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5. PROPRIEDADE INTELECTUAL: CASO EMBRAPA

5.10 Diversidade de resultados e produtos a serem protegidos

Essas ações, paulatinamente, ampliaram a confiança interna no modelo e contribuíram para motivar gerentes, líderes e suas respectivas equipes de pesquisadores a buscarem proteção intelectual dos resultados que vinham obtendo nas bancadas dos laboratórios e nos experimentos em campo.

Todavia, por volta de 2001, a metodologia adotada chegou a provocar verdadeiro desequilíbrio porque as equipes passaram a solicitar proteção intelectual para qualquer resultado obtido nos centros de pesquisa. Muitos pareceres técnicos elaborados nessa época sobre as solicitações internas confrontadas pela SPRI com os dados de anterioridade obtidos nos bancos de patentes tornavam claro que alguns resultados careciam de ineditismo e, portanto, não eram passíveis de proteção industrial.

Se de um lado essa exacerbação foi positiva para atestar que o modelo estava motivando as equipes e sensibilizando até os mais resistentes atores contrários à política de patentes em passado recente, por outro passou a revelar que alguns segmentos da programação de pesquisa precisavam ser revistos porque os resultados que a empresa

vinha obtendo não eram inéditos. A partir dessa constatação iniciou-se uma negociação interna para incentivar a busca de anterioridade do resultado almejado pela pesquisa em bancos de patentes, antes da aprovação do respectivo projeto, considerando-se que a maior parte das inovações existentes encontra-se descrita em relatórios de patentes e não na literatura especializada. A proposta concreta consistia em que a estatal passasse a exigir como condição indispensável (embora não suficiente) para a aprovação do projeto de pesquisa, a averiguação antecipada de anterioridade por meio de busca prévia em bancos de patentes. Seria uma espécie de comprovação antecipada acerca da efetiva inovação do resultado almejado pelo projeto, além da revisão bibliográfica que já vinha sendo exigida. A idéia era inverter a lógica até então utilizada para evitar a decepção e o desgaste da obtenção de resultados coincidentes com outros, já conhecidos e divulgados, com impossibilidade de proteção legal por meio da propriedade industrial após anos de experimentação, emprego de pessoal altamente qualificado, além dos altos custos de insumos e de infra-estrutura.

Em outras palavras, em relação aos novos projetos, era necessário tornar o monitoramento mais objetivo considerando os benefícios da política sem perder de vista os seus custos. Mas, em relação aos projetos de pesquisa em andamento ou em fase de finalização a SPRI foi obrigada a contornar os obstáculos que apareciam. Para tanto, chegou a emitir pareceres reorientando algumas possibilidades de avanços na pesquisa em áreas ainda não cobertas por patentes e, até mesmo, a recomendar o abandono de uma forma de proteção pretendida por outra, como, por exemplo, substituir o depósito de privilégio (necessário para tentar obter uma patente), pelo registro de software em caso específico que comportava a segunda hipótese.

5. 11 Resistência à adoção dos critérios de proteção

Nas discussões internas que precederam a elaboração da política de propriedade intelectual, um dos argumentos argüidos no sentido de que haveria resistência interna quanto à sua implantação, sustentava que o modelo acabaria, inexoravelmente, por expor os resultados menos expressivos de alguns projetos conduzidos pela estatal. Em conseqüência, os responsáveis pela execução desses projetos se oporiam ao novo modelo de gestão e resistiriam à sua implantação.

Essa percepção inicial que depois se confirmou, só ocorreu, no entanto, de forma parcial. Para a compreensão do assunto é indispensável ressaltar não ser ilegal executar, de

forma premeditada ou aleatória, pesquisa cujo alvo seja resultado igual a outro já obtido por terceiro, protegido ou não por meio de direitos de propriedade intelectual. Quando o resultado obtido se equipara a uma cópia ou mero uso adaptativo de tecnologia já disponível, vencidas as etapas de aprovação e execução do projeto de pesquisa, a etapa de sua exploração econômica pode vir a ser prejudicada, caso a tecnologia paradigma se encontre protegida no território do país considerado. Nessa hipótese, sua exploração industrial fica condicionada à obtenção de licença do titular da proteção intelectual, o que é negociado, usualmente, mediante a cobrança de royalties, no limite do prazo que resta para expirar o direito imaterial do produto ou processo protegido. Em outras palavras, além dos gastos desnecessários com a execução do projeto de pesquisa, a parte interessada ficará também obrigada a licenciar a tecnologia junto a seu titular e pagar-lhe royalties para uso ou exploração em escala industrial.

Na falta de proteção intelectual da tecnologia paradigma no território considerado, ou na hipótese de expiração por decurso do prazo legal do direito de propriedade intelectual que a amparava, a mesma cai em domínio público. A partir de então, é legítima não só a sua replicação em laboratório de pesquisa, mas, também, em grande escala, visando ao uso industrial, independente da aquiescência de seu antigo titular e do pagamento de qualquer remuneração. No entanto, a imitação por cópia ou uso adaptativo de tecnologia conhecida é prática não estimulada nas universidades e institutos públicos de pesquisa em razão dos parcos recursos disponíveis que, em regra geral, são direcionados para a busca de resultados inovadores.

A gestão profissional da propriedade intelectual acaba revelando a existência de resultados que replicam outros já obtidos por terceiros porque usualmente o depósito de privilégio junto à autoridade governamental é precedido de busca de anterioridade nos bancos de dados de patentes. No Brasil, essa busca geralmente é efetuada tanto na base de patentes do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), como também nas bases de patentes de acesso público ou privado, mantidas nos Estados Unidos e na União Européia.

Esse foi o procedimento implantado pela Embrapa e o resultado do cruzamento dessas informações passou a fundamentar os pareceres técnicos elaborados pela SPRI com o objetivo de examinar as condições indispensáveis de admissibilidade de um pedido de depósito de privilégio que são: ineditismo, aplicabilidade industrial e avanço no estado da técnica. Caso as buscas na literatura especializada e nas bases de dados de patentes sejam positivas, isto é, haja constatação de precedente devidamente descrito, registrado ou

patenteado, nada resta a fazer senão denegar o encaminhamento do pedido por falta de novidade, para evitar despesas inúteis. Nessa hipótese, em alguns casos recomenda-se o redirecionamento do projeto para elucidar algum ponto específico que ainda não tenha sido coberto por patente, desde que a equipe de analistas consiga vislumbrar alguma aplicação industrial para o novo alvo.

Esse foi o motivo pelo qual o exercício prático do modelo levou à conclusão de que entre o rol de avanços conceituais e aprimoramentos, caberia a implantação obrigatória de processo sistematizado de busca de anterioridade para as tecnologias passíveis de proteção por meio de patentes, antes do início da execução dos projetos. O objetivo repete-se, era evitar o gasto desnecessário de recursos públicos, tempo de pessoal altamente qualificado, infra-estrutura laboratorial, além de reagentes e outros insumos, na busca de resultados que jamais atenderiam ao requisito novidade, indispensável à obtenção do direito de propriedade industrial no Brasil, e em qualquer país do mundo.

Apesar de sua coerência indiscutível com o alinhamento da programação de pesquisa na busca da inovação tecnológica, houve resistência quanto à adoção plena dessa proposta, como inicialmente fora previsto. Na verdade, essa lógica foi adotada apenas de forma parcial quando a empresa passou a exigir a comprovação de busca prévia negativa, em bancos de patentes, em relação a projetos próprios ou de terceiros que concorriam para captar recursos financeiros do Programa de Desenvolvimento Tecnológico para a Agricultura - Brasil (PRODETAB), fundo de recursos destinados à pesquisa, administrado pela Embrapa. A estatal, contudo, não chegou a impor, naquela época, a mesma exigência para a aprovação de projetos elaborados pelos seus centros de pesquisa a serem financiados com recursos próprios.

Em relação à obtenção de novas cultivares periodicamente lançadas no mercado, como as resultantes dos programas de melhoramento genético liderados pela Embrapa, cabe esclarecer que a única exigência legal para a comercialização em grande escala no país do respectivo material propagativo, isto é, sementes ou mudas, é a respectiva inscrição no Registro Nacional de Cultivares – RNC/MAPA, de acordo com o disposto na Lei n° 10.711, de 2003 (Lei de Sementes). É necessário formalizar processo administrativo junto ao mencionado órgão, do qual constam a indicação da entidade obtentora, o nome dos responsáveis técnicos, a indicação da entidade mantenedora da semente genética e descrição do valor de cultivo e uso (VCU) da nova cultivar, mediante relato de seu valor agronômico para plantio em grande escala em uma ou várias regiões do país.

Quando a cultivar é incluída no RNC/MAPA e não se encontra protegida por direito de proteção de cultivares, qualquer empresa de sementes pode reivindicar sua multiplicação nas categorias comerciais de sementes sem necessidade do consentimento do obtentor e tampouco o dever de pagar-lhe qualquer remuneração. Para isso, basta ter acesso à semente básica, cumprir as normas técnicas e administrativas exigidas pela legislação de sementes e sujeitar-se à fiscalização do Ministério da Agricultura.

Por outro lado, a proteção intelectual da nova cultivar é facultativa, mas quando requerida e reconhecida pela autoridade governamental competente, o certificado de proteção obsta a livre produção e comercialização da cultivar no território nacional sem o consentimento do obtentor. Nessa hipótese, isto é, no cenário de proteção, outro patamar de rigor científico é exigido pela Lei n º 9.456, de 1997 (Lei de Proteção de Cultivares), de alcance não trivial aos obtentores de variedades vegetais. A legislação condiciona a concessão de proteção intelectual exclusivamente à cultivar que apresente distingüibilidade em relação às demais existentes no mercado, homogeneidade e estabilidade por gerações sucessivas. Para tanto, é necessário apresentar à autoridade governamental competente os resultados dos testes denominados DHE, isto é, testes de Distinguibilidade, Homogeneidade e Estabilidade.

A exigência da legislação brasileira é efetuada também pelos demais países que concedem certificado de proteção a variedades vegetais obtidas por método de melhoramento genético convencional. Essa é a razão pela qual, na revisão dos conceitos inicialmente propostos quando da aprovação da Política de Propriedade Intelectual da Embrapa, mereceu atenção especial a implantação de metodologia uniformizada para efetuar os testes DHE, no âmbito dos centros de produto da Embrapa responsáveis pelos programas nacionais de melhoramento genético de diferentes espécies vegetais.

A metodologia para a realização dos testes DHE, por espécie passível de proteção no país, foi elaborada pela SPRI com a efetiva participação técnica de pesquisadores especializados em diferentes espécies vegetais e chegou a ser aprovada e implantada na Embrapa, mediante norma interna específica.

Todavia, o patamar subseqüente destinado a submeter novas cultivares aos testes DHE, de acordo com a metodologia então recém-aprovada, a serem aplicados por equipe diferenteda responsável pela obtenção da cultivar, inspirado em procedimento adotado em outros países europeus, notadamente na Holanda e na Espanha, causou muita polêmica e nunca chegou a ser implantado. O objetivo pretendido era tornar mais rigorosos os critérios de admissibilidade para a solicitação de pedidos de proteção de cultivares, já que

o país adotara um sistema meramente declaratório, ao contrário dos países europeus nos quais os testes DHE são realizados pelo próprio Estado antes da outorga do certificado de proteção e desde que seus resultados atendam aos parâmetros pré-fixados. A proposta visava quebrar o corporativismo interno mediante a aplicação dos testes DHE por equipe diferenteda que obtivera a cultivar, considerando que no Brasil é o próprio obtentor quem a descreve e a autoridade governamental - Serviço Nacional de Proteção de Cultivares (SNPC/MAPA) – até a época considerada nesta dissertação se limitava a analisar o cumprimento formal das exigências legais de natureza cartorial e administrativa, com poucas exceções.

Mas essa proposta contou com profunda resistência interna, ainda que o argumento utilizado para defendê-la tenha sido a redução do risco de indenização a cargo da Embrapa por sua responsabilidade civil junto a parceiros e clientes, caso o produto final não correspondesse exatamente às características descritas. Ainda não chegara o momento de os pesquisadores aceitarem a avaliação imparcial de seu trabalho por seus pares, mesmo pressentindo que posteriormente a comparação entre a qualidade técnica da cultivar com outras já existentes no mercado especializado, seria implacável.

Os principais resultados obtidos com a implantação da Política de Propriedade Intelectual da Embrapaencontram-se relatados no capítulo seguinte.