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PARTE I – OS VALORES DA ARTE

CAPÍTULO 1 – ARTE, ECONOMIA E TRABALHO IMATERIAL

1.4 Formas de exploração do trabalho imaterial

Em uma tentativa de articular a noção de trabalho imaterial com os debates sobre a precariedade do trabalho cultural ou criativo, Rosalind Gill e Andy Pratt (2008) traçam considerações em torno de conceitos como "afeto", "temporalidade", "subjetividade" e "solidariedade". Para eles, autores como Negri e Lazzarato soam "otimistas", já que, em vez de verem os trabalhadores como "meras vítimas do capital", eles ressaltam a potência de criação das pessoas e da própria vida. Gill e Pratt (ibidem) dizem ainda que a materialidade do trabalho e da exploração resiste e que, muitas vezes, o que Negri, Hardt ou Lazzarato chamariam de potência não é

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mais do que imposição dos empregadores sobre seus funcionários, em busca de objetivos mercadológicos, como "inovação", embora as horas de produtividade de artistas, designers e outros profissionais muitas vezes se confundam com seus períodos de lazer:

Longas horas e a apropriação da vida pelo trabalho devem ser ditadas por escalas punitivas e por prazos opressivos, e devem ser experimentadas como intensamente explorativos, mas também devem ser o resultado de engajamento apaixonado, criatividade e autoexpressão, além de gerar oportunidades para a socialização em campos em que o ato de "fazer contatos" aproxima-se menos de "falar de negócios" com poderosos do que de "descontrair" com amigos, colegas de trabalho e pessoas que compartilham interesses e entusiasmos similares. (ibidem, p.18, tradução nossa)5

Além disso, Gill e Pratt (ibidem) juntam-se a outros pesquisadores das indústrias criativas, como Hesmondhalgh e Baker, clamando pela especificidade das diversas atividades profissionais e pela dificuldade em lutar por um propósito comum:

[...] essa política de articulação de bases contingentes [...] ainda deixa tudo para se lutar contra. Não menos importante é a questão sobre o fundamento para essa solidariedade em uma estrutura global caracterizada por enormes disparidades em riqueza e poder. Aliar-se ao designer poderia estar nos melhores interesses da maquiladora? [...]. Eles têm causas comuns ou identidade de interesses? Quais são os modos distintos de exploração em operação? Os diferentes interesses podem ser articulados? (ibidem, p.12, tradução nossa)6

Contudo, em sua crítica ao conceito de "trabalho imaterial", Gill e Pratt (ibidem) não levam em conta os mecanismos pelos quais o capitalismo procura capturar os processos de criação da sociedade e inseri-los, por meio do próprio trabalho, nos modos de produção econômicos. Embora Negri (1999) ressalte atividades de caráter intangível como a comunicação, por exemplo, ele não nega a exploração, pelo contrário, admite que ela esteja a cada dia mais acentuada, mas afirma que perdeu sua especificidade, "tornando-se globalizada" e "inundando territórios". Segundo o autor, isso ocorre porque o processo produtivo vem sendo

5 Long hours and the takeover of life by labour may be dictated by punishing schedules and

oppressive deadlines, and may be experienced as intensely exploitative, but they may be also the outcome of passionate engagement, creativity and self-expression, and opportunities for socializing in fields in which "networking" is less about "schmoozing" the h than "chilling" with friends, co-workers and people who share similar interests and enthusiasms.

6 Nevertheless, this politics of articulation of contingent foundations [...] still leaves everything to fight

over. Not least is the question of whether there are grounds for such solidarity in a global frame characterized by enormous disparities in wealth and power. Would it actually be in the best interests of "the maquiladora worker to ally herself with the fashion designer?" [...]. Do they have common causes or identity of interests? What are the distinct modes of exploitation in operation? Can their different interests be articulated?

35 cada vez mais associado ao investimento em elementos intangíveis, o que acaba por dissociar o valor de um produto ou serviço do trabalho propriamente dito, aquele realizado estritamente nas fábricas ou nos escritórios, expandindo seus domínios para as demais situações da vida e confundindo-se com momentos de descanso e de lazer.

Essa situação gera um paradoxo: quanto mais a economia política mascara o valor da força de trabalho, mais essa força se estende ao terreno global, ou ao "terreno biopolítico". Com base na noção de afeto de Spinoza, Negri (ibidem) não propõe a luta de classes nem as formas tradicionais de resistência (por meio dos sindicatos, por exemplo), uma vez que essa abordagem retoma as questões de "territorialização" e de "identidade", características do regime industrial, mas sugere a reapropriação da potência biolítica por parte dos "sujeitos produtivos", já que é justamente essa potência que tem sido controlada pelo capitalismo:

Na realidade, a subsunção real da sociedade (isto é, do trabalho social) ao capital generaliza a contradição da exploração em todos os níveis da sociedade, assim como a extensão dos biopoderes abre a uma resposta biopolítica da sociedade: não mais os poderes sobre a vida, mas potência da vida como resposta a esses poderes; em suma, isso abre para a possibilidade da insurreição e da proliferação da liberdade, da produção de subjetividade e da invenção de novas formas de luta. Quando o capital investe a vida inteira, a vida se revela como resistência. (ibidem)

Também para Lazzarato (2006, p.151), a "exploração" reside nas maneiras como "a constituição dos desejos e crenças" são subordinadas "aos imperativos da valorização do capital e às suas formas de subjetivação", o que leva ao "empobrecimento" e à "formatação das subjetividades":

O paradigma do trabalho ou do emprego legitima a apropriação (em grande medida, gratuita) da multiplicidade de relações constitutivas de mundos, sem nenhuma distinção entre trabalho e não trabalho, entre trabalho e vida; por outro lado, organiza e legitima uma distribuição de renda que ainda está vinculada ao exercício de um emprego, à subordinação da atividade a um patrão, seja público ou privado. [...] É no interior dessa clivagem entre a destruição da riqueza produzida por uma heterogeneidade de subjetividades e agenciamentos, [...] e a sua distribuição regida pelo trabalho ou emprego que se produz excedente, e não apenas na exploração do trabalho. (ibidem, p.151)

Além da captura dos bens comuns com o propósito de gerar riquezas para o sistema capitalista, há outras formas de exploração que operam no âmbito do trabalho imaterial. Rogério da Costa (2008), por exemplo, ressalta que o uso de recursos da própria subjetividade é necessário em diversas profissões. Ações como "atender bem", "acolher" e "ser cordial" implicam "uma mobilização da subjetividade que vai além dos conhecimentos e competências de qualquer profissional, daquilo

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que supostamente ‘se aprende’ no sistema de formação clássico". O problema é que nem sempre os empregadores se perguntam se seus funcionários estão "em condições de responder a essa demanda". Com isso, corre-se o risco de que o trabalho seja canalizado "para um ‘sempre além’ do que se pode, de suas capacidades reais, para um ponto de esgarçamento subjetivo". Se o corpo, no capitalismo industrial, era finito, as atividades cognitivas, de comunicação e afetivas não estabelecem os mesmos limites de exploração:

É fato que a mente não pode parar e nem a imaginação cessar ou apaziguar-se. A greve do pensamento e da imaginação com certeza será algo de outra natureza que as greves que conhecemos. E se a mente não pode deixar de funcionar, isso pode significar que ela pode trabalhar continuamente... Ou que não temos a mesma noção dos limites que construímos em relação ao nosso corpo. (SANTOS, R. d., 2008, p.64)

Para Rogério da Costa (2008, p.65), a força do capitalismo atual reside justamente no fato de estarmos sempre "trabalhando", uma vez que "estamos sempre refletindo, imaginando, discutindo em qualquer lugar e qualquer situação", mas essa condição pode levar a outros tipos de cansaço, além daqueles sentidos no corpo, talvez a depressão, a angústia e o estresse. O autor propõe então que, para que o trabalho imaterial se sustente, sejam construídos valores como confiança, simpatia, afeto, estima e respeito. Desse modo, abre-se espaço para a emergência da "inteligência coletiva", como forma de resistência à exploração do trabalho e da subjetividade pelo sistema capitalista.