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Cidadania nos documentos do estado de Pernambuco

G: a escola integral é uma escola que está mobilizada em trabalhar com o adolescente a questão do aprendizado, mas não apenas o aprendizado de conteúdos

1.3 Legislação para a compreensão de uma cidadania

1.3.2 Cidadania nos documentos do estado de Pernambuco

O governo do estado de Pernambuco disponibiliza aos educadores, técnicos e gestão escolar alguns documentos que funcionam como referência no processo de educação do estado. Estas referências versam sobre currículo, ensino e aprendizagem, avaliação, cidadania, cultura escolar, identidade entre outros temas. Neste estudo, optamos pelos seguintes documentos: a BCC-PE (Base Curricular Comum para as redes públicas de Pernambuco) ou simplesmente BCC, ficando subtendido que o componente curricular é o de Língua Portuguesa, por ser esse o componente que lecionamos; os PCEB–PE (Parâmetros Curriculares para Educação Básica do Estado de Pernambuco) ou PC e os PCLPEFM (Parâmetros Curriculares de Língua Portuguesa para o Ensino Fundamental e Médio) ou PCLP10.

A BCC (Base Curricular Comum) de Língua Portuguesa faz parte de uma série de documentos que compõe a base curricular comum da educação básica para as redes públicas do estado de Pernambuco e resulta de um projeto da UNDIME–PE (União dos Dirigentes

10 Todos esses documentos estão disponíveis em:

39 Municipais de Educação de Pernambuco) em parceria com várias instituições educacionais do estado.

O objetivo da BCC é contribuir e orientar os sistemas de ensino, na formação e atuação dos professores da educação básica. Ela também serve como referencial à avaliação do desempenho dos estudantes da rede pública que visa analisar a qualidade do sistema público de ensino do estado de Pernambuco nos componentes curriculares de Língua Portuguesa e Matemática, em princípio.

Ao se restringir à Língua Portuguesa e à Matemática, esse processo inicial responde a demandas específicas, que têm reivindicado uma maior participação da escola na formação para o uso social da linguagem e dos saberes matemáticos. No entanto, impõe-se o prosseguimento de ações que permitam incorporar à BCC-PE, as demais áreas do currículo da Educação Básica. (BCC, 2008, p. 11-12).

A cidadania é um dos três eixos principais que constituem o paradigma fundamental da proposta: solidariedade, vínculo social e cidadania, ―[...] solidariedade, que se afirma no vínculo social e na cidadania, como paradigma, e a identidade, vista na diversidade e na autonomia, como diretriz da proposta educacional‖ (Ibid, p. 15). O paradigma da solidariedade é ampliado a fim de incorporar as noções de vínculo social e de cidadania, ambas sustentadas no princípio da justiça social e na experiência republicana.

[...] a solidariedade é aqui compreendida como a reciprocidade entre grupos e atores sociais; numa relação de intersubjetividade; o vínculo social, como a aliança a favor da comunidade; e a cidadania, como o 'direito a ter direitos', e a aceitação do valor superior da experiência republicana na organização da política e dos interesses sociais.

[...]

Pensar a escola pelo paradigma da solidariedade, do vínculo social e da cidadania implica valorizar as experiências de reconhecimento e de pertencimento. É por esse prisma que a comunidade escolar (na construção do projeto político- pedagógico) e os professores (na efetivação de sua prática) devem orientar-se, no sentido de promoverem a formação do cidadão ético. (BCC, 2008, p. 21-22).

No documento, a educação ratifica a imagem do estudo associado à ascensão social, pois afirma que os conhecimentos estão alicerçados na melhoria da qualidade de vida das pessoas e em concepções que visam ao compromisso com a dignidade humana, a justiça social, a ética democrática e a cidadania como construção e reconhecimento de direitos, ou seja,

40 [...] a educação também deve exercer a sua parte na formação integral do cidadão: - solidário, participativo, criativo e aberto ao diálogo;

- crítico, conhecedor do seu entorno e das dimensões nacional e global; - disposto a assumir concepções éticas, fundadas na justiça social; - sensível à dimensão estética das diferentes manifestações culturais;

- empenhado em partilhar regras democráticas, construídas com base no interesse comum e no respeito à diversidade. (Ibid, p. 22-23).

O paradigma da solidariedade, do vínculo social e da cidadania como fio condutor da proposta curricular para as redes públicas do estado de Pernambuco destaca não só uma aprendizagem relacional, crítica, situada e conjunta, a partir de práticas solidárias e contextualizadas, mas também a possibilidade de construção de uma cidadania democrática e plural na perspectiva da autonomia e do respeito à diversidade dos atores sociais envolvidos no processo.

A cidadania democrática, [...], tem como pressuposto a inclusão de todos em vínculos solidários, que busquem a superação das desigualdades e da intolerância, que garantam a formação para o trabalho e a socialização do conhecimento, dos bens culturais e materiais, que preconizem a convivência ética e responsável dos grupos sociais e dos indivíduos, com outros saberes e culturas, meio-ambiente e tecnologias. (Ibid, p. 25).

A definição de uma base curricular, nessa perspectiva, acarreta a valorização do reconhecimento e do pertencimento, como também atribuir à educação um sentido que coloca a qualidade de vida do ser humano como primeiro objetivo da educação. Nesse sentido, a educação não se orienta apenas pelas exigências do mundo do trabalho, mas busca a emancipação do cidadão solidário, capaz de assumir com ética e criatividade, o desenvolvimento dos interesses comuns e da justiça social. A escola, por sua vez, é levada a centrar-se na ampliação de saberes e competências, dos mais gerais às mais específicas, a fim de viabilizar a inserção social inerente ao desenvolvimento justo e solidário.

Segundo o documento, o desenvolvimento de saberes e competências traz o pressuposto de que a intervenção humana é possível, ou seja, os grupos humanos podem interferir no controle das mais diferentes situações, seja para mudá-las, seja para reorientá-las ou reforçá-las. Nesse sentido, as situações podem mudar, se as pessoas se dispuserem a intervir, a agir, a inventar, a trabalhar para que elas sejam diferentes, por isso é importante desenvolver competências. Como as atuações humanas são inevitavelmente interacionais, toda construção humana é, portanto, coletiva, solidária, participativa, de uns com os outros, de uns e de outros.

41 Os PC (Parâmetros Curriculares) do estado de Pernambuco em consonância com a BCC buscam ―orientar o processo de ensino e aprendizagem e as práticas pedagógicas em sala de aula‖ (PC, 2012, p. 13), estabelecendo as expectativas de aprendizagem ―como expectativas de ‗direito à aprendizagem‘, em termos de ‗capital‘ cultural, científico, histórico, tecnológico, estético, moral‖ (Ibid, p. 27). Devemos compreender o direito a que o documento se refere como direito à aprendizagem significativa. Diante disso, os PC têm como objetivo

[...] contribuir para a qualidade da educação de Pernambuco, proporcionando a todos os pernambucanos uma formação de qualidade, pautada na Educação em Direitos Humanos, que garanta a sistematização dos conhecimentos desenvolvidos na sociedade e o desenvolvimento integral do ser humano. (PC, 2012, p. 16).

A questão da cidadania percorre por todo o documento, uma vez que o grande desafio é formar cidadãos, garantindo-lhes não só o sucesso escolar, mas também o social e o político. Nesse sentido, busca-se alcançar uma educação de qualidade a fim de garantir a todos o direito de aprender, reconhecendo que o processo de inclusão social só se consolida se estiver aliado ao sucesso escolar.

Nessa perspectiva, a construção do currículo – que tem como suporte a integração e a contextualização - além de ser foco central no documento, está articulada às demandas formativas dos sujeitos, às exigências das sociedades, aos cenários contemporâneos, assim como aos novos estatutos epistemológicos das ciências e aos desafios de materializar os princípios da educação integral. Por isso o currículo é concebido ―como sendo um conjunto de conhecimentos, habilidades e competências, traduzido em expectativas de aprendizagem.‖ (Ibid, p.23). Compreende-se, no documento, competências e habilidades como uma capacidade de mobilização de saberes que visa encontrar respostas para diferentes situações.

A incorporação de temas culturais ao currículo e, por consequência, ao planejamento põe em relevo o trabalho com saberes de diferentes culturas, ou seja, explora os espaços da pluralidade e das diferenças em que se produzem relações de saber-poder. Nesse sentido, os PC do estado de Pernambuco interagem com o conhecimento de forma abrangente, assegurando o respeito às diversidades regionais, permitindo infinitas possibilidades no desenvolvimento dos conteúdos, além de oportunizar experiências diversificadas, que favorecem a otimização dos espaços para o desenvolvimento das atividades e a (re)adequação do espaço e do tempo escolar. Essa dinâmica avança na superação do isolamento e da

42 autonomia dos componentes curriculares e abre a possibilidade de diálogo, interconexão e convivência entre eles, compondo, assim, áreas de conhecimento mais amplas.

Os PCLP (Parâmetros Curriculares de Língua Portuguesa) procurando alicerçar o compromisso com uma educação pública de qualidade surgem para reafirmar

[...] um modelo de ensino alinhado com as orientações nacionais e comprometido com uma formação que garanta aos estudantes usar a linguagem com autonomia e competência, para viver melhor, para aprimorar-se pessoal, intelectual e profissionalmente e para atuar de forma ética e responsável na vida social. (PCLP, 2012, p.13).

A fim de alcançar esse fim, os PCLP oferecem subsídios que buscam orientar o ensino de língua materna e suas metodologias, bem como visam a uma contribuição com a escola como espaço de construção e difusão do saber, de formação humana e circulação de valores.

A proposta de ensino que o PCLP apresenta considera a natureza social e interacional da linguagem, adota o texto como objeto central de ensino e privilegia as práticas de uso da linguagem no espaço escolar. Dessa forma, ganha força a construção de um currículo mais centrado no desenvolvimento das capacidades de ler, escrever, ouvir e falar.

Essa perspectiva de ensino [...] implica a construção de práticas que, obviamente, não se limitam às aulas expositivas, centradas na figura do professor e pautadas numa compreensão de ensino-aprendizagem como transmissão/recepção de conteúdos descontextualizados. [...] propõe-se a construção de espaços nos quais o estudante atue, sob a orientação do professor, em práticas que promovam a integração dos saberes – dentro da disciplina Língua Portuguesa e mesmo entre as disciplinas do currículo – e contextualizem o conhecimento. Esses pilares do currículo – a integração e a contextualização – contribuem muito para que a escola e suas práticas possam fazer sentido para os estudantes. (PCLP, 2012, p. 14).

Nessa perspectiva, a construção da cidadania, assim como no PC, atravessa todo o documento, uma vez que o objeto de ensino representa um campo complexo de saber composto por suas redes conceituais, seus discursos, sistemas de valores e seus condicionantes sócio-históricos, que foram selecionados com base em uma intencionalidade educativa.

O objeto de ensino também representa as construções e apropriações conceituais, tecnológicas e ético-valorativas a serem desenvolvidas/constituídas pelos estudantes nos processos escolares. Tais apropriações implicam uma ação sistemática do sujeito que aprende e da mediação docente de modo a garantir aquisições/construções cada vez mais abrangentes, significativas e complexas acerca desse objeto.

43 Os PCLP são estruturados a partir de seis eixos que visam a uma organização e sistematização do trabalho com a linguagem a fim de alcançar o desenvolvimento de capacidades linguísticas de leitura, escrita e oralidade (produção e recepção). Os eixos são os seguintes: apropriação do sistema alfabético, análise linguística (eixo vertical), oralidade, leitura, letramento literário e escrita.

O eixo da análise linguística posiciona-se na verticalidade a fim de indicar o deslocamento, para segundo plano, do trabalho com a metalinguagem, ou seja,

Os conteúdos gramaticais – o estudo do verbo, das conjunções, das estruturas sintáticas, dos recursos semânticos etc. – são, além de recolocados, redimensionados, ou seja, ganham um novo lugar e um outro sentido. Em substituição aos exercícios de nomeação e classificação dos recursos da língua, em lugar dos estudos normativos, os estudantes são envolvidos em atividades de análise e reflexão sobre o seu uso e funcionamento em textos e contextos diversos, tendo em vista seu aprimoramento como leitor, ouvinte, falante e escritor. As práticas de ensino de linguagem articulam, portanto, atividades que contemplam os usos da língua e atividades de reflexão sobre esses usos. (PCLP, 2012, p. 15-16).

Foram enumeradas expectativas de aprendizagem para cada um dos eixos. Elas visam relacionar os conhecimentos que os estudantes devem desenvolver em cada ano do ensino básico, como também construir e aperfeiçoar, progressivamente, o domínio da linguagem verbal tanto na modalidade oral como na escrita.

Enfim, a estrutura dos PCLP na perspectiva de expectativas de aprendizagens procura desenvolver a formação de cidadãos, uma vez que quanto mais o estudante se apropria dos processos comunicativos da língua, mais saberá utilizá-la para responder as suas necessidades sociais.

A fim de prosseguir com o nosso estudo, buscaremos reconhecer o espaço destinado à oralidade em sala de aula. Para alcançar esse fim, refletiremos sobre o discurso enquanto instrumento que contribui na formação da cidadania - na perspectiva de Ribeiro e Garcez (2013), sobre o valor de uma aprendizagem significativa para a construção do cidadão e da cidadã e, por fim, sobre o ensino da oralidade nas salas de aulas de língua materna.

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CAPÍTULO 2 – A SOCIOLINGUÍSTICA INTERACIONAL E O DISCURSO

EM SALA DE AULA

Cidadania é um exercício de direitos que implica obrigações. A relação entre língua e sujeito11 falante deve associar-se aos princípios de formação de um indivíduo falante-cidadão que vise colaborar na formação de uma sociedade democrática. No entanto, não é fácil contribuir para a formação de estudantes que ouvem ativa, responsável e conscientemente. A proposta de um trabalho educacional cujos discursos pedagógicos e práticas estejam voltados para uma aprendizagem significativa e para um compromisso com formação da competência oral permite aliar responsabilidade social à cidadania, a objetivos sociopolíticos, a conhecimentos, à cultura, entre outros, pois uma das maneiras de propiciar aos estudantes a consciência de como se dá a sua inserção na sociedade é por meio de uma educação que realmente possibilite a esse estudante a construção do conhecimento articulado ao exercício de sua cidadania. Esses serão alguns dos temas comentados neste capítulo a fim de contribuir para a compreensão de uma interação dialógica desafiadora de sujeitos que visa à utilização do espaço escolar como forma de preparação para o exercício da cidadania.

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