3. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES INICIAIS

3.8. BENS IMATERIAIS NO PEIXE CRU NOVO

Eu mudei de casa e de lugar, mas a vida é a mesma. (Depoimento Verbal)19.

Algumas práticas tradicionais permanecem sendo executadas pelas famílias. Dentre elas, uma que se destaca é a utilização de fornos de barro para o cozimento de bolos e biscoitos. Parte das casas já possuem fornos construídos pelos próprios moradores e, várias pessoas relataram que já estão com o material para iniciar a construção de seus fornos.

Ao chegar na casa do Sr. José Maria e da Sra. Maria das Dores, em janeiro de 2006, vejo o Sr. José Maria torrando café na área externa da casa, em um fogareiro de tijolo furado montado no chão. O cheiro de café perpassa nossa conversa, em que ele me explica que aquele café havia sido trazido do Peixe Cru Velho, tal como passou a ser chamado o antigo povoado, pelos moradores, após a mudança. Ele fala dos diferentes tipos de café usados no povoado de origem e no de destino, que é um tipo de café em que a árvore é menor.

Como Sra. Maria das Dores é uma das responsáveis pela condução dos cultos na igreja, quando não é dia de visita do padre, converso um pouco sobre as festividades da igreja e seu papel na comunidade, pensando num dos itens no Inventário de bens imateriais: as celebrações. Existe hoje em Peixe Cru uma crise em relação à igreja, em função de uma exigência do pároco que afirmou que as pessoas somente poderiam auxiliar nos trabalhos da igreja se fossem casadas. As mulheres que não eram casadas oficialmente aceitaram se casar, mas os maridos não. Esse fato gerou um grande mal-estar na comunidade, uma vez que as pessoas se sentiram excluídas da igreja e, por isso, a freqüência às celebrações diminuiu consideravelmente. Junte-se a isso o fato de as pessoas ainda estarem envolvidas com outros afazeres ligados à sua mudança para a nova área.

Nessa hora pergunto sobre a reconstrução da igreja, se eles consideravam importantes ter a mesma igreja do Peixe Cru Velho. O Sr. José Maria me responde que preferia ter uma

18

Dados da entrevista concedida pela Tina. Pesquisa de campo realizada em 15/01/2006.

igreja nova, mais moderna, como o povoado. A Sra. Maria das Dores interrompe rapidamente afirmando que a igreja era muito importante, como uma memória do antigo povoado.

A Sra. Maria Muniz também foi questionada acerca da importância da igreja e do papel desempenhado por ela no novo Povoado. Ela é uma senhora de cerca de 70 anos e morava no Peixe Cru Velho desde 1945. Ela sempre teve uma posição de resistência em relação ao reassentamento e se recusava a mudar para o novo povoado. Era a pessoa responsável pela guarda da chave da igreja no povoado antigo e morava na casa paroquial, que havia sido doada por sua família à igreja. Nessa condição, ela se opôs fortemente à restauração do crucifixo da capela e da sua reconstrução no novo povoado, pois queria poder ver a torre da igreja inundada. “Para mim, a igreja era uma coisa santa, agora ela não é nada” (Depoimento Informal)20. Atualmente, só vai à igreja em dias de visita do padre ao povoado e passou a guarda da chave da igreja ao presidente da associação comunitária.

Segundo o Sr. João do Arcanjo, houve uma forte influência do acesso aos meios de comunicação, como a televisão, que muitas pessoas compraram com o dinheiro da indenização recebida. “O povo esfriou muito em relação à igreja. A televisão mudou muito tudo. Dá a hora do culto e ninguém vai”. (Depoimento Informal)21.

Em dezembro de 2006, havia um novo padre prestando assistência à comunidade. Segundo as entrevistas realizadas, este padre era mais velho, mais paciente com a realização dos ritos e, por isso, a comunidade estava gostando mais dele. O horário do culto havia sido alterado, com o objetivo de incentivar a participação das pessoas. Entretanto, estas mudanças não haviam surtido efeito sobre a participação das pessoas. Segundo Jamilson, professor da comunidade e neto da Sra. Maria Muniz, “a questão da igreja já vinha esfriando desde lá (Peixe Cru Velho). A igreja não tem liderança, as senhoras estão idosas e não têm força. Em 2000, eu fui festeiro e puxei muita coisa. Hoje não assumo porque mexo com muita coisa”. (Depoimento Verbal)22.

Dona Maria das Dores me falou, ainda em dezembro de 2006, sobre a possível chegada de uma família protestante, que se mudaria para o povoado com o objetivo de aí instalar uma nova religião.

A reconstrução da Capela de Peixe Cru e a restauração do seu crucifixo representam claramente a noção de ressonância utilizada por Gonçalves (2005). O conteúdo de rejeição expresso em algumas das falas dos entrevistados denota que o estabelecimento de

20

Dados da entrevista concedida Sra. Maria Muniz. Pesquisa de campo realizada em 15/01/2006

21 Dados da entrevista concedida pelo Sr. João do Arcanjo. Pesquisa de campo realizada em 10/12/2006.

determinado elemento como patrimônio não depende de ações externas ao grupo, seja por técnicos ou de agências de Estado, mas de que este encontre ressonância no grupo.

Por ressonância eu quero me referir ao poder de um objeto exposto atingir um universo mais amplo, para além de suas fronteiras formais, o poder de evocar no expectador as forças culturais complexas e dinâmicas das quais ele emergiu e das quais ele é, para o expectador o representante. (GRRENBLATT, 1991, p. 42-56,

apud GONÇALVES, 2005, p. 19).

V ista a ére a d a igre ja rec o n struíd a V ista d o a lta r re c o nstruíd o Igre ja re c on struída Ig reja o rig ina l Iníc io d o d esm o nte Iníc io d a re c o nstruç ão

Figuras 21, 22, 23, 24, 25 e 26: processo de montagem e desmontagem da Igreja de Bom Jesus de Peixe Cru

Fonte: arquivo CEMIG

Outros saberes permanecem na memória dos mais velhos, mas já não se fazem constantes como antes. São os cantos e danças típicos da região, como o vilão, as técnicas de fiar o algodão e confeccionar linha e pavio23.

De repente dona Luiza, uma das entrevistadas, pega os fusos de fiar, descaroça o algodão com as mãos e começa a fiar, fazer do chumaço de algodão nativo no Peixe Cru Velho em linha. Mostra o fuso que era de sua mãe, “uma fiandeira de verdade”. Linha e pavio vão sendo confeccionados pela mulher sentada no chão.

23 Linha é o fio de algodão mais fino, que objetiva costura de roupas. Pavio, fio mais grosso e que se destina à tecelagem de cobertas e cobertores.

Figura 27: Cavalgada realizada na última festa de Bom Jesus

Fonte: Foto de Marcus Vinícius Carvalho Garcia

Obs. Cavalgada realizada na última festa do Bom Jesus de Peixe Cru, no Peixe Cru Velho, agosto de 2005.

Em relação aos ofícios, é possível perceber que no Peixe Cru Velho, tal salientado ao analisar os vestígios arqueológicos do entorno do povoado, que as práticas tradicionais, repassadas pelas gerações por meio de seus equipamentos e estruturas produtivas, conviviam com novos elementos ligados a um modelo urbano-industrial. Por outro lado, na Nova Peixe Cru, as novas práticas resultantes da existência de novos equipamentos e das novas modalidades de ofício, convivem com as experiências anteriores, as quais jogam sobre estas novas práticas um determinada luz. Esta luz é formada pelos vários dias de sol e noites de lua vividos pelas pessoas do Velho Peixe Cru, dando a essas novas práticas, tons, cores e aromas particulares.

No documento PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (páginas 96-99)