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O artigo 225, caput, da Constituição Federal prevê o direito ao meio ambiente como “bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.

Vejamos a natureza e extensão do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.

preservação das reservas florestais, o Código das águas (Decreto n° 24.634/34) para disciplinar o uso e exploração de água e a legislação da caça no Decreto n° 24.645/34.

A Constituição de 1937 ampliou a competência legislativa da União para disciplinar as minas, a metalurgia, a energia hidráulica, águas, floresta, caça e pesca. Durante sua vigência não houve significativa legislação sobre proteção do meio ambiente, pois foi disciplinado apenas o tombamento e proteção do patrimônio histórico e artístico nacional (Decreto-Lei n° 25/37). Também foi aprovado o Código Penal vigente, que prevê crimes contra o meio ambiente. A Constituição Federal de 1946 foi irrelevante na proteção do meio ambiente, pois somente alterou a competência para disciplinar as riquezas do subsolo para atribuí-la somente à União. (MARÇAL, Liliana de Almeida Ferreira da Silva, op. cit., p. 47).

219 “Princípio 1. O homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade e ao desfrute de condições de vida

adequadas em um meio ambiente de qualidade tal que lhe permita levar uma vida digna e gozar de bem-estar, tendo a solene obrigação de proteger e melhorar o meio ambiente para as gerações presentes e futuras. A este respeito, as políticas que promovem ou perpetuam o apartheid, a segregação racial, a discriminação, a opressão colonial e outras formas de opressão e de dominação estrangeira são condenadas e devem ser eliminadas.”

220 GRANZIERA, Maria Luiza Machado, op. cit., p. 81. 221 Idem, p. 82.

9.1 Natureza do direito ao meio ambiente

O direito ao meio ambiente é direito fundamental na nova ordem constitucional. Por isso, as normas de direito ambiental são de eficácia plena, podendo-se exigir o seu

cumprimento imediato, ainda que não seja disciplinado pela legislação infraconstitucional222.

A introdução da tutela do meio ambiente pela Constituição de 1988 pode ser vista como extensão do direito à saúde, pois o meio ambiente saudável é essencial para a vida humana, que necessita dos recursos do ambiente natural e artificial para sua sobrevivência e

perpetuação da cultura223. Lembramos que a relação entre meio ambiente e o direito à saúde já

foi estabelecida anteriormente pelo Pacto de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais das Nações Unidas de 1966, que previu as diretrizes para resguardar o direito à saúde, dentre as

quais está inserida a salubridade ambiental224.

O novo direito constitucional ao meio ambiente pode ser classificado como direito social e individual. Ele pode ser considerado como direito social porque não permite fruição individual, pois é um bem de uso comum do povo, mas também tem caráter individual porque

integra o patrimônio jurídico de todos os indivíduos225.

O direito ao meio ambiente também está inserido na categoria dos direitos coletivos

lato sensu, que são aqueles compartilhados por grupo, classe ou categoria de pessoas. Mais

especificamente, ele pertence ao grupo dos direitos difusos, cujos interessados são indetermináveis e estão ligados pela mesma situação de fato. Assim, por exemplo, o vazamento de petróleo no mar viola o direito ao meio ambiente de pessoas indeterminadas, que estão ligadas entre si pelo mesmo fato, qual seja, o acidente ambiental. Cabe destacar que os interesses difusos não se confundem com os interesses coletivos stricto sensu, já que, nas palavras de Hugo Nigro Mazzilli, “os coletivos dizem respeito a grupo, categoria ou classe de

pessoas determinadas ou determináveis, ligadas pela mesma relação jurídica básica.”226.

222 ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito ambiental, 15ª ed. São Paulo: Atlas, 2013, p. 94-95.

223 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito ambiental brasileiro, 21ª ed. São Paulo: Malheiros, 2013, p. 155-

156.

224 TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. Direitos humanos e meio-ambiente: paralelo dos sistemas de

proteção internacional. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1993, p. 83-85.

225 DERANI, Cristiane. Direito ambiental econômico, 3ª ed., 2ª tiragem. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 260-261.

No mesmo sentido: TRINDADE, Antônio Augusto Cançado, op. cit., p. 143-144.

226 MAZZILLI. Hugo Nigro. A defesa dos interesses difusos em juízo: meio ambiente, consumidor, patrimônio

9.2 Definição de meio ambiente

O artigo 3°, inciso I, da Lei n° 6.938/81, define o meio ambiente como “conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”.

Ocorre que a definição é incompleta, pois não considera o aspecto humano de alteração do meio ambiente. Por isso, adotamos o conceito de José Afonso da Silva, que abrange a natureza – tal como o solo, a água, o ar, a flora, a flora, as belezas naturais, os ecossistemas – e os recursos artificiais, quais sejam: o patrimônio histórico, artístico, turístico,

paisagístico e arqueológico227.

O meio ambiente ainda é definido pela Constituição como “bem de uso comum do povo” , que não pode ser confundido com bem público de uso comum do povo, já que os bens ambientais podem ser de propriedade privada. O “uso comum” significa que a sociedade tem direito de fruir do equilíbrio ambiental, mas os bens específicos podem ser privados, como,

por exemplo, a floresta localizada em propriedade particular228.

Independentemente da titularidade dos bens de natureza ambiental, deve ser

respeitada a sua função socioambiental229, bem como as limitações de uso e fruição impostas

pela Constituição e pela legislação infraconstitucional. Assim, o proprietário do imóvel que tem floresta considerada como área de preservação permanente não pode usá-la da forma que lhe convier.

9.3 Dever de preservação

A Constituição de 1988 inovou ao determinar que incumbe ao Poder Público e à

coletividade a proteção do meio ambiente, pois impôs papel ativo à sociedade civil230. O § 1°,

do artigo 225, elenca os deveres impostos ao Poder Público, que podem ser classificados da

seguinte forma231:

227 SILVA, José Afonso da. Direito ambiental constitucional, 9ª ed. São Paulo: Malheiros, 2011, p. 20. 228 GRANZIERA, Maria Luiza Machado, op. cit., p. 10-11.

229 Idem, p. 12.

230 MACHADO, Paulo Affonso Leme, direito... cit., p. 156-158. 231 DERANI, Cristiane, op. cit., p. 270.

(i) proteção e manutenção dos ecossistemas (art. 225, caput, I, II e III, §§ 4° e 5°); (ii) garantia do uso sustentável dos recursos naturais por meio da exploração realizada de forma racional (art. 225, caput, IV, V e VII, § 2°);

(iii) de imposição de medidas preventivas e compensatórias de obrigações para aqueles que exercem atividades danosas ou que provocam significativo risco ao meio ambiente (art. 225, §§ 2°, 3° e 6°).

A tutela pela sociedade civil pode ser exercida por meio da participação nos procedimentos administrativos, como o licenciamento ambiental, ou da propositura de ações coletivas para exigir o cumprimento do dever de proteção do meio ambiente pelo Poder Público e/ou por particulares.

A proteção do meio ambiente demanda a relação com outros ramos de conhecimento – como biologia, química e geografia – para que se conheçam as peculiaridades dos recursos naturais e ecossistemas e os meios para preservá-los ou recuperá-los.

Também é necessário dialogar com outros ramos do direito para implementar a proteção do meio ambiente. O direito administrativo exerce papel de destaque, já que dispõe de instrumentos de gestão ambiental, como a regulamentação por órgãos estatais,

licenciamento ambiental e aplicação de punição232. O direito econômico também se aproxima

do direito ambiental, pois ambos tratam da forma pela qual a sociedade distribui recursos: o

primeiro trata dos recursos sociais escassos e o último dos bens ambientais233. Adiante

veremos também que o processo civil é importante para garantir a efetiva tutela do meio ambiente.

O direito ambiental interno também não pode ser visto de forma isolada, pois sua proteção é exercida no plano internacional por meio de tratados, já que a poluição muitas vezes não se limita a determinado Estado. É necessário ainda o estudo do direito comparado

para buscar soluções pioneiras aos problemas ambientais234.

232 DIAS, José Eduardo de Oliveira Figueiredo. Tutela ambiental e contencioso administrativo (da legitimidade

processual e das suas consequências). Coimbra: Coimbra Editora, 1997, p. 50.

233 SALLES, Carlos Alberto de. Injuctions e Contempt of Court em defesa do meio ambiente. In: LUCON, Paulo

Henrique dos Santos (coord.). Tutela coletiva: 20 anos da Lei da Ação Civil Pública e do Fundo de Defesa de Direitos Difusos, 15 anos do Código de Defesa do Consumidor. São Paulo: Atlas, 2006, p. 84.

9.4 Titulares e destinatários

Segundo o artigo 225, caput, da Constituição Federal, “todos” são titulares do direito ao meio ambiente, ou seja, todos os brasileiros e estrangeiros, inclusive os não residentes no

país235. Os destinatários da proteção ao meio ambiente, por sua vez, são as presentes e futuras

gerações.

A preocupação com as futuras gerações foi introduzida no direito brasileiro por meio

do Tratado da Bacia do Prata de 1969, assinado em Brasília236, que previa no seu preâmbulo a

preservação dos recursos naturais para as futuras gerações por meio da sua utilização

racional237. Mas a proteção das futuras gerações se disseminou somente a partir da Declaração

de Estocolmo de 1972, pois se passou a ter consciência da ameaça à perpetuação da vida

humana provocada pelo uso descontrolado dos recursos naturais238.

A preservação do meio ambiente consiste na conservação da diversidade biológica

necessária para garantir os direitos econômicos, sociais e culturais para as futuras gerações239.

A preservação não significa a não utilização dos recursos ambientais para sua total conservação, mas no uso racional para evitar o seu esgotamento e a adoção de medidas para afastar ou mitigar danos irreversíveis a esses bens.

9.5 Competência

A competência em matéria ambiental é complexa e suscita frequentemente dúvidas devido à sobreposição de competência privativa, concorrente e comum dos entes federativos.

A União tem competência para “instituir sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos e definir critérios de outorga de direitos de seu uso” (art. 21, XIX, da CF/88)

235 ANTUNES, Paulo de Bessa, direito... cit., p. 69. 236 SOARES, Guido Fernando Silva, op. cit., p. 51.

237 “Persuadidos de que a ação conjugada permitirá o desenvolvimento harmônico e equilibrado, assim como o

ótimo aproveitamento dos grandes recursos naturais da região e assegurará sua preservação para as gerações futuras através da utilização racional dos aludidos recursos” (Tratado da Bacia do Prata, Brasília, 1969, incorporado pelo direito brasileiro no Decreto n° 67.084/70).

238 KISS, Alexandre. Os direitos e interesses das gerações futuras e o princípio da precaução. In: VARELLA,

Marcelo Dias. Ana Flávia Barros (organ. e coatuores). Princípio da precaução. Belo Horizonte: Del Rey, 2004, p. 1-4.

e, ao mesmo tempo, o registro, acompanhamento e fiscalização das concessões de direito de pesquisa e exploração dos recursos hídricos e minerais é de competência comum de todos os entes federativos (art. 23, XI, da CF/88). Ou seja, incumbe à União o gerenciamento dos recursos hídricos em conjunto com Estados e Municípios, que podem exercer poder de polícia nas atividades relativas ao seu território.

Cabe à União também “instituir diretrizes para o desenvolvimento urbano, inclusive habitação, saneamento básico e transporte urbano” (art. 21, XX, da CF/88). Ao mesmo tempo é competência comum da União, Estados e Municípios “promover programas de construção de moradias e a melhoria de condições habitacionais e de saneamento básico” (art. 23, IX, da CF/88). Ao Município ainda compete “promover, no que couber, adequado ordenamento territorial, mediante planejamento e controle do uso, do parcelamento e da ocupação do solo (art. 30, VIII, da CF/88).

Uma das matérias que causa grave disputa entre os entes federativos é a competência para o licenciamento ambiental, já que a proteção do meio ambiente e combate à poluição é matéria de competência comum (art. 23, VI, da CF/88). A Lei Complementar n° 140/2011 tentou solucionar a celeuma conforme veremos abaixo no tópico sobre licenciamento.

Na prática, há centralização da competência legislativa em matéria ambiental pela União. Os Estados e Municípios permanecem muitas vezes omissos e optam por aplicar a lei federal. Mesmo quando buscam exercer sua competência legislativa, frequentemente são

tolhidos pelos Tribunais que têm tendência de ampliar a competência da União240.