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Capítulo 3. Análise da trajetória da política industrial no Brasil

3.3. As políticas industriais no período de 1964 a

3.3.2. Programa de Ação Econômica do Governo, de 1964 a

Primeiro plano formulado pelo governo militar, o Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG) é instituído com o objetivo de retomar o crescimento econômico do País, conter o processo inflacionário e controlar a tendência de déficit do balanço de pagamentos. Elaborado pelo Ministério do Planejamento e Coordenação Econômica, sua principal estratégia para a retomada do crescimento econômico é incentivar as exportações brasileiras e dinamizar o mercado interno, por meio da adoção de barreiras não tarifárias à importação de determinados produtos industrializados com potencial substituto no País. Já no que se refere à contenção do processo inflacionário e ao equilíbrio no balanço comercial, são incentivados mecanismos de acumulação de capital e o aumento dos investimentos estrangeiros no País.

Ainda no que se refere à relação com o capital estrangeiro, a atuação do se mostra estratégica para concentrar os investimentos externos em processos de modernização produtiva e de transferência tecnológica para a indústria brasileira. Como contrapartida, a Lei de Remessa de Lucros é revista, de modo a diminuir os controles sobre a movimentação de capital estrangeiro. Assim sendo, a despeito do caráter autoritário nos processos de planejamento econômico, o Estado se caracteriza por um posicionamento nacional-desenvolvimentista.

No tocante à política industrial, o PAEG consolida programas setoriais, priorizando o investimento na indústria de transformação e de bens de capital. Os segmentos de metalurgia e siderurgia recebem cerca de 50% dos investimentos estatais e estrangeiros, sendo seguida pelas indústrias química e têxtil. O restante do orçamento é distribuído entre as indústrias de mineração, de equipamentos elétricos e mecânicos, de papel e celulose, de construção naval, de cimento e metais não ferrosos. Paralelamente, são criados diversos fundos de investimento setorial, a exemplo do FUNTEC, FINAME, FUNDEPRO e FUNGIRO, executados diretamente pelo BNDE com o objetivo de também contribuir para a dinamização das indústrias privadas. Assim sendo, outros segmentos industriais são beneficiados por meio do acesso facilitado a crédito e financiamento, a exemplo do

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aeronáutico, automobilístico, eletroeletrônico, de máquinas e equipamentos pesados, e de alimentos industrializados.

Ademais, os investimentos em infraestrutura econômica representam uma importante frente de apoio do Estado para o desenvolvimento da indústria brasileira, em específico para auxiliar os investimentos privados. Os segmentos beneficiados por essas medidas são o de energia elétrica, transportes e telecomunicações. Para o segmento de energia elétrica é criada uma rede de concessionárias, majoritariamente estatais. Fazem parte dessa política as recomendações acerca do aproveitamento das reservas de carvão mineral disponível no sul do País, em especial para o atendimento das demandas da indústria siderúrgica; a utilização de outras fontes de energia, como a nuclear; e a redução do uso de produtos derivados do petróleo para a geração de energia elétrica.

No que se refere à produção de petróleo, o plano prevê a redistribuição regional das perfurações exploratórias, a melhoria na capacidade dos campos já existentes, assim como a modernização das instalações e frotas, criando assim a estrutura necessária para a consolidação dos polos petrolíferos no Brasil. Já o segmento de transportes é compreendido como um dos principais gargalos para a expansão da indústria nacional, visto que a baixa eficiência e os altos custos para o transporte de matérias primas e bens industrializados são fatores que implicam no déficit operacional e na baixa competitividade dos produtos brasileiros no mercado nacional e internacional. Conforme consta do Plano, o setor rodoviário é responsável por absorver 80% do incremento da demanda de transporte, enquanto o ferroviário e marítimo tem sua participação reduzida para cerca de 30% do total, tendo em vista seus altos custos fixos e baixa capilaridade interna.

Diante do exposto, embora o PAEG seja uma política econômica, ele se configura como um importante marco para política industrial brasileira, à medida que estabelece as condições necessárias para a retomada da produtividade industrial. Ademais, ao equacionar os conflitos com o capital privado por meio dos incentivos à exportação de bens industrializados, o PAEG logra estreitar a relação entre o Estado, o empresariado industrial brasileiro e o capital estrangeiro. Dois países em específico tem uma maior participação nas negociações empresariais com o Brasil, a saber: o Japão e os Estados Unidos.

A inserção do capital norte-americano no processo industrial do Brasil se dá principalmente na indústria de bens de capital e na importação de maquinário para a

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modernização das plantas industriais. Por meio dessa parceria com os EUA, as indústrias aeronáutica, automobilística, de maquinário agrícola e eletroeletrônico recebem um grande incentivo para sua expansão no mercado brasileiro. Já o capital japonês é primordialmente direcionado para o setor agroindustrial, de extração mineral e de siderurgia, impulsionando a produção de indústrias como a Usiminas e a Companhia Vale do Rio Doce, de modo a posicioná-las na liderança do mercado internacional. Ademais, no que se refere ao abastecimento do mercado interno, o capital japonês adquire importante participação na instalação de indústrias do segmento de eletroeletrônica.

A despeito dos benefícios para a indústria brasileira decorrente dessa associação com o capital estrangeiro, é importante mencionar que o segmento industrial brasileira não é unânime quanto aos incentivos providos pelo Estado para a atração de investimentos internacionais. O principal aspecto questionado por parte dos industriais, da vertente nacionalista, diz respeito especificamente à flexibilidade das condições para a remessa de valores para o exterior80. Segundo os empresários brasileiros, essa medida acirrara a dependência do País quanto ao capital e à tecnologia estrangeiros, visto que as barreiras até então vigentes para a remessa de recursos estavam fundamentadas em uma proposta de reinvestimento dos lucros em prol de uma maior nacionalização da produção e de uma gradativa transferência tecnológica para o Brasil.

Adicionalmente, outro ponto de discórdia entre o segmento industrial está ligado à explícita concentração dos investimentos nas regiões sul e sudeste, em detrimento das demais regiões. Essa situação reforça os conflitos internos da CNI acerca da estratégia de desenvolvimento regional e gera um desgaste na frágil aliança entre o setor industrial brasileiro e o Estado.