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Capítulo 3. Análise da trajetória da política industrial no Brasil

3.3. As políticas industriais no período de 1964 a

3.3.4. Metas e Bases para Ação do Governo, de 1970 a

O programa de Metas e Bases para a Ação do Governo (MEBAG)85 redefine as metas de ação para o período em questão. Por esse motivo, o MEBAG não se caracteriza como um novo plano, mas trata-se apenas de uma continuidade ao planejamento anteriormente definido pelo PED (TARAPANOFF, 1992). Desse modo, é dada continuidade aos instrumentos de planejamento e aos objetivos dos planejamentos anteriores, com algumas inovações incrementais em suas estratégias de execução política e na proposta de integração nacional.

É importante destacar essa tendência dos governos militares de buscar dar continuidade às estratégias e ao planejamento anterior, como forma de oportunizar o alcance de resultados de longo prazo, em especial nos investimentos em infraestrutura econômica e desenvolvimento científico-tecnológico. Com base nessa perspectiva é instituído o Ato Complementar 43, em 1969, segundo o qual o Poder Executivo deve elaborar Planos Nacionais de Desenvolvimento, com duração igual ao mandato do Presidente da República; enquanto ao Congresso Nacional cabe sua aprovação. Ainda nesse sentido, outra importante característica do Ato se refere à definição de que cada governo deverá executar o último ano do plano aprovado. Conforme analisado por (TARAPANOFF, 1992), o objetivo dessas medidas é justamente prevenir uma descontinuidade do processo de planejamento e, assim, evitar interrupções nos investimentos iniciados.

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Dados extraídos da obra de Aldo Musacchio e Sérgio Lazzarini (2015, p. 110), acerca do número de novas empresas estatais não financeiras criadas por ano no Brasil.

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Conforme análise de Musacchio e Lazzarini (2015), a estatização da economia brasileira ocorre de forma gradativa e não planejada, sendo inclusive em certa parte acidental, como consequência da autonomia das empresas estatais e da crescente formação de impérios produtivos e econômicos por gestores dessas empresas. Para os autores, é apenas com a criação da Secretaria de Controle de Empresas Estatais (SEST), em 1979, que o Estado passa a exercer efetivo controle sobre essas empresas estatais.

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No discurso do MEBAG é constatado o objetivo de estabelecer no Brasil um ambiente produtivo favorável à iniciativa privada nacional e ao capital estrangeiro. Com a meta de aumentar o PIB em 41% e o PIB per capita em 26%, até 1973, a proposta é criar um sistema econômico que assegure o equilíbrio na relação entre essas três partes envolvidas na aliança: o Estado, a iniciativa privada nacional e o capital estrangeiro. Assim sendo, o MEBAG delimita com maior clareza as funções produtivas a serem assumidas pelo Estado, de modo a minimizar os conflitos com os interesses privados, complementar os investimentos e orientar tais iniciativas para o alcance dos objetivos planejados.

De modo geral, cabem à iniciativa estatal os investimentos para a melhoria da infraestrutura econômica e social. Adicionalmente, o investimento estatal deve ser direcionado à expansão da indústria brasileira no mercado internacional. Já a aliança com o setor privado nacional se dá principalmente por meio de contratos de concessão para a oferta de serviços públicos. Quanto à associação com o capital estrangeiro, a mesma é orientada para complementar o financiamento requerido nos investimentos estatais, ou ainda para a aquisição de equipamentos e know-how tecnológico. Nesse sentido, o MEBAG preconiza um maior equilíbrio na aliança tripartite entre o Estado, o empresariado industrial brasileiro e o capital estrangeiro, em especial as grandes empresas multinacionais, ainda que esse equilíbrio ocorra com base na intervenção do governo.

Diante desse contexto de crescente centralização decisória, o Conselho de Desenvolvimento Industrial é reestruturado e passa a abranger os 10 grupos executivos do MEBAG. A expectativa é auxiliar a coordenação exercida pelo Estado, junto ao mercado e na política industrial, bem como induzir que a iniciativa privada opere de acordo com as metas e prioridades definidas. Paralelamente, são instituídas a Comissão de Comércio Exterior (CCE)86, com a função de formular diretrizes para o comércio exterior e coordenar as providências necessárias para a expansão das exportações; o Conselho de Política Aduaneira (CPA)87, responsável pela formulação das diretrizes para a política tarifária no

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A Comissão de Comércio Exterior é instituída por meio do Decreto 53.899, de 29 de abril de 1964. Sua atuação permanece ao longo do MEBAG, com ênfase na internacionalização dos produtos brasileiros.

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O Conselho de Política Aduaneira (CPA), que havia sido instituído por meio da Lei 3.244, de 14 de agosto de 1957. Com um direcionamento extremamente protecionista à produção nacional, sua atuação ganha maior força política a partir do MEBAG, quando o Estado reformula suas funções por meio do Decreto-Lei 730, de 5 de agosto de 1969. A partir desse Decreto, o CPA ganha autonomia para formular políticas tarifárias no campo das importações, visando o desenvolvimento econômico e a proteção do trabalho nacional.

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campo das importações; e o Conselho de Desenvolvimento Comercial (CDC)88, com o objetivo de promover, coordenar e orientar o desenvolvimento do comércio interno do País. Tais mecanismos, por sua vez, tem por objetivo tornar o produto nacional mais competitivo no mercado internacional, bem como incentivar a implantação de novos setores produtivos no País.

Outra questão relevante do MEBAG diz respeito aos incentivos para o setor agroindustrial e agropecuário. Diferentemente dos planos anteriores, os incentivos ao setor industrial são extensíveis também ao setor agrícola, que cada vez mais tem uma participação relevante na economia nacional. Nesse sentido, convém destacar incentivos relativos à mecanização da produção agropecuária, ao financiamento para a exportação e o desenvolvimento tecnológico, dentre outras ações de atração do capital estrangeiro para oportunizar o crescimento da produção agrícola no País. Assim sendo, tanto a estratégia de crescimento industrial como a de expansão do setor agroindustrial e agropecuário convergem em torno de uma estratégia de desenvolvimento global. A expectativa é diminuir a vulnerabilidade econômica do País, ao incentivar a dinamização de outros setores da economia, como a agricultura, o turismo, o comércio e os serviços.

Essa definição pela diversificação produtiva do País aponta para uma mudança na abordagem desenvolvimentista adotada pelo Estado. Em especial a partir de 1970, a ênfase estatal para a diversificação da produção passa a abranger outros setores produtivos do País, a exemplo da agroindústria (BRESSER-PEREIRA, 1978; SUZIGAN, 1996).

A despeito de haver uma implementação coordenada e prolongada das estratégias de desenvolvimento industrial, os governos militares gradativamente se distanciam do pensamento desenvolvimentista predominante até 1964. Diante da postura autoritária, centralizadora e protecionista do Estado, com crescente presença dos empreendimentos estatais89, o segmento industrial é efetivamente marginalizado dos processos decisórios (BRESSER-PEREIRA, 1978; MUSACCHIO; LAZZARINI, 2015). Todavia, tendo em

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Criado pelo Decreto-Lei 690, de 18 de julho de 1969, e alterado pelo Decreto-Lei 868, de 12 de setembro de 1969, o Conselho de Desenvolvimento Comercial (CDC) é subordinado ao Ministério da Indústria e do Comércio e suas funções são assessórias ao desenvolvimento da indústria nacional, tendo em vista a crescente participação do mercado consumidor interno no crescimento da indústria do País.

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Conforme dados utilizados por Bresser-Pereira (1978, p. 194), em 1969 o Estado, inclusive as empresas públicas e o BNDE, é responsável por mais de 60% do investimento fixo e as despesas do setor público correspondem a 50% do PIB, o que reitera a afirmação de um elevado grau intervencionista do Estado e uma crescente estatização da economia no Brasil, ao final da década de 1960.

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vista o acelerado crescimento econômico alcançado no período do milagre econômico, não se observa uma forte insatisfação do empresariado industrial, e até mesmo do capital estrangeiro com investimentos realizados no País.