PARTE I – OS VALORES DA ARTE
CAPÍTULO 7 – A CRIATIVIDADE NO CENTRO DO CAPITALISMO?
7.2 Os artistas como modelo profissional
Pierre-Michel Menger (2002) é um dos principais autores a se dedicar às artes nos domínios da produção capitalista. O título de um de seus livros é sugestivo, Portrait de l’artiste en travailleur (Retrato do artista como trabalhador), em uma referência irônica à obra de Joyce. Embora se prenda a uma crítica tradicional e não analise o trabalho "imaterial" nem as redes, o autor discorre sobre valores como a "imaginação", o "jogo" a "improvisação" e o "comportamento atípico", que são transportados para diversas profissões:
Sua hipótese de partida é que não somente as atividades de criação artística não são, mais ou menos, o inverso do trabalho, mas que elas são, pelo contrário, cada vez mais reivindicadas como a expressão mais avançada dos novos modos de produção e das novas relações de emprego engendradas pelas mutações recentes do capitalismo. Longe das representações românticas contestatórias ou subversivas do artista, deve- -se agora ver o criador como uma figura exemplar do novo trabalhador, figura por meio da qual se tornam visíveis transformações tão decisivas quanto a fragmentação do salário, o aumento dos profissionais autônomos, a amplitude e as competências, ou ainda, a individualização das relações de emprego. (MENGER, 2002, p.8, tradução nossa)27
Para Oakley e O’Connor (2015), um dos acontecimentos que contribuiu para dar visibilidade a essas mudanças foi a "revolução digital", que decorreu da expansão da internet e da computação, reconfigurando as conexões entre a produção cultural, a difusão de signos e a audiência. Essa explosão transformou os modelos de negócios e impulsionou novas iniciativas "empreendedoras":
Parecia incontroverso que a "revolução digital" estava transformando a paisagem daquilo (que foram) as indústrias culturais, desconectando seus modelos de negócios, trazendo novos participantes, transformando os
27 Son hypothèse de départ est que, non seulement les activites de création artistique ne sont pas ou
plus l’envers du travail, mais qu’elles sont au contraire de plus en plus revendiquées comme l’expression la plus avancée des nouvaux modes de production et des nouvelles relations d’emploi engendres par les mutations récentes du capitalism. Loin des représentations romantiques, contestataires ou subversives de l’artiste, il faudrait désormais regarder lê créateur comme une figure exemplaire du nouveau travailleur, figure a travers laquelle se lisent des transformations aussi décisives que la fragmentation du continent salarial, la pousse des professionnels autonomes, l’amplitude et des compétences ou encore l’individualisation des relations d’emploi.
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modos como as audiências interagiam, compravam e adaptavam textos culturais. Desse ponto de vista, as indústrias criativas, com suas redes horizontais, práticas cocriativas, e textos abertos promovendo acesso digital para os consumidores-cidadãos criativos, pareciam encarnar (e tornar redundantes) muitas das aspirações transformativas das indústrias culturais. (OAKLEY; O'CONNOR, 2015, tradução nossa)28
De qualquer maneira, diversos autores, no final da década de 1990, passaram a estudar mais atentamente a geração de trabalho e renda por meio de atividades criativas, propondo novos métodos ou fazendo leituras críticas. Compartilhando as ideias que regem o "capitalismo imaterial", Charles Leadbeater (1999), por exemplo, diz que grande parte dos profissionais contemporâneos gera riquezas a partir do "ar", já que não produz nada que possa ser "pesado", "tocado" ou facilmente "mensurado". Para o autor, esse fato deveria tornar a economia mais "humana", mas o que se vê com mais frequência são funcionários tomados por insegurança e estresse. Segundo ele, isso ocorre porque as instituições estão "paralisadas" frente às mudanças econômicas e sociais. Em uma sociedade guiada pelo conhecimento, afirma Leadbeater, o talento e a criatividade devem ser incentivados, além disso, deve-se investir em educação e cultura:
A nova economia é compatível com muitas variedades de culturas e comunidades, que valorizam diferentes tipos de conhecimento. O ideal seria uma cultura híbrida, que misturasse essas duas perspectivas: uma sociedade inclusiva, na qual as massas fossem bem-educadas e capazes de inovações radicais e periódicas. Tal sociedade precisaria de instituições públicas efetivas para investir nas bases de conhecimento da sociedade a fim de fornecer a infraestrutura de educação, telecomunicações e cultura, com uma dinâmica de que a sociedade do aprendizado precisa. Isso deveria ser combinado com uma cultura que encoraja o empreendedorismo, a experimentação, a tomada de risco e a diversidade. As sociedades do conhecimento devem ser cosmopolitas, comunidades liberais. (ibidem, p.223, tradução nossa)29
O autor indica então o crescente uso da criatividade e do empreendedorismo nas organizações contemporâneas e compara a atividade profissional à indústria
28 It seemed incontrovertible that the ‘digital revolution’ was transforming the landscape of (what had
been) the cultural industries, pulling the plug on their business models, bringing in new entrants, transforming the way audiences interacted, purchased and adapted cultural texts. In this light the creative industries, with their horizontal networks, co-creative practices, and open-ended texts providing digital affordances for the creative citizen-consumer, could be seen to incarnate (and make redundant) many of the transformative aspirations of the cultural industries.
29 The new economy is compatible with many varieties of cultures and communities, which value
different kinds of knowledge. The ideal would be a hybrid culture that mixed these two approaches: an inclusive society in which the mass of people were well educated which was also capable of radical and incremental innovation. Such a society would need effective public institutions to invest in the knowledge foundations of society, to provide the infrastructure of education, telecommunications and culture, with a dynamic learning society needs. That would have to be combined with a culture that encouraged entrepreneurship, experimentation, risk-taking and diversity. Knowledge societies must be cosmopolitan, liberal communities.
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cinematográfica, o que envolve "diversão" e "reconhecimento", mas também a "incerteza" e o "risco":
O trabalho provavelmente será mais criativo e autogovernado. Haverá grande escopo para o empreendedorismo. Muitas das novas organizações fornecerão empregados com opções de ação que poderão deixá-los ricos. Mas essas novas organizações também criarão pressões psicológicas. Essa nova economia não é para os avessos ao risco. As organizações só se tornarão fluidas de deixarem para trás velhas rotinas e colegas. Imagine trabalhar em um negócio de cinema, movendo de filme a filme, equipe a equipe, set a set, um sucesso em um mês e um fracasso no próximo, um progresso no qual você é tão bom quanto seu último projeto. O trabalho deverá ser assim para muitos de nós na próxima década, algumas vezes divertido e recompensador, mas itinerante e pontuado por períodos de insegurança. (ibidem, p.63-64, tradução nossa)30
Mas, se as empresas estão adotando cada vez mais componentes do trabalho artístico e as indústrias culturais estão oferecendo mais oportunidades de emprego, a produção artística também vem se aproximando da linguagem empresarial. Por isso, para Chris Bilton (2010), a criatividade e a administração, disciplinas historicamente consideradas opostas, estão convergindo em novos modelos de políticas culturais e de negócios:
Nos negócios, a criatividade emergiu como um ativo chave, com administradores desesperadamente tentando demonstrar suas credenciais "criativas" para os colegas. Sem surpresas, a política cultural se tornou cada vez mais "administrativa", refletindo uma mudança geral no sentido de uma crescente orientação de mercado do setor público e de uma mudança específica para o engajamento nessas indústrias culturais em sua recente importância comercial. A "criatividade" foi realocada na interseção entre os pontos de vista da administração comercial e da estética cultural. A convergência desses dois mundos é baseada parcialmente na redefinição em termos administrativos, como uma commodity de negócios e como uma competência administrativa, dentro de uma economia criativa global. (ibidem, p.257, tradução nossa)31
30 Work probably will be more creative and self-governing. There will be greater scope for
entrepreneurship. Many of the new organizations will provide staff with stock options, which could make them rich. Yet these new organizations will create psychic pressures as well. This new economy is not for the risk-averse. Organizations only become fluid if people can easily leave behind old routines and colleagues. Imagine working in the film business, moving from film to film, crew to crew, set to set, a success one month and flop the next, a progress in which you are only as good as your last project. Work may be like that for many more of us in the next decade, at times fun and rewarding, but itinerant and punctuated by bouts of insecurity.
31 In business, creativity had emerged as a key business asset, with managers desperately attempting
to demonstrate their ‘creative’ credentials to colleagues, customers and shareholders. Not surprisingly, cultural policy has become increasingly ‘managerial’, reflecting a general shift towards an increasingly market driven public sector and a specific shift to engage with the newly significant commercial cultural industries. ‘Creativity’ was relocated at the intersection between these commercial-managerial and cultural-aesthetic worldviews. The convergence of these two worlds is based partly on a redefinition of creativity in managerial terms, as a business commodity and as a management competence, within a global creative economy.
113 Todas essas formulações, de Leadbeater a Bilton, que buscavam mostrar que cultura e economia tendem a se encontrar, seriam reunidas na noção de "economia criativa", que já se esboçava, mas que ganhou visibilidade com a obra de Richard Florida, no início dos anos 2000.