3. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES INICIAIS

3.6. PEIXE CRU NOVO

Das 19 famílias residentes em Peixe Cru, 5 famílias optaram pelo reassentamento fora do município de Turmalina e o restante optou por permanecer no seu município de origem, em uma antiga área de plantio de eucalipto, numa área de chapada.

O terreno definido para receber o núcleo da comunidade de Peixe Cru possui dimensão de 50ha, localizado na extremidade de uma área de reflorestamento de eucalipto, até então integrado à Fazenda Campo Limpo. Esta área também constituiu o objeto de trabalho de uma das equipes de arqueologia quando da realização dos trabalhos de prospecção arqueológica em maio de 2004.

Cada família tinha o direito a, em média, 60 ha de terra, conforme disposto no Termo de Acordo. Assim, foi definido que as famílias receberiam a casa com dois lotes no núcleo do povoado, 5 ha no entorno desses lotes e o restante das terras das famílias foram dispostos na região de entorno do núcleo.

Localizado na chapada, às margens da rodovia estadual MG – 114, o terreno localiza-se próximo ao trevo que permite o acesso, a partir da referida rodovia, para a cidade de Turmalina. Totalmente plano, apresenta cobertura vegetal com eucalipto onde ocorrem indivíduos de pequeno, médio e grande porte em decorrência de cortes seletivos (e rebrota das árvores) característicos de áreas de reflorestamento. Exemplares de espécies nativas de médio porte ocorrem, embora em quantidade

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Dados da entrevista concedida pela Sra. Maria Muniz ao Programa de Preservação do Patrimônio Cultural, em 2004.

reduzida devido à predominância do eucalipto. A partir do nível do solo e até uma altura que chega a atingir 2,0m ocorrem espécies de gramíneas (como capim-navalha) e plantas herbáceas, do tipo trepadeiras, que se entrelaçam dificultando o deslocamento. (LABORATÓRIO DE ARQUEOLOGIA, 2004.).

A realização dos trabalhos de prospecção arqueológica constatou a inexistência de vestígios arqueológicos de qualquer natureza e/ou época na área definida para o reassentamento. O que não é de se estranhar dada a localização da área e a dificuldade de obtenção de água no entorno imediato. Esta observação cabe mesmo quando se considera que a cobertura vegetal atual não possui mais que trinta anos.

Figura 17: Planta da área de reassentamento da comunidade de Peixe Cru Fonte: CEMIG

Peixe Cru, em relação aos seus bens imateriais, é justamente a alteração na organização do espaço desta comunidade. Conforme Rebouças (2003, p. 28), “a mudança incide sobre os modos de ocupação e apropriação do espaço, sobre o universo de práticas econômicas e sociais, os valores e representações vinculados ao ecossistema local e o conhecimento acumulado sobre os usos materiais e simbólicos da natureza”. Nota-se, portanto, que a transferência compulsória não trata apenas de levar em conta um ambiente constituído de vegetação, relevo, recursos hídricos mas, sobretudo, do processo cultural envolvido na ocupação desse ambiente: de maneira desenvolvem o uso e ocupação do solo, as relações derivadas daí, os objetos, edificações e tradições constituídos nesse amplo contexto.

Esta é a primeira questão: a saída de um local repleto de histórias, fatos, ou seja, carregado de significados, para um sem nenhum vestígio. Essa diferença aparece nos resultados dos trabalhos de prospecção arqueológicos e ilustram bem a diferença colocada.

Em relação à questão das terras, foi definido no Termo de Acordo que deveria ser “assegurado tanto a disponibilidade de terras para o desenvolvimento da agricultura familiar quanto a manutenção de sua organização social e econômica” (MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, 2002, p. 23). Assim, o projeto urbanístico do núcleo do povoado foi planejado com vistas a atender a determinação do Termo de Acordo, buscando se integrar com o reassentamento rural de entorno, para aquelas famílias que tivessem direito; ser prestada assistência técnica rural por 8 anos; doados insumos para plantio das duas primeiras safras na nova terra; dentre outros. O Anexo II apresenta o texto na íntegra do Termo de Acordo, no qual o item 06 do anexo I apresenta ações específicas a serem executadas para a comunidade de Peixe Cru, além das outras aplicáveis a todos os reassentamentos.

Na configuração espacial da “Nova Peixe Cru” buscou-se, conforme citado nos documentos da CEMIG, aproximar do desenho da comunidade original, contando com acréscimo de novos elementos, como calçamento e praça com coreto. Para compensar a perda da proximidade com o rio e as atividades de lazer, foi solicitada, pela comunidade, a tenha mantido a igreja como referência visual, em destaque ao fundo do povoado, em relação a quem chega, nota-se que na nova configuração o povoado assumiu características bem mais urbanas que o povoado original, por meio de ruas com calçamentos, coreto, ruas bem definidas e casas novas com muros. Esse é um importante dilema no processo de remanejamento de Peixe Cru, a saber: ainda que tenha se buscado manter certa similaridade com o povoado original, qual a representação da comunidade em relação ao espaço no novo povoado?

Figuras 18, 19 e 20: Fotos da Nova Peixe Cru

Fonte: arquivo CEMIG

Esse processo de reconstrução do espaço torna evidente a profunda relação existente entre os elementos constitutivos deste local e as referências culturais daqueles que serão responsáveis por sua ocupação. Uma das questões postas, nesse contexto, é como a bagagem cultural, que esses indivíduos trazem impressas em si, se adequará ao novo espaço que lhes é colocado como morada e em que medida a adoção do INRC influencia nesse processo.

Ao conversar com os moradores de Peixe Cru percebi que o novo povoado não se configurava como um lugar sem significados prévios, mas, ao contrário, vinha carregado de sentidos, tanto aqueles ligados à própria situação de remanejamento (expectativas, perdas) quanto por aquelas erigidas a partir da própria experiência e proximidade com as terras de chapada (acerca da produtividade, disponibilidade de água). Assim a nova área de Peixe Cru representava um marco zero, no sentido de que tudo está para ser construído, mas, por outro lado, este lugar estava cheio de significações em relação à não produtividade das terras da chapada, à esperança de futuras melhorias de vida, de sentimento de perda não minimizado pelo repasse das terras em questão.

Desde a mudança das famílias, foram construídas no povoado 6 novas casas, sendo que destas 2 são de pessoas de fora da comunidade, o que aponta para uma certa atratividade do atual povoado.

A relação com equipamentos urbanos disponíveis no novo Peixe Cru demonstra algumas das dificuldades impostas pelo processo de remanejamento e de reapropriação do novo lugar. O uso da piscina é emblemático nesse sentido. A pedido da própria comunidade, foi construída uma piscina, como medida compensatória pela perda do rio como fonte de lazer. Entretanto, os responsáveis pela associação comunitária têm restringido o seu uso alegando que as crianças não tomam os cuidados mínimos para seu uso (roupas adequadas e tomar uma ducha antes de entrar na piscina). Essa falta de cuidados para o uso da piscina estava implicando em gastos excessivos na sua manutenção. Assim, a piscina acabou se tornando causa de grande desconforto na comunidade uma vez que não substituiu o rio como lazer para as crianças e se tornou, de certa forma, um elemento representativo de poder, já que seu controle confere autoridade aos responsáveis pela associação comunitária.

Além dos 2 bares existentes na comunidade antiga, os quais foram construídos pela CEMIG, outros estabelecimentos comerciais estão sendo montados. Um armazém e açougue e um outro bar. Este aspecto demonstra uma alteração marcante nas relações de trabalho que é a sua monetarização. Na realidade, os moradores da comunidade possuem, hoje, uma necessidade real de dinheiro, uma vez que alguns itens da sua sobrevivência passaram a exigir compra, tais como: frutas (antes haviam pomares formados, e na nova comunidade ainda não), pasto (algumas pessoas estão alugando pastos próximos ao rio, porque a região não tem pasto formado nem nativo, porque era área de eucalipto) e água (atualmente, a água é bombeada de um curso d’água para uma caixa ligada à rede distribuidora. Para esse bombeamento, é necessário o uso de energia elétrica, cuja conta a comunidade paga).

Além disso, no microcosmo de Peixe Cru, foram identificados vários lugares, aos quais são atribuídas diferentes significações. Para compreender essas diferentes atribuições, é preciso compreender o processo de repasse de terras à comunidade.

Foram repassadas à comunidade, conforme o Termo de Acordo, em seu anexo 1, uma média de 40 ha de terra por família. Além disso, foi dado, para aquelas famílias que tinham direito, um lote da parte “urbana” de Peixe Cru. Esse lote foi dividido em dois: um onde foram construídas as casas, outro que foi deixado para cultivo. Dos 40 ha, 5 foram dispostos ao redor do núcleo, para que as famílias pudessem fazer suas roças, o restante nas terras ao redor.

Essa complexa forma de uso e ocupação do solo pode ser percebida como profundamente marcada nas práticas cotidianas e discursos dos moradores de Peixe Cru e as formas de apropriação desses diferentes espaços demonstram diferentes níveis de adaptação à nova realidade, organização de rotinas de trabalho baseadas no gênero e nos relacionamentos de parentesco. Ou seja, a apropriação mesma do espaço ocorre seguindo a dinâmica estabelecida pela comunidade em suas relações sociais.

O quintal, contíguo à casa, em que são cultivadas a horta e o jardim (que se caracteriza pela junção entre plantas medicinais e ornamentais) e são desenvolvidas atividades ligadas à casa: trato de pequenos animais, atividades de preparação de comidas (biscoitos em forno de barro). No caso de Peixe Cru, apenas duas casas dentre as visitadas não tinham quintais com plantas e hortas bem formadas e, principalmente, jardim: uma em que não havia nenhuma mulher e outra em que a proprietária, já idosa, é absolutamente resistente ao reassentamento e mantém vivo o desejo de voltar à antiga área do povoado. No restante das casas, os quintais já estão apropriados pelas pessoas como lugar de estar e domesticar.

As roças são representadas pelos 5 ha que foram cultivados pelos membros da comunidade, no regime de lavoura temporária. Em janeiro de 2006, esse espaço simbolizava as incertezas vividas pelos membros dessa comunidade, uma vez que foram realizados esforços para preparar o solo e plantar nessa área e como o regime de chuvas se caracterizou pela concentração destas durante o mês de dezembro, a seca do mês de janeiro levou à perda da produção. De fato, a questão da produção da lavoura em terras de chapada sempre foi um aspecto crucial para esta comunidade, já que o processo de produção aí difere muito daquele de seu local de origem. Assim, a perda dessa produção é significativa na medida em que mantém a incerteza sobre o processo produtivo na chapada e a incerteza na capacidade de proceder a essa adequação por parte da comunidade.

Após o período de forte seca, em janeiro de 2006, e perda de parte da produção, as chuvas iniciaram e eles conseguiram plantar novamente e colher uma boa safra. Este fato serviu para tranqüilizar a população do povoado em relação à produtividade das terras. Em dezembro de 2006, com a grande quantidade de chuvas naquele período, as pessoas estavam com seus 5 ha plantados e todos esperançosos com a produção.

As terras da chapada (restante dos 60 ha) se apresentavam, em janeiro de 2006, como uma realidade distante em termos de trabalho, mas, para alguns, como oportunidade de conquistas de bens materiais (venda das terras para comprar outras terras ou outros bens materiais) ou como moeda de negociação para retornar às terras com características semelhantes às propriedades de origem. Entretanto, esta postura otimista é contrastada pela de

alguns moradores que já venderam suas terras (totalidade ou partes) para comprar áreas “nas grotas”, como costumam chamar as áreas de vales, próximas a cursos d’água.

Em setembro de 2006, verificou-se que os 60 ha passaram a ser trabalhados por meio da produção de carvão, a partir da sobra do eucalipto estava plantado na área que foi desmatada para a implantação do reassentamento. Este trabalho de produção de carvão tem sido encarado como a alternativa ao término da atividade de garimpo. Entretanto, a diferença entre as duas atividades é a necessidade de replantio e da tomada de cuidados que o plantio do eucalipto demanda, em contraposição à prática de extrativismo do garimpo.

O eucalipto tornou-se uma realidade no rol de atividades para os moradores de Peixe Cru. Em dezembro de 2006, havia uma série de iniciativas, ligadas ao plantio de eucalipto, nas quais os moradores estavam inseridos. Uma empresa do município de Capelinha estava realizando plantio em suas áreas, próximas ao reassentamento, e haviam alugado uma casa no povoado, contratado uma das moradoras como cozinheira e uma série de pessoas para trabalhar no plantio propriamente dito.

Uma outra iniciativa estava ligada a uma área de 40 ha, que um dos moradores do povoado havia vendido para uma pessoa do município de Turmalina e este havia contratado outras pessoas para trabalhar no plantio do eucalipto nesta área.

Além disso, alguns proprietários estavam implementando áreas de plantio de eucalipto em seus terrenos, em pequenas porções de terra. Entretanto, estes estavam enfrentando dificuldades com esta prática em função dos custos de realização deste tipo de plantio. Alguns haviam esperado um financiamento do PRONAF14, que não havia saído até aquele momento, e, por isso esse plantio havia sido interrompido.

Uma alteração decorrente desta oferta de serviço em função do plantio de eucalipto é o aumento do número de mulheres com atividades remuneradas. Conforme Kelly, uma das entrevistadas, em dezembro de 2006: “lá embaixo a gente trabaiava em casa, na roça ou

cozinhava para garimpeiro, aqui as muié trabaia plantano eucalipto”.

Se o lugar é uma categoria fundamental para a compreensão dos aspectos ligados à construção das identidades no caso do remanejamento de Peixe Cru, a noção de trabalho, em estreita relação com o espaço, também o é. De fato, a relação que os homens estabelecem com o seu trabalho na terra ou no rio indica alguns dos principais elementos para a compreensão das identidades de Peixe Cru.

14 Conforme o Termo de Acordo, assinado entre a CEMIG e o Ministério Público Federal, dentre outros, deveria ser disponibilizado para todos os reassentamentos, linhas de financiamento, via PRONAF.

No documento PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (páginas 86-93)