8.2 ERRO OU IgNORÂNCIA (CÓDIgO CIVIl, ARTS 138 A 145) O erro é a falsa representação da realidade, isto é, a falsa percepção
COMENTÁRIO Decisão do STJ estabelece
que, no caso de bem imóvel, a ação anulatória tem como termo inicial a data de registro do ato ou contrato no cartório imobiliário (REsp 1.205.147 - AgRg).
Conforme determina o art. 144 do Código Civil, o erro não preju- dica a validade do negócio jurídico quando a pessoa, a quem a manifes- tação de vontade se dirige, se oferecer para executá-la na conformidade da vontade real do manifestante. Tal dispositivo consagra o princípio da conservação do contrato, que decorre do princípio da função social do contrato, ao preferir a revisão do contrato à anulação.
Para que o erro torne o negócio jurídico anulável, deverá ser subs- tancial e real (deve causar verdadeiro prejuízo para o interessado). Se o erro for acidental, o negócio jurídico será válido, conforme veremos.
8.2.2. Classificação do erro quanto à
determinação
8.2.2.1. Erro substancial
Erro substancial (error in substantia) ou erro essencial é aquele que recai sobre aspecto determinante (relevante) do negócio, incidindo so- bre o núcleo essencial da declaração. Se a pessoa tivesse conhecimento da realidade, o negócio não teria sido celebrado. Quando o erro é subs- tancial, o negócio jurídico é anulável.
O próprio Código Civil determina, em seu art. 139, que o erro é substancial quando:
I – interessa à natureza do negócio (error in negotio – p. ex.: a pes- soa aluga uma casa, mas achava que a estava emprestando), ao objeto principal da declaração (error in corpore – p. ex.: a pessoa acredita que está comprando um determinado carro e na verdade adquire outro), ou a alguma das qualidades a ele essenciais (error in qualitate ou in substantia – p. ex.: a pessoa compra um relógio de latão, achando que é de ouro);
II – concerne à identidade ou à qualidade essencial da pessoa a quem se refira a declaração de vontade, desde que tenha influído nesta de modo relevante (error in persona – p. ex.: a pessoa acha que está con- tratando uma banda famosa, mas acaba contratando uma homônima);
III – sendo de direito e não implicando recusa à aplicação da lei, for o motivo único ou principal do negócio jurídico (error iuris).
O erro de direito (error iuris) é aquele em que a pessoa desconhe- ce o conteúdo ou a consequência de um dever jurídico imposto por lei ou assumido mediante acordo de vontade. Podemos afirmar que há um falso conhecimento ou uma falsa interpretação sobre o direito. Para que o erro de direito possa conduzir à anulação do negócio, devem estar pre- sentes dois requisitos:
a) Motivo determinante: a pessoa deve ter declarado a vontade somente porque teve uma errônea compreensão da norma jurídica.
b) Não pode implicar recusa à aplicação da lei: quando se estu- da o erro de direito, é muito comum a indagação se não haveria uma antinomia (isto é, um conflito) entre o art. 139, III, do Código Civil de
COMENTÁRIO
Em decisão do TJSP (Ap. 0011043-31.2013.8.26.0566), verifi- camos caso emblemático de de- feito do negócio jurídico. O autor da ação recebeu uma carta do INSS informando-lhe a respeito de diferença derivada de revisão em seus benefícios previdenciários. Procurou auxílio do réu, que lhe ofereceu serviços para interme- diação junto ao órgão público, cobrando-lhe o equivalente a 30% do montante a ser levantado. Contudo, este deixou de informar que seus serviços não seriam ne- cessários, já que bastaria compa- recer diretamente para receber os valores.
2002 e o art. 3º da LINDB – Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, que proíbe a alegação de ignorância para descumprimento da lei (ignorantia legis neminem excusat), conhecido como princípio da obrigatoriedade. A resposta, a nosso ver, é negativa. O art. 3º da LINDB proíbe a alegação do erro de direito para afastar a norma jurídica geral, a lei. O art. 139, III, do Código Civil admite a alegação do erro de direito para afastar a norma jurídica individual, o contrato. Como se vê, são situações distintas.
8.2.2.2. Erro acidental
É aquele que recai sobre aspecto secundário, ou seja: a pessoa tem uma falsa percepção sobre um elemento que não é determinante para a concretização do negócio jurídico. Por essa razão, afi rma-se que o negócio viciado por erro acidental não é anulável.
O art. 142 do Código Civil contempla o erro acidental ao dispor que “o erro de indicação da pessoa ou da coisa, a que se referir a declaração de vontade, não viciará o negócio, quando, por seu contexto e pelas cir- cunstâncias, se puder identifi car a coisa ou pessoa cogitada”. Todavia, se as qualidades secundárias da pessoa ou da coisa forem consideradas como razões determinantes do negócio, se estará diante de hipótese de erro substancial, permitindo a anulação.
O erro que incide sobre a qualidade acessória do objeto (error in qualitate) ou sobre sua medida, peso ou quantidade (error in quantitate) é considerado acidental desde que não importe efetivo prejuízo ao con- tratante.
O erro sobre o motivo ou erro quanto ao fi m colimado, em regra, não permite a anulação do negócio. Os motivos que levam uma pessoa a agir de determinada forma normalmente não têm importância para o direito. Todavia, quando o motivo passa a ser expresso como razão determinante de um negócio jurídico, entende-se que ele passa a incor- porar o próprio conteúdo do negócio, contaminando-o, quando falso.
O erro sobre o cálculo também pode ser apontado como exemplo de erro acidental, pois não contamina o negócio jurídico e, portanto, não permite a sua anulação. É uma espécie de erro material retifi cável, daí por que o art. 143 do Código Civil apenas autoriza a retifi cação da declaração de vontade, isto é, o recálculo, consagrando o princípio da conservação do contrato.
8.2.2.3. Erro obstativo
O erro obstativo, obstáculo ou impróprio é aquele de exagera- da importância, constituindo uma profunda divergência entre as partes contratantes de tal modo que não haveria vontade negocial. Por essa razão, explica Carlos Roberto Gonçalves, as doutrinas alemã, francesa e italiana defendem que essa espécie de erro conduz à inexistência do negócio jurídico. Como exemplos de erros obstativos nesses países, po- VOCABUlÁRIO
colimado: objetivado, desejado
A jurisprudência (TJSP, Ap. 0036433-36.2010.8.26.0007) forne- ce a resolução de um caso bem comum de ocorrer: o autor da ação alega divergência entre o veículo automotor efetivamente adquirido e o indicado no contra- to de fi nanciamento. O erro não foi apto a invalidar este negócio jurídico, descabendo a anulação e a devolução do bem fi nancia- do. O tribunal estabeleceu a ade- quação à real vontade das par- tes, tendo alterado as cláusulas contratuais relativas à descrição do bem e ao valor fi nanciado.
COMENTÁRIO