sítios arqueológicos, em geral, são considerados monumentos. Assim, é proibida no Brasil sua destruição, bem como seu uso econômico. Os sítios passam a ser considerados bens da União.
A lei também menciona escavações arqueológicas e a necessidade de criar um registro dos sítios controlados pela instituição competente (SPHAN). Define ainda a produção de um relatório arqueológico e os cuidados necessários à guarda dos acervos gerados com as pesquisas (FUNARI e ROBRAHN-GONZÁLEZ, 2008). Sua trajetória em prol da preservação do patrimônio arqueológico brasileiro trouxe grandes influências na construção de projetos de difusão do conhecimento arqueológico para a sociedade brasileira.
O fato é que a Arqueologia Pública é uma área da arqueologia voltada para os interesses da sociedade (MERRIMAN, 2004 apud CARVALHO e FUNARI, 2009; FUNARI, 2010; ROBRHAN-GONZÁLEZ, 2008, 2014; BASTOS, 2007, 2010), devendo proporcionar informação, conhecimento e perspectivas sobre o passado humano em beneficio desta (RENFREW & BAHN, 1993 -), permitindo a interação da sociedade nas pesquisas, visto que:
“Existem diversas vertentes de teorias e práticas dentro deste campo. O que tange todas essas discussões é a reflexão sobre como as pesquisas arqueológicas, realizadas dentro das academias ou mesmo pelas empresas de Arqueologia, se relacionam com a sociedade” (CARVALHO e FUNARI 2007:34).
De modo geral a arqueologia na contemporaneidade desempenha um papel social de importância para as sociedades vivas, uma vez que ofício do arqueólogo implica no estudo das evidências materiais ancestrais na busca pela compreensão da origem humana - sua evolução e sua cultura, ou seja, busca reconstruir os modos de vida do passado para entender o presente e projetar um futuro mais sustentável. Portanto, o interesse nestes estudos é de todos. Sobretudo, para aquelas nações cujo aparecimento das fontes escritas é recente, como no caso do Brasil -
que passou por grandes rupturas no período colonial de desconhecimento e desvalorização da herança indígena ancestral.
A vertente da Arqueologia Colaborativa vem justamente para ajudar a florescer uma arqueologia de cunho mais antropológico, mais humanista no Brasil, no sentido de transformar “as informações em conhecimentos e conhecimentos em significância” para as comunidades vivas (ROBRHAN- GONZÁLEZ, 2013), e isso só é possível se estiver aderente aos grupos sociais com os quais a pesquisa arqueológica e os cientistas estão envolvidos. Obviamente, que o cientista tem uma perspectiva diferente da comunidade em termos de conhecimento, mas que é igualmente relevante, pois eles não devem ser considerados excludentes, mas complementares.
“E esta complementariedade de perspectiva, na verdade, é o grande mote da arqueologia brasileira. O Brasil é um país pluricultural, portanto, a prática de uma arqueologia pluricultural está atrelada a um momento político de amadurecimento social e a um momento democrático que nós, enquanto cientistas cidadãos, temos a obrigação de participar. Essas modificações são decorrentes da democracia, da Constituição Brasileira de 1988. Estamos passando por um momento extremamente rico na arqueologia brasileira, e me atrevo a dizer que estamos dando um passo além, a arqueologia publica pode ser mais ou menos executada pelos grupos de profissionais, mas ela já é uma realidade no Brasil, muitas vezes executada pela própria comunidade. Essa necessidade de participação, de querer definir os rumos, a preservação da história, da memória, já é uma realidade [....] (Entrevista ROBRAHN- GONZÁLEZ, 2014).
Nesta perspectiva, significa que os projetos são desenvolvidos com os membros de uma determinada comunidade para tratar de interesses e necessidades que foram identificados, e são realizados contando com os valores fundamentais das comunidades, devendo beneficiá-las democratizando os resultados e garantindo o envolvimento dos mais diversos setores da sociedade.
Nessa baila, a pesquisa é conduzida em parceria com a comunidade, desde o início, e presume-se que a probabilidade de ganhos em longo prazo, engajamento no processo e resultado seja mais provável do que com uma abordagem orientada por um pesquisador tradicional.
Embora a atuação da Arqueologia Colaborativa no cenário brasileiro seja relativamente recente, Bezerra (2003) reforça que a apresentação da arqueologia para o público surgiu nos Estados Unidos a cerca de 100 anos com a criação do Antiquities Act, cujo objetivo foi regulamentar o tratamento de sítios arqueológicos em terras públicas, assegurando o acesso à
informação dos resultados obtidos nas escavações para a sociedade, sendo este um dever do arqueólogo (MCMANOMON, 2000 apud BEZERRA, 2003).
A obra Public Archaeology - 1972 do norte-americano Charles Robert McGimsey “é considerada um marco na criação deste novo campo da arqueologia” (MERRIMAN, 2004 apud CARVALHO e FUNARI, 2009:01), que versa sobre os problemas enfrentados pelo acelerado processo de destruição de um sítio arqueológico oriundo da urbanização e industrialização pelo qual passava os Estados Unidos. O autor aborda várias questões no livro, dentre elas a preocupação com a preservação dos sítios ora comprometidos por ações antrópicas, tais como vandalismo, comércio ilícito do acervo, dentre outros, o que trouxe à tona, a discussão sobre a responsabilidade da administração pública e o compromisso social da disciplina (FERNANDES, 2007). O perfil dessa discussão estava atrelado, em parte, ao desenvolvimento da legislação referente ao gerenciamento dos recursos culturais (CRM – Cultural Resource Management).
A criação do congresso Word Archaeological Congress (WAC) realizado em 1986 em Southampton, Grã-Bretanha, promovido por uma organização não governamental, marcou o aprofundamento das discussões inerentes à Arqueologia Pública no cenário mundial, estabelecendo um diálogo entre cientistas – arqueólogos, antropólogos, educadores, historiadores, gestores culturais e povos marginalizados – indígenas, pobre e minorias. Cerca de 850 pessoas participaram deste congresso, que reconhece o papel histórico e social, e o contexto político da arqueologia, e a necessidade de fazer estudos relevantes para a comunidade em geral. Esse primeiro encontro suscitou reflexões significativas no ramo da Arqueologia Pública, o que gerou, a partir daí diversas publicações científicas. (FERNANDES, 2007).
Este primeiro encontrou gerou, assim, uma revolução na disciplina até os dias atuais, mostrando uma arqueologia preocupada em integrar as pessoas, no sentido de colaborarem com a prática arqueológica – arqueologia social, pública e engajada viraram tema nas considerações da disciplina (FUNARI, 2014).
Em 1999 foi fundada a revista Public Archaeology, trazendo importantes contribuições de estudiosos do tema em todo o mundo. Do Brasil tivemos a participação do professor Dr. Pedro Paulo Funari, representando o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas do Brasil.
Digno de nota, em todo mundo, foram surgindo projetos convergentes com ênfase no envolvimento das comunidades afetadas (direta e indiretamente) pelas pesquisas arqueológicas em seus territórios (no âmbito do licenciamento ambiental, principalmente) configurando inúmeras reflexões e práticas em contextos diversos do globo terrestre - em constante evolução.
Seguem adiante alguns exemplos que, de forma alguma, visam esgotar o assunto, mas apenas ilustrar a presente discussão.
A) Na Austrália
Os pesquisadores australianos Greer, Harrison e McIntyre-Tamwoy (2002) defendem que o principal objetivo de uma Arqueologia Pública e de base comunitária é capacitar as comunidades, contribuindo para a construção da identidade local. Isto, ao mesmo tempo, exige uma profundidade de compreensão e conhecimento relevante da comunidade que não pode ser possível alcançar em curto espaço de tempo. Desta forma os autores consideram imprescindível que a condução da investigação aconteça na língua da comunidade e dentro do domínio da comunidade. Para os autores, estes procedimentos têm produzido uma presença audível de vozes indígenas na arqueologia australiana, através de menção explícita do trabalho que está sendo realizado em consulta com uma determinada comunidade ou como vozes dissidentes em oposição aos programas de investigação arqueológicas (GREER et al., 2002) o que confere ao trabalho um status de colaborativo.
B) Na Turquia
O projeto de escavação arqueológica de Çatalhöyük – iniciado em 1958 pelo arqueólogo Mellaart e contínuado pelo arqueólogo Ian Hodder desde 1960, trouxeram à tona ruinas de uma cidade do período neolítico, sendo considerada a primeira cidade neolítica do mundo - a UNESCO inscreveu Çatalhöyük como Patrimônio Cultural da Humanidade. Na gestão de Ian Hodder os moradores tradicionais (homens e mulheres) foram envolvidos desde o início nas pesquisas; uma infraestrutura para receber visitantes foi implantada, criado projetos de formação para os moradores em áreas diversas como gestão, culinária, fomento ao artesanato, exposição sobre o uso de plantas nativas, estágios para trabalhar nas escavações. O projeto conta com uma equipe de especialistas que visita regularmente as aldeias analisando os impactos causados pela escavação e avaliam as necessidades das comunidades, oportunizando a participação ativa destas - uma escuta atenta sobre as necessidades. Assim, é desenvolvido um trabalho com remuneração para os informantes (gera renda) com intuito de captar dados para melhor entendimento e interpretação arqueológica do sítio (MATTHEWS et al., 1996 apud ATALAY, 2010).
A educação arqueológica é um dos grandes focos do projeto, e foi solicitado pela própria comunidade, que a considera determinante e, portanto, tornaram-se parceiros no
desenvolvimento e execução dos programas educacionais, gerando diversos produtos educativos: revistas, livros, jogos online6 além dos estágios de formação em métodos de pesquisa, planejamento, entre outros, incluindo formação de graduação, programas de estimulo a ressignificação da cultura local, projeto de teatro sobre arqueologia e fomento ao turismo cultural (ATALAY, 2010).
Ainda para Atalay (2010: 423), a decisão de educar os moradores locais, bem como o formato e implementação da educação da comunidade, seguiu uma metodologia de Pesquisa Participativa de Base Comunitária (CBPR) à arqueologia, como um modelo colaborativo que envolve reciprocidade entre pesquisadores e comunidade, com objetivo de envolver a comunidade no processo de investigação arqueológica e gestão do patrimônio.
Os fundamentos teóricos do CBPR assumem que a pesquisa deve beneficiar a sociedade, e fornece uma metodologia para a democratização da pesquisa visando garantir que as pessoas estejam envolvidas no processo de produção de conhecimento ao construir simultaneamente competências dentro de suas comunidades (ATALAY, 2006, 2009, 2010). Nesse sentido, a autora completa que os projetos são participativos ao envolver membros da comunidade diretamente em todos os aspectos do processo de pesquisa como parceiros: desde o desenvolvimento do projeto de pesquisa para o trabalho de campo, coleta e análise de dados, partilha de resultados por meio de publicação ou outros formatos educacionais e de planejamento e implementação. Tem-se, assim, um processo dinâmico de partilha de poder como um princípio central; e a comunidade integra o conhecimento com a ação, com o objetivo de aplicar a pesquisa que é produzida, envolve "um processo de empoderamento, que atende às desigualdades sociais" (ISRAEL et al., 1998: 179 apud ATALAY, 2010: 420). O que é mais importante é que a partilha do poder com os parceiros da comunidade contínua a ser central em todo o processo (ATALAY, 2010).7
Fica claro, contudo, que a perspectiva da Arqueologia Colaborativa não é nova, está ocorrendo em todo o mundo e tem sido objeto de recorrentes análises (MARSHALL, 2002). Porém, sua integração ao patrimônio arqueológico e cultural ainda é um desafio, tanto no Brasil como também em diversos outros países em desenvolvimento. O desafio está, em grande parte, na efetivação de ações sustentáveis no cotidiano das comunidades, bem como na observação de
6 ver http://www.smm.org/catal/
7 O projeto de Çatalhöyük que envolve a comunidade local nesse processo participativo e integrado é muito maior do que foi aqui explanado.
Para uma maior ampliação do estudo é possível acessar os diversos documentos, artigos e experiências em desenvolvimento pelo site http://www.catalhoyuk.com/index.html
modelos ecológicos para a consolidação de ações sustentáveis, tanto ambiental quanto culturalmente.
No caso brasileiro, pelo fato do país estar em franco desenvolvimento em meio ao processo de globalização, as questões ambientais tornaram-se prioridades nos últimos 10 anos. No âmbito da ciência arqueológica a obrigatoriedade da efetivação do licenciamento ambiental em locais onde haverá obras e as leis, decretos de proteção e conservação do patrimônio arqueológico (assunto a ser tratado adiante) abriram as cortinas para a inserção das comunidades nas tomadas de decisões (conjuntas) no âmbito das pesquisas desenvolvidas nos seus lugares de origem. Desta forma, a Arqueologia Pública se apresenta como um marco significativo no relacionamento com a sociedade.
Desde o final do século XX vem ocorrendo mudanças de posturas no que diz respeito à participação social, decorrente, inclusive, das transformações tecnológicas e econômicas, permeada por uma maior consciência ambiental (PHILIPPI JR E MALHEIROS, 2014:66), visto que um crescimento econômico ordenado e sustentável, que preserve os recursos naturais e culturais, diminui a desigualdade social e proporciona bem estar para todos, impulsionando uma maior valorização do passado e do meio ambiente, que inclui tanto o pré-histórico como o industrial, a história mais remota e a mais recente, as paisagens únicas e pretéritas e as quotidianas e modificadas pelo ser humano (GONZÁLEZ–RUIBAL, 2015).
A arqueologia colaborativa tem sido um dos carros-chefes nas agendas de discussões políticas, na busca por estratégias viáveis para a proteção do meio ambiente cultural em sinergia com as comunidades dentro de uma perspectiva holística.
Vê-se com isso emergir, globalmente, a consciência de que precisamos de mudanças sistêmicas fundamentais inspiradas em um novo pensar (coletivo e integrado) necessários às mudanças estruturais e culturais que irão permitir um mundo mais consciente e sustentável (ELISLER & CORRAL, 2012:69). Visto que uma Arqueologia Pública é uma Arqueologia mais relevante para a sociedade, não rejeita as questões que preocupam as pessoas, como: urbanização descontrolada, crescimento populacional, emigração urbana, meio ambiente, consumismo e identidades (multi) culturais. (GONZÁLEZ – RUIBAL, 2015).
Castro et al, 2007, corroborando com este pensamento, completam:
Entendemos que la práctica arqueológica es una producción de conocimiento sobre el pasado, pero también un compromiso social como investigadores en el presente em que vivimos. Esta concepción nos lleva a entender a la Arqueología como un campo disciplinar compartido, donde el saber que se deriva de su práctica, integra a las comunidades locales con nuestros intereses como científicos, ya que, en definitiva, es la sociedad en su conjunto la que se
hace responsable de los conocimientos que se generan, su legitimación y su conservación. En el mismo sentido, nos planteamos llegar un poco más allá de esta idea, propiciando una construcción en la cual los sujetos de las comunidades involucradas sean activos en la producción de conocimiento acerca del pasado, a partir de sus propios conocimientos particulares, formales o no, que aportan a la percepción e imagen del pasado. Los miembros de las comunidades no son solo constructores activos de conocimiento, sino que también lo son en la elaboración de principios relativos a la importancia del pasado, así como en la construcción de la idea de patrimonio y conservación de la memória. (CASTRO et al., 2007: 07)
Continuando nesta linha de pensamento, Bruce G. Trigger, em seu livro A História do Pensamento Arqueólogo, conclui refletindo sobre as perspectivas futuras no campo da arqueologia dizendo, entre outras, que o fato de que a arqueologia pode gerar um número cada vez maior de ideias sobre o que aconteceu no passado, sugere que ela possa constituir uma base